Uma pequena biblioteca modernista

Caipirinha. Tarsila do Amaral. Óleo sobre tela, 1923.



Em “A Semana de Arte Moderna de 1922. Revisitações”, Pedro Fernandes sublinhava que a melhor maneira de compreender o papel para a literatura brasileira do agora evento centenário consistia em ler a obra dos modernistas em diálogo com seus antecedentes e com as influências que negaram ou buscaram se desviar. Ora, essa observação válida para quaisquer conceitos ou aparelhos crítico-teóricos derivados da literatura ou que se preocupe pensar o texto literário, pode ter levado o leitor a se perguntar quais são essas obras. Foi dessa inquietação que pensamos preparar uma lista de leitura com alguns atalhos para o nosso curioso leitor.
 
A primeira dificuldade foi estabelecer um recorte capaz de abrigar um número significativo de obras da literatura brasileira possíveis de filiarmos aos pressupostos da Semana. Isso porque, a parte significativa da produção literária naturalizada nessas diretrizes — isto é, sem demonstrar certo didatismo formal ou temático — melhor se vislumbra uma década depois do evento em São Paulo. Exemplo básico, é Alguma poesia, de Carlos Drummond de Andrade.
 
Mas o problema não se encerra com essa constatação. Talvez comece com ela. No balanço que faz por ocasião das duas décadas sobre a Semana de 1922, Mário de Andrade entende que os destinos do que apenas poderia se passar numa cidade provinciana nos costumes e avançada nas ideias como São Paulo nada rendeu de continuidade, que os rumos da nossa literatura e das demais artes caminhariam para o moderno mesmo sem o evento do qual participou, segundo ele, contaminado pelo espírito dominante, e sem a existência de um movimento modernista. Mesmo assim, é possível pensar que desde o seu estopim, se acelera a formação de uma consciência estético-formal da criação e tudo o que se produziu de inventivo ou inovador ou ainda centrado numa ideia do novo passou a ser depositado no rol de um movimento, formando-o, alargando-o para uma condição de permanência na literatura.
 
A lista aqui apresentada não esgota, obviamente, os contornos do modernismo no Brasil porque antes da grita dos paulistas, sabemos, tais linhas começavam a se fazer visíveis em vários recantos a partir do contato com a força das vanguardas europeias e expandiram, como dizíamos, para fora das margens da primeira década com constâncias em vários outros poetas e prosadores. Mesmo assim não fomos muito longe. São escassas fontes primárias e a produção de alguns escritores, sobretudo os fora do programa da semana. O recorte aqui apresentado se firma entre o período imediatamente posterior ao evento de 1922 e segue até o final dos dez primeiros anos. Com isso, buscamos escapar da ideia de geração, muito comum para uma didatização da nossa historiografia literária e do fechamento redutor que opõe um moderno Sul contra um regional Norte.
 
O próprio Mário de Andrade, que cunha a ideia de três fases para o movimento modernista brasileiro, assinala o fim da década de 1920 como o “período destrutivo e festeiro do movimento modernista” e o aparecimento de uma literatura mais rica e interessante que a produzida nos alvores do modernismo paulista. Mas tudo aqui ignora a ideia rasa de um evolucionismo da literatura, para atender ao diverso pela inovação criativo-inventiva, seja temática, seja estético-formal.  
 
Alguns títulos poderiam aparecer nesse pequeno recorte, mas há casos (e sabemos que não poucos) que a obra aparece esgotada ou mesmo desconhecida. Isso acontece com títulos como o livro mais conhecido de Bruno de Menezes, Batuque; apesar de publicado fora das fronteiras temporais aqui delimitadas — é de 1939 — parte dos seus poemas foi apresentada em periódicos filiados ao espírito modernista. Esta é considerada a primeira obra poética afro-brasileira, antecipando-se no temário da negritude; Menezes expõe hábitos e costumes do preto no Brasil. Foi este o autor a introduzir as linhas de contato entre o fazer literário no norte do país e o contexto modernista no sudeste que se irrigava aos poucos pelas aberturas propiciadas pelos dutos das vanguardas; para isso esteve à frente de várias atividades de promoção e feitura dos novos escritores, como a criação da revista Belém Nova e, antes de uma vanguarda denominada “Vândalos do Apocalipse”, mais tarde convertida em “Peixe Frito”, grupo do qual fez parte nomes como Dalcídio Jurandir.

Bom, vamos à lista! 
 
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Pauliceia desvairada, de Mário de Andrade (poesia, 1922). Pode-se compreender este livro e o romance do mesmo autor, Macunaíma (1928) como pedras de fronteira entre o início as transições que se oferecem com o movimento paulista. Além do conjunto de 22 poemas curtos, cada um com a imagem de segmento da vida urbana de São Paulo, chamam atenção outros dois textos que metaboliza os ideais do modernismo um — o “Prefácio interessantíssimo” — e funciona como um tratado visionário, “As enfibraturas do Ipiranga”. Este texto, assim como alguns outros poemas, já existia antes do evento de fevereiro de 1922 e parece antecipar o roteiro dos embates entre tradição e modernidade que se mostrariam melhor a partir das reações à Semana.
 
Enervadas, de Chrysanthème (romance, 1922). O nome da autora que aqui se leu é o pseudônimo da carioca Cecília Moncorvo Bandeira de Melo Rebelo de Vasconcelos. O livro transborda os ideais sociais e políticos do final da efervescente primeira década do século XX. Em forma de diário, o romance questiona a categoria então elaborada pela ciência para classificar as mulheres insatisfeitas. Lúcia conta sua vida amorosa, sexualmente livre, numa sociedade marcada entre as formas de exploração e de domínio do homem e as alternativas de uma vida social intensa, graças à insatisfação da mulher no burburinho da cidade. Você pode comprar o livro aqui.
 
Memórias sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade (romance, 1924). O estilo que será adotado doravante na ficção e na poesia do escritor paulista se faz da aprendizagem dos recursos das vanguardas, copiados aqui na feitura de um romance fragmentado e integrado ao fazer da desmontagem e remontagem. Nesse último caso é notável a dupla reapropriação de um modelo de romance recorrente na nossa literatura desde o romantismo e ainda de um tipo de escrita íntima dominante entre os das classes abastadas, que se dedicaram a compor suas próprias biografias manuscritas ao sabor da eternização de suas vidas. João Miramar é, aliás, um herdeiro da cultura do café, fascinado pelas coisas estrangeiras e alheado do cotidiano brasileiro. Você pode comprar o livro aqui.
 
Pau-Brasil, de Oswald de Andrade (poesia, 1925). Junto com este livro poderia aparecer aqui também O caderno do aluno de poesia, publicado dois anos depois, mas esse inaugura a presença do escritor na cena da poesia. Com o livro publicado pela editora parisiense Au Sans Pareil, funda-se um derivado do chamado movimento Poesia Pau-Brasil, uma das várias derivações que o escritor deu a conhecer a partir da Semana de 1922. Ilustrado por Tarsila do Amaral e descrito à primeira vista como uma tentativa de libertação do verso, Oswald se beneficia outra vez de uma série de recursos copiados das vanguardas; além da fragmentação, a desmontagem e remontagem, o ready made, a paródia etc.
 
Pathé-Baby, de Antônio de Alcântara Machado (crônica, 1926). O tema da viagem é restaurado entre os interesses modernistas: seja para a subversão das grandes navegações, seja para tratar dos trânsitos metamórficos de identidades, seja para o encontro com as paisagens de um recente passado esquecido do país. Machado reaproveitaria a estratégia criativa desse livro no seu famoso Brás, Bexiga, Barra Funda, publicado no ano seguinte. Apresentado por Oswald de Andrade, Pathé-Baby se utiliza de um estilo telegráfico; qual a câmera comercializada pela indústria francesa Pathé a partir de 1922, ele oferece vários fotogramas de uma viagem turística pela Europa a partir de uma recolha de oito meses de quando ficou fora do Brasil. O tecido verbal é interceptado pelas estampas do artista plástico modernista Antônio Paim Vieira. O livro reúne vinte e três capítulos que correspondem às cidades visitadas pelo viajante e começou a tomar forma quando Machado passou a publicar no ano de 1925 uma série de crônicas — ou cartões-postais — no Jornal do Comércio de São Paulo.
 
Livro de poemas de Jorge Fernandes (poesia, 1927). Um dos primeiros frutos do diálogo que se estabelece entre os autores modernistas fora do eixo São Paulo—Rio de Janeiro. A concepção do livro foi de alguma maneira acompanhada por Mário de Andrade por através de Câmara Cascudo, primeiramente, e pela leitura e resenha feitas pelo poeta paulista que chegou a visitar o Rio Grande do Norte. O trabalho do poeta potiguar se desenvolve na zona de confronto entre a tradição e a modernidade, marcada aqui pelo advento da máquina, como o carro e o avião, e a ruptura com o esteticismo da poesia parnasiana. Além de todas as inovações, a obra de Jorge Fernandes aqui recomendada — falamos sobre a primeira edição — se utiliza do mesmo recurso gráfico de Oswald de Andrade em Primeiro caderno do aluno de poesia: um livro-caderno publicado no mesmo ano. 
 
Catimbó, de Ascenso Ferreira (poesia, 1927). Este foi o primeiro livro do poeta pernambucano; publicado graças ao incentivo de Manuel Bandeira. Apesar de reduzidos ao conceito de regionalista pelo tratamento local dos temas cantados, uma marca do interesse do poeta pelo folclore nordestino, sabe-se que os poemas desse livro inovam no uso dos ritmos e dos recursos poéticos, centrando-se o tratamento, muitas vezes, numa consciência sobre a linguagem enquanto matéria criativa. Esse estratagema poético de Ferreira se prolonga por outros dos seus conhecidos livros, seja Cana Caiana (1939), seja Xenhenhém (1951). Você pode comprar o livro aqui.
 
Macunaíma, de Mário de Andrade (romance, 1928). O livro que trouxe por subtítulo “O herói sem nenhum caráter” é propositivo sobretudo no interesse formado entre os modernistas de constituição de uma literatura que falasse a língua de seu povo. Mário de Andrade se apropria de uma fábula indígena coletada pelo etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg e faz dela o fio central da sua rapsódia. No seu entorno agrega elementos e histórias do imaginário africano, brasileiro e europeu coletados do vasto manancial que começa a cultivar desde sempre no seu interesse nos estudos sobre o Brasil e suas raízes. Dos livros aqui citados, este é o mais radical, pela maneira como articula vocabulários diversos na composição de uma linguagem experimental que exige do leitor um tratamento criterioso para seu acesso. Você pode comprar o livro aqui.

Martim Cererê, de Cassiano Ricardo (poesia, 1928). O livro integra uma das várias correntes derivadas da Semana de Arte Moderna — a ufanista Verde-Amarelo, de perigosos tons nacionalistas. O poeta recupera a figura do índio, numa certa dívida para com o indianismo do execrado romantismo pelos modernistas. O livro articula uma variedade de linguagens que ora ressaltam o traço poético ora intenta construir uma narrativa em que dão contas da competição amorosa entre o índio Aimberê e o marinheiro branco Martim, ambos apaixonados pela Uiara. O texto verbal se mistura aqui com as ilustrações de Di Cavalcanti formando quase uma novela gráfica que retrata os esforços desses dois amantes em busca de agradar a amada. Martim Cererê é produto de um experimentalismo cujas bases remontam ao convívio do poeta com o grupo literário Anta que, buscava, dentre outras atividades, estudar a cultura dos indígenas como base de autenticidade americana. Com o livro, Cassiano Ricardo busca redescobrir a própria história de formação do Brasil. Você pode comprar o livro aqui.
 
Libertinagem, de Manuel Bandeira (poesia, 1930). O poeta pernambucano é sempre lembrado pelo poema “Os sapos”, lido na segunda noite da Semana de Arte Moderna; o episódio também é motivo para a recorrente falsa afirmativa de que Bandeira se fez presente no Teatro Municipal de São Paulo nessa ocasião — na verdade foi de Ronald de Carvalho a incumbência da leitura do texto. O poema não está na obra aqui citada; ele data de 1918 e foi publicado um ano depois em Carnaval, um livro que, junto com O ritmo dissoluto (1924) já era marcadamente modernista. Neste, por exemplo, Bandeira se mostra senhor do verso livro e interessado por fotografar o cotidiano da cidade ou os tipos populares. Mas é com Libertinagem que o poeta, e não apenas os versos, está muito à vontade com os movimentos da lírica livre: é deste livro poemas como “Cacto”, “Pneumotórax”, “Evocação do Recife”, “Profundamente”, para citar alguns dos seus melhores poemas. Você pode comprar o livro aqui.
 
Alguma poesia, de Carlos Drummond de Andrade (poesia, 1930). O poeta que já nasceu gauche, portanto, legitimamente moderno e se isso não fosse pouco, se apresentou uma voz segura e ciosa do seu ofício. O mineiro da Revista Verde, periódico que buscou alargar o ideário de 1922 para o interior do país, fez-se quase aprendiz de Mário de Andrade, mas, como bom aprendiz, herdou nada do mestre e, na poesia, ultrapassa-o. É neste livro que se encontra alguns dos poemas mais lembrados da literatura brasileira: “Poema de sete faces”, “Cidadezinha qualquer”, “Quadrilha”, “Balada do amor através das idades” — alguns desses passados pelas páginas das revistas modernistas também dos paulistas e divisor de águas na nossa poesia, como o célebre “No meio do caminho”. Você pode comprar o livro aqui.
 
Cobra Norato, de Raul Bopp (poesia, 1931). O livro é um dos primeiros resultados da aproximação dos modernistas com a geografia e a cultura do Norte do Brasil. Concebido quando seu autor cursava um dos anos do curso itinerante de Direito em Belém, o poema ficou sendo também seu principal contributo para o modernismo, visto que essa concepção antecede ao acontecimento de 1922, ainda que uma primeira edição do livro só aconteça no início da década seguinte quando Mário de Andrade já fizera esse demonstrativo público com Macunaíma. Trata-se de um texto de filiação aos mitos amazônicos que incorpora elementos da oralidade regional na depuração de um estilo marcadamente sintético, sincopado. Você pode comprar o livro aqui.
 
Bônus
 
Cocktails, de Luis Aranha (poesia, 1984). Os poemas reunidos neste livro organizado por Nelson Ascher e Rui Moreira Leite datam de 1920 e alguns foram lidos pelo autor na segunda noite da Semana de 1922. Luis Aranha publicou quatro deles na revista Klaxon no mesmo ano e o restante do material para composição da edição, incluindo um desenho com projeto de capa rabiscado pelo autor, foi entregue a Mário de Andrade e permaneceu nos arquivos do escritor. Foi este o único trabalho de Aranha com a literatura, logo abandonada pela carreira diplomática. No prefácio que compôs para a edição, Ascher sublinha que os três poemas longos “Drogaria de éter e de sombra”, “Poema Pitágoras” e “Poema giratório” são as maiores realizações do poeta paulista: “Estes três poemas são excelentes e inteiramente originais. Nada há de parecido com eles na literatura brasileira.” Ainda que estes tenham, conforme diz, “como ponto de partida uma poética mais ou menos tradicional, tributária do tardo-simbolismo e de penumbrismo contemporâneos”, o autor também produziu uma série de outros poemas genuinamente modernos e bem conseguidos: é o caso de textos como “Tico-tico”, “Minha amada”, “Cocktail”, “Telegrama”, “Poema pneumático”, “O aeroplano”, “Vagalume”, “Estrelário”, “Epigrama à lua”, “Passeio”, “Paulicéia desvairada”, “Crepúsculo” e “Projetos”.
 

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