O fim, de Karl Ove Knausgård (2)

Por Pedro Fernandes

Karl Ove Knausgård. Foto: Nina Rangoy 


 
Na primeira parte da leitura sobre O fim, de Karl Ove Knausgård (leia aqui) observamos sobre o descompasso entre o conteúdo dessa passagem do romance e as demais. Evidenciamos esse tratamento como produto de um contínuo adiamento da conclusão que seria facilmente evitável se o longo ensaio sobre Mein Kampf e outros desdobramentos sobre a personagem seu autor e a história do Ocidente não existissem ou mesmo se fossem sintetizadas, ainda que seja fácil identificar alguma importância no cômputo geral da narrativa, o de, por exemplo, dissociar os valores entre essas obras a partir de reafirmação do eu enquanto entidade submetida na extensão do outro. Mas, existem outros detalhes que, preferimos, não sem deixar de acompanhar certo modo do próprio romancista, tratar num segundo texto.
 
Uma das constatações mais veementes nesta última parte de Minha luta é a reafirmação da linguagem como matéria enformadora das coisas, gesto fundador do mundo e da realidade. Nada escapa desse tecido. E quando isso ocorre abre-se outra vez os campos obscuros da barbárie ainda que esses não estejam puramente situados fora da linguagem, mas abrigados no âmbito de sua coisificação ou absurdismo da razão, como se observa no exame do holocausto pela incongruência entre o acontecido e a permissão para tanto. A constatação segundo a qual nada escapa aos domínios da linguagem também aponta, então, outro tema que parece fundamental ao romancista nesse longo itinerário.
 
Notamos acima do seu interesse pelo reconhecimento entre os outros. Isso, entretanto não pressupõe uma anulação do eu, mas sua revelação enquanto fenômeno heteróclito, parte numa política do convívio, ainda que essa signifique parte de um difícil impasse para a tarefa do próprio escritor, afinal, as atividades intelectuais cobram dos indivíduos um isolamento do mundo paramentado de desvios da memória e da consciência, o que bem poderíamos designar como modelo novo de coisificação dos sujeitos. E novamente a linguagem desempenha papel essencial. As experiências de Knausgård podem ser tomadas como de quem as lê, seja pelos sentidos dela evocados, seja pela identificação de um ponto de vista, seja mesmo pelas várias coincidências possíveis, mas o que se registra em Minha luta são as experiências do seu narrador. Quer dizer, a distinção num interior de opacidades é milagre da linguagem e não exclusivamente do indivíduo, da cultura ou da história ou da sociedade, mesmo porque essas dimensões se nos apresentam como manifestações na e pela linguagem.
 
Nesse sentido, outra das preocupações, dentre as várias levantadas neste romance, é o fenômeno de uniformização das experiências, mal do aldeamento global estabelecido pelas trocas econômicas num sistema único e redutor, e com isso a indiferenciação das identidades começada como uma das consequências dessa universalização dos modelos de consumo e daqui ampliadas pelo estabelecimento das segmentações. Como sabemos há grupos para todos e quando os que já existem é insuficiente criam-se outros, um processo de partição, ao que parece, interminável ou terminável exatamente quando restar um só individuo constituindo seu grupo de si para si.  Essas divisões talvez sejam o estágio mais perverso do neocapitalismo (elas já aparecem como sintomas de preocupação entre vários outros escritores ainda nos primeiros instantes do consumismo). A seriação identitária, por exemplo, é útil ao modelo dominante porque multiplicam indefinidamente as necessidades de consumo a quantos forem os identitarismos e solapam definitivamente o modelo de coletividade porque colocam uns contra os outros no eterno jogo de impasses. E os sintomas disso chegam a ser examinados aqui.
 
Diríamos que o narrador de O fim se encontra seduzido e entregue, qual o homem do século XIX, com as possibilidades de se demonstrar na e pela linguagem — não só aqui, evidentemente, mas em todo o ciclo de Minha luta. Certa epifania desse encontro se inaugura em A descoberta da escrita, como entrega esse título, mas o exame sobre a alternativa dilucidadora apenas o alcança aqui, quando encontramos o escritor encalacrado com seus fantasmas e o dilema de publicação e desenvolvimento da sua obra. Responde por isso a cautelosa leitura que executa não apenas sobre Mein Kampf, revelando pela sua matéria a mediocridade do livro, ou pela observação da genialidade de Paul Celan em dizer o lado escuro da realidade nua (fora da linguagem), ou ainda as anotações valiosas que faz sobre a obra de Homero, Virgílio, Dante, Dostoiévski, James Joyce, Hermann Broch, Jon Fosse, Flaubert, Proust, Shakespeare, Cervantes, Goethe, Kafka, Knut Hamsun, Faulkner, Thomas Mann, Bertolt Brecht, Borges, Stefan Zweig, Gombrowicz, entre outros; responde por isso, as leituras filosóficas — Heidegger, Arendt, Bruno Latour, Deleuze —, e da historiografia, como Brigitte Hamann, ou pensadores da literatura e da linguagem, como Roland Barthes. Sem saudosismos — não encontramos esse tom em Minha Luta — Knausgård não busca nas referências nenhum retorno ao enciclopedismo, mas faz de O fim um livro-celebração ao poder da linguagem e à grande aventura que nos tem propiciado desde a precisão da articulação do pensamento e sua possibilidade de constituir significação própria, fazendo-se símbolo, a matéria essencial da literatura.

A grande lista de autores com os quais, o escritor entra em contato parece reafirmar a literatura como a arte da maturidade, além de acentuar o rico tratamento de Knausgård no tratamento da modulação da voz narrativa; a essa distância conseguimos perceber (ainda que ele próprio nos revele), como cada romance que organiza Minha luta se desenvolve a partir do ponto de vista evocado. Isso é, sem dúvidas, um importante feito: seduzir o leitor com a mesma forma de contar, ao ponto de tornar a variação tonal num artefato secundário que, no final de tudo, desocupa tal condição, revelando-se seu exato contrário, isto é, sua importância no funcionamento de verdade do romance. Que outra dimensão, se não a da  linguagem, é possível uma empreita dessas? 

É também pela linguagem que o escritor se nela se revela e nela pode examinar a prolixa caligrafia do nosso tempo. O interesse na figura de Hitler, catalogado pela história como o mais terrível dos homens, por exemplo, repousa em descobrir as raízes do mal ou o mal como parte indissociável de todos e em evidenciar ainda os traços do seu lado oposto que foram soterrados. Um implicante diria que neste livro Knausgård pratica qualquer coisa como uma tentativa de ressurreição da humanidade do ditador, quando se debruça no tratamento de desconstrução de algumas leituras biográficas e ao se interessar por pormenores como relação conturbada de Adolf com o pai, no convívio amoroso com a mãe e sua perda irreparável, os fracassos no projeto artístico, sua vida na marginalidade de uma sociedade marcada por um fosso profundo de classes, seus estratagemas de sobrevivência na guerra e a descoberta do triunfo naquela região frequentada por uma infindável lista de medíocres e fracassados: a política. Mas esse tipo de redução fará o leitor que se ilude na ideia segundo a qual a uniformidade do mal é malogro trazido na carne, fabricado no processo de complexificação biológica do homem; fará o leitor que esquece que negar pode ser uma maneira de reafirmar o negado, um impasse, diríamos dos mais evidentes no tempo corrente: afinal, quem já não se perguntou como desfazer da ascensão dos totalitarismos ou do medíocre sem garantir a tais dimensões o prestígio buscado? Foram os algoritmos que revelaram melhor tal impasse, mas a saída não é possível fora da linguagem.
 
No instante de concluir o exame de uma vida inteira que se prolonga para fora do universo de tinta e papel, Knausgård parece munido da necessidade de verificar qual o sentido ou qual o papel desse seu esforço no interior dessa ordem da qual não escapamos — para mal ou para bem. Não é seu interesse reafirmar a insignificância da vida, a colocação elevada da linguagem, como a princípio podemos supor, mas demonstrar como a vida se organiza de todas as insignificâncias graças ao ajuntamento propiciado pela palavra; estamos irmanados nisso, indistintamente, bons e maus. Ou seja, O fim é menos um ponto final numa trajetória, a constatação sobre degeneração indelével das coisas como se chegou a levantar desde o início do périplo iniciado com A morte do pai, porque o desfecho desse ciclo é mais uma tentativa de justificar uma finalidade que o ponto final. Por isso que o movimento entre o individual e o coletivo se expande em dupla direção e suas cores melhor se evidenciam neste romance. Eis um sujeito sondando acerca das ramificações que o/ nos constitui: a religião, a ciência e seus múltiplos segmentos de saber, as artes, a literatura, a vida burguesa comum de um escritor numa sociedade capitalista do entre séculos XX-XXI. É dessa complexa massa de sinais, biológicos, químicos e culturais que somos feitos e de alguma maneira esses sinais formam o grande sistema de análise em Minha luta e sua formulação se constitui em O fim.
 
Há uma passagem do romance em que o narrador de Karl Ove Knausgård diz do Ulysses algo possível de se fixar como um dos interesses do escritor norueguês para com essa investigação de si pelas matérias do trivial e das suas obsessões: “investigar como as ideias e o mundo imaterial se manifestam no mundo imaterial, a partir da ideia de que isso é tudo que existe, no momento, nos corpos e nos objetos que nesse exato instante se encontram aqui. Se a vida é uma viagem através do tempo, o passado é um fantasma” e, acrescentamos, que nos ronda continuamente. Assim, quando se debruça por compreender o ponto exato de aparição dos totalitarismos numa sociedade que se acredita no berço da civilização, por exemplo, o romance toca o centro nevrálgico de uma cultura, porque o espectro que ronda o narrador é o mesmo que assoma continuamente à porta da história.
 
Karl Ove Knausgård está, como nós, noutra parte da história quando os sujeitos não se encontram na história mas a história nele; uma era de enfraquecimento da fronteira entre o eu e o mundo ao redor, tal como repara ainda no feito de James Joyce com seu romance principal. Por isso, agora, a linguagem salva e condena. Não há margens para cisões entre uma coisa e outra, porque nossa condição não é animada exclusivamente por uma e outra extensão. Talvez, no trabalho de exumar seus próprios demônios — Hitler pode mesmo encarnar essa dimensão —, nada mais revele que a impossibilidade de o fazer.
 
Ao homem encantado com a simplicidade dos movimentos e das atitudes, capaz de descerrar deles certa parte da inteireza, certa totalidade, ou se quiser a própria salvação, isso parecerá contraditoriamente um fatalismo? Não é bem isso, porque não é de destino que falamos. A vida é puramente uma contradição: nela somos capazes de transformar a luta movente em extensão terrível de nossa bile até se deixar levar pelos laços da demência na sanha cega das ideologias, contentarmo-nos com o espetáculo do mundo mesmo que este seja o horror que secretamente nos habita, ou fazer da luta matéria de reduplicação simbólica da vida, aperfeiçoando alguns dos nossos prodigiosos sistemas, como faz o próprio Karl Ove Knausgård com este romance. Neste último caso, falamos de milagre porque é isso toda criação que busca acrescentar uma peça, por pequena ou rude que seja, no infinito universo que desde os tempos imemoriáveis vimos sustentando com nossa própria luta, a crença sobre a possibilidade de uma ordem do mundo.
 

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