A mesma fome, de Marize Castro

Por Pedro Fernandes



Algo nasceu agora sem raça, sem sexo.
Possui uma alegria inolvidável.
Está no mesmo patamar dos seres e das coisas
que se dilatam e se aprofundam
dentro de si mesmos.

A tarefa mais ardilosa para o poeta que deixou de ser uma entidade sensível e suscetível às variações e virações das musas é a de existir. Quer dizer, não é que as musas tenham deixado o mundo pelo seu excesso de balbúrdia, mas o tempo da demasia deixou-nos um bocado mais alheios e céticos à suscetibilidade das entidades que noutro plano regem (de alguma maneira) nossa condição actancial de existir. Poetas de toda estirpe podem estar suscetíveis a isso. O preço que se paga por tanto não é só o levante dos individualismos – é a abolição dos sentidos, dentre eles, a possibilidade de abrir-se sensivelmente aos objetos de prazer, como a poesia, e a multiplicação do banal e da barbárie. Que no passado se condenassem os poetas pela mesma condição de marginais que uns poucos conseguiram transcender parece ser um mal dos menores se pensarmos no esquecimento das vozes que de alguma maneira ainda tornam a existência de alguma maneira suportável.

Ser poeta já não é a simples condição de manter uma voz no interior de muitas, ainda que neste tempo dos excessos se ouça mais a mediocridade. O mal dos poemas ruins em nosso tempo é que por vezes ofuscam a presença dos bons e são parte da mesma proliferação de discursos rasos com que inventamos de explicar uma realidade ainda mais complexa e fugidia. Puro paradoxo esse! A correlação injusta entre os medíocres e os bons constitui o que poderíamos denominar, sem constrangimento, como um mal-estar da poesia. Tal situação, a depreciação do poético, é dada ora pela  transformação de um fazer que antes deve se guiar por preceitos demasiadamente rigorosos e agora é simples técnica para preenchimento pelo mass midia de outra sorte de nossos vazios; ora pela contínua reiteração de alguns lugares ultrapassados e que de tão difíceis melhor contribuem para o alargamento do primeiro mal e nada serve verdadeiramente à poesia.

Quer dizer, é ainda mais difícil, ao que parece, ser poeta no tempo do poeta só. Mas, no agora nem tudo são lamentações e bem possível que só reclamemos para não perder o gosto de nunca estarmos satisfeitos com o mundo. Porque, no fundo, o poeta sempre foi só e porque só consegue alguma alternativa de fazer a poesia alcançar lugares tão singulares como ainda tem alcançado. Podemos dizer que uma sorte de criadores vindos de outras escolas, as de quando se excluía o vago exercício da pose para a exposição dos likes, pode ser tomada como exemplo a esses que ingenuamente acreditam que estar sob o sol é apenas nutrir-nos com frasezinhas de efeito biotônico para egos em decadência. São poetas que também circulam, muito deles, pelo ambiente dos likes, mas guardam um zelo profundo para com a palavra – primeira condição, ao que parece, para se atrever ao epíteto de poeta – e atuam, para os bons ouvidos em três frentes: contra os maus poemas e os maus poetas; os discursos vazios; e dizem outra maneira de habitarmos a era dos paradoxos. E um desses nomes atende por Marize Castro.

Os versos que abrem este texto são os primeiros do poema “Sem raça, sem sexo”, um dos últimos de um conjunto de pouco mais de quatro dezenas de textos reunidos em A mesma fome. Este poema se nutre de uma força temática muito recorrente nesse tempo do mal-estar da poesia. No âmbito de existir só, um dos exercícios criativos mais difíceis, porque qualquer pequeno deslize poderá levar o poema cair na pieguice da obviedade, é deixar a poesia falar dela própria. Porque este poema de Marize Castro é possuidor de uma desenvoltura capciosa e é representativo do seu fazer poético – marcadamente situado fora de qualquer zona depreciativa da poesia; porque um poema centrado no rigor e na elegância da lida com a palavra – foi que chegou a servir de entrada ao seu A mesma fome.



Um poema é uma aventura interior, desabrocha por entre as sendas dos sentidos e é preciso sempre esperar, mesmo depois de totalmente desabrochado, se vingará. Por vezes, é possível que não desabroche e nesse período o poeta tem duas escolhas: silenciar-se para ouvir-se ou revisitar seus lugares no intuito de encontrar as tais sendas. “Sem raça, sem sexo” é esta senda buscada por uma poeta que entre o silêncio preferiu voltar aos lugares inequivocamente seus. A mesma fome é um testamento. Um testamento é via de transição. E por isso saímos deste livro renovados de expectativa pelo depois.

Como o depois – mesmo na poesia que denega as condições comuns do tempo – é uma espera, vale rever para reelaborar. Os resquícios de que foram feitos os poemas de Marize Castro são todos perceptíveis neste livro; o metapoema é só um deles e a este podemos acrescentar: as cintilações do corpo, os desejos, as pulsões, a irmanação das vozes, as ancestralidades, o erótico feminino, a mulher, as profanações, a comunhão sagrada com as coisas e o cotidiano, a própria poesia em fibrilações diversas etc.

Assim, A mesma fome é um título singular que preenche pelo menos duas dicções importantes: uma para a poesia em geral numa conjuntura em que todos são, mas só até à primeira página, poetas; outra para a poesia da própria poeta. Sobre a primeira, inexplicável sem a segunda, Marize Castro coloca-nos expostos à certeza, comum mesmo entre os poetas mais céticos em relação a esse tempo de embolia, de que ainda nos resta uma fome de poesia. E ela parece ser produto da nossa condição que desde sempre assim nos definiu: a falta e a impossibilidade de seu preenchimento. Nesse sentido, não deixaremos de notar que a multiplicidade de vozes, mesmo as que trabalham na contramão do que vimos designando como verdadeira poesia, é resultado dessa fome.

A humanidade carece da vivência do poético, porque esta é ainda uma das possibilidades mais autênticas de se compreender irmanada entre sua condição terrena e a divina, a que lhe foi negada desde a aparição do pecado. Também é pela poesia que podemos ousar atentar contra essa dicotomia, fazendo-nos senhores do mundo haja vista que o mundo do poema não é fabulação e sim criação. Quer dizer, de alguma maneira, compreendemos, a afirmativa da poeta enquanto identidade civil parte de uma mesma comunidade; isto é, todo poeta é antes de tudo, figura humana.

Se este título de alguma maneira sublinha a mesma fome que nos une, sublinha ainda a mesma fome da poeta de uma importante obra que começa desde 1984 com Marrons Crepons Marfins. É um livro que ao reanimar, como dissemos, as principais forças que constituem o fazer poético de Marize, restabelece sua profissão-de-fé com a poesia – como se nos dissesse, depois de muitos chamados e um tempo de silêncio, ainda estou aqui, “inacabada e faminta permaneço: / nébulas de granito servem-me de cama”.

Porque sabe-se sozinha, a poeta abre seu itinerário repetindo o mesmo gesto ancestral de invocação ao “secreto nome” “em secreta língua” a fim de sorver o alimento que redima “o mesmo desamparo”, “a mesma fome”. Isto é, o fazer poético de Marize Castro tem muito de rito e menos de validação da técnica. E o valor disso não está especificado em nenhuma parte, porque o valor da poesia se mede pela escala dos bens inalienáveis. É pura poesia, portanto, o que falamos quando falamos sobre A mesma fome. Isso sentimos por poros diversos.


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