A herança de Rilke

Por José Filadelfo García Gutiérrez


Rainer Maria Rilke, em seu escritório, por volta de 1905. Fine Art Images/ Heritage Images


 
Rainer Maria Rilke começou a escrever as Elegias de Duíno em 21 de janeiro de 1912 e as concluiu dez anos depois, às 18h de 11 de fevereiro de 1922. Imediatamente após terminar a décima elegia, ele escreveu uma carta à amiga e sua protetora, a princesa Maria von Thurn und Taxis: “minha mão ainda está tremendo”. Ao longo dessa década, houve um silêncio poético, que durou de 1916 a 1921, que nada mais foi do que um longo processo de reflexão entre a inquietação pela aridez criativa e a espera pela descoberta que unisse, poeticamente, o que já havia sido resolvido dentro do poeta. Para Eustaquio Barjau, Rilke “já sabia há muito tempo em que consistiria sua decalogia”. Para o futuro das Elegias, são utilizadas as notas e rascunhos de cartas que o poeta de Praga, peregrino de mansões e castelos, escreveu no início de 1921, e que intitulou de O testamento.
 
A obra foi publicada postumamente em 1974 pelo Insel Verlag, após uma longa espera pela autorização dos herdeiros do espólio de Rilke. Segundo seu editor Ernst Zinn, um pequeno grupo de pessoas que sabia da existência do documento preferiu mantê-lo guardado. Dois anos depois, O testamento foi publicado pela primeira vez em espanhol pela Alianza Editorial.¹ As notas e comentários de Zinn contextualizam convenientemente, em sentido biográfico, cronológico, espacial e até poético, o que Rilke afirmou vagamente no manuscrito, e assim teria permanecido se não fosse por seu editor.
 
Após a Primeira Guerra Mundial, em 1919, Rilke fez uma estada na Suíça, país que “havia sido imparcial e altruísta durante as desordens dos últimos anos”, segundo conta em O testamento. No final de 1920 foi convidado pelo coronel Richard Ziegler e sua esposa para passar uma temporada no castelo Berg am Irchel em Zurique. Foi pouco antes de terminar sua estada em Berg (em maio de 1921) que ele escreveu as notas e rascunhos de cartas (endereçadas à amiga, a pintor Baladine Klossowska) para O testamento, embora Zinn suponha que existiram “primeiras versões” antes da versão definitiva.
 
A obra começa com uma introdução, escrita por Rilke, redatada na terceira pessoa, na forma, diz Zinn, de um “executor imaginário”, que dá conta das causas históricas e pessoais das cartas e notas. Para o editor, essas notas não foram reflexões isoladas sobre o pensamento poético de Rilke alheio ao desenvolvimento das Elegias de Duíno: “Com uma preocupação crescente, beirando o desespero, pela possibilidade de um fim abrupto desse ciclo poético, ele se obrigou a — na primavera de 1921 — a descobrir a razão do ‘destino’ que cada vez mais ameaçava frustrar a conclusão das ditas obras [as Elegias].” A investigação desta razão através de O testamento foi a de um “exame de consciência” sobre o fracasso poético do autor e o testemunho da “última vontade” de Rilke, aos seus “sobreviventes” e “homens do futuro”.
 
Eustaquio Barjau, no estudo introdutório para a edição da Cátedra das Elegias de Duíno e Os sonetos a Orfeu, segue Eudo Mason ao apontar que não é viável considerar “que os acontecimentos que abalaram a Europa naqueles anos [a Primeira Guerra Mundial] desencadearam neste autor uma crise cuja superação esteve à espera e que só chegaria quatro anos [1922] após o fim da guerra”. No entanto, a introdução de Rilke para O testamento (cujo título é mencionado por Barjau) permite associar, de forma significativa, os estragos da guerra com as condições pessoais em que o poeta se encontrava: “Para tornar a sua situação no final daquele inverno compreensível, [sua estada no castelo de Berg, em 1921], devemos olhar para o verão do ano 14. A eclosão da guerra desastrosa que desfigurou o mundo por um tempo equivalente a muitas vidas humanas, impediu-o de retornar àquela cidade incomparável a quem lhe devia a maior parte de suas oportunidades.”

Rainer Maria Rilke próximo à capela de Muzot, Veyras, Suíça, em 1924. Swiss Literary Archives/ALS, Berna.


 
A “cidade incomparável” era Paris, para a qual Rilke não voltou, pois o início da guerra o surpreendeu durante uma viagem à Alemanha, onde permaneceu durante todo o conflito. O chamado de Rilke para se alistar no exército austro-húngaro em 1915 trouxe um “fim inesperado” à “única tentativa de retomar seu trabalho”. No ano seguinte, graças a alguns de seus amigos, Rilke foi desmobilizado. Foi somente no final da guerra que Rilke foi capaz de “abandonar a sofrida cidade [Munique]” para ir, como “um chamado desejado”, para a Suíça. Ernst Zinn observa que a mudança para a Suíça “deu ao poeta a esperança de ser capaz de criar as condições adequadas de vida e trabalho para sua principal obra”.
 
A presença da guerra afetou a disponibilidade do autor para meditar sobre seu já longo silêncio poético e voltar a escrever. Mesmo que a recepção gentil de um país apartado da dor da guerra apenas oferecesse a Rilke “uma complacência e uma utilidade que superava todas as suas previsões”, a estadia no castelo de Berg am Irchel permitiu-lhe, por um lado, retomar as Elegias, um caminho cujo fim, como referiu Barjau, já estava traçado no interior Rilke, embora precisasse das imagens certas; e, por outro lado, o local onde, em pouco tempo, as concluiu, mas noutro castelo, o de Muzot, também suíço, em 1922.
 
Em O testamento antecipa a imagem dos amantes que irão compor, nas Elegias de Duíno, aquela união que acaba por ultrapassar a amada, para conduzir o amante a uma experiência interior mais elevada, a do homem que se eleva e a do anjo que é o ponto limite: Rilke pergunta se houve uma amante, “A que entendera que ele havia sido jogado muito além dela, ao penetrá-la?” Esta série de notas e rascunhos também confirma o que Barjau descreve como a superação da “coisa de arte”, noção que Rilke deu à sua obra anterior à guerra (O Livro das imagens e Novos poemas) para se referir à apreciação da obra de forma objetiva, separada da condição psicológica do criador. Essa contemplação baseada, segundo Barjau, na visão (Augenmensch) será substituída pela contemplação do homem que escuta (Ohrenmensch). O testamento revela esta intenção do poeta por volta de 1921: “É estranho: percebo como tudo o que agora me rodeia me pertenceu pelo meu ouvido... e pelo meu ouvido me foi tirado [...] Começou ser, de certa forma, ‘ilustrado’ pelas pequenas vozes dos pássaros.”
 
O testamento que, na voz do “executor imaginário”, “expressa uma vontade que será o seu último desejo, ainda que no coração o espere a tarefa de muitos anos”, não é bem o legado de uma conclusão ou o desesperado fim do suas reflexões ante o impedimento de continuar as Elegias de Duíno, mas a herança de um desenvolvimento, a passagem da inquietante esterilidade criativa, que em Rilke será sempre uma falta interior, à possibilidade de uma iluminação criadora bem escrutinada. Foi um legado baseado mais na recuperação repentina da necessidade do ímpeto criativo, na forma de uma reflexão poética em prosa, do que na expressão de uma impotência criativa insuperável, impossível de reverter. O que Rilke herdou nas notas e cartas de O testamento acabou sendo a jornada, e não o fim, de sua busca.

Ligações a esta post
 
Notas da tradução

1 No Brasil, a edição mais recente data de junho de 2009. Está publicada pela Globo Livros com tradução e notas de Tercio Redondo, reprodução fac-similar do manuscrito de Rilke e prefácio de Helmut Galle. 


* Este texto é a tradução livre para “La herencia de Rilke”, publicado aqui, em Letras Libres.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Boletim Letras 360º #516

Sátántangó, de László Krasznahorkai

Os filhos de Eros: homossexualidade militar na Grécia Clássica

11 Livros que são quase pornografia

Os desenhos de Bukowski

O fim, de Karl Ove Knausgård (2)