Velhos demais para morrer: o passado que persiste, o futuro que se aproxima

Por Vinícius de Silva e Souza




 
Vinícius Neves Mariano constrói, em seu primoroso romance Velhos demais para morrer, uma narrativa cinematográfica sobre um futuro a caminho e um passado esquecido: no Brasil do futuro, onde a população idosa superou a jovem e adulta, não sobrou alternativa ao governo senão incentivar a eutanásia na população “sustentada”, de maneira a equilibrar aquela que é a mais importante balança de todas: a econômica.
 
Conhecemos a dimensão e as explicações sobre o mundo em que entramos através da trajetória de três personagens: Darren, Piedade e Perdigueiro. Entre o adulto em vias de alcançar a idade zero, a mulher de meia-idade grávida fugitiva e a pequena criança caçadora de idosos, o romance propõe um panorama aberto mas bem delimitado de uma distopia — sim, esta é uma ficção especulativa porque seu conteúdo lida não necessariamente com o possível, mas com o provável: afinal, sabemos que tanto no Brasil quanto em outros países, a conjuntura social será (ou tem se tornado) majoritariamente idosa.
 
O que faremos a partir disso?
 
A obra de Vinícius Neves Mariano possui muitos ecos de Fahrenheit 451, a também distopia de Ray Bradbury: o protagonista já inserido nesse mundo, participante ativo dele, logo começa a questioná-lo e a partir disso a se aventurar pelo outro lado da história. Montag aqui seria o equivalente tanto à Perdigueiro quanto à Darren, ambos membros ativos dessa sociedade nova. Eles a questionam, e juntos, formam um par equivalente com suas histórias paralelas. Quem escapa, de certa forma, dos paralelos à trajetória de Montag, é Piedade, mas mesmo nos capítulos do romance dedicados à personagem, a obra do escritor estadunidense se faz presente, como quando sua protagonista se depara com uma carteirinha de biblioteca e muda toda sua trajetória futura em busca de um grande amor do passado através de outro livro da literatura estadunidense, O sol é para todos, de Harper Lee.
 
Todo o tormento dos perseguidos, das vítimas, é trabalhado com Piedade e sua marcante passagem pela colônia de refugiados. Mesmo deixando-os ainda nos instantes iniciais da narrativa, há menções ao que viveu aí até o fim, deixando claro o quão marcante foi a experiência, o convívio com outros idosos. Aliás, isso aparece pelas três narrativas: Perdigueiro tem sua bússola moral recalibrada quando encontra um velho no paiol e Darren tem sua jornada guiada pelo sábio idoso chamado Professor. 

Não por acaso o contato com os idosos proporciona o questionamento e este é justamente um dos pontos do livro: a aproximação da terceira e última idade e os significados dela. Mesmo o pai de Perdigueiro revela, por fim, seu medo secreto, ao se perceber envelhecido a cada dia e cada vez mais próximo daquilo que caça. O mesmo ocorre com Darren, com sua jornada iniciando, não por acaso, no dia do seu aniversário. Nessa tríade de narrativas em lugares diferentes no tempo e no espaço, mas no mesmo mundo, o que une a todos é justamente o Futuro que se aproxima e do qual não há como escapar.
 
Vinícius Neves Mariano não desperdiça a oportunidade de se aproximar da escravidão e do racismo. Em sua profundidade, a aversão, o preconceito e ódio aos idosos ecoa o Brasil colônia escravocrata e o nosso persistente racismo contemporâneo. Há a fuga, como as dos escravos fugitivos; há milícias articuladas, como bandeirantes no Império, e como as que operam no Rio de Janeiro atual; há justificativa para o ódio, como em todos os momentos em que este reinou no mundo, com aval do Estado.
 
A narrativa, ágil e imagética, articulada em capítulos habilmente arquitetados, prende o leitor e não o deixa sem questionar a natureza humana, o envelhecimento, a morte e o “eterno retorno” de nossas relações como sociedade. A certa altura, Darren, diante da nossa história reflete: “uma das questões, talvez a mais contundente, era se tudo aquilo poderia mesmo, por definição da palavra, ser chamado de evolução.”
 
Uma das questões, talvez a mais contundente, abordada por este romance e que mais se destaca ao fim da leitura é esta: se estamos mesmo evoluindo. E se o quão distante de real é o que acabou de ser lido.


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Velhos demais para morrer
Vinícius Neves Mariano
Editora Malê, 2020
280 p.

Comentários

Lurdes disse…
gosto muito do título desse livro!
um belo texto, adorei as colocações.

saudações, pessoal.

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