Ferenc Móra



Nascido em Kiskunfélegyháza em 19 de julho de 1879, segundo filho de um alfaiate e uma padeira, Ferenc Móra cresce e vai para a escola sob as mais extremas dificuldades financeiras dada a pobreza da família. É o seu irmão István, 15 anos mais velho que ele, escritor e professor, quem o incentiva a se matricular na Universidade de Budapeste, onde se formará em geografia e ciências naturais. Só lecionará por um ano como professor assistente e é mandado embora do instituto onde trabalhava por ter incluído no programa de estudos de ciências as novas teorias de Darwin.
 
Em 1902 foi convidado por Zsigmond Kulinyi, diretor do independente Szegedi Napló (Diário de Szeged) e se torna colaborador na redação do jornal até se tornar uma década mais tarde editor-chefe. Sua relação com este diário se manterá até sua morte e foi um dos poucos da Europa que não se vendeu para as propagandas de guerra. A vivência neste período, leva-o a se estabelecer em Szeged, onde se casou com Ilona Walleshausen. Motivado pelo autor infantil e editor-chefe Lajos Pósa, começou a escrever em 1903 para a revista juvenil Az Én Újságom (Minha Revista), onde publicou mais de 100 artigos. “Comecei a escrever histórias para crianças por incentivo de Lajos Pósa, como antes tinha começado a fazer jornalismo por causa de Zsigmond Kulinyi.”
 
Em 1904 foi nomeado bibliotecário e museólogo do Palácio Cultural de Szeged. Tornou-se diretor do museu em 1913, após a morte de seu antecessor, mentor e amigo István Tömörkény, que desde 1905 o incentiva a realizar escavações arqueológicas na região. “Eu nunca fui o que eu queria. Eu queria ser pastor e me tornei professor, queria ser professor e me tornei jornalista, queria ser jornalista e me tornei diretor de museu.” Durante sua carreira arqueológica, deu a conhecer 4.000 túmulos; estas e outras descobertas lhe valeu um título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Szeged, em 1932.
 
Entre 1909 e 1914, foi o editor de vários jornais para crianças, enquanto publicava seus romances juvenis, um após o outro. A partir de 1917 foi eleito membro do comitê legislativo de Szeged onde, em 1919, apresentará uma moção de proclamação da república que mais tarde o fará ser perseguido durante a tomada de poder de Horty. A partir de 1922 passa a trabalhar como jornalista e redator de folhetins para o jornal progressista Virág (Flor), e depois, após sua censura, para seu sucessor liberal, o Magyar Hírlap (Noticiário Húngaro).
 
Sua obra
 
A indecisão que Móra mostra no início de sua carreira talvez se deva à multiplicidade de seus talentos. Os seus trabalhos científicos referentes às escavações arqueológicas que realiza na grande planície húngara são de valor internacionalmente reconhecido (As Tumbas Kunágota). É também responsável pela redação de manuais escolares (entre outros o silabário Zengő ABC — Alfabeto Melódico, reconhecido até agora) destinados ao ensino primário. Já o seu trabalho jornalístico, seja em artigos sobre temas referentes a atualidade ou em informativos, é marcado pela ironia e pela criatividade estilística. Mesmo durante os anos do “terror branco” de Horty, quando continuaram a repressão da República dos Conselhos, seus escritos, ainda que críticos, continuaram sendo publicados sem sofrer perseguições das mais ferrenhas.
 
A política se infiltra em sua obra literária, que se estrutura em torno de três temas principais: os camponeses, a família e o patriotismo. Descreve incansavelmente o infortúnio dramático dos pequenos, dos pobres, que não mudou com a erradicação tardia do sistema feudal húngaro e que se acentuou durante a regência de Horty. Seus escritos, longe de serem sombrios, são iluminados pela serenidade e pelo humor de quem tem raízes profundas que os unem à terra, aos seus entes queridos e à pátria.
 
Sua visão poética (ele também é autor de inúmeros poemas), a extrema sutileza de seu estilo, seu dom como contador de histórias e um registro próximo à língua falada o tornam acessível até mesmo ao público mais jovem fazendo com que seja reconhecido como um dos clássicos da literatura juvenil húngara.
 
A maior parte de suas obras são destinadas a este grupo etário ou, como no caso de Csilicsali Csalavári Csalavér, um verdadeiro Roman de Renart húngaro é uma excelente zombaria do sistema feudal, é igualmente acessíveis a esse público. As exceções são alguns romances para adultos como A morte do pintor (1921) — relançado em 1930 com o título de A filha de quatro pais —, Canção sobre os campos de trigo, Caixão de ouro e Hannibal ressuscitado, o único romance que não foi publicado durante sua vida e que, com humor hilário, ridiculariza o sistema de Horty; este só vem a público em 1956, após forte censura. No mesmo ano, o livro foi transformado no filme Professor Hannibal, modificado integralmente para atender as diretrizes oficiais da política cultural.
 
Móra, o mago
 
As narrativas de Móra — seus romances geralmente se articulam em capítulos muito curtos, talhados a ponto de poderem aparecer de forma independente como contos — maravilham seu público, seja a mãe que os lê, a criança que os ouve ou o jovem que lê para si mesmo.
 
Esse encantamento se deve em parte à linguagem utilizada, rítmica, colorida, e marcada pela força da oralidade. As crianças gostam dos poemas, das cantigas, porque têm um ouvido especial para o ritmo, para o som da linguagem que ainda lhes é nova. Ou se deve à forma. As crianças adoram as histórias “desde quando eu era pequeno”, não importa quem seja o “eu”: a criança, a mãe ou o narrador da história. Essa forma cria um vínculo direto entre o narrador e seu público, relegando a narrativa a um aspecto atemporal, porém familiar.
 
Ou se deve ainda ao assunto: é sempre sobre os pequeninos, os pequeninos de uma família, os pobres de uma nação. E, claro, a certos personagens-chave misteriosos e mágicos, como o cigano Tilinkó em O príncipe feito de nozes ou Küsmödi e Biceboca em A jaqueta do caçador de tesouros que vivem à margem da sociedade e que, paradoxalmente, e precisamente graças à sua distância a partir dela, são ajudados a tomar consciência de suas raízes e assim encontrar seu lugar no mundo. Eles lhe ensinam as qualidades que, desde tempos imemoriais, o ajudaram a viver e morrer: honestidade, lealdade, humor, a capacidade de renunciar. Ensinam o principal segredo: amar os homens, a terra e a vida.

Desde sua morte em 8 de fevereiro de 1934, Ferenc Móra já era um clássico nacional, não só porque amplamente respeitado, mas amplamente lido.

 

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