Por Pedro Fernandes Não foi esse o primeiro livro do Gabriel García Márquez que tive a oportunidade de ler. Como também não foi Cem anos de solidão . Mas sobre o primeiro livro que li do escritor colombiano posso falar noutra ocasião. Para agora falo desse que é, sem dúvidas, um dos mais poéticos do romancista. É verdade que, quem leu o livro que deu ao escritor colombiano o título do Nobel (mesmo sabendo que o prêmio é dado pelo conjunto da obra, todos sabemos que há nesse conjunto “ o livro ” , aquele que marca o que chamaríamos de ponto alto na trajetória de todo escritor) - o já citado Cem anos de solidão - ao ler este Memória de minhas putas tristes perceberá logo um certo “ desnível ” quanto a arrumação linguística do texto. Deixe que eu me explique. É que aqui linguagem é límpida, sem certo barroquismo que se nota no seu estilo literário, o que não o faz, isso deve ficar claro, ser um menor entre os outros livros do conjunto da obra de Gabo. ...
Ilustração: T. Hanuka O sexo sempre esteve presente na literatura, embora nem sempre de maneira explícita. Há escritores que mergulharam em sua própria sexualidade como se a arte pudesse ser campo para um exercício psicanalítico e findaram por revelar a partir dessa intimidade o lado mais escuro sobre. Esta lista apresenta um conjunto de livros nos quais os escritores se desnudam, livros que dispensam o pudor para narrar cenas de elevado tom. Christine Angot, até o presente uma romancista francesa quase desconhecida no Brasil embora tenha sido autora de um livro chamado Pourquoi le Brésil ?, tem sido lida como uma das principais figuras que se filiam à tradição da qual faz parte nomes como o de Anaïs Nin. Em 1999, ela publica L’Inceste , a obra pela qual sempre tem sido lembrada, por se tratar de uma narrativa que recupera a relação incestuosa entre um pai e uma filha. Les Petits , outra obra sua, já inicia com uma felação sob o chuveiro que termina numa penetração anal an...
Por Pedro Belo Clara Afresco de uma jovem nomeada Safo. Pompeia, 55-79 d. C. Se passares por Creta 1 vem ao templo sagrado, onde mais grato é o pomar de macieiras e do altar sobe um perfume de incenso. Aqui, onde a sombra é a das rosas, no meio dos ramos escorre a água, e no rumor das folhas vem o sono. Aqui, no prado onde todas as flores da primavera abrem e os cavalos pastam, a brisa traz um aroma de mel. … Vem, Cípris 2 , a fronte cingida, e nas taças de oiro voluptuosamente entorna o claro vinho e a alegria. *** E de súbito a madrugada de sandálias de oiro. *** No ramo alto, alta no ramo mais alto, a maçã vermelha ali ficou esquecida. Esquecida? Não, em vão tentaram colhê-la. *** Vésper 3 , tu juntas tudo quanto dispersa a luminosa aurora, trazes a ovelha, trazes a cabra, só à mãe não trazes a filha. *** Desejo e ardo. *** ...
Antes de se “ estranharem ” na Europa. Ernest Hemingway e John Dos Passos. Flórida, 1928. Foto: Biblioteca JFK. Detalhe / Reprodução Há sempre uma polêmica que ronda o mundo literário com o nome de inimizade . Recentemente, depois da morte de Gabriel García Márquez, por exemplo, veio a lume a briga entre o escritor e Vargas Llosa num passado que, para o escritor mexicano, deverá ir consigo para a sepultura. Entre Ernest Hemingway e John Dos Passos também houve esse impasse de personalidades. Os dois são os principais nomes da chamada Geração Perdida na literatura estadunidense. Dentre as várias publicações sobre o caso, há até um livro editado no Brasil pela Difel, de Stephen Koch – O ponto de ruptura: Hemingway, John Dos Passos e o assassinato de José Robles . A polêmica é tamanha que chegou a ser um dos temas no Primeiro Congresso Internacional sobre Hemingway, realizado em junho de 1984 e, agora, volta a ser pauta entre os pesquisadores e toma nova forma c...
Por Lucas Pinheiro Rafael Sanzio. Escola de Atena , 1509-1510 (afresco/ detalhe) Estudar a arte é refletir a competência que o ser humano possui ao expressar alegoricamente o abstrato. E se existe um vínculo entre o sentimento, a comoção, e a obra, é possível assimilar tais vínculos entre a realidade da obra literária, e a realidade do autor — baseada naquilo que consideramos como nossa realidade, demarcada pela passagem do tempo histórico e convívio social, além de outros fundamentos que podemos enfatizar para evidenciar a realidade. Sintetizar esse primeiro conceito que foi abordado, é necessário para entendermos que a questão entre criador e criação não se aparta, porque o criador de uma obra é envolto por determinada fenomenologia para que seja possível a inspiração ocasionar a criação da obra, digo isso concernente às obras literárias, ilustrações, esculturas ou qualquer outra forma de expressão artística. Contudo, nesta análise da Poética, mais especificamente...
DO EDITOR Olá, leitores! Desde o dia 11 e até o dia 25 de janeiro estão abertas as inscrições de candidaturas para novos colunistas no Letras . Se você escreve sobre livros, literatura e áreas afins e quer participar do nosso projeto, saiba por aqui todas as informações necessárias de como enviar a sua proposta. E, para não perder o costume, relembro que na aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto. A sua ajuda continua essencial para que permaneçamos online. Ah, a nossa programação de encontros diários e as edições completas deste Boletim regressam a partir de 26 de janeiro. E eis outra novidade: o Letras conta agora com um grupo no WhatsApp. Se você quiser aderir para ser um dos primeiros a receber esta e outras publicações, a exemplo do que já acontece no Telegram, então o caminho é por aqui . Lisa Ridzén. Foto: Gabriel Liljevall LANÇAMENTOS Um romanc...
Com licença poética Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada. Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir. Não sou feia que não possa casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor. Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos — dor não é amargura. Minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou. “ Uma das mais remotas experiências poéticas que me ocorre é a de uma composição escolar no 3º ano primário, que eu terminava assim: Olhai os lírios do campo. Nem Salomão, com toda sua glória, se vestiu como um deles... A professora tinha lido este evangelho na hora do catecismo e fiquei atingida na minha alma pela sua beleza. Na primeira oportunidade aproveitei ...
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