Boletim Letras 360º #337

Uma nova coleção para publicar autores portugueses no Brasil. Entre as duas estreias no âmbito do projeto, está uma antologia da poeta Adília Lopes. Mais detalhes ao longo deste Boletim.



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Segunda-feira, 19 de agosto

A antologia Nove histórias é próximo título de J. D. Salinger a ser publicado pela editora Todavia.

Neste que é um dos mais célebres e festejados livros da língua inglesa, J. D. Salinger deu a seus leitores nove obras-primas da narrativa curta. Do cultuado “Um dia perfeito para peixes-banana”, em que o leitor tem seu primeiro — e impactante — contato com a família Glass, que Salinger continuaria trabalhando em seus próximos livros, ao emocionante “Para Esmé — com amor e sordidez”, as histórias aqui reunidas dão a justa medida do talento inesgotável de Salinger. Nestas nove ficções, os Estados Unidos do pós-guerra aparecem com inédito frescor literário conforme acompanhamos os efeitos, às vezes sutis, do conflito na vida de indivíduos e famílias. A tradução é de Caetano W. Galindo.

O retorno da obra de Romain Gary às livrarias brasileiras.

A vida pela frente é um dos livros de maior sucesso na história da literatura francesa. Vencedor do prêmio Goncourt, tornou-se um dos romances mais vendidos do século XX. Apesar de publicado há mais de quarenta anos, parece mais atual do que nunca. Momo vive sob os cuidados de Rosa, uma senhora judia. Sobrevivente de Auschwitz, ela cuida de diversas crianças em seu apartamento. É nesse ambiente que Momo conta sua história. Da fricção entre a inocência e a brutalidade do mundo sai a força de um dos romances mais cativantes da literatura francesa recente. A tradução de André Telles sai pela Editora Todavia.

Sai em novembro nova tradução da Ilíada.

Desde a publicação da tradução de Trajano Vieira para a Odisseia pela Editora 34 que esperávamos uma possível edição da segunda epopeia de Homero. A longa espera, parece, está próxima de fim. Em nota divulgada na página da editora no Facebook, sabe-se que a nova tradução da Ilíada chega às livrarias em novembro. Seguirá o padrão da Odisseia: em formato bilíngue, com índice de nomes, sumário dos cantos, excertos da crítica, posfácio do tradutor e o célebre ensaio “A Ilíada ou o poema da força”, de Simone Weil.

Terça-feira, 20 de agosto

Livro reúne parte da crônica de Eça de Queirós.

Conhecido mundialmente como um mestre do romance, Eça de Queirós atuou em outros gêneros, entre eles a crônica jornalística. Parte de sua colaboração em periódicos trata de assuntos internacionais, valendo-se do conhecimento do escritor como diplomata. A editora Carambaia lança agora uma seleção desses textos em Ecos do mundo, organizada pelo escritor, tradutor e editor Rodrigo Lacerda, que assina também a apresentação. Os artigos se alternam entre observações espirituosas de costumes, análises detalhadas do xadrez geopolítico da época, reflexões sobre tendências intelectuais e artísticas em Londres e Paris e narrações que beiram a escrita ficcional. O Brasil ocupa a primeira parte da obra cujo título é inspirado na coluna “Ecos de Paris”, publicada no jornal carioca Gazeta de Notícias, periódico em que se deu a mais longa colaboração jornalística de Eça (1880 a 1897). Em nove crônicas, fica evidente que o escritor via o Brasil com simpatia, sobretudo quando comparado a Portugal. Isso não quer dizer que o Brasil e os brasileiros sejam poupados da célebre ironia de Eça. Nas demais partes do livro, estão reunidos artigos não só sobre os lugares em que Eça morou, Inglaterra e França, mas também sobre a Itália, a Turquia, a China, a Tailândia e outros países, a maioria deles enredados em conflitos internos e externos. O projeto gráfico do livro, de Mayumi Okuyama, se inspira nas implicações da palavra “eco” e se estrutura na ideia de pontes e ligações, relacionadas à reunião de textos de diversas publicações que apontam para o passado e o futuro. Encadernado em capa dura, o volume traz o título serigrafado e repetido, como um eco, em seis camadas de tinta.

Na impressionante continuação de O conto da aia, Margaret Atwood responde às perguntas que afligem os leitores há décadas.

Quando a porta da van foi fechada em O conto da aia, não havia como saber qual futuro Offred tinha pela frente - liberdade, prisão ou morte. Em Os testamentos, Atwood retoma a história quinze anos depois que Offred seguiu em direção ao desconhecido — a partir dos surpreendentes testamentos de três narradoras femininas de Gilead. Publicado em língua inglesa no início do ano, o livro sai no Brasil em novembro pela Editora Rocco com tradução de Simone Campos.

Quarta-feira, 21 de agosto

Antologia reúne cem poemas de Jorge de Sena e assinala no Brasil o centenário do escritor português.

Poeta aclamado e um dos mais importantes intelectuais portugueses do século XX, Jorge de Sena ganha esta alentada antologia poética no ano de celebração de seu centenário de nascimento. Autor de uma obra vastíssima, incluindo ainda ficção, teatro e ensaios, Jorge de Sena teve na poesia seu campo de experimentação, provocação e renovação. “Sena promove, na sinuosidade erógena dos versos, a fertilização de uma linguagem sempre à beira do desgaste e sempre pronta a incessante renovação”, aponta Gilda Santos, professora de literatura portuguesa da UFRJ e organizadora da antologia Não leiam delicados este livro. A edição reúne, além de 100 poemas do autor, uma série de notas explicativas e imagens que fazem parte do rico universo de Jorge de Sena. Um ensaio do filósofo, crítico e ensaísta português Eduardo Lourenço oferece uma análise aprofundada de sua produção poética. Para Lourenço, que destaca o papel fundamental de Jorge de Sena como um dos primeiros e mais lúcidos comentadores e críticos do Modernismo em geral, há na obra do poeta uma “desconfiança em relação ao poético enquanto lírico, canto por demais encantador e, por isso mesmo esquecido de sua função, tão mais necessária, de arma contra a mentira da imagem aceitável e aceita da condição humana.” Essa suspeita em relação à própria poesia é possivelmente o traço mais original da obra de Jorge de Sena, e toma proporções cada vez maiores à medida que sua aventura pessoal se torna mais complexa e mais dolorosa, confrontada não somente com o mundo confinado de Portugal em um regime ditatorial, assim como com os vastos horizontes de sua errância voluntária pelo Brasil e pelos Estados Unidos.

Antologia reúne poemas de Adília Lopes.

Uma das mais aclamadas poetas portuguesas da atualidade, Adília Lopes ganha uma nova antologia poética: Aqui estão as minhas contas, organizada por Sofia de Sousa Silva, professora de Literatura Portuguesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A edição, que integra a Coleção Atlântica, traz mais de 90 poemas de Adília, oferecendo um panorama de sua obra, de 1985 a 2018. A autora se tornou referência para poetas brasileiros de diferentes gerações e é quase unanimidade da crítica, além de marcar forte presença em teses e artigos acadêmicos, assim como blogs e epígrafes de livros de poesia. A tradição do poema curto e do poema piada, característico do modernismo brasileiro, talvez seja a razão para que o forte coloquialismo de Adília Lopes assim como o seu humor tenham encontrado tantos admiradores entre os leitores de poesia no Brasil. A atenção ao pequeno e ao prosaico e às situações do cotidiano na cidade, a sua Lisboa natal, conjugam-se na obra de Adília com um vasto universo de referências, que cobre desde cantigas medievais do século XIII, passando pela poesia de Luís de Camões, para encontrar diversos poetas da modernidade e da contemporaneidade, não apenas da língua portuguesa. Para dar conta dessas citações e da identificação de algumas das relações intertextuais estabelecidas pelos poemas, a edição oferece uma série de notas explicativas e um ensaio que proporciona um aprofundamento da leitura dessa fascinante poeta.

Quinta-feira, 22 de agosto

Amares, livro de Eduardo Galeano chega ao Brasil.

O mundo é isso. Um montão de gente, um mar de fogueirinhas. Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Eles são dois por engano. A noite corrige. Os ninguéns: os filhos de ninguém, os donos de nada... Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata. Frases como essas — incluídas nesta antologia dos melhores textos de Eduardo Galeano, que ele mesmo selecionou — se sublinham, se presenteiam como sinônimo de cumplicidade, se compartilham; elas carregam um olhar crítico sobre o mundo, mas também a possibilidade de uma utopia. Os leitores de Galeano as guardam na memória. As páginas de Amares revelam os temas que o preocuparam e inspiraram: as vicissitudes agridoces do amor, a amizade duradoura e os pequenos momentos grandiosos que a vida cotidiana nos brinda, mas também as injustiças, o grito dos esquecidos da história e a condenação das piores figuras do mundo contemporâneo. Galeano fala neste livro do amor em suas múltiplas formas: um casal que fica junto ou se perde, os filhos, o país que ampara ou expulsa, os companheiros de estrada, a escrita, os deuses que concedem e tiram, aqueles que vivem à margem. “Fomos feitos de luz, além de carbono e oxigênio e merda e morte e outras coisas, e enfim estamos aqui desde que a beleza do universo precisou de alguém que a visse”, escreve Galeano. As histórias de Amares —enternecedoras, reveladoras, pessoais e universais ao mesmo tempo — fazem justiça à beleza que Galeano se dedicava a encontrar no mundo. A edição que sai pela L&PM Editores tem ilustrações de Tute e tradução de Eric Nepomuceno, Sergio Faraco e Sérgio Karam.

Três novas edições e nova tradução para um clássico da literatura.

Uma menina, um coelho e uma história capazes de fazer qualquer um de nós voltar a sonhar. Alice é despertada de um leve sono ao pé de uma árvore por um coelho peculiar. Uma criatura alva e falante com roupas engraçadas, que consulta seu relógio e reclama do próprio atraso. Curiosa como toda criança, Alice segue o animal até cair em um buraco sem fim que mudou para sempre a literatura infantil. Mais de 150 anos depois, Alice no País das Maravilhas continua repleto de ensinamentos para aqueles que ousaram seguir o Coelho Branco até sua toca. A DarkSide Books deu a cartada que seus leitores tanto pediram. Alice no País das Maravilhas é uma obra tão grandiosa que não cabe em uma única edição. Agora, além de oferecer uma experiência peculiar com o visual único de cada uma das três novas edições, a editora apresenta um projeto gráfico interno completamente distinto para os diferentes leitores do clássico de Lewis Carroll: uma edição limitada com as deslumbrantes ilustrações da artista brasileira Mika Takahashi; uma edição para os leitores que não abrem mão dos clássicos com as ilustrações originais de John Tenniel para a primeira edição de 1865, além de um projeto gráfico que remete à época de lançamento da obra; e uma edição dedicada aos pequenos e futuros leitores com as ilustrações adaptadas de Tenniel por colorir, para que as crianças possam dar as cores que quiserem às páginas.

Sexta-feira, 23 de agosto

Clássico de Maya Angelou retorna às livrarias.

Carta a minha filha revela o caminho de Maya Angelou em busca da melhor maneira possível de viver e se tornar a personagem principal da própria história. Com seu estilo único, mesclando relato confessional e poesia, ela concebe uma espécie de manual, contando sua trajetória fascinante e também seus anseios para um futuro que está nas mãos das herdeiras de seu legado. Conhecida por estar no front do movimento pelos direitos civis, a autora e ativista não apenas nos dá seu testemunho de luta, mas nos presenteia com um tocante relato de exaltação à vida. A nova edição preparada pela Editora Nova Fronteira conta com prefácio inédito da escritora Conceição Evaristo.

Um relato contundente sobre a herança do exílio, a ancestralidade, a perda e a recuperação da identidade ganha edição no Brasil.

A autora Lina Meruane nasceu em Santiago do Chile e desde o ano 2000 vive nos Estados Unidos, onde ensina literatura na Universidade de Nova York. Descendente de palestinos, conta que seu avô tinha ouvido falar de um vale entre as cordilheiras na América do Sul, que prometia uma vida como a vivida em Beit Jala, aldeia da Cisjordânia considerada uma das mais antigas da Palestina. Essa promessa fez do Chile o país com a maior comunidade palestina fora do mundo árabe. Duas gerações depois, a neta decide retornar ao território do avô. Retornar para um lugar que nunca tinha estado antes. Jogando com o duplo sentido do verbo volver em espanhol (regressar e tornar-se), Tornar-se Palestina é a crônica de viagem de Lina Meruane a Israel para buscar e reapropriar as origens da sua família em áreas ocupadas. Mas além da nostalgia e da história familiar, a autora se encarrega de pensar o palestino também a partir do vínculo com o presente, a partir do que ela considera o grande paradoxo de Israel: que parte de uma comunidade a quem foi negada, por séculos, a propriedade e o pertencimento a um lugar seguro, agora submeta o povo palestino ao mesmo mal de que foram vítimas. Hoje, os palestinos são a maior comunidade de refugiados do mundo. A obra também traz uma série de reflexões literárias, filosóficas e políticas sobre o conflito entre israelenses e palestinos através de seu acordo ou desacordo com intelectuais como Edward Said, Amos Oz, David Grossman, Ilan Pappe e Susan Sontag. A tradução de Mariana Sanchez integra a Coleção Nos.Otras e é publicada pela Relicário Edições.

DICAS DE LEITURA

1. Os anos, de Annie Ernaux. A obra da escritora francesa no seu país natal e em alguns outros onde foi traduzida dispensa apresentações. Na França recebeu importantes prêmios como o Renaudot e o Marguerite Yourcenar. No Brasil, sua chegada é tardia, mas expressiva. O primeiro título que aqui chega foi lido como reinventivo na milenar arte de narrar e uma peça inovadora no âmbito das chamadas narrativas autoficcionais. Não é apenas isso, ao contar sobre sua própria vida mergulhada nos acontecimentos que deram forma a meio século de história, tempo em que a humanidade tomou rumos dos mais amplos e diversos, Annie Ernaux cobra do seu leitor uma compreensão de que somos parte de um complexo universo exterior engendrado por nossas próprias mãos: a religião, a política, a cultura, a economia. Não é possível pensar no eu fora desse universo e é esse seu exercício com a ficção: “captar o reflexo da história coletiva projetado na tela da memória individual.” O livro foi publicado pela Editora Três Estrelas.

2. Meu pequeno país, de Gaël Faye. Infância, guerra, exílio e a questão da identidade. Três palavras-chaves utilizadas para descrever o romance de estreia do escritor nascido em Burundi que foi viver em Paris depois da deflagração da guerra civil e o genocídio em Ruanda. Essas experiências impressas para sempre na memória do menino Faye levaram-no a escrever esse romance, que à maneira de Annie Ernaux, é também marcado pela nascente autoficcional. Aqui, a história é apresentada pelo ponto de vista de um garoto de dez anos; o tempo com os amigos e companheiros de aventura do pequeno Gabriel é também interrompido brutalmente pela guerra civil, seguida da tragédia do genocídio de Ruanda. A maneira como essa experiência é construída também é inovadora, uma vez que mundo de horror é entrevisto por uma caudal de sensações que ampliam de maneira significativa o trabalho de apreensão da história e das marcas na vida dos indivíduos. A edição brasileira é da Rádio Londres.

3. Com tinta vermelha, de Mireille Abramovici. Passou meio em silêncio a aparição deste livro aqui em 2016. Mas, aos leitores que se interessarem pelos dois primeiros títulos recolhidos nessa lista não devem dispensar também este. A escritora coloca no papel o seu périplo de uma vida: o desaparecimento de seu pai Isaac Abramovici que foi levado pelo nazismo de Adolf Hitler. Não é um livro leve como os dois primeiros, até porque qualquer obra que toque nesse tema não conseguirá dispensar os tons pesados do drama. Mas não encontrarão alguém presa a um passado e já incapaz de viver o presente porque em tudo está a necessidade de descobrir sobre o paradeiro do pai. Trata-se, isso sim, de alguém que assumiu o compromisso individual de tornar coletiva a dor de uma injustiça – seja para aprender a conviver pessoalmente com o trauma seja para despertar o outro do conforto existencial de que as milhões de mortes contra diversa variedade humana foi só um mero acidente da história ou ainda a manipulação solitária de um facínora. Leia mais sobre o livro aqui.

VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS

1. No dia 20 de agosto celebramos os 130 anos do nascimento de Cora Coralina. Aqui no blog e nas redes sociais, o leitor encontra uma variedade de materiais sobre a poeta descoberta por Carlos Drummond de Andrade e sua obra. Em nossa página no Facebook replicamos uma rara entrevista realizada na antiga TV Manchete quando Cora havia ganhado o mais importante prêmio literário da literatura brasileira de então – o Juca Pato. As questões políticas da época, sua relação com a criação literária, com sua cidade natal, histórias de sua vida, entremeadas com pílulas de sabedoria. É uma entrevista deliciosa. Veja aqui.

2. O leitor pode recordar ainda outro vídeo com a poeta Cora Coralina. Nele, ela recita o poema “Todas as vidas”. O vídeo está em nossa galeria no Facebook desde outubro de 2016 e pode ser visto aqui.

BAÚ DE LETRAS

1. Ainda sobre o aniversário mais importante da semana, podemos citar duas recomendações de postagens realizadas pelo Letras in.verso e re.verso: uma rara entrevista com Cora Coralina; e o texto no qual Carlos Drummond de Andrade escreve sobre a descoberta da poesia da poeta goiana.


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