O lance é leiloar



Sabemos que é de desinteresse do Estado cuidar da memória do seu povo. Desde que o capital desenfreou-se para manutenção de outras ordens ou desde quando cresceu um interesse pelo novo, não sabemos precisar ao certo este lugar,  tem sido assim. 

De modo que, há coisas que vão sendo vendidas pelos responsáveis no intuito de passar adiante, de preferência para as mãos de algum responsável que tome para si o interesse de preservação negado pelo poder público, ou não, talvez alguns só queiram mesmo, como se diz por aqui, fazer um pé-de-meia. Sim, o desinteresse não é apenas estatal. A vida no capitalismo também corrompeu os valores mais íntimos como o da memória. 

Parece que é este um mercado sem crises. Recentemente, uma quantidade significativa de objetos pertencente a Oscar Niemeyer foi a leilão; algumas peças, como desenhos do arquiteto brasileiro, que chegaram facilmente às cifras dos R$ 200 mil.

Poema de Fernando Pessoa escrito em língua inglesa e dirigido à afilhada, Signa Osório de Albuquerque Teixeira-Rebelo.


Em Portugal, os objetos pertencentes a Fernando Pessoa, principalmente papéis, formam um arquivo interminável.  

E, só neste ano, coisas do poeta já foram duas vezes a leilão. Depois de um que vendeu materiais como uma escrivaninha, foi a vez de mais um evento do tipo, realizado entre os dias 12 e 13 de novembro passados, em Lisboa.

Desta vez, leiloaram-se peças como edições de revistas, manifestos e dois conjuntos de versos autografados pelo poeta do Livro do desassossego e dedicados à sua afilhada Signa, filha de António Teixeira Rebelo (seu ex-colega de quando esteve no curso de Letras). Um desses papéis, o mostrado acima, é datado de 31 de dezembro de 1932. 

Gabriel García Márquez. Foto de 1976, catorze anos depois de ter escrito Neste povo não há ladrões.


E uma vez falamos por aqui dos escritores do Boom Literário na Literatura de Língua Espanhola. 

Pois bem, na próxima quarta-feira, 21 de novembro, em Londres, um texto original do conto “Neste povo não há ladrões”, do colombiano Gabriel García Márquez, um dos escritos de 1962. O texto com correções e anotações do próprio escritor, também será leiloado.

Para a Christie’s, casa responsável pelo leilão do objeto, o texto é tido como o primeiro manuscrito de Márquez leiloado em nível internacional. Aparece escrito à máquina, mas conta com muitas anotações e correções, um fato que “permite uma rica aproximação aos métodos de trabalho do escritor”.

A versão original deste conto que foi adaptada ao cinema em 1965, pelo diretor mexicano Alberto Isaac, difere muito da edição publicada na coletânea Os funerais da Mamãe Grande (1962), incluindo o próprio título, que a princípio era “Às vezes sucede um milagre”.

O manuscrito possui 33 páginas e inclui uma seção revisada do romance A má hora, que o Prêmio Nobel de Literatura publicou no mesmo ano de 1962.

No leilão em que a peça de García Márquez está incluída, encontram-se ainda outras peças como edições originais de Razão e Sensibilidade, de Jane Austen, A Origem das Espécies, de Charles Darwin, e O Hobbit, de J. R. R. Tolkien, em alguns casos com dedicatórias realizadas pelos próprios autores, além de cartazes de Franz Kafka e Simon Bolívar. 

Fonte: informações do Blog da Casa Fernando Pessoa e do Portal Uol Notícias.


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