Mihály Babits. Entre a arte pela arte e o compromisso político

 

 
As letras húngaras têm uma importante tradição de poesia social e politicamente engajada. Um dos expoentes dessa poesia é um contemporâneo de Babits, Endre Ady, figura reverenciada da nação, além de personagem profundamente odiado por aqueles que nele viam como nada mais que a imagem de um traidor da pátria, de sua língua, de sua cultura e de suas tradições poéticas. Ady, personagem de destaque no círculo da revista Nyugat, órgão que representava uma estética progressista, ligada às tradições europeias, foi sem dúvida um poeta político e combatente que rompeu radicalmente com as tradições estéticas e morais petrificadas do passado. Babits, por sua vez, também ligado a Nyugat, iniciou sua carreira como poeta distante da política e das questões sociais, grande devedor e admirador das tradições e do espírito humanista. No entanto, as reviravoltas da história o forçaram a mudar de atitude.
 
Nascido em Szekszárd, Babits estudou Filologia Clássica e Francesa na Universidade de Budapeste, onde conheceu jovens poetas de sua geração, como Dezső Kosztolányi e Gyula Juhász, que mais tarde se tornariam parte do movimento que se desenvolveu em torno da Nyugat. Nos seus anos de universitário, publicou sua poesia e traduções literárias desde seus em diferentes revistas e, após o lançamento da revista Nyugat, logo se tornou um dos seus colaboradores mais assíduos ao ponto de, mais tarde, ele próprio assumir as funções de editor, primeiramente, e editor-chefe, finalizando o programa europeísta do movimento e integrando-o à cultura húngara. Esta simbiose do europeu com o húngaro e a crença de que a literatura húngara se origina da literatura europeia e dela é parte integrante, é evidenciada em seu grande projeto de escrever uma história das letras europeias, que termina em 1936.
 
Seu livro de poesia foi publicado em 1909 sob o título Folhas da coroa de Íris, em que Íris simboliza a cor do mundo e as folhas são os poemas; nesse mesmo ano saiu seu segundo livro, também de poesia. Dois anos depois, Babits conseguiu sair de sua solidão provinciana, na qual se refugiara, conseguindo um cargo de professor de ensino médio em Budapeste. Segundo o seu contemporâneo Antal Szerb, Babits era a figura mais emblemática das letras húngaras que expressava a solidão do homem moderno. Szerb acrescenta, e isso reforça o caráter apolítico da poesia inicial de Babits, que a característica distintiva de sua poesia era o jogo. O poeta, graças à sua extraordinária cultura admirada por toda uma geração de intelectuais, conseguiu se esconder atrás de várias máscaras e estilos.
 
Na capital conheceu aqueles que mais tarde marcariam a literatura húngara e pouco a pouco tornou-se o centro da vida literária, que contrastava fortemente com o seu caráter taciturno. A Primeira Guerra Mundial mudou radicalmente sua atitude apolítica e reservada e fez Babits se manifestar decisivamente contra a guerra sem sentido e desumana e começar a publicar poemas pacifistas e antimilitaristas, nos quais ele não escondia sua revolta contra o regime. A resposta que colheu com seus poemas foi sua demissão do instituto, após ser acusado de antipatriotismo. 

É natural, portanto, que saudasse com entusiasmo a revolução burguesa de 1918, que mais tarde lhe concederia uma cátedra universitária. No entanto, Babits não conseguiu identificar-se com a ideia socialista, o que, ainda assim, o levou em 1919, durante a contrarrevolução, à expulsão da universidade. Babits se distanciou tanto da revolução quanto da contrarrevolução e virou as costas para a vida pública para se retirar em sua “torre de marfim”, como dizia, e contemplar o mundo de fora e de cima.
 
Nessa época casou-se com a escritora Sophie Török, que até sua morte foi seu apoio incondicional. Publicou contos de tom lírico e, após o sucesso de seu primeiro romance, O califa cegonha, publicado em 1913, alguns romances. Filhos da morte é um romance autobiográfico que recolhe a história de três gerações e apresenta de forma convincente o ambiente sociopolítico e o declínio da vida burguesa no final do século XIX e início do XX. 

Babits também realizou um importante trabalho de tradução, integrando obras na cultura húngara que iam da literatura grega a Oscar Wilde ou Baudelaire passando pela Idade Média; seu maior projeto foi a tradução de A divina comédia de Dante Alighieri, projeto que completou em 1922 e pela qual recebeu o prêmio da academia italiana. Paradoxalmente, neste período de entre guerras, em que passou a levar uma vida bastante sossegada e quando se voltou do social para o individual, sua liderança literária se consolidou ao ser nomeado editor-chefe do Nyugat e comissário para o Prêmio Baumgarten.
 
No entanto, o crescimento do fascismo no mundo, e particularmente na Hungria, obrigaram o poeta a reconhecer sua responsabilidade de quebrar o silêncio e “deixar a torre de marfim”; ideia refletida tanto em sua poesia quanto em seus ensaios. O livro de Jonas, um extenso texto lírico, é uma autocrítica patética e irônica, na qual o profeta reconhece seu dever de erguer a voz em tempos desumanos, como os anos anteriores à Segunda Guerra Mundial. 

Morreu em 1941, após uma longa e dolorosa doença, uma circunstância que refletiu em vários poemas dos seus últimos anos de vida, poemas que giram em torno da morte e do sofrimento.
 

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