Hermann Broch, subvalorizado

Por Roberto Ruiz de Huydobro

Hermann Broch. Foto: Imagno, 1937.


 
Hermann Broch é um escritor pouco conhecido e pouco valorizado. No entanto, a sua obra tem méritos suficientes para o reconhecer como membro desse grupo de criadores (do qual fazem parte, por exemplo, Franz Kafka e James Joyce) que realizaram, nos primeiros anos do século XX, uma renovação radical do romance.
 
Nasceu em Viena em 1º de novembro de 1886. Sua dedicação integral à literatura só ocorreu em 1928, após deixar o que até então fora sua profissão: diretor das fábricas têxteis de sua família. Em 1938, após a ocupação da Áustria pelas tropas de Hitler, foi preso pela Gestapo, na prisão de Alt-Ausse. A detenção durou apenas cinco semanas, graças aos esforços feitos por alguns de seus amigos (James Joyce, Stephen Hudson e Edwin Muir). Depois de recuperar a liberdade, emigrou para a Inglaterra e, pouco depois, para os Estados Unidos, onde reside desde então. No seu país de exílio obteve várias bolsas para poder continuar o seu trabalho literário (por exemplo, do Oberlaender Trust na Filadélfia e da John Simon Guggenheim Memorial Foundation). Ele morreu em New Haven, Connecticut, em 30 de maio de 1951.
 
Seu primeiro grande trabalho é a trilogia Os sonâmbulos, publicada entre 1931 e 1932. Cada um dos três volumes que a compõem é focado em um personagem e localizado em uma época específica de seu país. A primeira parte é intitulada Pasenow ou Romantismo; a segunda, Esch ou anarquia, e a terceira, Huguenau ou objetividade. No seu conjunto, a trilogia reflete as transformações ocorridas na passagem do século XIX para o século XX: o declínio dos valores tradicionais da moral e da cultura em que se baseava a sociedade oitocentista. Essas transformações, ou evolução, se refletem, individualmente em cada parte da trilogia, por meio da história pessoal das três personagens centrais: Pasenow, o romântico que se refugia na nostalgia; Esch, o anarquista que se projeta na rebelião, e Huguenau, um realista e oportunista, que representa o triunfo dos novos valores sociais.
 
Formalmente, os dois primeiros romances têm estruturas narrativas tradicionais. O terceiro, por sua vez, combina trechos em versos e ensaios com uma narrativa estruturada em diferentes planos, o que constitui uma primeira amostra do que chamava de romance poli-histórico ou polímata.
 
Sua obra principal, A morte de Virgílio, foi publicada em 1945. Narrado na terceira pessoa e com poucos episódios externos, o romance é, essencialmente, um longo monólogo do poeta moribundo, que percorre suas últimas horas de vida, nas quais ele cai em um estado a meio caminho entre a consciência e a inconsciência. Virgílio chega a Brindisi após uma viagem à Grécia. Ele fez a viagem a bordo de uma esquadra imperial. É saudado pela multidão com grande júbilo e levado ao palácio do imperador Otaviano Augusto.
 
No dia seguinte recebe a visita de dois amigos seus, Plocio Tucca e Lucio Vario, com quem fala sobre diversos temas, especialmente arte e literatura, e a quem manifesta a intenção de queimar o manuscrito da sua obra Eneida, já que ele considera ter o atributo de beleza, mas carece do fundamental: conhecimento, verdade (“A Eneida é indigna, sem verdade, nada mais que bela”, declara Virgílio em um ponto. E depois: “É terrivelmente incompleta! Tenho que destruir o que carece de conhecimento!”). Após a visita do médico da corte, Otaviano Augusto chega. Consegue convencer o poeta a salvar a obra, e Virgílio a entrega como um gesto de amor ao imperador. Mais tarde, morre. Para além da trama, a essência do romance são os reflexos internos de Virgílio, em que o presente e o passado, o sonho e o despertar, o tangível e a alucinação se fundem. O poeta analisa meticulosamente seu ambiente físico e mental, questionando-se sobre a possibilidade de conhecimento e as funções da poesia e da arte na sociedade.
 
A morte de Virgílio é um longo poema em prosa, barroco, delirante como o próprio Virgílio antes de morrer, escrito como uma investigação aprofundada das possibilidades da linguagem e como um desafio às normas da narrativa tradicional. Hermann Broch faz neste romance uma combinação magistral de reflexão lírica, filosófica e análise psicológica, cujo resultado é uma das obras essenciais da narrativa do século XX.
 
Em 1950 publicou Os inocentes, formado pela combinação de alguns de seus primeiros contos com os posteriores, criando um romance que ele mesmo chamou de “um romance em onze contos”. Nele se entrelaçam as histórias de vários personagens: por exemplo, Hildegard, fria, calculista e inescrupulosa baronesa; Andreas, um jovem burguês, rico graças ao negócio dos diamantes e amante da vida fácil, que renunciou à sua responsabilidade moral perante a sociedade, e Zacaríias, professor de matemática medíocre, sem critérios próprios e, portanto, capaz de aderir ao nacional-socialismo apenas porque é uma ideologia em ascensão, quando antes era social-democrata. Situado em uma pequena cidade da Alemanha pré-Hitler, o romance oferece uma visão da situação social existente no período histórico durante o qual a narrativa se desenvolve e constitui um apelo contra aqueles que abriram caminho para o nacional-socialismo e contra aqueles que se comportaram no um caminho indiferente à barbárie que trouxe consigo.
 
Os romances citados (os principais entre os que escreveu) têm duas características comuns: o uso de uma grande variedade de recursos técnicos e a abordagem metafísica da realidade (a experiência de vida tem uma dimensão metafísica essencial, e nela há uma abordagem da realidade do mental).
 
Além de romancista, Hermann Broch foi também ensaísta (por exemplo, Poesia e Pesquisa, publicado postumamente, em 1955), dramaturgo (por exemplo, Os negócios do Barão Laborde, de 1934), de contos (por exemplo, Partir com brisa leve, de 1933) e um volume de poemas (Cantos, de 1913, quando ainda escrevia apenas esporadicamente). Foi um homem culto, um intelectual com personalidade orientada para o conhecimento aprofundado do mundo e um grande escritor, que merece ser reconhecido como um dos principais criadores do romance moderno.


* Este texto é a tradução de “Hermann Broch, infravalorado”, publicado aqui, no jornal El País.

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