Uma vida romanceada: sobre o legado literário e político de Edward Said

Por Timothy Brennan

Edward Said. Foto: Fundação Barenboim-Said


 
Muito depois de sua morte em 2003, Edward W. Said segue como parceiro em muitas conversas imaginárias. Para aqueles que o conheceram, as trocas enquanto estava vivo fazem quase tanta falta quanto sua pessoa — os olhos escuros e penetrantes, compassivos mas ígneos, de um homem receptivo e atento, um pouco intimidador, e com frequência bastante engraçado.
 
Eu me encontrava na Universidade de Madras, Índia do Sul, em dezembro do ano em que ele faleceu. A leucemia o havia derrotado apenas alguns meses antes e, agora que partira, os memoriais começavam a avolumar-se. Convidado a falar sobre sua obra tão distante de seu lar nova-iorquino, esperava achar-me em uma pequena sala de seminário, mas, em vez disso, fui conduzido ao gabinete do chanceler para tomar chá, com um funcionário do consulado norte-americano a seu lado, ambos surpreendentemente bem-informados sobre os escritos de Said, depois para um anfiteatro do tamanho de um ginásio de escola. As fileiras fulguravam com a cor dos uniformes escolares, e o espaço achava-se vivo com intensa animação.
 
Com todos os assentos tomados, muitos ficaram em pé ao longo das paredes e nas janelas — estudantes, membros da comunidade, e alguns visitantes internacionais. Eles pareciam querer se agarrar a qualquer coisa que tivera contato com o homem de carne e osso. O romancista egípcio Ahdaf Soueif lembrou que jovens costumavam ir até Said após as palestras com o único desejo de tocá-lo. Momentos antes de subir ao palco, duas fileiras de estudantes no fundo puseram-se abruptamente de pé (sua intervenção havia sido aparentemente planejada) e começaram a entoar versos de Os condenados da terra, de Frantz Fanon, como se fosse um comício político.
 
O aspecto tumultuoso do evento parecia de alguma forma em desacordo com a recepção mais mista que Said obtivera ao longo dos anos, e sua revolta terceiro-mundista um pouco distante das próprias posições cambiantes e simpatias divididas de Said. Na década precedente, de fato, Said ameaçara dissolver-se “nas primeiras páginas” (como Martin Amis uma vez disse sobre o romancista Salman Rushdie), tendo se tornado antes um ícone do que o querelante pé no chão e um pouco inseguro que sempre julgou ser.
 
Por outro lado, a energia do evento parecia apropriada para um homem que conseguiu converter brigas de rua em refinados debates realizados em anfiteatros estrangeiros. Com Said, os palestinos tiveram seu sofisticado porta-voz a esquadrinhar as manias da metrópole; apoiadores de Israel depararam-se com seu charlatão maligno e terrorista; estudiosos do Oriente viram um inimigo de recursos no retrovisor; uma diáspora não branca nas universidades agradeceu-lhe por abrir o caminho de sua própria emergência multicultural; esquerdistas nas universidades coçavam a cabeça indagando como alguém com tais opiniões conseguiu ser tão recompensado pelos poderosos. Em outras palavras, tornara-se fácil converter Said em uma série de cartazes sem profundidade ou nuance.
 
Seu efeito geral, contudo, era difícil de ignorar. Um crítico, intelectual e ativista palestino-americano, Edward Said é hoje considerado um dos pensadores mais transformativos do último meio século. Poeta e teórico, bajulador e estrategista, ele sentia-se igualmente em casa em periódicos acadêmicos, revistas populares e jornais de circulação massiva. Seus livros e ensaios ainda são lidos em mais de 30 línguas e admirados em todo o mundo.
 
Said espraiou-se por um espantoso número de esferas de influência. Foi empresário de uma orquestra em Weimar, contador de histórias em rede nacional, informante nativo em jornais cairotas, negociador dos direitos palestinos junto ao Departamento de Estado, e mesmo ator ocasional em filmes nos quais representava a si mesmo. Sua carreira era como um romance, a ponto de incluir a doença sanguínea fatal ao longo da sua última década de vida retroiluminada por seus próprios escritos sobre declínio pessoal e civilizacional.
 
Nascido em 1935 em Jerusalém, filho de um homem de negócios, ele, junto de sua família, foi privado de seu lar e terra natal pelo mandato britânico de 1948 e as ações militares subsequentes. Aluno brilhante (embora errático), e um talentoso pianista desde cedo, Said cresceu em grande parte no Cairo, chegando aos Estados Unidos em 1951. Mais tarde, frequentou Princeton como graduando e foi para Harvard realizar seus estudos de doutorado antes de se juntar à faculdade de inglês na Universidade Columbia em 1963, onde permaneceu durante a maior parte de sua vida profissional. Por volta de 1975, sua carreira já se encaminhava para o âmbito da lenda. Palestras remuneradas e diplomas honorários choviam sobre ele enquanto dava início a novos campos de pesquisa que mudaram a cara da vida universitária.
 
Sua política extravasava os livros. A escrita pode ter sido sua linha de frente, mas Said era também um tático original, advogando por posições políticas a princípio impopulares, mas que foram mais tarde assumidas por movimentos de base. Ele formou alianças inesperadas, esculpiu novos espaços institucionais, importunou diplomatas e aconselhou membros do Congresso — um severo crítico do establishment midiático dos EUA e, ao mesmo tempo, uma destacada personalidade midiática ele mesmo. À medida que confundia, vez após vez, os especialistas de gabinete estratégicos nos jornais noturnos durante os inóspitos anos Reagan e Bush, ele fez com que a universidade parecesse a muitos um lugar mais excitante, e os professores, partícipes de um diálogo vital. Mais do que qualquer outro, ele deslocou as humanidades do âmbito universitário para o centro do mapa político.
 
Junto de Noam Chomsky e outros poucos, ele não apenas arrancou o selo “confidencial” das histórias midiáticas oficiais, mas o fez com uma personalidade marcada por impaciência e vulnerabilidade, por vezes iracunda e romântica, que tornava o denso e o difícil igualmente divertidos. Ao assumir o centro do palco com posições que apenas alguns anos antes eram inaceitáveis, ele abriu portas para outros: “o poderoso guerreiro, o Salah al-Din dos nossos colóquios com adversários insanos, fonte de nossa sanidade em desespero”, como diz o intelectual iraniano Hamid Dabashi.
 
Quando assumiu seu primeiro posto universitário, os defensores de Israel podiam ignorar por completo a causa palestina; uma década mais tarde, ele havia inventado um novo vocabulário e uma nova lista de heróis. Praticamente sozinho, ele tornara a posição sionista não mais sacrossanta, e criticá-la tornou-se algo respeitável e mesmo popular em alguns círculos.
 
Embora tenha deixado sua marca nelas, as rotinas da vida universitária nem sempre satisfizeram Said. Um remanescente de um tipo mais antigo de intelectual – de leitura vasta e ecumênica, e interessado naquilo que desconhecia —, ele nunca se viu muito atraído pelas modas acadêmicas como o cyberpunk, a teoria dos afetos ou o pós-humanismo. Ele era muito mais o drogomano, cultivando o antiquado, o universal, e o “bem”, expresso por ele justamente naqueles termos.
 
A despeito de toda sua escrita no exílio, ele era um homem enraizado — imaginativamente na Palestina e efetivamente em Nova York, sempre pródigo em seus ritmos “incansáveis, turbulentos... energéticos, inquietantes, resistentes e absorventes”. Ele viveu lá por mais tempo e, apesar das muitas oportunidades para sair de lá, jamais o fez. Lugar [físico] e lugar mental achavam-se, dessa forma, em desacordo dentro dele. Se junto de Chomsky, Hannah Arendt e Susan Sontag ele era o mais conhecido intelectual público dos EUA no pós-guerra, era o único dentre estes que lecionava literatura como profissão.
 
Said deleitava-se com isso. Em sua própria mente, a literatura não era apenas uma ocupação, mas o alicerce de sua política e o segredo de seu apelo público. Lançando mão de fontes inusuais cujo escopo variava de partituras musicais a transcrições em árabe medieval, e encontrando inspiração nos analistas da mídia britânica e nos poetas socialistas do Paquistão, ele trouxe as humanidades para o centro da vida pública, deliberadamente revivendo os “grandes livros” com a paixão da guerra e da revolução anticolonial. Tal como ele via o assunto, essa era sua contribuição principal, muito mais do que qualquer coisa que conseguira conquistar pela causa palestina. Ninguém no século XX, de qualquer forma, argumentou melhor que disputas sobre o sentido de textos seculares, e não apenas de livros sagrados, afetavam o destino dos direitos e da terra.
 
Aqueles que conheceram Said apenas por seus livros não o viram por inteiro. Eles perderam sua meninice, por certo, assim como sua feroz lealdade aos amigos, que por sua vez desculpavam uma boa dose de mau comportamento — a vaidade, a petulância ocasional, a necessidade de amor e afirmação constantes.
 
Mesmo admiradores como o historiador Tony Judt, por exemplo, consideravam-no um homem essencialmente raivoso, embora isso parecesse totalmente distante da gentileza que muitos de nós víamos quando ele conversava com motoristas de táxi ou se sentava absorto assistindo aos intratáveis policiais de classe trabalhadora de Law & Order. Um amigo de infância, ao visitar seu apartamento em um período tardio, observou que se os inimigos de Said pudessem apenas ver a solicitude e a graça com que servia chá à esposa, ele jamais poderia ser repudiado como um homem polêmico ou dogmático.

 
* Extraído de Places of Mind: A Life of Edward Said, de Timothy Brennan. Tradução livre de Guilherme Mazzafera para “A Novel Life: On the Literary and Political Legacy of Edward Said”, publicado aqui, no Literary Hub, em 29 mar. 2021.
 
 

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