A festa, de Ivan Ângelo

Por Henrique Ruy S. Santos


As coisas mais terríveis são aquelas que nos escapam.
— Georges Bataille1
 
 
Muitos anos depois, Beckett diria que até as palavras nos abandonam e que com isso tudo está dito.
— Enrique Vila-Matas2
 
Ivan Ângelo. Foto: Renato Parada

 
Quando o autoritarismo está à vontade, e o cerceamento de direitos impera; quando o assalto à dignidade é a regra, e as anomalias políticas são a normalidade; quando a técnica está a serviço da tortura e da violação física e psicológica, e as ferramentas da modernidade são vassalas da gestão da morte. Quando tudo isso faz parte do cotidiano, por que fazer literatura? Assediados pela realidade, é o momento em que os autores engajados se perguntam: “de que vale o que escrevo se meus semelhantes morrem das formas mais cruéis todos os dias?” Surgem em profusão artistas que ecoam a perplexidade de Adorno, que se perguntava diante da brutalidade nazista: “a poesia é possível depois de Auschwitz?”
 
Mas a literatura, como necessidade essencialmente humana, costuma permanecer inadiável. Quando sufocada pelo terror, frequentemente se transmuta da necessidade pura de imaginação para uma ânsia de representação, de elaboração de sentido em meio ao caos. E assim, uma vez constatada sua inevitabilidade, os dilemas são outros: “como fazer literatura perante a barbárie?” “Como escrever, que palavras usar para representar o que parece irrepresentável?”
 
A festa, grande obra de Ivan Ângelo, como resposta a esses anseios, é um livro avassalador, um verdadeiro feito literário cuja concepção formal meticulosa, por mais calculada que seja, nunca recai no formalismo estéril, na complexidade artificial. Em toda sua concepção, sente-se o latejar constante da história em carne viva, do Brasil como ferida exposta, sem que para isso, o que é curioso, se recorra à linguagem do choque ou à figuração mais explícita da violência. Trata-se de um daqueles livros raros em que todos os não-ditos e todos os silêncios soam intencionais e tomam parte num todo pré-elaborado; em que o implícito e o interdito gritam contra todo ato de censura, contra toda a truculência da ditadura.
 
Quem inicia a leitura do livro desavisadamente tem a impressão de que se trata de uma coletânea de contos, o que não é de todo equivocada. Dividido em nove desses aparentes contos (chamemo-los contos, apesar de outros possíveis nomes), o livro parece narrar, em cada um deles, histórias independentes, percorrendo desde os anos 1930 até 1970 e guardando em comum apenas um subtexto político mais ou menos difuso e nem sempre presente em todas as histórias. Além de enredos e personagens distintos, diferentes focos e técnicas narrativas marcam cada conto, o que destaca o aspecto de inquietação formal tão enfático a este livro.
 
É somente a partir do oitavo conto, intitulado “Antes da festa”, que a macroestrutura da obra se torna mais evidente, ainda que não menos complexa. Neste conto, todos os personagens apresentados em histórias anteriores são novamente enfocados (com a adição de alguns novos), dessa vez em momentos distintos localizados temporalmente antes da festa de aniversário de 29 anos do pintor Roberto J. Miranda, que aparece pela primeira vez no livro ainda como um bebê no quarto conto, “Corrupção”. Todos os personagens se relacionam com a festa de Roberto de alguma forma, seja de maneira direta, como convidados, seja de maneira indireta, levados por outros interesses. Assim, este capítulo começa a amarrar os enredos aparentemente soltos dos contos anteriores, levando-nos a reavaliar não só tudo o que foi lido à luz das novas informações apresentadas, mas também o próprio livro em si, que de repente adquire as feições de um romance. Não por acaso, nas primeiras edições do livro, lia-se o subtítulo provocador “A festa: romance, contos”.
 
Neste ponto, o leitor que já estava admirado com o uso hábil de diferentes técnicas narrativas por parte do autor, vê-se cada vez mais embasbacado pelo domínio narrativo de Ivan Ângelo, capaz de unificar tantas e tão diferentes histórias e personagens.
 
No meio de tantos enredos, a obra mantém seu centro de atração em dois eventos específicos: a já mencionada festa de aniversário, que acontece em um apartamento na cidade de Belo Horizonte, e o quase concomitante incidente envolvendo retirantes nordestinos detidos pela polícia na Praça da Estação, também na capital mineira. Ambos os eventos ocorrem na noite de 30 e na madrugada de 31 de março de 1970.



O livro abre com o conto “Documentário”, que nada mais é que a reunião de vários documentos (matérias de jornal, depoimentos do retirante Marcionílio, trechos de livros de sociologia e de literatura, uma certidão de nascimento etc.) que de alguma forma se relacionam com o incidente dos retirantes na Praça da Estação. O narrador aqui ocupa, efetivamente, a posição de documentarista, e o livro abre com uma forte nota política, com a menção das mazelas sociais do Brasil pré-ditadura e durante o regime. Diante daquele dilema representacional de que falamos, a opção inicial de A festa é a de um aparente recuo estilístico, com um narrador que se recolhe à posição de coletor de documentos, mas que curiosamente se expressa entre parênteses ao final de cada uma das citações. Com cada retomada de documentos citados anteriormente, esses parênteses vão sendo acrescidos de mais informações, o que cria um forte efeito de uma comunicação abafada que aos poucos adquire mais liberdade, mimetizando com sucesso os expedientes utilizados para driblar a censura da época, como se vê nas rubricas a seguir:
 
“(Do depoimento do retirante Marcionílio de Mattos no dia 1º de abril de 1970, na Delegacia de Ordem Política e Social de Belo Horizonte, após os graves distúrbios que agitaram a praça da Estação na noite de 30 e madrugada de 31 de março de 1970)”
 
“(Do depoimento de Marcionílio de Mattos no dia 1º de abril de 1970 no DOPS de Belo Horizonte, sobre os distúrbios em que morreram quatro pessoas na praça da Estação)”
 
O teor político inicial do livro, entretanto, aos poucos cede lugar a histórias mais pessoais, com contos como o excelente “Bodas de Pérola”, “Andrea” e “Refúgio”, mas sem nunca se eximir de um sub-reptício comentário social, que é retomado com mais vigor nos contos “Luta de classes” e “Preocupações”. Dessa forma, quando a obra retoma os personagens e os eventos da Praça da Estação no conto “Antes da festa”, o relato adquire um peso muito maior em virtude da súbita apreensão das conexões estabelecidas e do já realizado desenvolvimento psicológico.
 
Na concomitância dos eventos narrados, o livro alcança uma eficiente homologia entre o político, em âmbito mais amplo, e o pessoal, no âmbito mais restrito, sem renunciar à experimentação formal. Com efeito, não obstante a centralização nos eventos políticos e sociais mencionados, aquela própria inquietação representacional parece ser a grande preocupação do livro, isto é, as perguntas de por que e como fazer literatura na/ sobre a ditadura instaurada em 1964 são elas mesmas tematizadas no livro, ocupando também posição de destaque.
 
No já mencionado conto “Antes da festa”, o próprio escritor vira personagem, e seus pensamentos ou conversas são apresentados como “Anotações do Escritor”. A primeira dessas anotações, que, por sinal, abre o conto, é significativa:
 
“(Anotação do escritor:
Escrever o quê nesta terra de merda? Tudo que eu começo a escrever me parece um erro, como se estivesse fugindo do assunto. Que assunto? Merda! E quem disse que isso é responsabilidade minha? Por que não escrever um romance policial ou balé-revista infantil?)”
 
Essas anotações, além de encapsular vários dilemas que os/ as artistas da época enfrentavam, apresentam comentários que elucidam ou que oferecem uma interpretação particular do próprio livro em que são escritas:
 
“(Anotação do escritor:
Um desperdício deixar passar este momento sem tentar captar o sentido dele, ao menos um esboço que mostre a alguém: era assim, naquele tempo. Era assim que as pessoas se destruíam, que as consciências aceitavam, que os homens se diluíam entre o medo e o dever, que os escritores procuravam esquecer ou não conseguiriam escrever nada. Sim, eu creio que é isso e que é uma luz e que estou certo. Algumas das minhas histórias podem esperar uma década para serem escritas.)”
 
De tal modo e com tamanha proeminência são focalizadas essas questões, que se pode dizer que o clímax do livro é o trecho em que o escritor tem uma longa conversa com um amigo sobre o próprio livro, no conto “Depois da festa”. O trecho é uma espécie de apoteose metalinguística, em que a obra que se está lendo é tomada como objeto, e o autor revela seu principal defeito:
 
“— E não é. O fracasso que eu digo está no miolo, que não existe. O livro se dividia originalmente em três livros separados: Antes da Festa, A Festa e Depois da Festa. Acho que Hieronymus Bosch tem muito que ver com isso. (Sorriu porque tinha inventado aquilo na hora e ficou parecendo que Bosch tinha sido o ponto de partida do trabalho — uma mentira; mas verdade, se olhasse agora à distância seu projeto.) Depois da Festa seria o inferno do tríptico. Mas então, como eu ia dizendo: falta a festa.”
 
Assim, o livro que se chama A festa é constituído, entre outros, pelos capítulos “Antes da festa” e “Depois da festa”, mas não conta com a festa em si. O motivo dessa ausência é debitado pelo autor-personagem a uma questão técnica: “O meu problema é de ordem técnica; não haveria narração na terceira pessoa. Eu queria mostrar a festa sendo, entende?, não narrada”. Essa tentativa de “mostrar a festa sendo” acarretaria, entre outras, a dificuldade de indicar a passagem do tempo, o que tornaria a cena excessivamente longa.
 
O que é interessante notar é essa tentativa de mostrar a coisa em si, no ato, acontecendo, sem mediações, unicamente para atestar sua impossibilidade técnica. A epiderme social, perfurada pela banalidade da violência institucionalizada, pelo “fascismo nosso de cada dia”, torna-se tão ou mais irretratável quanto os abismos da selvageria. Diante do núcleo dos acontecimentos e diante da imposição dos obstáculos de natureza técnica, a narração se mantém circundante (antes e depois da festa) e opta, como saída, por narrar a própria inquietação que assola o autor em sua tentativa de captar o sentido do seu tempo. E a obra o faz justamente por entender que a posição dos escritores diante da barbárie pode ser — e frequentemente é — criativamente angustiante; por entender que é preciso pensar que tipo de escrita é possível quando a realidade impele ao esquecimento e à (auto)censura. O contato direto com o real cede lugar à angústia da representação, permanecendo nas sombras como signo ausente, mas ainda assim potente, como um grito que ecoa diretamente dos porões do DOPS.
 
Com uma aliança tão frutífera entre as reflexões sobre um tempo sombrio de nossa história e a ousadia formal, é triste que A festa não tenha recebido tanta atenção editorial quanto deveria nos últimos anos. À crítica, se lhe cabe algum papel nesse caso, compete manter vivo o interesse pela literatura que se propõe a falar quando todas as forças impõem o silêncio.


Notas:
 
1 Conforme citado em SCHØLLHAMMER, Karl Erik. Cena do crime: violência e realismo no Brasil contemporâneo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.
 
2 VILA-MATAS, Enrique. Bartleby e companhia. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.
 
 

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