Fortuna de Giovanni Boccaccio

Por Alberto Manguel

Giovanni Boccaccio e os floretinos que fugiram da peste.


A Fortuna, como os contemporâneos de Boccaccio bem sabiam, faz com que, na posteridade, nossa pessoa seja poucas vezes a que nós imaginamos. Boccaccio se definiu além de tudo como poeta, estudioso das línguas, pensador e só em última instância como narrador: a ficção importava para ele menos que a filosofia e a história, ou importava apenas como veículo para a filosofia e a história.

Foi um precursor iluminado da grande literatura renascentista e pode escrever tanto no latim de seu amado Cícero como na nova língua toscana que compartilhou com Dante e Petrarca. Este último foi seu mestre e o incentivou a conhecer os clássicos pagãos, mas Dante foi seu ídolo. Como crítico literário, e o autor de sua primeira importante biografia, estabelecendo o método de leitura da Comédia (à qual deu o epíteto de “divina”, empregado ainda hoje pelos especialistas na sua obra), que consiste em analisar o poema canto a canto e verso a verso (antes de sua morte em 1375 só chegou a comentar os dezessete primeiros cantos do Inferno). Como linguista, Boccaccio se converteu num dos mais ardentes defensores de Homero para seus contemporâneos. Como narrador, compôs um dos romances psicológicos, o epistolar Elegia de Madonna Fiammetta e também, principalmente, uma das mais divertidas coletâneas de contos de todos os tempos, Decameron.

Os herdeiros de Boccaccio são muitos e às vezes inesperados. Na Inglaterra, Chaucer compôs seus Contos da Cantuária inspirado na leitura do Decameron e Shakespeare conheceu seu Filóstrato antes de escrever Tróilo e Créssida. Seus Poemas pastoris ajudaram a popularizar na Itália o gênero que logo foi retomado por Garcilaso e Góngora na Espanha e seu humor, inteligência e descontração podem se sentir em autores tão diversos como Rabelais e Bertolt Brecht, Mark Twain e Karel Capek, Gómez de la Serna e Italo Calvino.

É surpreendente que só o Decameron tenha sobrevivido ao descuido e à preguiça dos leitores e se hoje, oito séculos depois de seu nascimento, dizemos que Boccaccio é um clássico, é a essa prodigiosa coleção de narrativas que o autor deve sua fama. O resto são notáveis escritos – de seu revolucionário compêndio pré-feminista Sobre as mulheres famosas à monumental Genealogia dos deuses pagãos – foram esquecidos. Sua obra mais célebre, o Decameron, é melhor recordada como um grande afresco literário, imenso retrato da apaixonante e complexa Itália do século XIV, do que como uma recompilação de anedotas mais ou menos escabrosas, julgadas obscenas. Para a maioria do público, sobretudo para aqueles que ainda não leram, Decameron consiste exclusivamente em um compêndio de piadas grosseiras, adultérios, traições e orgias protagonizadas por camponeses safados, aldeões ninfomaníacos, nobres insaciáveis, padres lascivos e monges sem-vergonhas.

Quase desde sua difusão inicial, a censura contribuiu e muito para a celebridade de Boccaccio. O Decameron foi condenado do púlpito, incluído no Index da Igreja católica, tachado de pornografia pelas autoridades de alfândegas do mundo inteiro e levado à fogueira em lugares tão diversos como o sul dos Estados Unidos à China de Mao Tsé-Tung. Durante o franquismo, audaciosos livreiros vendiam às escondidas exemplares pirateados, empacotados em papel de embrulho.

Mas, apesar da constrita leitura dos censores, a qualidade erótica da obra é apenas um de seus matizes, e certamente não a mais importante. Sob a sobre da terrível peste que assolou Florença no século XIV, as histórias que compartilham os dez jovens que fogem da cidade contaminada são uma crônica do mundo em que vivem. Amores, tragédias, embustes, traições, amizades fieis, promessas cumpridas e não cumpridas, confabulações, crises de fé, subversões e momentos de epifania compõem um mosaico movimentado e subversivo em que a peste marca os narradores (e a própria narração) se converte numa espécie de memento mori, recordando-lhes por sua vez sua própria mortalidade e sua inescapável condição de seres conscientes num mundo difícil e injusto. Boccaccio considerava a Comédia de Dante como a obra literária mais perfeita; compondo o Decameron quis talvez responder a essa sublime visão ultraterrena como a sua, humildemente arraigada neste mundo.

Poucos relacionam Boccaccio com a noção de humildade: agreguemos, então. Em suas diversas obras magistrais, Boccaccio investiga as aventuras e desventuras de personagens imaginárias e históricas, de heróis e seres comuns, e também dos deuses, e em todos eles o leitor sente que o escritor se apieda da condição de todos esses seres.

Falando sobre seu querido Dante, aponta num de seus comentários que o autor da Comédia “demonstra compaixão não apenas pelas almas que escuta confessar-se, mas também por si mesmo”. Boccaccio entende que nas almas do outro mundo, Dante reconhece suas próprias fraquezas e sofrimentos. Implícito no elogio está a confissão que Boccaccio também se reconhece em seus homens e mulheres. Na dedicatória de Sobre as mulheres famosas, Boccaccio pede à Condessa de Altavilla que se atreva a descobrir nas ações de certas heroínas pagãs um exemplo de sua própria conduta. É uma forma de dizer que ele, seu autor, se vê refletido em suas criaturas feitas de palavras, palavras que sobreviveram oito séculos para servir agora, noutra época não menos sofrida e injusta que a sua, de necessário espelho para seus novos leitores.

* Este texto é a tradução de “Fortuna de Giovanni Boccaccio” publicado no jornal El País.

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