Um homem só, de Christopher Isherwood

Por Sérgio Linard

Christopher Isherwood. Foto: Cynthia Gould.

 
Quando temos algum amigo, conhecido ou, também, quando estamos passando por uma fase melancólica da vida, seja por perda seja por ruptura, adotamos o espaço comum que prontamente anuncia: o tempo há de curar. Esse eterno e constante fator na vida de todos está sempre associado a um remédio para as fases ruins e/ ou desagradáveis pelas quais passamos, de modo que parece ser um resultado esperado para essa perspectiva o de que tudo aquilo que sobreviva a este incontornável tempo é bom, melhor ou “tinha de ser”.
 
Nas artes isso não se comporta de forma tão distinta. É também um lugar comum aquele em que se constata que uma obra artística de qualidade só merece esta alcunha se tiver, necessariamente, sobrevivido ao tempo. “Veja só, Machado de Assis escreveu há um bom tempo e permanece atual”, “Dante Alighieri, autor de uma obra prima, dialoga conosco até hoje, mesmo depois de tanto tempo.” Nas rodas de leitores, das letras ou de fora delas, essas falas são rotineiras. E não quero dizer aqui que não haja verdade nelas. Absolutamente. O que quero trazer à discussão é o julgamento implícito nestas falas.
 
Ao indicarmos que uma determinada literatura é tão boa ou importante porque sobreviveu ao tempo, estamos cobrando a ela uma necessidade de ser atual, de que continue dialogando com a humanidade de hoje, que ainda deve — por seu turno — enfrentar problemas vários como os vistos na obra de arte em questão. E aí está o problema. Esperar que uma obra permaneça necessariamente atemporal por questões exclusivamente temáticas, parece-me uma redução de suas qualidades formais, e uma imposição de função didática para o texto literário com a qual ele não tem obrigação de se associar.
 
Nessa perspectiva, temos uma tendência a qualificar um texto literário – seara sobre a qual pretendemos conversar aqui — como um grande clássico, tendo como um dos principais critérios a sua idade e a boa recepção temática no hoje. Faço uma leitura de que essa necessidade de associação temporal com a qualidade pode, inclusive, ser prejudicial ao próprio texto, porque, ao julgarmos com uma maior régua aquilo que foi feito com uma régua menor somos encaminhados a problemas de métodos; anacronismos.
 
Nas obras da contemporaneidade, é mais comum que vejamos, por exemplo, a presença de temáticas que, ainda que já constassem em outras produções, têm mais espaço do que antigamente, seja pela facilidade da publicação atual seja pela não existência explícita e institucional de órgãos de censura. Algumas livrarias, inclusive, já criaram seções com o nome “Literatura LGBTQIA+”, por exemplo. Não me deterei aqui em discutir a pertinência desta classificação ou até mesmo os critérios que são utilizados para sua existência. O que me interessa é dizer que foi nela que encontrei o livro sobre o qual pretendo dialogar: Um homem só, de Christopher Isherwood, recentemente reeditado pela Companhia das Letras.
 
O romance, considerado o melhor do autor que também conhecido pelo livro inspiração para o musical Cabaret (1966), conta a história de um professor universitário, de origem britânica, mas que mora e atua profissionalmente nos Estados Unidos. Este homem tinha uma vida conjugal com seu companheiro que faleceu em um acidente. Assim, George passa a ser o homem só.



Ao pesquisar um pouco sobre o livro em sites especializados e em outros nem tão especializados assim, é muito comum que encontremos elogios destinados à coragem do autor de trazer para seu texto aparentes entrelaçamentos de sua vida com a de George ou — e este elogio é invariável — da sua “ousadia” em abordar a temática da homossexualidade em sua obra. Os elogios, ainda que pertinentes, podem esbarrar, novamente, em uma diminuição de qualidades outras da narrativa, que fazem com se pense que o romance de Isherwood tenha apenas isso como qualidade. É importante, portanto, destacar que a obra não tem mérito por abordar uma temática constantemente rejeitada e/ou perseguida. Ao contrário disso, a temática é utilizada como um ponto de contato em que a forma tradicional se associa com o conteúdo e traz novas configurações a acontecimentos do cotidiano.
 
“A soleira da porta da cozinha é estreita demais. Duas pessoas apressadas, com pratos de comida nas mãos, tendem a sempre colidir nessa passagem. E é aqui, quase todas as manhãs, que George, depois de descer a escada, tem essa sensação de de repente se encontrar em uma borda abrupta, brutalmente interrompida, irregular — como se o caminho tivesse desaparecido num deslizamento. É aqui que ele estanca e se dá conta, com uma estranheza aflitiva, quase como se fosse pela primeira vez: Jim morreu. Morreu.”
 
Em um estado de luto, como o vivido por George, ficamos em uma situação vulnerável em relação a sentimentos, ao mundo, às pessoas. Tudo ao nosso redor parece entrar em perspectiva, sempre associando-se àquilo que foi perdido. Um cheiro que lembra as saudades da terra natal, uma comida que revive a experiência ao lado de alguém etc. Isherwood constrói seu personagem justamente em uma condição de luto após a morte de seu companheiro, de modo que tal construção possibilita que passagens como a supracitada sejam verossímeis, afinal, não é comum que, em nossa rotina diária, paremos para pensar sobre o quão apertada é a passagem de uma porta ou, ainda, como aquele aparente aperto faz lembrar uma situação passada. Para que isso ocorresse, era necessário que George estivesse no quadro em que estava.
 
Este professor universitário, já em um constante estado de melancolia pela tradicional saudade da terra natal, agora precisa viver o luto pela morte daquele que amava, convivendo na mesma casa anteriormente compartilhada por ambos, com as marcas de vida de ambos. A reconfiguração da rotina de George sai de sua perspectiva íntima e atinge a superfície do texto, como que para que se vejam essas múltiplas possibilidades de compreensão da situação vivida pela personagem. Aquele homem estranho aos olhos dos vizinhos, fechado aos olhos dos alunos e apaixonante aos olhos da amiga envolve-se em uma história que cruza esses vários pontos de vista, alternando-se de forma ondulante, como é próprio à vida humana.
 
A estranheza aflitiva que envolve George ao relembrar a morte de Jim, é a mesma que nos envolve ao percebermos, junto com ele, que a vida seguiu, ainda que com as dores do luto. George parece carregar para si, em determinadas reflexões, essa aflição justamente por viver a ambiguidade típica do sujeito melancólico. Ele sente a falta do objeto perdido, ao passo que tenta supri-lo com outras demandas, dando seguimento à própria vida. É ao dar este seguimento, acreditando no tempo como remédio máximo, que George constata a ambiguidade de suas percepções sobre si e sobre o que esperam de si.
 
“O jogo é cruel, mas sua crueldade é sensual e desperta tesão em George. Ele tem uma sensação de prazer ao se dar conta de que seus sentidos reagiram com tanto entusiasmo; nos últimos tempos, em geral parecem tristemente embotados. De coração, agradece a esses jovens animais por sua beleza. E eles jamais saberão o que fizeram para tornar esse momento maravilhoso para ele, e a vida em si menos detestável...”
 
As tensões melancólicas presentes no livro sofrem constantes contrastes com as mudanças de percepção que o narrador em terceira pessoa, por vezes irônico, permite que tenhamos. Sejam das crianças que veem George como um monstro, dos pais destas crianças que observam aquele professor como digno de pena ou do próprio George que se percebe como um construto de diversos personagens para cada um dos ambientes em que se encontra. Aquele homem só, extasiado com um jogo de tênis em que os jogadores lutam pelo ponto com crueldade, encontra, na crueldade daquela cena, motivos para sentir-se vivo, associando a necessidade da vida e do viver a algo externo a si, um processo bastante comum, como alerta Freud, em que o melancólico deixa de ver-se como importante e passar a achar importância somente no mundo externo, agarrando-se a qualquer resquício de esperança. Essa perspectiva intimista de um eu que se apaga, mas que se reacende com o outro, é um fio condutor das atitudes e tomadas de decisão de George desde a morte de seu amado.
 
Inicialmente, ele recusa a chamada de sua amiga para uma noite de bebidas. Após a aula, liga para ela perguntando se o pedido ainda está de pé. No caminho para o encontro, pensa em desistir e encontrar uma desculpa. Ao preparar bebida para ambos, arrepende-se da escolha que fez. Ao beber, gosta da bebida e deseja mais. O que o personagem vive é uma tensão constante, mas não só entre o fazer-ou-não-fazer, a tensão que ele vive é do imbróglio das perspectivas que o integram e daquelas que o circundam, como se todo o mundo olhasse para ele, mas ele não conseguisse devolver os olhares em retorno.
 
George acredita que o tempo poderá mudar a sua situação, porém. E o texto de Isherwood, como bem destaca João Silvério Trevisan no prefácio do romance, não tem qualidades só por se tratar de um protagonista homossexual. Acrescento aqui, por minha parte, que a qualidade também não está pela passagem do tempo que, mesmo depois de alguns anos, não impediu que o livro esteja sendo reeditado (a gosto de uns e contra gosto de tantos), está, por seu turno, na resistência que apresenta a tendências e/ou modismos —  muitos existentes até hoje, provando que o tempo nem sempre cura tudo — de reclamar-se especial somente por aquilo que trata, por quem assina ou por com quem se associa.
 
Mas não é somente um resistir por resistir, é um resistir que sabe reconhecer limites e conflitos, que não se preocupa com respostas, que sabe a hora de parar.
 
“Existe, aliás, algo que possam nos contar — a não ser que as águas do mar não são de fato diferentes das águas da poça?”

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Um homem só, Christopher Isherwood
Companhia das Letras, 2021, 160p.
Você pode comprar o livro aqui

Comentários

Giovana Faviano disse…
Esse livro também chegou a mim como literatura LGBTQIA+ e quando eu li foi uma surpresa, pq achei que havia outros elementos tão ou mais importantes na narrativa. Depois, assisti um vídeo no youtube do próprio autor dizendo que sua obra não era Literatura Queer, mas que se tratava sim de um livro sobre a meia idade. Sobre a dor, o desconforto, a falta de pertencimento de um homem de meia idade. Também me chamou muito a atenção a mecanicidade de George com seu próprio corpo (evidenciando os processos fisiológicos do corpo), com a máquina (dirigindo nas autoestradas) e com as pessoas. Concordo com você. Livros de outros tempos que são reinterpretados com as réguas de hoje pode causar anacronismos, mas é também um recurso da humanidade como civilização recorrer constantemente ao passado para justificar o presente.

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