Fragmentos completos, de Safo

Por Pedro Fernandes





O título estabelecido para o que se conhece da poesia sáfica aparece preso no centro de uma contradição. Se o fragmento é indiscutivelmente a incompletude, logo a designação de sua completude é uma aporia. Quando muito, a ilusão do alcance de uma totalidade. Agora, nem toda contradição ― é bom que se diga em tempos de falsas certezas e questionáveis absolutismos ― é negativa. E o caso em questão é um exemplo disso.
 
Restou pouquíssimo da lírica grega. Sabemos do valor imprescindível alcançado pela epopeia e pela tragédia ― e mesmo pela comédia ― das quais chegaram até nós dois vários textos que implicaram a formação de toda a literatura ocidental. Mas da lírica, originalmente feita para o canto acompanhado da lira ou algum instrumento similar, quase nada restou. Entre Alceu de Mitilene, Anacreonte, Álcman, Baquílides, Estesícoro, Íbico e Simônides, dois nomes se fizeram mais conhecidos e não pela vultuosidade dos materiais encontrados: Píndaro e Safo. Do primeiro, o que restou é possível colocar na conta da história: extensa parte de sua lírica é celebrativa e aparece relacionada aos sucessos dos heróis nas várias competições então praticadas.
 
Da segunda, o pouco que restou foi mesmo obra do acaso e os fatores do milagre são muitos: é a poesia estabelecida por uma mulher ― não que isso fosse proibido em Mitilene de Lesbos, mas sabemos da longa interposição dos papéis masculinos na Grécia antiga e consecutivamente na história das civilizações seguintes; é uma expressão que, embora pratique seus jogos de celebração, aparece destituída do peso de importância histórica, uma vez privilegiar àquelas situações do convívio comunitário e o estabelecimento modelar de uma observação íntima do mundo, a memória, o prazer, o amor, a solidão, a velhice, a morte e a imortalidade poética, parte disso reelaboração de matérias literários anteriores outra parte produto de uma expressão inovadora.
 
No texto de introdução aos Fragmentos completos, o organizador e tradutor da antologia, Guilherme Gontijo Flores propõe um exercício fundamental para a sobrevivência da poesia de Safo que podemos estender para a leitura de outras poéticas antigas sobretudo as estabelecidas na oralidade. É a indistinção da figura cívica. Para ele, não é necessário acreditarmos que seja verdadeiramente de Safo o que agora conhecemos como sua obra: “pense que os poemas, estes poemas sáficos, tiveram sua vida pela Grécia sob o nome de Safo e que, em geral, quem cantasse qualquer um deles teria,  inevitavelmente, de incorporar Safo, torna-se Safo por um átimo, tal como diz Gregory Nagy que o aedo que cantava Homero tornava-se Homero enquanto cantava, ou tal como o jogral provençal precisa tornar-se o autor / trovador, muitas vezes seu senhor, o autor da cansó que ele mesmo canta, enquanto canta. Porque no mundo oral não há como estancar o canto, e Safo só pode ser Safo porque muitos corpos cantaram poemas que remetiam ao corpo de uma Safo; porque muitos corpos cantaram tornando-se essa Safo autoral, mesmo que o poema cantado nunca tenha passado efetivamente pela Safo biográfica, ou que tenha vindo até de muito antes do período arcaico e o tenha atravessado, talvez via Safo.”
 
Quer dizer, quanto mais buscamos alcançar o tempo original mais nos afastamos de quaisquer certezas, ainda que essas não deixem de ser também questionáveis no nosso tempo. Safo participa, dessa maneira, de um enredo cuja forma é naturalmente literária, uma vez cobrar o estabelecimento de uma urdidura ficcional ou dramática para a composição de sua biografia; depois, a manutenção de sua existência como um vozeamento manifestado apenas nas correntezas dos desígnios textuais que a soltam e a escapam; e, por fim, autoria e obra expressas pelo fragmento, o que há de mais original nas bases de estabelecimento da criação. A poeta encontra-se circunscrita numa dimensão quase mítica e, somadas as qualidades até agora citadas, só é possível de ser apreendida pelo campo especulativo. A bibliografia sobre sua figura e sua obra é vastíssima, afinal, um enigma é sempre motivo do interesse curioso, e por isso, se impõe a todo estudioso a escolha por uma das múltiplas linhas de leitura.
 
Algumas coisas, entretanto, estão assentes. A determinação da autoria como uma utopia e mesmo a existência de uma Safo que terá vivido na segunda metade do século VII a.C. e de quem a obra começa a ser reparada ainda pelos críticos alexandrinos, os que primeiro tentaram compilar os nove volumes da sua lírica. E são esses os elementos fundamentais para a constituição do que podemos designar, por mais contraditório que pareça, universo sáfico. É a partir disso que estudiosos estabelecem seus lugares de mobilidade especulativa, uma vez que tudo o mais falta: convicções sobre sua vida e do contexto em que se forma sua figura, principalmente. Ou seja, Safo nos obriga a reparar na falibilidade do histórico e sobretudo do biográfico na leitura de uma obra, uma vez nos restar apenas o parco material textual.
 
A proposta de leitura oferecida por Guilherme Gontijo Flores, de Safo como uma voz desencarnada e etérea, feita talvez apenas de um nome que se perpetuou em várias bocas até nós como um sopro, aponta já o quanto as descobertas vão revelando o que de não-Safo prevalece entre sua suposta biblioteca. David A. Campbell em Greek Lyric. Sappho and Alcaeus admite que dos duzentos e treze fragmentos atribuídos à poeta mais da metade são coligidos de testemunhos ou paráfrases a outros textos antigos. Destes fragmentos, apenas um chegou até nós completo e pouco mais de uma dezena oferece alguma estrutura literária e desses apenas quatro são mais ou menos manipulável.
 
O poema completo é um texto celebrativo a Afrodite. Embora pouco comentado entre os autores antigos, segundo Sofia de Carvalho, em Representações e hermenêutica do eu em Safo, o fragmento se manteve preservado graças ao tratado Sobre a composição literária composto por Dionísio de Halicarnasso, um historiador e crítico literário grego na Ásia Menor que transcreveu o texto num exercício de ilustração acerca do paradigma da harmonia retórica na poesia lírica. É dele também o comentário mais antigo sobre o poema. A autora explica que: “Na supracitada obra, Dionísio de Halicarnasso ocupa-se, precisamente, da análise da ordem das palavras no Grego e da sua importância na construção de quadros emocionais conseguidos através do jogo de sons e sentidos, capazes de prender a audiência, quer pela beleza do modo como se diz, quer pelo próprio sentido dado ao que é dito pela manipulação sonora e significante do mesmo.”
 
O “Hino a Afrodite” é então designado o fr.1. Os outros quatro são: o fr.31, salvo graças à sua citação em De Sublimitate, de Pseudo-Longino, é descrito de forma quase unânime entre os estudiosos da poesia sáfica como um texto de ressaltada beleza e que tem como objeto poético o corpo e nele as manifestações do arroubo amoroso pela especulação do amor alheio ou do ciúme; o fr.16, a chamada “Ode a Anactória”, encontrado entre os Papiros de Oxirrinco ― de onde provém boa parte do que se conhece da obra de Safo. Neste, dentre os temas até agora evidenciados, o eu-poético lida com a problemática definição do belo.

Aos dois, acrescenta-se o fr.58C, resultado de uma descoberta 2004. Este é o mais antigo papiro da obra de Safo; remonta ao século III a.C. e nele, o eu-poético exprime a velhice e as implicações da passagem do tempo sobre o corpo e a possibilidade de eternidade alcançada pelo poeta ao permanecer lembrado e celebrado mesmo depois da morte. É também conhecido como “Poema Titono”, pela menção que o texto estabelece com o mito grego de Aurora e Titono; a deusa pede a Zeus pela imortalidade do príncipe troiano e uma vez concedido o pedido, por sua própria incongruência, o amado continua a envelhecer pela eternidade.
 
Entre as mais recentes descobertas da obra da poeta grega estão as apresentadas em 2014, quando foram trazidos a público os fragmentos de nove poemas, seis deles já conhecidos e o restante ainda inédito. Desses, o texto que mais chama atenção pela preservação e pelo conteúdo ― a rara presença do traço histórico-biográfico na lírica sáfica ― é o fr.26A, designado como “Poema dos irmãos” pela menção textual aos irmãos Caraxo e Lárico. Até então, o que se sabia da família de Safo se restringia ao chamado Testimonia, textos de forma variada escritos por autores que tiveram maior proximidade com a obra da poeta. No caso de Caraxo e Lárico, por exemplo, os dois são referidos em Ateneu, um escritor grego da Roma Antiga. Assim, o fr.26A, um poema de corte mais historiográfico que literário, é o primeiro que oferece explicitamente uma referência familiar a partir da obra da própria poeta e o texto, integrante do Livro I, se junta ao pequeno conjunto dos fragmentos mais bem preservados.
 
Os Fragmentos completos se apresentam, tal como informa o tradutor e organizador do livro, como uma possibilidade oferecer entre nós um livro tal como os editores modernos têm concebido o que se imagina da edição helenística de Safo e por isso todas essas recentes descobertas citadas acima foram traduzidas e apresentadas nesta edição, além de ser uma tradução que “almeja recriar uma potencialidade da voz perdida, dar à voz Safo.”
 
A antologia refaz a imagem do que é a obra de Safo. Se fosse o caso de representá-la visualmente num desses arrojados projetos feitos para a internet, pensaríamos como uma extensa página em branco em constante modificação, visto se preencher pelos sinais que, supostos ou não, o tempo alguma vez se encarrega de devolver e ora duplica, ora apaga, ora reescreve, ora acrescenta, num jogo infinito de possíveis. Como se a poeta ainda agora estivesse no seu laboratório de criação. Sofia de Carvalho disse no já referido texto aqui citado que lendo “o que resta da obra de Safo, sentimos inevitavelmente que nos encontramos nos escombros de um colosso poético, quer pela sua forma (apreciada e reapreciada pelos autores antigos), quer pela concretização imagética e temática.”
 
Aos nossos olhos esse pequeno campo de palavras, frases, textos possíveis, feito da variável sinalética e da disposição visual do material verbal nos lembra muito das invenções poéticas nos últimos séculos ― ora os nossos concretistas afeitos à codificação poética ora os poetas do nosso tempo afeitos à brevidade da enunciação poética ― e ao mesmo tempo que recobramos a presença da poeta grega notamos como as nossas poéticas contemporâneas são sintéticos quando tomadas diante do colosso sáfico. Isso tem qualquer coisa de demoníaco e oracular: estamos condenados à vertiginosa voz de Safo, situada no passado, determinando o presente e já muito à frente, num futuro que ainda nem sabemos se alcançamos.
 
É evidente que o emprego dos termos Fragmentos completos diz sobre uma intermitência, expressa o que se sabe até agora do conteúdo da biblioteca de Safo, isto é, trata-se de um livro que reúne sob um mesmo ponto de vista criativo ― afinal, toda tradução é isso ― os fragmentos até agora conhecidos. E como falamos sobre Safo e sua obra como se falássemos de um criador do nosso tempo sobre o qual podemos determinar as fronteiras da sua criação, quer dizer, esquecemos de todos os possíveis envolvidos no drama autoral e lidamos como se uma verdade, qual o campo da ficção, não deixa de ser os Fragmentos completos o gesto que melhor sintetiza a utopia da totalidade na literatura.

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