Quando fui para África, ainda que contasse com pouca experiência cirúrgica, tinha de fazer amputações, tinha que fazer essas coisas tramadas que há a fazer em tempo de guerra . — António Lobo Antunes António Lobo Antunes nasceu no dia 1º de setembro de 1942, em Lisboa, de onde saiu muito raramente pelos compromissos impostos pelos livros e para a guerra em Angola, entre 1971 e 1973. “Tive a sorte de ter uma infância muito boa, passada em Benfica que, na altura, era um microcosmos, das várias classes sociais, tudo aquilo misturado, larguinhos, pracinhas.” É o mais velho de seis irmãos. De todos os irmãos, foi com João Lobo Antunes — neurocirurgião que em Portugal se dignou com “príncipe da medicina” — que estabeleceu uma relação mais forte: “...sobretudo com o João, porque vivíamos dois a dois, em cada quarto, e o João era o meu companheiro.” No que concerne à sua relação com a família, António Lobo Antunes tem a dizer: “Talvez por na família haver uma grande conte...
Por Pedro Fernandes Há livros que oferecem uma resistência natural antes mesmo de começarmos sua leitura. Em torno dessas resistências as questões são variadas. Quando se trata de um livro que marca o fim do trajeto literário de um escritor, por exemplo. Digo isso pensando no recém-lançado Claraboia , de José Saramago, que comecei e ainda não fui ao fim como se estivesse poupando-me daquele sentimento que me invade toda vez que entro numa livraria: a finitude. Nesse caso, porque sei que o escritor não está mais a escrever nenhum livro que noutras ocasiões me fazia ir a livraria para ficar à cata dos dias acompanhando a chegada da novidade. À espera, como de quem que amamos, que de longe escreve cartas para nos dar contas do que se passa por algures. Outro modo de resistência é o próprio texto que nos oferece. Não quero citar pela milésima vez os livros que me obrigaram a vários recomeços até que eu estivesse totalmente certificado de que havia conseguido captar seu lei...
Ilustração: T. Hanuka O sexo sempre esteve presente na literatura, embora nem sempre de maneira explícita. Há escritores que mergulharam em sua própria sexualidade como se a arte pudesse ser campo para um exercício psicanalítico e findaram por revelar a partir dessa intimidade o lado mais escuro sobre. Esta lista apresenta um conjunto de livros nos quais os escritores se desnudam, livros que dispensam o pudor para narrar cenas de elevado tom. Christine Angot, até o presente uma romancista francesa quase desconhecida no Brasil embora tenha sido autora de um livro chamado Pourquoi le Brésil ?, tem sido lida como uma das principais figuras que se filiam à tradição da qual faz parte nomes como o de Anaïs Nin. Em 1999, ela publica L’Inceste , a obra pela qual sempre tem sido lembrada, por se tratar de uma narrativa que recupera a relação incestuosa entre um pai e uma filha. Les Petits , outra obra sua, já inicia com uma felação sob o chuveiro que termina numa penetração anal an...
Por Pedro Fernandes Existirmos, a que será que se destina? — Caetano Veloso Livra-me da culpa dos crimes de sangue, ó Deus, Deus da minha salvação! E a minha língua aclamará a Tua justiça. — Sl 51:14 László Krasznahorkai. Foto: Matyas Szollosi Todos carregamos em nosso interior a nuvem escura que pode nos insuflar para o irremediável. Com ela ou não também uma voz ininterrupta que nos conta uma história com ramificações tão diversas e nem sempre alcançamos um ponto final; com essa voz dialogamos, e por vezes, ela nos provoca a conversa, reaviva outras vozes ou se deixa interceptar. Esse fio que nos aparece com a formação da parte da nossa consciência responsável pela linguagem e deve nos acompanhar até a morte serviu de maneira muito diversa à elaboração de uma literatura centrada na interioridade, o que, na história do romance, ficou marcado com o início de uma era de renovação da forma narrativa estabilizada com a expressão realista do século XIX. Mais tarde, ao juntar esses procedim...
Por Pedro Belo Clara Afresco de uma jovem nomeada Safo. Pompeia, 55-79 d. C. Se passares por Creta 1 vem ao templo sagrado, onde mais grato é o pomar de macieiras e do altar sobe um perfume de incenso. Aqui, onde a sombra é a das rosas, no meio dos ramos escorre a água, e no rumor das folhas vem o sono. Aqui, no prado onde todas as flores da primavera abrem e os cavalos pastam, a brisa traz um aroma de mel. … Vem, Cípris 2 , a fronte cingida, e nas taças de oiro voluptuosamente entorna o claro vinho e a alegria. *** E de súbito a madrugada de sandálias de oiro. *** No ramo alto, alta no ramo mais alto, a maçã vermelha ali ficou esquecida. Esquecida? Não, em vão tentaram colhê-la. *** Vésper 3 , tu juntas tudo quanto dispersa a luminosa aurora, trazes a ovelha, trazes a cabra, só à mãe não trazes a filha. *** Desejo e ardo. *** ...
Com licença poética Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada. Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir. Não sou feia que não possa casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor. Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos — dor não é amargura. Minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou. “ Uma das mais remotas experiências poéticas que me ocorre é a de uma composição escolar no 3º ano primário, que eu terminava assim: Olhai os lírios do campo. Nem Salomão, com toda sua glória, se vestiu como um deles... A professora tinha lido este evangelho na hora do catecismo e fiquei atingida na minha alma pela sua beleza. Na primeira oportunidade aproveitei ...
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