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Eliete, de Dulce Maria Cardoso

Por Pedro Fernandes



Captar o bulício dos dias. Esta é talvez a mais perigosa das atitudes que um escritor pode assumir. Principalmente se os dias forem os constituídos dessa massa amorfa e bestial de existências de mesma tessitura, entre vida real e vida virtual, como nosso tempo. Esta é, entretanto, uma constatação que esconde muitas fragilidades.

Alguém pode se perguntar por aqueles escritores metidos no cânone e que no seu tempo se entreteram com o comezinho e findaram por pintar (e, por isso se tornaram canônicos) um retrato multiperspectívico da história, esta que agora só temos acesso pelas imagens criativas que forjaram – tal como Balzac e sua monumental A comédia humana. Quer dizer, quem somos, quais poderes temos, para dizer que a bestialidade de nosso tempo será ou não motivo para realização da obra literária, ou, como sabermos se esta ou aquela situação é que são as dignas de um romance.

Outro poderá ainda dizer que esta e não outra é, se não a principal, uma das atividades do escritor: ser, qual o cronista e o historiador, testemunho de seu tempo, não daquilo que serve à história – repetimos Aristóteles em sua Poética – mas do que poderia ser.

E, quando se pensa na efemeridade de nosso tempo, no contínuo esvaziamento de nossa memória pelo excesso de tudo, compreendemos melhor ainda que este valor da escrita literária nascido entre os gregos – a escrita enquanto possibilidade de preservação da memória – nos obriga a reinventar a afirmativa que abre texto. Se perder em trivialidades ao se dedicar ao bulício de seus dias é o menor dos riscos. Ou melhor, é sua única alternativa de renovação; além do que, a forja dos restos da história servirá a ela própria no futuro porque poderá ser a única notícia que teremos de nós mesmos.

Assim, se reparamos que, progressivamente inundados pelos fetiches do capital, cada vez ignoramos nosso passado e nosso presente, porque agora vivemos de olhos tesos no depois, o registro do imediato é uma atitude heroica do escritor. Se um curto-circuito apagasse todas as nuvens de informação, o que restaria de notícia de nosso tempo para parte nós e os do futuro? Possivelmente isso que os escritores fazem parcimoniosamente a partir da contemplação de sua horda pelos trânsitos em mundos diversos.

Mas, circunscrever o presente nas margens fixas do texto, responde por outro desafio. E este é talvez mais importante que a consistência dos acontecimentos. Como fazê-lo. Um deslize e o material artístico poderá ser uma massa constituída de pura repetição sem propiciar nada mais que uma contemplação desinteressada no leitor tal como se passa nas obras de puro entretenimento da literatura de consumo.

Quer dizer, se existe algum segredo no trabalho criativo do escritor seduzido pelo multicolorido do mundo de trivialidades, este parece responder por um distanciamento crítico, capaz de oferecer ao leitor uma posição nem sempre confortável sobre a realidade. Não é o caso de acreditarmos que o escritor cumpre a tarefa infindável de nos despertar da mesmidade das coisas; mas, num mundo de repetição e de banalidades, a literatura, enquanto expressão artística, prescinde da condição de conformidade. Logo, o registro não tem aqui o mesmo sentido adquirido – voltamos – da história. O registro significa outra posição sobre o que se registra.

Eliete, de Dulce Maria Cardoso, muito difere do seu último romance. A escritora troca a situação, digamos assim, represada pela história e inscrita de alguma maneira num imaginário coletivo, pela situação corriqueira, entretanto, não menos coletiva. Sai a ideia de romance enquanto reescritura da história, como de alguma maneira é O retorno, para a ideia de um romance que se quer repositório do imediato e portanto história.

Talvez uma passagem que melhor esclareça essa percepção se construa numa sentença, das muitas escritas por Eliete ao longo de suas memórias, que funciona como se um registro metaficcional, isto é, como intrusão da narrativa nela própria para se explicar; diz: “Apercebi-me, desde logo, de que a melhor mentira não era imitar a verdade, mas a que continha a impressão da verdade”. É importante sublinhar o lugar dessa constatação; é quando Eliete, cansada da vida monótona, incapaz de se fazer presente com dantes na vida dos da casa, cria uma conta no Tinder e daí inicia, primeiramente, o que poderíamos chamar de jogo de invenções: deixará de ser a mulher desenxabida para a de forte sexy appeal; a funcionária comum de uma imobiliária para ser uma bem-sucedida figura dos setores administrativos da União Europeia; enfim, o oposto daquilo que é de verdade. Fracassada a possibilidade, ela reinaugura-se nesse aplicativo como ela própria, quer dizer, a mesma Eliete em imagem, mas, melhor desenvolta em comportamento e atitude. O jogo de associações entre a escrita romanesca de antes e a de agora é simples e fica na conta do leitor fazê-lo.

Inscreveríamos Eliete na extensa lista dos chamados romances do sujeito trivial, cuja tradição remonta ao homem supérfluo de Ivan Turguêniev, autor que ao formular de maneira mais completa a natureza psicológica desse tipo findaria por melhor estabelecer as componentes que o determinam. No romance de Dulce Maria Cardoso, que de alguma maneira, qual o Diário de um homem supérfluo, se assemelha à forma de um diário íntimo, uma vez que a própria personagem discorre sobre sua vida a contar não de um ponto quando aparentemente as coisas ganham outras tonalidades, diferentes, portanto, da opacidade de sempre, mas quando uma mulher balzaquiana passa a refletir sobre sua comum existência, seu sentimento de desajuste com outro e com a vida, marcada entre a melancolia e a euforia de seu tempo.

Basta dizer que Eliete nasceu seis meses depois da Revolução dos Cravos. É uma personagem que alcança o papel de representação de uma geração compreendida por ela própria, numa repetição do que dizem os mais velhos, mimada, inapta à ação enquanto participação ativa no mundo, que já guarda um profundo desinteresse pela história porque não terá feito o mínimo esforço pela renovação de seu país e que atravessará dois momentos – um alto e outro baixo: o levante das liberdades individuais, ainda que não totalmente destituído do peso do longo período de cerceamentos, que se confunde com uma abertura à pujança econômica, seguida de um declínio de tudo a partir de quando tal situação conjuga a formação de uma ordem de ilusões cujo preço a se pagar é em alta moeda.

Assim, o que chamamos de sujeito trivial nasce de uma ideia de “gente comum”, que se por um lado passou a ser a matéria principal de uma forma literária, o romance, por outro terá adquirido, pela variedade de tons, determinações próprias que não meramente as de mesmidade. Isto é, o trivial é sim o corriqueiro, mas seu perfil se completa melhor pela ideia de ser este um sujeito produto de uma sociedade presa num establishment e que a ele não resta outra opção que não a de seguir o curso da existência, ainda que se sinta sempre como “o inadequado”.



É sempre possível se perguntar se todo o esforço empreendido por Eliete contra a vida normal já não a destitui da condição de sujeito trivial. Não. Esta figura não pode ser confundida com o sujeito contemplativo, o que se contenta com o espetáculo do mundo, é verdade; mas, seu esforço não alcança romper com o comum. Quando interna a avó numa casa geriátrica e inicia todo seu périplo de tornar real todas as investidas sexuais produzidas nas conversas que desenvolve com homens de variada estirpe no Tinder, reinventando-se enquanto uma mulher dona de seu corpo e seus desejos, alguns passos à frente de uma Emma Bovary ou uma Luíza, o que busca Eliete é uma possibilidade de restauro da vida comum. A agitada nova vida sexual, os zelos que passa a ter para o cuidado de si, as posições mais assertivas em casa, não significam, de maneira nenhuma, uma resposta contrária ao sentimento de desajustamento com a vida. Do contrário; reforçam-no e reimprime sua integração nas linhas do comum. Seu mover-se lhe atribui uma condição de destaque, mas esta é puramente um impulso forjado pela maneira como a personagem narradora passa a compreender-se no mundo, o que poderá levá-la para um fora da vida normal. Se isso acontecer, o para-fora-do-normal, será a teia do acaso – não uma ruptura propiciada pela colocação da própria personagem noutra condição.

Mesmo quando recua nas suas liberdades e se iguala de alguma maneira às personagens de Flaubert e Eça de Queirós, citadas acima, não se enxerga afixada numa relação como amante, que se define diferente dos encontros casuais para satisfação do corpo: “Estava com o Duarte há quase um mês e, por mais que me esforçasse, não sabia o que pensar dele, como pensar nele. A divisão entre caso e amante que o cobarde do encontro do paredão me ensinara não tinha utilidade em relação ao Duarte. Ele não era nem uma coisa nem outra. Não se assemelhava aos meus casos, aos meus engates do Tinder, mas também não era um amante, a promessa de uma outra vida, até porque eu não queria ter outra vida. Eu estava a tentar recuperar a minha, como, de tantos em tantos anos, se recuperam as casas, queria acrescentar-lhe beleza e conforto para ser mais fácil habituá-la” – justifica-se nossa observação bastando sublinhar a última frase deste excerto.

Outro elemento peculiar, que não afasta o romance de um estilo próprio, ao que parece, já cimentado, de Dulce Maria Cardoso, e alguma crítica terá apontado noutra ocasião como um problema, é a escrita simples, substantival e rasa. Ora, por que isso do defeito é irrelevante? Em O retorno – e foi num texto sobre esta que sempre será a obra mais conhecida da escritora – o estilo condizia, como deve, à expressividade e dicção da personagem: um rapaz cuja visão atravessa um variado curso ao longo da narrativa, do infante ao adolescente. Enquanto reparávamos na ideia que nos leva a definir Eliete como um catálogo de acontecimentos da realidade imediata, recordávamos a acusação, a ver se o sentido poderia significar alguma valia neste romance. Se tem valia para aquele, pelo motivo já exposto; também não tem para Eliete. A narrativa é construída pelo ponto de vista de uma mulher de média formação e novamente o que poderia ser um defeito é uma qualidade da obra. Não seria permitido o contrário, que Eliete fosse dada a intelectualismos sendo uma mulher comum.

Que isso tenha a ver com o que Miguel Real explica satisfatoriamente como “desintelectualização do romance”, movimento este que é marcado por três deslocamentos, entre eles, o da configuração literária, é uma verdade. A obra de Dulce Maria Cardoso faria coro, assim, aos textos realistas – e ainda repetimos o crítico português – de escritores como Inês Pedrosa, Pedro Paixão, Francisco José Viegas, escrevendo ao correr da pena, de um modo ligeiro, não raro superficial, como se o ato de escrever um romance fosse próprio de todos os que sabem ler e escrever, do adolescente ao reformado, bastando para tal uma boa história para contar. Mas, não haveremos de nos descuidar daquele elemento fundamental para a construção da narrativa: a verossimilhança. Se a história é contada pela gente simples, o adolescente ou a mulher balzaquiana, não sobra outra alternativa à construção da linguagem.

Miguel Real ainda atribui tal simplicidade escorreita da linguagem à influência da prosa jornalística – ao que acrescento a da telenovela e dos seriados. Eliete torna-se, aliás, como ela própria se classifica, uma heroína de fotonovela, sobre quem diz: “As heroínas de fotonovelas tinham-me ensinado que, insistindo nas mesmas palavras, haveria menos equívocos da linguagem, menos enganos e distrações, e que todos saberíamos o que pensar, ouvir e ler perante determinada palavra já que a maioria das palavras não se inscreve na categoria das palavras insubstituíveis como morte, mãe, amo-te”. A reflexão, esclarecemos, é outro dos arroubos metaficcionais, em que encontramos a Eliete a pensar sobre, como no passado, as obras literárias se utilizaram de uma variedade de termos para designar a mesma coisa.

Há ainda uma sorte de outras questões das muitas que Eliete é capaz de nos suscitar. Mas ficam para outros leitores e para outra ocasião enquanto esperamos pela segunda parte dessa epopeia negativa de Dulce Maria Cardoso.

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