A arte de fazer livros




Sem propagandas, mas nós leitores sabemos que os livros produzidos pela editora Cosac Naify têm algo além dos preços assombrosos: o esmerado zelo na composição de publicações que nos entregam quase livros-arte. É talvez a primeira vez que algo assim sofisticado, continuamente, se pratica no nosso pequeno e maltrapilho mercado editorial. O que chegou agora é um exemplo disso: Museu do romance da eterna (imagem), do escritor argentino Macedonio Fernández.

A obra que foi escrita ao longo de 48 anos e está entre as que influenciou a literatura de nomes como Julio Cortázar e Jorge Luis Borges ganhou enfim uma versão brasileira. O trabalho de tradução é de Gênese Andrade e o livro traz uma apresentação de Damián Tabarosvky - isto é, o zelo se repete ainda quando o assunto é oferecer um bom conteúdo, ou que chamaria, de livro de referência.

Mas, há outras peculiaridades: a identidade visual com que foi pensada sua própria forma. O livro está dividido em duas partes - uma, a do romance propriamente dito e, outra, uma série de prólogos e dedicatórias, que formam uma coleção de reflexões fragmentárias. Para um livro inusitado um projeto gráfico também inusitado.



“Partindo de um conteúdo tão específico e excêntrico, o projeto gráfico desta edição se propôs a interpretar algumas das digressões do autor sobre seu próprio livro. O volume, portanto, tem um aspecto inacabado: sem o refile lateral as páginas são sutilmente irregulares, lembrando uma pilha de papéis soltos e dificultando o folhear do leitor apressado.” 

Antes, a capa. Nela estão estampadas frases espirituosas em que Macedonio homenageia o Leitor de Capa, e sentencia que “capas-livros” são “a única esperança de um grande raio de ação da brilhante Literatura”.

Dela, completamente preenchida por texto, passa-se à guarda e ao miolo sem qualquer respiro, sem as convencionais páginas de rosto, falso rosto, sumário etc. - “Espero que o meu Editor não me exponha ao ridículo inserindo [no livro] folhas em branco [...]. Se há Crítica para o escrito, faço a do em branco [...]. Repudio como falsas todas as páginas brancas que se publiquem aqui como originais de minha assinatura [...]”, escreve Macedonio.

E quem explica todo esse processo é a diretora de arte da Cosac Naify, Elaine Ramos, que numa post para o blog da editora fala como o livro foi produzido e o porquê desse estilo que faz dele artefato de brincar. No mesmo blog também é possível ler um texto-resenha para a obra composto pelo escritor argentino Damián Tabarovsky.

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