Boletim Letras 360º #504

 
 
DO EDITOR
 
1. Caro leitor, graças as pequenas, mas variadas formas de colaboração durante todo ano, conseguimos prover a renovação do domínio e hospedagem on-line para o Letras in.verso e re.verso.
 
2. Aos editores que disponibilizaram seu catálogo para o envio de livros ao clube de apoios ao Letras, aos leitores mais assíduos e aos que esporadicamente nos ajudam, nos divulgam, aos amigos, reiteramos os agradecimentos por isso. Essa força é, antes tudo, reanimadora; são bons ventos para isso que aqui desempenhamos livre e amorosamente.

3. As formas de ajudar permanecem ativas. Vencemos um ano, abre-se outro. Para saber melhor sobre as formas de apoiar nosso trabalho, visite aqui. E lembro que: a aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste Boletim garante a você desconto e ajuda ao blog sem pagar nada mais por isso.
 
4. Bom final de semana com boas leituras!

Carson Mccullers, 1947. Foto: Henri Cartier-Bresson


 
LANÇAMENTOS
 
Um dos melhores romances estadunidenses do século XX, obra de autora de apenas 23 anos cria retrato profundamente humano de personagens desajustados.
 
Obra de estreia de Carson McCullers, O coração é um caçador solitário (1940) é um mosaico de personagens que pulsam profunda humanidade em seus desajustes. O romance causou impacto imediato na crítica ao reconstruir a vida de uma pequena cidade do sul dos Estados Unidos às vésperas da eclosão da Segunda Guerra Mundial. A figura central é um trabalhador surdo, John Singer, com quem os outros personagens estabelecem conexões afetivas. Em torno de Singer gravitam Mick, uma adolescente andrógena, apaixonada por música; um médico negro, Benedict Copeland, bravo defensor da justiça para seu povo; Biff Brannon, dono de um café onde se reúnem as pessoas da vizinhança; e um frequentador beberrão, Jake Blount, revoltado com as injustiças do mundo. Na rede sutil tecida por McCullers encontramos o retrato do Sul marcado pelo racismo, em paralelo às notícias das atrocidades cometidas pelo nazismo. O escritor negro do Mississippi Richard Wright observou que McCullers foi quem criou pela primeira vez, entre os escritores brancos, personagens negros com profundidade. O coração é um caçador solitário é povoado por famílias de muitos filhos ou pessoas isoladas, como os personagens do pintor Edward Hopper. Todos são, de um modo ou de outro, solitários batalhadores guiados por suas necessidades básicas, mas principalmente por suas ideias e emoções. Singer, por exemplo, dedica-se intensamente a seu melhor amigo, outro homem surdo, internado em um asilo de pacientes de doenças mentais. A relação de ambos, ambígua, promove mais uma camada a esse complexo personagem. O olhar humanizado de McCullers inclui momentos de tensão, violência e ambiguidade sexual, marcas da literatura da autora. De cada personagem, ela extrai os pensamentos e angústias e os expõe ao leitor com dura franqueza, cobrindo-os de grande eloquência psicológica. Giovana Proença Gonçalves, pesquisadora da Universidade de São Paulo e autora do posfácio da edição, chama a atenção para a estrutura polifônica emprestada de peças musicais: McCullers foi uma apaixonada pela música e chegou a nutrir a possibilidade de uma carreira na área. Sua literatura é frequentemente comparada às obras de Harper Lee, Truman Capote e Tennessee Williams (de quem foi amiga). Seguindo um caminho aberto por Wiliam Faulkner, com o qual guarda semelhanças e diferenças, McCullers costuma ser incluída entre as grandes representantes da “literatura sulista” ou do “gótico sulista”, ao lado de Eudora Welty e Flannery O’Connor. Vários de seus livros foram transportados para o cinema e a televisão. A versão cinematográfica de O coração é um caçador solitário recebeu no Brasil o título Por que tem de ser assim? (1968) e recebeu indicações ao Oscar para os atores Alan Arkin e Sondra Locke. A nova tradução brasileira é de Rosaura Eichenberg e sai pela editora Carambaia. Você pode comprar o livro aqui.
 
Chega ao Brasil obra fundadora do nouveau roman francês.
 
O retrato de um desconhecido é a obra fundadora do nouveau roman (forjado contra a tradição narrativa e muito mais próximo da escrita introspetiva, subordinando o enredo e as personagens aos detalhes do mundo), e uma das mais importantes do século XX. Jean-Paul Sartre, no famoso prefácio à obra chamou-lhe antirromance. Nele, um narrador segue à distância e de forma obsessiva a vida de um homem avarento e da sua filha adulta. Através das atitudes destas duas personagens, das suas palavras e dos seus pensamentos, o narrador descobre um mundo invisível, moldado pela linguagem. O livro de Nathalie Sarraute é publicado pelo selo Minotauro, da Almedina Brasil. Você pode comprar o livro aqui.
 
Dois novos volumes na série de publicação das tragédias completas de Sófocles traduzidas por Jaa Torrano.
 
1. Édipo rei. Características notáveis da Grécia antiga são o culto dos Deuses e o enorme prestígio de santuários oraculares, onde se revelavam o porvir e o desconhecido em resposta a consultas de governantes e de particulares. Nesse contexto cultural se desenrola a surpreendente e assustadora trajetória do herói Édipo. O rei de Tebas, Laio, certa vez ao consultar o oráculo de Delfos obteve uma resposta terrível: teria um filho que mataria o pai e esposaria a mãe. Quando lhe nasceu o filho, Laio se lembrou do oráculo e, apavorado, atou o bebê pelos pés e entregou-o a um servo para que o expusesse à morte no monte Citéron. O servo, porém, compadecido, o entregou a um outro pastor que, por sua vez, o conduziu ao seu rei, em Corinto. O rei de Corinto, por não ter filhos próprios, adotou a criança e lhe deu o nome de Édipo. Já adulto, Édipo decidiu consultar o oráculo de Delfos a respeito de sua origem, e em resposta ouve que ele mataria seu pai e esposaria sua mãe. Édipo, para evitar que a profecia se cumprisse, foge de Corinto. Em sua perambulação errática, encontra a Esfinge que às portas de Tebas propunha um enigma aos transeuntes e devorava quem não o decifrasse. Édipo adivinha o enigma, salva a cidade do monstro e, em recompensa pela salvação da cidade, casa-se com a rainha viúva do rei de Tebas, Laio, que recentemente em uma viagem ao estrangeiro tinha sido morto por não se sabia quem. O mito de Édipo encontra sua mais célebre realização na tragédia Édipo Rei, ou Édipo em Tebas, de Sófocles. 
 
2. Antígona. Etéocles, Polinices, Antígona e Ismena são irmãos, filhos de Édipo e Jocasta. Quando o rei Édipo é afastado do trono de Tebas pela descoberta de seus crimes inconscientes e involuntários, os seus filhos entram em conflito na disputa pelo poder. Etéocles expulsa Polinices, que no exílio faz aliança com a vizinha Argos e ataca Tebas para retomar o poder. A guerra termina com a morte dos irmãos inimigos e a vitória de Tebas sobre os invasores argivos. Creonte, irmão de Jocasta, torna-se o rei, e decreta que Etéocles, por defender a pátria, seja honrado com funerais, e Polinices, por atacá-la, seja privado deles e seu cadáver abandonado como pasto para cães e aves. O decreto de Creonte estabelece ainda a pena de morte para quem o violasse. Diante disso, Antígona sente-se obrigada a ouvir o apelo íntimo dos deveres ancestrais de cuidados com os mortos, decide se contrapor ao decreto do rei e sepultar o irmão. Assim se instala um novo conflito, que se amplia até envolver todos os membros da família, e ainda outras figuras institucionais, as razões de Estado e as da religião, os Deuses celestes e os Deuses subterrâneos, além das questões do destino e da liberdade dos mortais. Antígona integra a série Tragédias Completas de Sófocles e, à maneira dos demais volumes da coleção, a edição bilíngue com tradução de Jaa Torrano é parte na Coleção Clássicos Comentados pela Ateliê Editorial associada à Editora Mnema. Acompanham texto grego e tradução, os ensaios de Jaa Torrano e Beatriz de Paoli bem como um glossário mitológico, aparatos úteis à melhor compreensão da poesia trágica de Sófocles.
 
O livro de E.T.A. Hoffmann, alemão que influenciou Dostoiévski e Edgar Allan Poe.
 
O monge capuchinho Medardo, narrador para lá de carismático, revela aos leitores como foi que se envolveu num mistério contra a sua vontade. Após tomar um gole de um vinho suspeito, ele deixa o mosteiro em que vive, abandona o hábito e vai a Roma. Na jornada, uma espécie de busca pela própria identidade que não cessa de fragmentar-se, Medardo se depara com uma série de figuras curiosas, desde aristocratas, passando por um excêntrico peruqueiro, até o Diabo em pessoa, segundo ele. Confronta-se também com seu duplo em algumas ocasiões, e a ambiguidade dos personagens assume contornos literários que dão à história, já muito intrigante, nova camada de complexidade narrativa que atrai ainda mais ao desfecho. O tema do duplo foi explorado por muitos autores, como os clássicos Dostoiévski em seu romance O duplo e Edgar Allan Poe em seu conto “William Wilson”, que comprovadamente leram Hoffmann. Os elementos fantástico, gótico e detetivesco estão todos em Os elixires do Diabo, também. Características do Romantismo, período a que essa obra se vincula, aparecem em abundância, como na personagem feminina Aurélia, elevada ao status de santa e salvadora; e na presença constante da figura diabólica, mefistofélica, o que em parte, aliás, aproxima a obra ao Fausto de Goethe, autor contemporâneo a Hoffmann. Os elixires do Diabo comporta muito. Estejam seus constituintes em plena excelência de forma ou em moldes embrionários, fato é que a força da realidade entra em contato com o poder da imaginação, o terreno liga-se ao excelso, e o resultado é uma polifonia que representa a vida como só os clássicos conseguem-na representar. Livro para ler, reler e colocar na lista de livros favoritos de nossos autores prediletos. O livro é publicado pela editora Estação Liberdade. Você pode comprar o livro aqui.
 
Todos os fragmentos até agora conhecidos de um dos principais poetas líricos da Grécia antiga.
 
Um dos principais poetas líricos da Grécia antiga, ao lado de Safo, Píndaro e outros, Anacreonte nasceu na cidade de Teos, no século VI a.C., viveu em Samos e Atenas e conquistou enorme fama ainda em vida, cantando como nenhum outro os prazeres do amor e do vinho. Segundo testemunhos antigos, sua obra era vasta, distribuída em cinco livros, dos quais sobreviveram apenas fragmentos. Esta é a primeira reunião em língua portuguesa da totalidade desses fragmentos, bem como das Anacreônticas, o corpus de poemas tardios, anônimos, feitos em sua homenagem ou imitando seu estilo, e celebrados ao longo dos séculos por poetas-tradutores como Lord Byron e Almeida Garrett. Nuns e noutros, alternam-se os temas da brevidade da vida e da necessidade de desfrutá-la (carpe diem), da paixão homo e heterossexual, do jogo erótico, da leveza e do antibelicismo, entre outros sentimentos insuflados por Baco e Afrodite. Também recorrente é a imagem do poeta já velho que, apesar dos cabelos brancos, não se furta aos prazeres, antes os procura com ainda mais avidez. Responsável pela tradução e apresentação da obra, Leonardo Antunes, professor de língua e literatura grega na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, tece também comentários detalhados a cada poema ou fragmento, indicando suas fontes, interpretando-os e elucidando as opções de tradução, sempre lastreadas pelo rigor do pesquisador acadêmico e pela sensibilidade do tradutor que é também músico e poeta. Fragmentos completos são publicados pela Editora 34. Você pode comprar o livro aqui.
 
Os diários Eunice Penna Kehl alinhavam a vida pessoal e redivivem o tempo do curto século XX.
 
 “Os diários de Eunice Penna Kehl são um documento precioso. Eunice é inteligente, sensível, observadora; sua percepção informa e sensibiliza. Depressa ela se transforma numa espécie de amiga do leitor, e suas anotações iluminam com nitidez o mundo que o leitor recria na imaginação.” Assim a editora Heloisa Jahn se referiu aos diários em que Eunice Penna Kehl registrou, entre 1935 e 1970, a vida em família da perspectiva de uma mulher culta, de classe média, no Rio de Janeiro do período do entreguerras. Mencionados ou apenas inferidos, acontecimentos políticos e fatos da história, no Brasil e no mundo, muitas vezes ganham em seu texto peso e nitidez surpreendentes. Para Eunice, a ideia de escrever um diário não foi casual. Passado a limpo com esforço, o primeiro caderno surgiu com a função de fazer frente à depressão. Em 1935 Eunice perde Victor Luis, o filho mais velho, e essa dor a acompanharia a vida toda, bem como a culpa por julgar não ter cuidado bem do filho. O ano seguinte traz os esforços de Eunice para superar essa perda. Além de cuidar das tarefas domésticas e familiares, ela abre uma academia de ginástica com uma amiga, iniciativa ousada para uma mulher de sua época. E, apesar de viver um casamento estável com o marido Renato, Eunice muitas vezes desabafa sobre seu caráter melancólico e neurastênico. Em seu posfácio, afetivo e pessoal, Maria Rita Kehl parte das lembranças da avó para conciliá-las com aquilo que os diários revelam a respeito de Eunice e de sua época — o “curto século XX” de Hobsbawm, quando o mundo parecia ter um futuro de progresso constante pela frente. O livro é publicado pela Chão Editora. Você pode comprar o livro aqui.
 
Peça de Aimé Césaire retoma os eventos políticos da independência e da subsequente nomeação de Patrice Lumumba como primeiro-ministro da República Democrática do Congo.
 
Uma temporada no Congo, publicada em 1967, abarca cronologicamente os acontecimentos que se deram na República Democrática do Congo entre 1959 e 1961. Dividida em três atos, a peça de Aimé Césaire retoma os eventos políticos da independência e da subsequente nomeação de Patrice Lumumba como primeiro-ministro, indo até o assassinato do líder congolês, que resistiu e lutou pela libertação de seu país, colonizado durante oitenta anos pela Bélgica. No dia 30 de junho de 1960, o até então Congo Belga se torna um país independente, ao fim de um processo de transição conduzido por representantes políticos congoleses e belgas. Parecia se tratar de um episódio harmonioso, vivenciado sem grandes conflitos. No entanto, a história que começa nessa data, com a nomeação de Patrice Lumumba — um dos líderes do movimento pela independência — como chefe de governo do país recém-instituído, terá um desfecho trágico para seu protagonista e para o povo congolês. Uma temporada no Congo nos conta essa história, que se desenrola durante um curto período, desde as vésperas da independência, em 1959, até o assassinato de Lumumba, em 17 de janeiro de 1961. Desse modo, o texto põe em relevo os meandros políticos que conduziram o país a um golpe de Estado, perpetrado com a conivência, quando não ingerência, das potências ocidentais e da Organização das Nações Unidas (ONU), insuflado por uma distorcida retórica anticomunista. A obra ultrapassa, porém, a dramatização dos bastidores da política, uma vez que dá ao povo congolês um papel proeminente. Recorrendo a procedimentos frequentemente adotados por Brecht e pelo teatro elisabetano, Aimé Césaire constrói um universo literário regido pela tensão permanente entre a trama do poder institucional, de um lado, e as dinâmicas do povo, com seus anseios, medos e versões próprias sobre os fatos, de outro — e seu herói, Lumumba, vive precisamente nesse limiar, onde ambas se tocam. A tradução de Juliana Estanislau de Ataíde Mantovani é publicada pela editora Temporal. Você pode comprar o livro aqui.
 
Uma vista inovadora sobre os bairros árabes de Londres.
 
Quatro estranhos se encontram em um voo turbulento de Dubai para Londres: Amira, uma prostituta marroquina; Lamis, uma iraquiana divorciada de 30 anos; Nicholas, especialista inglês em arte islâmica; e Samir, um libanês que está entregando um macaco em uma missão que ele não entende completamente. Através da cidade e além das fronteiras culturais, Gente, isso é Londres! retrata espirituosamente os cheiros, os sons e as vistas dos bairros árabes de Londres, bem como as liberdades que a cidade oferece e retém de seus imigrantes. A tradução do árabe de Jemima Alves sai pela Editora Tabla.
 
No Brasil, um novo livro de Camila Sosa Villada, considerada uma das mais potentes novas vozes da literatura latino-americana.
 
Nos duros anos da década de 1990, uma mulher ganha a vida como namorada de aluguel para homens gays. Em uma boca de fumo no Harlem, uma travesti tem um encontro inusitado com ninguém menos que Billie Holiday. Um grupo de jogadores de rúgbi tenta pechinchar o preço de uma noite de sexo e recebe de volta o merecido. Freiras, avós, crianças e cachorros nunca são o que parecem... Os nove contos que compõem este livro são habitados por personagens extravagantes e profundamente humanos, que enfrentam uma realidade nefasta de maneiras tão estranhas quanto eles próprios. Dona de uma imaginação deslumbrante e atrevida, Camila Sosa Villada é capaz tanto de assumir a voz de uma vítima da Inquisição mexicana quanto de construir um universo distópico, em que a existência travesti se tornou sua mais forte vingança. Com seu estilo único, brinca com os limites entre magia e realidade, honrando a tradição oral da literatura latino-americana com desenvoltura e solidez sem igual. Sou uma tola por te querer sai pelo selo Tusquets. Você pode comprar o livro aqui.
 
O romance de estreia de Leonardo Padura.
 
Andrés é um rapaz de dezessete anos que, após concluir o programa Escola no Campo, retorna para casa e conhece Cristina, uma vizinha sedutora mais velha que ele. A partir da relação deles, ambígua e conturbada, a história de Andrés — inclusive com sua namorada e sua mãe — vai se definindo. Fã e jogador de beisebol, o rapaz sofre um acidente durante um jogo decisivo; ainda frustrado, passa por uma experiência que o marca para sempre. Cada um dos âmbitos da juventude de Andrés é integrado ao enredo, em meio a suspense, intriga, dor e alegria, e contribui para revelar a formação e as transformações do adolescente e certas particularidades do cotidiano em Cuba. Escrito em 1982, Febre de cavalos é o romance de estreia de Leonardo Padura e será lançado pela primeira vez no Brasil. A partir dele, porém, já é possível notar o esboço de personagens importantes que Padura desenvolve nos futuros romances. Aliás, segundo o autor diz em nota presente na edição, com o tempo ele mesmo identificou em Andrés experiências bem parecidas com as do futuro investigador Mario Conde. A tradução é de Mônica Stahel e sai pela editora Boitempo. Você pode comprar o livro aqui.

A jornada de uma mulher iazidi sequestrada e mantida em cativeiro como escrava sexual.
 
A tatuagem de pássaro, da autora iraquiana Dunya Mikhail, é um romance que narra a terrível e fascinante jornada de Helin, uma mulher iazidi que foi sequestrada e mantida em cativeiro como escrava sexual pelo Estado Islâmico, no norte do Iraque. Graças a ajuda de um apicultor, Abdullah, Helin consegue escapar das garras da organização e tem como desafio refazer a sua vida. É uma história sobre a perseguição cruel ao povo iazidi. Ao mesmo tempo, e com uma linguagem fortemente poética, o romance lança luz sobre a cultura e a tradição desse povo, sua imensa força e resiliência. O livro foi finalista do International Prize for Arabic Fiction em 2021. Com tradução de Beatriz Gemignani, o livro é publicado pela editora Tabla.
 
O novo livro do poeta Edimilson de Almeida Pereira.
 
Seja no ensaio, na prosa ou na poesia, Edimilson de Almeida Pereira vem criando uma obra que propõe a cada passo novos diálogos com a tradição e formas inéditas de pensar e expressar algumas das questões mais prementes do nosso tempo. Não é diferente o caso de Melro, que, ao lado de Relva (2015) e Guelras (2016), compõe a trilogia Melancolia, nascida no contexto agônico que tomou o Brasil e o mundo de 2014 para cá. Numa dicção que ecoa, por vezes, a melhor poesia social de Drummond, conversando ou homenageando figuras como Davi Kopenawa, Wole Soyinka, Dylan Thomas, James Baldwin e Carlos de Assumpção, Melro atravessa os eventos dos últimos anos com poemas que performam o ambiente de ascensão do horror e suas reverberações na vida cotidiana, configurando uma poética do exílio que busca, segundo Fabio Cesar Alves, “salvar os vestígios de uma existência em retração”. O livro é publicado pela Editora 34. Você pode comprar o livro aqui.
 
RAPIDINHAS
 
Outra vez Sylvia Plath. A Companhia das Letras anunciou que em 2023 publicará a poesia da poeta estadunidense; a nova tradução é de Marília Garcia.

Prêmio São Paulo de Literatura. Antonio Xerxenesky ganha o galardão de 2022 com o romance Tristeza infinita (Companhia das Letras, 2021).

A obra dispersa de Vargas Llosa 1. Os leitores de língua espanhola começam a receber uma portentosa obra em cinco volumes que reunirá parte dos textos que o escritor Prêmio Nobel de Literatura peruano publicou ao longo de mais seis décadas e jornais e revistas. 

A obra dispersa de Vargas Llosa 2. Publicada  pela Alfaguara espanhola, o primeiro volume intitula-se El fuego de la imaginación: libros, escenarios, pantallas y museos; são 150 textos que apareceram inicialmente em mídias dentro e fora do mundo hispano-americano. 
 
REEDIÇÕES
 
Púchkin e sua mais importante obra em prosa
 
Tida como a mais importante obra em prosa de Aleksandr Serguêievitch Púchkin (1799-1837), o fundador da literatura russa moderna, A filha do capitão é um experimento magistral com o gênero do romance histórico. Fruto de rigorosa pesquisa, construído com extraordinária economia de recursos e permeado de um lirismo preciso, tão característico da poesia do autor, A filha do capitão é ambientado na revolta camponesa de 1773, liderada pelo cossaco Pugatchóv, que reivindicava o trono russo passando-se pelo falecido tsar Pedro III, marido de Catarina II. Publicado em 1836, meses antes da morte de Púchkin em um duelo, o romance é narrado por Piotr Grinióv, jovem militar que é enviado para uma remota fortaleza e se apaixona pela filha do comandante local, quando irrompe a rebelião liderada por Pugatchóv. Nesta nova edição desse clássico da literatura russa, a consagrada tradução de Boris Schnaiderman é complementada por um prefácio de Otto Maria Carpeaux, que aborda a biografia do autor e a importância de sua obra, e pelos capítulos iniciais da História de Pugatchóv, de 1834, o único estudo histórico que Púchkin publicou em vida. O livro é publicado pela Editora 34. 
 
Lançado originalmente em 1974, Tebas do meu coração ganha nova edição com capa e projeto gráfico novos.
 
Em Tebas do meu coração, Nélida Piñon entrecruza sonho e realidade para contar a história dos habitantes de Santíssimo, uma pequena e modesta cidade no interior do Brasil onde se concentra uma grande variedade de tipos humanos — personagens ricos e fantásticos, cujo comportamento acaba por romper com a realidade lógica. No discurso proferido na entrega do Prêmio Juan Rulfo (México, 1995), o renomado escritor Carlos Fuentes disse: “Nélida Piñon tem sido uma figura política imprescindível em seu país, como vice-presidente da União Brasileira de escritores em momentos de repressão autoritária, nos quais escrever era uma tarefa perseguida. A voz de Nélida levantou-se firme contra a censura e, simultaneamente, sua imaginação ergueu-se com um voo ainda mais poderoso para escrever outro grande livro, Tebas do meu coração, no qual a escritora identifica a luta contra a ditadura, mais que contra a opressão, uma luta contra a fatalidade, a rotina, a falta de imaginação, a ignorância e o desígnio incontrolável das coisas.” Resultado de uma intensa carpintaria literária — foram sete manuscritos até a versão definitiva —, Tebas do meu coração se serve, também, do fino humor de Nélida para fazer críticas à sociedade brasileira. Obra de maturidade e qualidades artísticas inquestionáveis, é uma leitura imperdível, graças à inteligência e ao talento de uma das mais brilhantes escritoras do Brasil. Você pode comprar o livro aqui.
 
Nova edição do livro de contos Dias raros, de João Anzanello Carrascoza.
 
Neste livro, o escritor apresenta catorze histórias em que os temas centrais são a família e a infância. O autor aborda as relações entre pais e filhos através do cotidiano — que nem sempre é fácil e leve — e de situações menos corriqueiras, como viagens e campeonatos de futebol. Com sua linguagem poética característica, Carrascoza nos encanta com seu mundo ficcional, um espaço criado especialmente para a construção do ser — dentro e fora do livro. A nova edição é publicada pela editora Tordesilhas. Você pode comprar o livro aqui.
 
DICAS DE LEITURA
 
Na semana anterior, noticiamos que o prêmio Camões de 2022, mais importante galardão das literaturas de língua portuguesa, foi para o brasileiro Silviano Santiago. Nesta seção, recomendamos três livros para entrar no universo ficcional do escritor. Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste boletim, você tem desconto e ainda ajuda a manter o Letras.
 
1. Stella Manhattan. Este é, certamente, um dos mais conhecidos romances de Silviano Santiago. Com trama situada num passado agitado e nebuloso da história, o livro se marca muito à frente do seu tempo por vários aspectos: um deles, a ficcionalização do universo trans. O protagonista Eduardo da Costa e Silva (identidade oficial da personagem-título do romance) é funcionário do Consulado do Brasil nos Estados Unidos, onde protagoniza as principais marcas da revolução sexual na Nova York dos anos 1970. “Stella Manhattan é proverbial. É juvenil, intuitivo, lúdico, estiloso (camp) e tem uma moral falocêntrica (a revolução comportamental a reclamava então) que pode ser lida na batida do samba ‘Quem cochicha o rabo espicha’, cantado por Jorge Ben Jor.” — escreve o próprio autor no texto acrescentado à edição publicada pela Companhia das Letras. Você pode comprar o livro aqui
 
2. Em liberdade. Antes de Stella Manhattan, ou junto com este, outro dos mais lembrados trabalhos da ficção de Silviano Santiago. Situado em 1937, a narrativa segue o escritor Graciliano Ramos — sobre o qual o próprio Santiago dedicou vários de seus ensaios — logo quando este deixa a prisão; o autor de Vidas secas foi preso por dois meses acusado de comunista, circunstância que resultaria na composição de Memórias do cárcere. Com este romance, Santiago ganhou um dos seis Jabuti que recebeu até o presente. No mesmo estilo, o leitor tem ao alcance Machado. A Companhia das Letras reeditou o romance com um conto inédito. Você pode comprar o livro aqui.  
 
3. Menino sem passado. Eis o investimento de Silviano Santiago na autoficção. O escritor rememora seu tempo de descobertas do universo artístico do cinema e da literatura durante sua infância. A estes acontecimentos, somam-se outros de natureza afetiva e biográfica: a perda da mãe, a complexa relação com pai, as vivências no interior de uma família tradicional na profunda Minas Gerais. O adulto que rememora acrescenta a estes acontecimentos de ordem individual, os momentos decisivos da história do Brasil nos anos 1940 e 1960. Você pode comprar o livro aqui
 
VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS
 
1. Aqui, um vídeo-conversa com Silviano Santiago sobre sua obra, o romance, a escrita e atividade do romancista. Vale a pena para todos os leitores e, especialmente, os que ainda desconhecem o escritor e sua obra.  
 
BAÚ DE LETRAS
 
1. E por falar sobre Sylvia Plath, recentemente passáramos os 90 anos da poeta estadunidense. Aproveitamos a ocasião para recordar algumas das várias publicações no blog sobre sua biografia e obra.
 
a) As especulações sobre outras obras do gênero permanecem vivas, mas só conhecemos, no âmbito do romance, A redoma de vidro. O livro foi comentado algumas vezes no Letras. Destacamos este texto de Pedro Fernandes. 
 
b) Uma das especulações sobre o romance perdido de Sylvia Plath pode ser lida neste texto de Allison McNearney que traduzimos aqui
 
c) Ainda a autora de prosa. Neste texto, Rafael Narbona discorre sobre os diários de Sylvia Plath — outro manancial, talvez o mais essencial, de sua breve obra literária. 
 
2. De Silviano Santiago. Em 2014, a Companhia das Letras publicou Mil rosas roubadas. Foi a ocasião quando passou a reeditar a obra do escritor mineiro. O romance foi comentado por Pedro Fernandes aqui
 
DUAS PALAVRINHAS

Por razões que ainda não consigo me explicar (será que algum dia conseguirei?), prefiro viver intensamente a política através da palavra escrita, vale dizer, através da criação literária, ou até mesmo do ensaio e da sala de aula; prefiro vivê-la mais em palavra do que na vida partidária.
 
— Silviano Santiago

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