Nosferatu, de Friedrich Wilhelm Murnau



A obra-prima do vampiro expressionista que já foi imitada e celebrada, mas jamais superada por qualquer outro cineasta

Nas artes visuais, o expressionismo surgiu como resposta amarga, no transcorrer da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), ao lirismo do anterior impressionismo. É também, como diz o termo, a expressão de algo que está por detrás, sobretudo do inconsciente humano. No cinema, foi o alemão Robert Wiene seu precursor, com O gabinete do Dr. Caligari  (1919), no qual representava distorções estéticas (sobretudo nos cenários, bastante gráficos com suas casas e ruas tortas). Mas foi Friedrich Wilhelm Murnau quem o levou adiante, dirigindo a obra-prima Nosferatu. O que Wiene mostrava, sobretudo, na geometria dos espaços, Murnau explorava no rosto do vampiro e no jogo de sombras, movimentos de câmera e uso de lentes que deformam e embaçam a imagem. O cineasta, assim, chegava a outra característica expressionista, que é pôr à vista os fantasmas do inconsciente do homem.

O diretor adaptou o romance Drácula (1897), do escritor irlandês Bram Stoker, mas, por ter esbarrado nos direitos de adaptação, trocou o nome do personagem. Um pouco por causa disso, o horror de Nosferatu é diferente da mitologia e dos clichês sobre o vampiro que a tradição cinematográfica posterior construiu a partir da obra de Stoker, como os longas estrelados por Christopher Lee nos anos de 1950 e 1960, produzidos pela Hammer. No filme de Murnau, o vampiro é o Conde Orlok (Max Schreck), que se apaixona pela imagem da esposa do agente imobiliário que o visita em seu castelo, no Cárpatos. Num navio carregado de ratos, ele parte em busca de sua amada.

Schreck submeteu-se a um extremo trabalho de preparação para o papel a fim de compor uma imagem exótica e assustadora (na época, o filme foi proibido na Suécia tamanho o seu terror), que carrega o drama de destruir aquilo que ama.

Esse viés trágico-romântico foi retomado por Francis Ford Coppola em Drácula de Bram Stoker (1992). Nela, o diretor americano fez inúmeras homenagens ao filme de Murnau, como a de navio e do vampiro levantando-se ereto do caixão. Outro alemão, Werner Herzog, refilmou com fidelidade e espírito romântico o que seria uma referência mais íntima ao longa de 1922. Nosferatu, o vampiro da noite (1979), com Klauss Kinski repetindo os dentes afiados e orelhas pontiagudas da composição de Max Schreck.

* Revista Bravo!, 2007, p.82


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