Monterroso em movimento

Por Enrique Vila-Matas

Augusto Monterroso. Foto: Basso Cannarsa / Alamy (Reprodução)


 
1.
Naquela época eu não tinha ideia que o escritor de textos breves realmente não quer nada mais no mundo do que escrever incessantemente textos longos em que a imaginação não tenha que trabalhar, em que nos acontecimentos, coisas, animais e homens se cruzem, se busquem ou fujam, vivam, convivam, amem-se ou derramem livremente seu sangue sem sujeição ao ponto-e-vírgula, ao ponto.
 
E acreditava nisso a tal ponto que achava que o certo a fazer era ser breve e não cansar, narrar histórias rápidas de finais fulminantes, tão fechados quanto definitivos, e que não prolongassem o às vezes fingido olhar de expectativa do companheiro de mesa ou interlocutor, ou seja, ser muito educadamente sintético e diáfano com quem, ao meu lado, fingia escutar, ou de fato me escutava, embora nesse caso sempre me esperasse para ser rápido na minha apresentação.
 
— Tive um sonho. Estava voltando a conhecer Monterroso — contei a Monterroso, parodiando o tom do seu conto “O jantar”, no dia em que o vi pela segunda vez em Barcelona. As circunstâncias eram as mesmas do dia em que o conhecera. Algumas coisas mudaram, mas, no geral, quase tudo era o mesmo. Por exemplo, como no dia em que o conheci, estávamos na parte alta de Barcelona, ​​no jardim de um bar do bairro Três Torres. Apresentavam um romance de Sergio Pitol. O cenário era semelhante àquele que, meses antes, ignorando que não era outro senão Monterroso, distraidamente havia puxado conversa com ele. Tudo era muito parecido, mas nesta nova ocasião, quando descobri que aquele conversador perspicaz era o mesmíssimo Monterroso, em vez de corar como na outra ocasião, de repente gaguejando e citando de memória, com grande falta de jeito, o conto do dinossauro, me mostrava algo mais seguro de mim e um melhor conhecedor de seu trabalho do que aqueles que só conheciam seu conto do dinossauro e disse-lhe à queima-roupa: “Amo as serviçais por serem irreais.” “Gosto das empregadas domésticas”, ele respondeu imediatamente, pegando minha nota acadêmica na hora, “você está bem certo, senhor. E também gosto de Kafka, embora, na comparação, goste ainda mais do pai de Kafka. E também o tio do escritor, o tio que Kafka tinha em Madrid. Sim, o mesmo que alguns agora dizem ser tio de Deus. Não o ouviu dizer? Aparentemente, o tio de Kafka era tio de Deus, mas Kafka não era sobrinho de Deus.”
 
Fiquei maravilhado com a notícia sobre o tio de Kafka de Madrid, mas sabia que o escritor tcheco, agora apenas com a força do sobrenome, estava me dando a oportunidade, por mais moderada que fosse, de me exibir. Porque eu sabia de cor algo que Kafka escrevera sobre uma empregada em seu diário. Estava prestes a recitá-lo quando Monterroso surpreendentemente se adiantava e o fazia por mim, roubando a ideia, a citação, tudo. Foi como se roubasse minha carteira. “Aqui”, dizia, “você roubou minha carteira, mas não importa, porque sou um grande admirador seu. Fique com ela. Dentro, você encontrará duas enormes minúcias.”
 
A carteira continha uma declaração autenticada de que, no conflito entre Kafka e seu pai, eu, como Monterroso na época, estava do lado paterno. Junto com a confissão assinada, continha também uma segunda enorme minúcia, esta pertencente a Chesterton e que me fora fornecida por um antigo colega de escola em outra noite, já distante, também naquele bairro de Três Torres em Barcelona. Estava convencido de que Monterroso devia divertir-se a todo custo: “Se um homem não pode amar o seu barbeiro, que viu, como pode amar os japoneses, que não viu?”
 
Monterroso ria. “Obrigado pela citação, vou mantê-la”, disse-me ele. Este homem fica com tudo, pensava. E começava a suspeitar se não era o secretário cleptomaníaco de Apollinaire, que era um aristocrata que vivia no sótão do poeta e frequentava o Museu do Louvre envolto em uma larga capa e, assim que o zelador dava meia volta, pegaria o primeiro objeto que encontrava à mão e desaparecia com ele. Sem que Apollinaire soubesse, o depósito do barão havia se transformado em um repositório espetacular de estatuinhas, pequenos ídolos egípcios, vasinhos da Creta minoica, colares de Sidon.
 
Vendo que Monterroso desejava continuar rindo, perguntei-lhe, sem mais nem menos, o que ele escondia do Louvre entre suas roupas, que objeto havia roubado naquele dia. “Esta tartaruga”, me dizia e, enfiando a mão no bolso do casaco, tirou a tartaruga que Kafka queria dar a Monterroso no grande conto “O jantar”.
 
Quando acordei, a tartaruga ainda estava lá.
 
— Serei breve, disse-me Monterroso. Era uma vez uma barata chamada Gregor Samsa que sonhava que era uma barata chamada Franz Kafka que sonhava que era um escritor que escrevia sobre um empregado chamado Gregor Samsa que sonhava que ele era uma barata.
 
E só então descobri a verdade, só então entendi que, ao contrário do que muitos acreditavam, Monterroso não foi um escritor de contos, mas, ao contrário, um narrador colossal das mais infinitas histórias.
 
2.
Ouvi dizer na Cidade do México que, para fazer o difícil Juan Rulfo falar, era preciso escavar muito “como buscasse a raiz do chinchayote”. É que, ao que parece, Rulfo não crescia para cima, mas para dentro. Não havia muito o que cavar em Monterroso se lhe perguntassem sobre seu amigo Rulfo, uma fonte constante para ele de histórias, anedotas, memórias estranhas, engraçadas e gloriosas. A Monterroso, o grande Rulfo, dava-lhe muito jogo. Ou assim pensamos ter visto em Barcelona no dia em que, depois de apresentar seu livro A vaca, jantou conosco na Casa Calvet, o restaurante localizado no andar térreo de um prédio projetado por Gaudí, na rua Caspe 48, a dois passos da Plaza de Catalunha. É um dos jantares da minha vida que mais me lembro, talvez porque me dediquei a contá-lo em todo o lado. Um jantar com um Monterroso tímido e falante ao mesmo tempo.
 
Um jantar que começou nessa altura, como disse Rulfo em Pedro Páramo, “em que as crianças brincam nas ruas de todas as cidades, enchendo a tarde com os seus gritos. Quando as paredes pretas ainda refletem a luz do sol”. Naquela mesma hora, embora bastante longe dos obscuros parámos sombrios de Rulfo, num restaurante iluminado de Barcelona projetado para as conversas mais animadas, Monterroso de repente invocou o nome de Rulfo e o silêncio caiu. Pelo que me lembro, Monterroso não falou como falam em Pedro Páramo, falou por ele próprio e começou a recuperar de sua memória lembranças da presença, normalmente fantasmagórica, de Rulfo em Barcelona.
 
Nem todo mundo sabe, disse Monterroso (e todos nós ficamos de repente muito ansiosos), que o bar preferido de Rulfo em Barcelona era o Treno, um lugar horrível e muito estreito da Rambla de Catalunha, que imitava um vagão de trem e por ele passaram todas as crianças da burguesia catalã quando no início dos anos sessenta se abriu com a etiqueta ultramoderna de “cafeteria americana”. Pois bem, no horrível Treno, disse Monterroso, Rulfo passou horas e horas da sua vida, e alguns amigos que o viam sentado ali, sozinho, e não se atreviam a incomodá-lo, pensaram que a qualquer momento Rulfo poderia falar por conta própria e diria: “Vim a Treno porque me disseram que aqui morava o meu pai, um certo Pedro Páramo.” Como aparentemente Rulfo vivia eternamente deprimido, ninguém ficará surpreso se disser que outro dos lugares que ele amou em Barcelona foi Navarra, um restaurante de rua na Gràcia na esquina Caspe, mais tarde, com a pasagem dos anos e com tantos turistas pela cidade, transformou-se em algo ainda mais deprimente, como se quisessem enrolar os cachos de tristeza de Rulfo: um Burger King.
 
Por fim, a quatro passos de Navarra, na Casa Calvet na noite do jantar dedicado às histórias vividas com Rulfo, Monterroso recordou a tarde em Barcelona em que se encontrou com Bárbara Jacobs folheando um livro exposto na banca de jornais e revistas do calçadão da Gràcia na esquina da Caspe, comentando a quantidade de imitadores de Rulfo, e nisso, sem saber que Rulfo estava de passagem por Barcelona, ​​ouviram atrás dele a voz inconfundível e trêmula do autor de Pedro Páramo:
 
— Ajudem-me.
 
Puderam confirmar então que, como seus personagens, Rulfo poderia aparecer, como um fantasma, em qualquer lugar. Talvez seja por isso que eles não ficaram muito surpresos (embora estivessem) por tê-lo bem ali atrás deles, como uma alma perdida, pedindo ajuda angustiadamente.
 
Perguntaram de que tipo de ajuda precisava.
 
Era urgente que o libertasse de um fanático por seu trabalho, de um homem que se meteu em seu caminho em frente ao Navarra e o reteve por muito tempo, sem que Rulfo dissesse uma palavra, nem mesmo a palavra que teria servido para abandonar aquele fardo.
 
Homem deprimido e tímido, Rulfo sofria de infernal insônia, disse-nos subitamente Monterroso, aí na Casa Calvet. E nos pediu que nos situássemos na Varsóvia onde ele e o Rulfo haviam chegado uma tarde de outro tempo, no meio de uma turnê promocional do Pedro Páramo pela Europa.
 
As traduções desse livro cresciam como cogumelos por toda a Europa e Rulfo foi forçado a promovê-lo. Mas uma turnê comercial e Juan Rulfo, disse Monterroso, eram o oposto que alguém como ele poderia encontrar na vida. E se a turnê passava por terras polonesas, poderia chegar a certos momentos surrealistas. No hotel de Varsóvia, às quatro da manhã, Rulfo, incomodado por estar longe de Comala ou simplesmente por estar na Polônia, bateu à porta do quarto de Monterroso para lhe dizer que era hora de se levantar. Monterroso o fez ver que eram quatro da manhã. “Sim, mas vamos ficar muito mal se acordarmos tão tarde”, disse um Rulfo completamente insone e que no fundo o que o pedia era companhia. “Vai ficar muito mal?”, perguntou Monterroso. Ao ver que o amigo esperava o amanhecer, fiel à sua origem camponesa, deixou-o entrar no quarto, mas pediu-lhe que ficasse sentado em uma cadeira no escuro enquanto continuava a dormir um pouco mais.
 
Muitas vezes me perguntei como seria dormir em Varsóvia com Juan Rulfo no mesmo quarto, sentado numa dura cadeira polonesa à nossa frente, com a alma em dor, esperando o amanhecer.
 
Uma hora depois, a voz de Rulfo voltou a ser ouvida, desde a escuridão mais profunda daquela sala, uma escuridão com um ar vago de sela deprimente do Treno e que agora faltava apenas um bando de corvos cruzando o céu vazio das terras mais inóspitas. “Vamos ficar muito mal, vamos fazer papel de bobos”, insistiu Rulfo. “Que bobos?”, quis saber Monterroso. “Sim, claro, os poloneses têm a reputação de serem muito trabalhadores e vamos nos fazer de ridículos se acordarmos tão tarde.”
 
3.
A tempestade era forte e não havia como encontrar um táxi e acabei dividindo um com um estranho — um jovem com ares de poeta — que deixei num bar da Diagonal de Barcelona e depois continuei meu caminho. Durante o trajeto, o jovem não parou de falar. Sem nunca se apresentar, começou me contando que tudo no mundo estava dando muito errado e que ficaria ainda pior nas semanas, meses e anos que viriam. Fatalidade total, acrescentou. E então ele não parou de pedir minhas opiniões. Queria saber o que eu pensava sobre isso e aquilo, sobre a recente reconstrução do big-bang original em Genebra, sobre isso e aquilo. Perguntando, parecia um tipo incansável. Mas a certa altura ele parou e ficou completamente calado. Lá fora, chovia cada vez mais forte. Foi um momento poético quase digno de aplauso porque conseguiu me fazer concentrar e finalmente pensar no olho central, o próprio olho daquela tempestade que assolava Barcelona. Mas também é verdade que só conheci a verdadeira quietude quando o poeta finalmente saiu do táxi.
 
Já tinha recuperado a calma quando de repente o taxista me disse: “Aquele jovem falava muito bem, não reparou? Ele falava e dizia coisas, mas muito bem. E, além disso, sabia perguntar.” Pareceu-me uma cena já vivida, mas não sabia onde nem quando. “Também gosto de perguntar”, acrescentou o taxista. E quis saber se não achava que raramente lidamos com gente razoável e não sei quantas outras coisas, e ficou claro que o tom do jovem poeta que havia saído do táxi o prendera.
 
Está nascendo um sentido, pensei, e quem sabe, talvez o primeiro sentido também tenha surgido assim: alguém, nas brumas do tempo, se seduziu pelo tom narrativo de outra pessoa e no meio do caos nasceu um sentido, só como eu vi hoje também nascer aqui neste táxi... E não muito depois, lembrei-me porque aquela cena de contágio parecia-me já vivida antes. Um dia, anos atrás, Monterroso contara aos amigos sobre uma viagem noturna de táxi com Juan Rulfo pela Cidade do México. Como todos sabem, em DF o trajeto mais curto de carro pode levar mais de uma hora, e naquele dia, acompanhando Rulfo até sua casa, a viagem para Monterroso tornou-se interminável enquanto seu amigo, tocado pelas tequilas, tentava lhe contar como era o descomunal romance em que trabalhava e com o qual, assegurava, iria quebrar o silêncio de tantos anos depois de Pedro Páramo. Conforme ele contava, o romance tornava-se cada vez mais estranho e caótico, também hipnótico. Depois de uma hora e meia de viagem e de um romance muito complexo, tremendamente emaranhado, Monterroso finalmente conseguiu deixar Rulfo em casa. Saiu do carro e o acompanhou até a porta e se despediu e, quando voltou para o táxi, pensou que fosse ficar calmo por um tempo.
 
“Esse homem sabia contar histórias...”, então ouviu com certo alarme o que taxista lhe contava de repente. E o tom empregado por ele passou a soar semelhante ao de Rulfo, como se ele tivesse sido contaminado pela cantilena do caos e ficado tocado pelo encanto de uma história grudenta.
 
“Também tenho uma vida muito triste para contar, senhor ...”, disse o taxista. E, ao longo da hora que ainda duraria a viagem e que os levou a percorrer toda a cidade, aquele motorista castigou Monterroso com a sua grande tragédia pessoal. “Uma vida árida e muito desconsolada, senhor...” Uma vida emergida do próprio caos e da qual foi nascendo um tom e um sentido. Uma vida amarga, com um tom muito triste, magistral, contada em um dos muitos táxis em que a cena do big-bang original é reconstruída a cada dia.
 
4.
Obviamente, em vez de ouvi-lo, também se podia ler Monterroso, e os momentos dedicados a lê-lo tinham boas chances de se tornarem memoráveis. Lembro-me de uma vez, em Viagem ao centro da fábula, que lhe perguntaram se realmente existia uma nova narrativa nos últimos tempos. E ele disse que sim, obviamente existia, mas era preciso saber por que era novo, qual era seu alcance, em que medida se diferencia do antigo. Alguns, dizia Monterroso, não sabem em que consiste o que é novo porque não conhecem o que o precede, ou o que é antigo: “Há uma forma contemporânea de narrar, de dizer as coisas, absolutamente diferente daquela usada pelos nossos avós, que desconhecem Freud, a televisão, Joyce, as duas guerras mundiais, a barbárie americana no Vietnã. Isso também deve ser lembrado nas oficinas literárias. Alguns aspirantes a contadores de histórias não perceberam que já vivem em outro mundo e continuam a contar suas respostas à vida como faziam no século XIX. Embora a boa literatura seja sempre a mesma e sempre diga o mesmo quando reflete a situação íntima do indivíduo (para quem era igualmente horrível morrer em Lepanto como em Verdun), tenho a impressão de que há algo que muda sim, e que uma vez no papel, de um século para o outro, as lágrimas de Vallejo não podem ser iguais às de Espronceda.”
 
5.
Ele tinha uma inclinação notável para corrigir seus textos. Recomendava aos futuros escritores — foi, como muitos sabem, um extraordinário professor de oficina literária — que não se limitassem apenas a escrever, mas também a cortar linhas e poli-las. Como conta em Pássaros da América espanhola, seu último livro publicado em vida, conheceu o peruano Alfredo Bryce Echenique numa situação incômoda, mas que posteriormente foi engraçada. Numa conferência no Canadá, Bryce Echenique passou muito tempo dizendo que gostava de escrever continuamente, quase sem corrigir. Mas quando chegou a vez de Monterroso falar, ele disse (fingindo ser muito mais tímido do que realmente era): “Bem, eu não escrevo, apenas corrijo”, o que fez o público rir.
 
Imagino, suspeito, que foi um verdadeiro virtuoso riscando. Sei que pensava que três linhas excluídas valiam mais do que uma adicionada. Parecia-lhe que, se conseguia que não se notasse falsa, a concisão era elegante: “Os adornos e repetições não são elegantes nem necessários. Júlio César inventou o telégrafo dois mil anos antes de Morse com sua mensagem: “Vim, vi, venci.” E é certo que o escreveu assim por razões literárias de ritmo. Na verdade, as duas primeiras palavras são supérfluas; mas Júlio César conhecia seu trabalho como escritor e não as dispensou em homenagem ao ritmo e à elegância da frase. E é que nisso da concisão não se trata apenas de suprimir palavras. É preciso deixar o essencial para que a coisa, além de fazer sentido, soe bem. E como soa bem sem afetação é o outro lado do difícil.”
 
A tudo isso, deveria acrescentar, acredito, que Ítalo Calvino escreveu em Seis propostas para o próximo milênio, na seção dedicada à velocidade, que não conhecia conto mínimo mais perfeito do que o de Monterroso. Ele obviamente falava ali do famoso conto do dinossauro, que se tornou tão conhecido precisamente porque Calvino achou por bem citá-la em seu livro de palestras norte-americanas. Aí a história passou a ser mundialmente famosa e até mesmo o nome de seu autor.
 
Como se sabe hoje, é um conto muito tímido, muito curto. Não é tão conhecido, porém, que certa noite Calvino e Monterroso, grandes tímidos recalcitrantes, jantaram juntos em Roma. Foram jantar com suas respectivas esposas. E de acordo com Monterroso, eles não conseguiram cruzar nem duas palavras entre si; felizmente, foram suas esposas que resolveram a situação conversando entre si.
 
Timidez à parte, o que poderia ter acontecido para que eles não conversassem? Acontece que pouco antes de se sentar para jantar, provavelmente por pura cortesia, o tímido Calvino disse ao tímido Monterroso: “Eu conheço a Guatemala”. Monterroso ficou pensativo, incapaz de evitar a impressão de que a resposta adequada a essa frase só poderia ser uma: “Eu conheço a Itália”. Mas essa frase não poderia ser mais ridícula, Monterroso pensava o tempo todo e não tinha coragem de dizê-la. Por um momento, Monterroso pensou na possibilidade de que também tivesse que responder “Eu conheço Cuba” (afinal, o próprio italiano Calvino havia nascido aliás em Santiago de Las Vegas, na província de Havana), mas percebeu que era uma época em que para um guatemalteco como ele dizer “Eu conheço Cuba” era ainda mais ridículo do que dizer “Eu conheço a Itália”. Assim, o silêncio entre os dois escritores, antes, durante e depois do jantar, tornou-se cada vez mais profundo.
 
“Os silêncios”, acho que me lembro de Monterroso me dizer na FIL de Guadalajara no último baile a que assistiu no ano em que ganhou o prêmio Rulfo, “são produto do terror, da anulação da possibilidade de continuar a falar, de continuar dizendo coisas já ditas. Há momentos em que as palavras chegam ao seu aniquilamento”.
 
Pouco depois de me contar isso lembro que a última dança chegou ao fim, como se palavras tivessem apagado tudo, nem é preciso dizer que fiquei muito impressionado. Na prosa de Monterroso há ocasiões em que suas palavras alcançam esse aniquilamento que pensei estar testemunhando naquele último baile em Guadalajara. Há no que escreve timidez, brevidade, humor e uma estranha síntese de pensamento narrativo, relato filosófico e aforismo poético. Em Movimento pérpetuo, por exemplo (um livro que adoro, um dos pontos altos de sua obra), há uma deslumbrante e eficaz operação de dissolução dos gêneros. Como resultado, encontramos uma espécie de tapeçaria literária que se projeta em várias direções e que se compõe de contos, pensamentos, aforismos e digressões livres e até mesmo uma muito breve “antologia universal da mosca”, um inseto que no universo do autor simboliza o mal e a estupidez genética de uma espécie que não evolui.
 
“O mundo não muda”, diz Monterroso, um artista de ironia profunda, cervantina, às vezes levado aos extremos mais remotos do ser humano. Por que diabos Monterroso não ganhou o Prêmio Cervantes? Desenhou seu autorretrato no dia em que lhe perguntaram como é ser visto como um humorista. “Agradável, não por ser um comediante, mas pelo fato de ser classificado. Encanta-me a ordem.”
 
Diante do realismo mágico de García Márquez e companhia, a obra de Monterroso, homem de ordem e representante supremo do que poderíamos chamar de realismo interno, continua a crescer em nossos dias. Se os realistas mágicos e outros zumbis da área dos levitantes tentaram e continuam tentando refletir uma realidade externa de uma ordem fantástica, Monterroso, ao contrário, ainda está lá em pé de guerra contra esse tipo de velho folclore do assombroso e, claro, contra seus eternos e sempre pesados iguanodontes. 

* Este texto é a tradução livre de “Monterroso en movimiento”, publicado aqui em Letras Libres.

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