Por que ler os clássicos, de Italo Calvino

Por Adolfo Torreceilla



 
Sobre um livro póstumo de Italo Calvino
 
A recente reedição no Brasil de Por que ler os clássicos1, um dos livros póstumos de Italo Calvino, traz de volta um debate cultural permanente. Simplificando, a opinião de Calvino é clara: “ler os clássicos é melhor do que não ler os clássicos”. Quando produtos leves e descartáveis ​​tomam conta da publicidade, e enquanto a mera contemporaneidade se passa pela cultura dominante, os clássicos revalidam a sua relevância perene e distanciam-se ironicamente das repetidas profecias sobre a sua condenação ao esquecimento.
 
Na introdução de um de seus romances mais representativos, Se um viajante numa noite de inverno, Calvino fala sobre os diversos tipos de livros que assaltam um leitor regular quando ele entra em uma livraria. Entre outros, “Livros Que Você Leu Há Muito Tempo E Que Já Seria Hora De Reler e dos Livros Que Sempre Fingiu Ter Lido E Que Já Seria Hora De Decidir-se A Lê-los Realmente.”2 Os clássicos frequentemente se encontram nesta situação.
 
Para leitores de todos os tempos
 
Etimologicamente, a palavra latina classicus designava o cidadão que, pela sua riqueza, ocupava o posto mais elevado dentro das cinco classes em que se dividia a população romana para efeitos de contribuição militar. Aos poucos, esse conceito também remeterá à ideia de excelência e prestígio. Por extensão, o classicus scriptor passou a designar na escola o autor que se destacava pela beleza e correção. E já na Idade Média, o escritor clássico era o mestre e modelo para quem se dedicava à escrita.
 
Às vezes, a palavra recebe um significado literal, para designar apenas os autores e obras da literatura grega e latina que se destacaram pela acuidade em penetrar nos sentimentos e paixões dos homens.
 
Hoje, o conceito de clássico tem um significado mais amplo, pois é clássica uma criação que pode ser atualizada por leitores de mentalidades muito diferentes. Para Pedro Salinas, sobretudo humanista, “os clássicos são os escolhidos pelo sufrágio implícito das gerações e dos séculos, por tribunais que ninguém nomeia nem ninguém obriga, na verdade, mas cuja autoridade, vinda de tão longe, e de tão alto, é acatada prazerosamente”.
 
Analisando a trajetória de Ítalo Calvino, é compreensível que um livro póstumo pudesse ter sido construído com suas ideias sobre literatura. O primeiro capítulo é dedicado a responder à pergunta que dá título à obra, chave para a compreensão dos capítulos seguintes, que falam sobre suas preferências literárias, seus clássicos. Calvino faz catorze definições de clássico; cada uma é a síntese de uma linha de reflexão.
 
O escritor italiano propõe a releitura dos clássicos como um exercício constante, não limitado a idades ou estados de espírito. Pode-se lê-los na juventude, mas também na maturidade, talvez quando se está “em melhores condições para saboreá-los”. Na juventude? Sim e não. Em tese, a melhor atitude será preparar o caminho para que essa leitura seja muito proveitosa. Mas nada acontece se desde cedo se entra em contato com os clássicos, porque depois se continuará saboreando-os, pois cada leitura é inovadora.
 
Os efeitos de ressonância
 
Para Calvino, somente durante a permanência na escola é que se pode estabelecer melhor, com métodos imaginativos, a leitura dos clássicos. Estes primeiros contatos servirão de trampolim para que cada leitor, mais tarde, descubra desinteressadamente seus autores e leituras preferidas, sabendo que “as escolhas que contam são aquelas que ocorrem fora e depois de cada escola”.3 Porque os clássicos atraem quando se estabelece entre eles e o leitor uma relação pessoal baseada no amor, e não no dever ou no respeito. Por isso rejeita os excessivos dispositivos críticos que muitas vezes cercam as obras clássicas, transformando a sua leitura numa selva interminável de prólogos, introduções, notas de rodapé, epílogos, descobertas biográficas... Calvino conclui que o clássico se livra de todo esse aparato crítico, muitas vezes desnecessário e que torna difícil o encontro com o original, que é o que deve ser lido.
 
Para o escritor italiano, o que mais se destaca num clássico é o seu “efeito de ressonância”. Assim, Italo Calvino não considera como clássicos apenas os livros antigos, mas qualquer obra com clara tendência à universalidade, mesmo que seja escrita para leitores específicos de um determinado país. Memórias póstumas de Brás Cubas é um dos muitos livros que apresentam estas características: apesar das intenções particulares, a mensagem do romance de Machado de Assis não está circunscrita aos leitores brasileiros do século XIX, mas continua a ser universal, vigente, atual (e também o será para futuros leitores).4 E demos um exemplo típico e indiscutível, mas o mesmo poderia ser dito dos romances contemporâneos que conseguiram acertar seu “efeito de ressonância” (O Senhor dos Anéis seria um bom exemplo). Portanto, a antiguidade não é essencial, nem mesmo o uso de um estilo classicista, nem a suposta autoridade moral.
 
Passado e presente
 
A decisão de ler os clássicos não significa refugiar-se idilicamente no passado. Os clássicos devem ser abordados a partir de uma atitude atual, tendo em conta o presente. Calvino recomenda alternar a leitura dos clássicos com a “sábia dosagem” das leituras de atualidades, que muitas vezes — é lógico — são imprescindíveis de ler. Um erro generalizado ao julgar os clássicos é pensar que eles não resolvem as dúvidas da cultura do nosso tempo. É falso. Os clássicos não são de ontem nem de hoje: são perenes, pois, entre todos, vêm formando uma cultura profunda cuja nota distintiva é apontar sobre os valores humanos.
 
De qualquer forma, Calvino quer deixar claro que o que define um clássico não é, de forma alguma, a sua utilidade. E conclui com uma acertada citação de Emil Cioran: “Enquanto era preparada a cicuta, Sócrates aprendendo uma ária com a flauta. ‘Para que lhe servirá?’, perguntaram-lhe. ‘Para aprender esta ária antes de morrer’”.



 
A biblioteca de Calvino
 
O conteúdo deste primeiro artigo, que dá título ao livro, explica a seleção dos autores e obras que constituem os clássicos pessoais de Calvino. Esta seleção é também uma declaração de princípios, influências e fontes. Não surpreende, portanto, a inclusão de capítulos dedicados a autores tão diversos como Ariosto, Borges, Joseph Conrad ou Raymond Queneau. As opiniões sobre a influência de Borges na literatura ocidental e italiana são particularmente interessantes, uma vez que Calvino destaca com especial acuidade o “escrever breve” como um dos valores fundamentais da narrativa borgiana: “Lendo Borges, me veio repetidas vezes a tentação de formular uma poética do escrever breve, louvando suas vantagens em relação ao escrever longo, compondo as duas ordens mentais que a inclinação para um e outro pressupõe, por temperamento, por ideia de forma, por substância dos conteúdos.”
 
O capítulo dedicado a Conrad demonstra a capacidade de Calvino de captar a essência dos seus autores favoritos: “Creio que fomos muitos a aproximar-nos de Conrad movidos por um amor recorrente pelos escritores ‘aventurosos’ — mas não aventurosos apenas: aqueles para quem a aventura serve para dizer coisas novas aos homens e as histórias e os países extraordinários servem para marcar com mais evidência sua relação com o mundo.”
 
Da antiguidade clássica
 
Da antiguidade clássica destacam-se os artigos dedicados à Odisseia, à mitologia em Ovídio, à tradição literária persa, à Anábase de Xenofonte e à História natural de Plínio, o Velho. Assim começa o capítulo dedicado a Xenofonte: “A impressão mais forte que Xenofonte causa para quem o lê hoje é a de estar vendo um velho documentário de guerra, como os que são reapresentados de vez em quando no cinema ou na televisão”. Na leitura de Plínio, “o neurótico colecionador” chama a atenção para as referências a fatos extraordinários, como os seres misteriosos que habitam as regiões limítrofes do mundo: “os arimaspos com um olho só no meio da testa, que disputam as minas de ouro com os grifos; os habitantes das florestas de Abarimon, que correm velozmente com os pés virados ao contrário; os andróginos de Nasamona, que alternam os sexos quando se acasalam; os tíbios, que num olho têm duas pupilas e no outro, a figura de um cavalo. Mas o grande Barnum apresenta seus números mais espetaculares na Índia, onde pode ser encontrada uma população de caçadores com cabeça de cachorro; e uma outra de saltadores com uma perna só, que, para descansar na sombra, se deitam erguendo o único pé como um chapéu de praia; e outra ainda de nômades com pernas em forma de serpente; e os astomos sem boca, que vivem cheirando perfumes.”
 
O preferido de Calvino é o poema de Ariosto, Orlando Furioso, ao qual dedica dois capítulos. Num analisa a sua estrutura e no outro faz uma pequena antologia de oitavas que pretende ser uma homenagem ao seu poeta mais elogiado. E de Ovídio, o autor das Metamorfoses, destaca o seu interesse em tornar visível para nós o mundo dos deuses, “a ponto de torná-lo idêntico à Roma de todos os dias, enquanto urbanismo, divisão em classes sociais, hábitos cotidianos”.
 
Clássicos mais recentes
 
Em outros artigos, Calvino seleciona o livro preferido de um autor, que muitas vezes não é o mais citado. Por exemplo, de Savinien de Cyrano destaca Histoire comique des états et empires de la Lune; de Charles Dickens, Our mutual friend (“Os inícios dos romances de Dickens são muitas vezes memoráveis, mas nenhum supera o primeiro capítulo de Our mutual friend, penúltimo romance que ele escreveu, último que concluiu”); de Mark Twain, O homem que corrompeu Hadleyburg; de Henry James, Daisy Miller e Robert L. Stevenson, “The Pavilion on the Links”.
 
Outros capítulos são dedicados ao conceito de amor nos romances de Stendhal; à estrutura invisível das contos de Liev Tolstói; à transcendência de Daniel Defoe (“Por esse empenho e prazer em descrever as técnicas de Robinson, Defoe chegou até nós como o poeta da paciente luta do homem com a matéria, da humildade e grandeza do fazer, da alegria de ver nascer as coisas de nossas mãos.”); à cidade-romance em Balzac; Boris Pasternak e a revolução; às diversas leituras da obra de Ernest Hemingway; à filosofia de Raymond Queneau; e Pavese “e sacrifícios humanos”.
 
As reflexões são escritas a partir da experiência de leitura de Calvino, e não como se ele fosse um especialista em teoria literária. Assim, o tom dos ensaios é de admiração, respeito e amor pelos seus autores preferidos, sem se deixar levar pela linguagem erudita ou técnica, típica de um livro para especialistas.
 
Por que ler os clássicos é, assim, um convite sugestivo para irmos às fontes, para que cada um forme os seus clássicos pessoais através da leitura constante.


Ligações a esta post:
>>> As listas com os livros referidos por Italo Calvino em Por que os clássicos estão aqui
 
 
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Por que ler os clássicos
Italo Calvino
Nilson Moulin (Trad.)
Companhia das Letras, 2007
288 p. (edição de bolso)

Por que ler os clássicos
Italo Calvino
Nilson Moulin (Trad.)
Companhia das Letras, 2023
312 p. (edição especial)

 
Notas da tradução:
1 Ajustamos o original considerando a recente publicação no Brasil, por ocasião do centenário de Italo Calvino, da edição especial de Por que ler os clássicos (Companhia das Letras, 2023).
 
2 O excerto é da tradução de Nilson Moulin (Companhia das Letras, 1990).
 
3 Este excerto e outros de Por que ler os clássicos ao longo deste texto são da tradução de Nilson Moulin (Companhia das Letras, 1993).
 
4 No original, o exemplo é dado com Dom Quixote, de Cervantes; atualizamos considerando o contexto desta publicação.

 
* Este texto é a tradução livre para “Por qué leer los clásicos”, publicado aqui em Aceprensa.

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