Afropessimismo, de Frank B. Wilderson III

Por Eduardo Galeno

Frank B. Wilderson III. The Nation.



Olhavam para nós como se fôssemos zebras
— James Baldwin, Se a rua Beale falasse
 
 
Some day, some day, lord
Some day I'll, I shall wear a starry crown
— cantado por Shirley Ann Lee
 
 
e há, mais majestoso ou diferentemente majestoso, mais soberano ou diferentemente soberano, a majestade da poesia ou a majestade do absurdo, na medida em que ela dá testemunho da presença dos humanos.
— Jacques Derrida, A besta e o soberano
 
 
Uma frase introdutória: o fim do mundo é o começo da total insurreição negra. O texto do livro de Frank B. Wilderson III expõe o drama. Um drama pelo qual a negritude — forma senciente do corpo que descende da África — pega o bonde da história, do horror da história, da carnificina em que se desmonta. Texto carregado de vozes, histórias e sentidos — a cadeia significante que a brutalidade narrativa de um afropessimista pôde propor para nós, leitores (negros ou não). Brutal porque o texto de Frank se apoia em cortes abruptos, secos. Ninguém que lê sai igual. Ninguém que o lê sai sem sentir que o fim do mundo, necessário, é uma espécie de prelúdio para a dança da libertação dos negros.
 
Afropessimismo: lançado em 2020 lá e em 2021 aqui, muito bem traduzido por Rogerio W. Galindo e Rosiane Correia de Freitas e publicado pela editora Todavia. Afropessimismo: 387 páginas. “Afropessimismo”: segundo Wilderson, “lente teórica [...] que esclarece a violência da antinegritude (a necessidade humana de violência contra pessoas negras)”. Afropessimista: autoconsciência catabolizada num acesso psicótico (colapso causado por uma descoberta). Afropessimismo: um livro preto que escancara, pelo crivo das memórias e pela (im)possibilidade da teoria, a verdade: ser negro é viver os limites do sádico e perverso prazer da sociedade civil em seu mais puro tom de crueldade.
 
(A África do Sul e os Estados Unidos, a militância radical de esquerda e o enfrentamento na academia, a infância e a idade adulta, Said e eu, posições e revisões, o cotidiano e a família, a causa palestina e a causa negra, alguém e algo, Jesus e Xangô. Se nesse livro há o que podemos recitar, ele escreve como vórtice. Vórtice de paixões, em que tanto a leveza — com o peso de uma pena — quanto a dureza — do jeito de um furacão — estão em paridade…)
 
As memórias e teorias que se cruzam a todo momento parecem indicar um mesmo lugar, aparelhado pela tentativa de exposição de um autor insurgente, obstinado a lançar uma base concreta a alguns pontos que, aliás, são seus rivais. É distinta sua efusividade e sua coragem ao transfigurar a vivência como homem negro, depois como estudante negro e, logicamente, como um negro que produz saberes. A propositura do afro-americano ao redor de certas implicâncias e fenômenos — quer dizer, a resposta que ele edifica em torno disso — faz com que o muro entre ficção e realidade seja muito tênue.
 
Que seja fina, que seja fraca essa formulação, todos os que leem já têm o consentimento. Mas uma pergunta a ser feita é: por qual razão um autor escolhe falar teoricamente de memórias vividas e, por outra via, afetivamente (no sentido específico de “sentimental”) de especulações sobre o real? Pois é isso que vem à minha leitura. Sua escrita de exatidão sofre intrusões diretas, que significa, em outros termos, um óbvio envolvimento na dura e fria realidade da formalização. Há aí mais coisas, entretanto. Não é que ele deixe a dor das memórias — de ser negro no mundo —, mas que suas dores também podem ser vistas sob outra ótica (podemos fazer, assim, o contrário: passar da rigorosidade e seriedade do teorema à consumação vulnerável da emoção).
 
Wilderson, então, divide o livro em duas partes, com sete capítulos no total (mais epílogo). No todo dessas provocações, ele indica o caminho do qual falei acima: o descobrimento de uma nova maneira (não nova em parâmetros históricos, pois o que se sente aparece antes do que se sabe) de exposição situacional do negro. Sendo situação de eterna submissão, de escravidão perpétua, a modernidade do Novo Mundo, que tem como substância a grande diáspora dos povos de cor escura, é a história do que o texto chama de “caldo pré-lógico” da “estrutura mais profunda de opressão”. A condição do Sul se justifica como laboratório de um permanente estado de exceção em todo o globo.
 
Compreendo essa sismicidade (necessidade absoluta em provar) em desvelo daquilo que não se diz de maneira comum: isso é um ataque à padronização brancocêntrica. O que separa o afropessimismo de outras teorias (decoloniais, pós-coloniais, marxistas) é a dação de chance para aquilo que nunca foi sublinhado de maneira mais efetiva, isto é, uma chance para dizer que não há possibilidade de salvação negra no mundo, que não há, nesse vínculo, palavras que possam descrever os vários desastres que nascem nos percalços do caminho de seres negros. Palavras são apenas palavras.
 
“Mas a violência contra os negros não coopera com a narrativa. A explicação sangra além dos atores. Ela é imune ao pensamento racional e a previsões lógicas. É uma força contra a qual não há refúgio. É impermeável a contestações; pois ela se aplica primeiro e só depois é seguida pela lei.”
 
Uma pré-polícia. Esse pré, esse ante, o acontecimento que vaza anterior: não é outra coisa que a pulsão sexual, não tem outro nome que economia libidinal. O racismo não tem motivos determinados calcados num ato racionalizado, não pode ser explicado por meio de argumentos baseados na iluminação pura e limpa. Ele é, antes, sujo e, por ser sujo, se alimenta do anseio negrofóbico. Fobias se apresentam assim: elas acontecem sem causalidade aparente. Para usarmos um enunciado melhor, o negro é o Outro estranho do homem. Não estranhado, mas estrangeiro, exterior. Pela biofacticidade da sua carne, um alien.
 
“Os seis primeiros meses de nossa vida na África do Sul trouxeram mais decepções e reveses do que qualquer outro período que vivi desde os primeiros seis meses da minha vida com Stella em Minneapolis, onze anos antes. Se eu fosse um afropessimista e não um marxista na época, não teria ficado tão abatido por tudo; saberia que o mundo é uma grande plantation.”
 
O negro é um objeto de terror (fobogênico). O sentido é que, pelo fato do humano ter sua coisa, mera Coisa (um objeto sem valor), a humanidade cria suas histórias por intermédio da base (matéria), que vai, sequencialmente, dar vazão rumo à vida na vida. O medo em relação ao negro faz a humanidade aparecer. Segundo Denise Ferreira da Silva — artista e teórica negra —, a função do negro não faz mais que possibilitar o surgimento do Eu (Je). “A pessoa fica sabendo, por exemplo, que quando ela aparece, traz junto consigo a ameaça do canibalismo” (F. W. III).
 
As novas leituras — diretas, mas às vezes subentendidas — de Lacan e Fanon reparam e proporcionam ao texto uma provocação (ou várias). Parece, nesse ponto de vista, que Wilderson escolhe a memória como escólio e a enunciação teórica como proposição, porém riscando todo lance linear nesses esquemas: não há relação possível (entre homens e negros → a “relação” amorosa entre a esposa branca Alice e o autor de Afropessimismo) ou o subalterno sem humanidade plena me viola (sabendo da assumida posição fanoniana nas lutas anticoloniais, principalmente a argelina). Isso esclarece, aliás, por que é tão difícil — para não dizer impossível — pensarmos numa solução intramundo.
 
Desse envolvimento da clínica lacaniana dos objetos e da analítica radical fanoniana no Pele negra, máscaras brancas, acredito que, das páginas que seguem o livro, as mais emocionalmente tensas são justamente as que falam da distância entre as posições de minorias sem a niggerização (gays, trabalhadores, feministas não-negras, subalternos pós-coloniais e afins: todos eles cúmplices e herdeiros da plantation) e os posicionamentos negros. Não pode haver analogia entre ambos. A antropogênese da utopia — espaço pelo qual o tempo é consumado num telos — não cede para a negritude. O negro não ganha a promessa de liberdade — ao contrário dos outros, humanos degradados — porque está em exílio, expropriado da narração: ele está morto e ao que está morto só persiste a errância.
 
Outra grande empreitada — mais estética — é quando Wilderson fala de representação dupla: no filme Parque da punição (1971), que estrutura, na forma doc, a dramatização entre uma mulher branca (Nancy Jane Smith) e uma referência negra (Charles Robins e a mulher do deserto). Ali, vemos a distinção ontológica entre consciente e inconsciente; ali, nas minúcias, o que não mente ganha em cima do que está na superfície (a intenção da narração, o apoio de Peter Watkins às lutas dos anos 1960). Existe uma substância que repele o óbvio na sua análise (no capítulo quatro. Marcado pela experiência de exposição crítica do filme no ambiente acadêmico, inclusive) e que é extremamente perigosa nessas constituições (como representamos, objetivamente ou não, os hábitos que não são humanizados, que estão numa lógica diferente da humanidade?).
 
É por isso que, revisando tudo o que foi dito até agora, o afropessimismo está além da teoria: é uma metateoria. Como essência de uma perturbação, vertigem de narrativas (a antropologia, a psicanálise, a teoria crítica, a literatura e outras coisas) sobre o negro, os afropessimistas — tendo como títulos também Jared Sexton e Saidiyia Hartman, ainda pouco divulgados no Brasil — exalam um quê de pessoal justo porque seus eventos de trauma viram reconsiderações. Aumentando o nível de abstração, restou a aporia. Interrogando, até o fim, as pontes de interrogação.
 
O niilismo negro, entretanto, não é quietista, liberal, conservador. Seu discurso alarga o que conhecemos, postula ideias nunca antes vistas e desmonta preconceitos. Se ele peca nas generalizações e nos exageros, é virtuoso no aspecto mais importante: faz o pensamento se mover. Uma das esferas disruptivas mais decisivas das últimas décadas, apontando para as questões não só raciais, mas culturais, econômicas e psicológicas. Seu manifesto, escrito de 2014 a 2019, é um chamado para pensar e, consequentemente, para agir.
 
Apêndice
 
[parte i] O corpo negro é batizado como subcorpo, carne pura. (Sob. Os. Outros.)
 
Basquiat, em Riding with death (1988), feito no mesmo ano da sua morte, ostenta a agudeza de uma “figura”" descentralizada cavalgando sobre um esqueleto. O engenho de Basquiat rondava — ao sublinhar a desumanização pelo artífice da incompletude — a colonização do corpo e da mente negra pelo fetiche, de tal forma “marcada pela angústia do abandono, do estranhamento, do desmembramento e da morte” (bell hooks).
 
Os homens brincam, deliram, propõem, argumentam e dispõem frente a frente com imagens mutiladas de seres outrificados por eles mesmos. Um artista negro como Basquiat encara seu ser não ao se desprender daquilo que verdadeiramente é, mas na intencionalidade de espelhamento: como, meu deus, sou constituído (em possessões de voodoo? Só ali me pertenço?). Frank B. Wilderson III resume simples e poeticamente esse fenômeno (que reitera a autopercepção de Basquiat):
 
para o Halloween lavei
meu rosto e vesti meu
uniforme      fui de porta em
porta como um pesadelo.
 
[parte ii] A insensibilidade é um clichê pós-modernista na representação negra por negros. Em 2018, Childish Gambino lança o trap This is America, no qual restitui a consequência desastrosa da exposição das mídias que retroalimenta o racismo, imitando os movimentos de dança à la Jim Crow enquanto o coro gospel e os ad-libs de seus parceiros da música harmonizam a canção.
 
This is America chega nos pontos limítrofes pelos quais a arte negra anglófona passou: pelo sarcasmo e as contradições da figuração do capitalist nigga, o que acontece quando nós imitamos o inimigo e rimos — percebam o chiste nas expressões dos rostos dos dançarinos no clipe — de nossas desgraças?
 
A nuance de pertencer ocasiona o choque de não afirmar.
 
America, I just checked my following list and
You mothafuckas owe me
[América, eu chequei minha lista de seguidores e/
Vocês estão me devendo, filhos da puta]
 
Dívida impagável.
 
F. W. III:
 
“Nossa resposta a esse cativeiro era tão variada quanto a miríade de escolhas que nossos ancestrais fizeram há centenas de anos naquele continente.”
 
Eu, um objeto. Eu, um sintoma.
 
Mas só eu posso derrubar o Mundus. Aqueles que estão na minha frente não têm pena; eu também não terei se por acaso chegar minha vez: quando as plantações pegarem fogo, eles também entrarão em chamas.

Comentários

Lurdes disse…
prezados,
gosto muito dos textos da equipe. mas, um pedido: revejam a cor dessa letra, coloquem um preto. tenho 63 anos, minha vista não é mais a mesma. uso óculos, ok, mas cansa uma cor como essa, para a leitura de textos tão grandes.
saudações.
Pedro Fernandes disse…
Olá, Lurdes.
Agradecemos o seu contato e a sugestão enviada. Buscaremos resolver isso.
Lurdes disse…
obrigada por responder, Pedro.
saudações.

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