Tema ou técnica? I – Notas sobre um debate crítico-literário


Por Guilherme Mazzafera

“Uma técnica artística não é uma receita: é um conjunto de exigências interiores que condicionam e determinam a forma exterior de uma obra de arte.”
 Álvaro Lins

Kazimir Malevich. Desportistas, 1913.

 
No fragmento XLII do seu Notas de um diário de crítica (1943), ausculta Álvaro Lins: “Uma argumentação que está se formando no íntimo de nossas consciências artísticas, e que eu gostaria de ver tomar corpo e vencer, é a da revalorização do estilo, a da importância da ‘forma’ na obra literária.” Pode-se dizer, sem qualquer dúvida, que o desejo de Lins foi atendido: tal argumentação tornou-se verdadeiro mantra crítico da época, bandeira defendida por nomes como Mário de Andrade, Graciliano Ramos, Almeida Salles, Antonio Candido, Sérgio Buarque de Holanda, João Cabral de Melo Neto, entre outros, em ensaios veiculados em periódicos entre o final dos anos 1930 e o início dos anos 1950.

Em Antonio Candido, por exemplo, nota-se a consciência aguda de que o valor de um romance não depende do seu significado social ou ideológico, mas sim de sua “realização artística efetiva” (“O romance da nostalgia burguesa”, 2011, p. 34). Comentando um texto de Almeida Salles no qual este retoma a diferenciação de Paul Valéry entre escritores estrategistas e escritores táticos, Candido nos informa que, para Salles, a grande maioria dos escritores brasileiros é do segundo tipo, ou seja, autores “dotados de talento e habituados a construir, segundo o influxo dele, no primeiro movimento de inspiração” (“Estratégia”, 2011, p. 73). Os escritores estrategistas, por sua vez, concebem a criação como “afloramento definitivo de um largo trabalho anterior”, ao longo do qual se obtém o “progressivo domínio dos meios técnicos”. Confiando menos na impulsividade do talento e nos arroubos da inspiração do que no vagaroso aprimoramento dos recursos artísticos, tais escritores acabam por cumprir a “condição primeira para a plena expressão do pensamento e da sensibilidade.” Assim, a possibilidade de uma renovação literária, para Candido, precisa começar, sempre, “pela feitura de uma expressão adequada” ou, posto de outro modo, “é preciso que o pensamento afine a língua e a língua sugira o pensamento por ela afinado” (“Tentativa de renovação”, 2011, p. 88). É por essa perspectiva que o crítico saúda a estreia de Clarice Lispector com Perto do coração selvagem (1943), uma tentativa de renovação em meio ao marasmo do conformismo estilístico que inviabiliza a “verdadeira aventura da expressão”.

Os ensaios literários de Sérgio Buarque de Holanda publicados entre 1941 e 1951 dão testemunho de uma crise de prestígio da prosa literária nacional, em especial o romance – a forma literária mais impura e, por isso mesmo, mais acessível ao leitor médio –, em contraposição a uma verdadeira “inflação poética” (“Em torno do círculo mágico”, 2010, p. 192) em contexto marcado pela visada técnica e formalista associada ao crescente interesse tanto pelos procedimentos poéticos em si mesmos como pela construção de mundos pessoais (“Tema e técnica”, 2010, p. 207). A partir de críticas às obras de Oswald de Andrade (Memórias sentimentais de João Miramar e Serafim Ponte Grande) e Clarice Lispector (A cidade sitiada), Sérgio formula uma hipótese que, partindo dos exemplos malogrados em estudo – quando comparados aos livros precedentes dos mesmos autores –, poderia ser uma saída possível diante do travamento da prosa brasileira: um olhar mais atento para o que se considerava prerrogativa do poético, ou seja, os “problemas de técnica”. Seu interesse, como historia o crítico, contrapõe-se à predominância do tema enquanto componente essencial da prosa romanesca, de modo que a valorização de certas escolas literárias se liga indissoluvelmente à atração por temas específicos, o que faz com que o seu prestígio oscile em função da estima do público pelo assunto. Assim, observa ele, o fascínio pelo romance regional deveu-se, em grande medida, “ao preconceito de que há assuntos válidos por si mesmos e capazes de suprir largamente quaisquer deficiências de meios do escritor”, somado ao anseio por uma arte nacional composta por “temas nitidamente brasileiros”. Desse modo, o excesso de “romanesco” do veio regionalista, ao tornar o assunto demasiado sugestivo, supriria toda necessidade de artifício, permitindo a seus autores maior economia de meios e veiculando uma ilusiva sensação “de sua capacidade criadora” (“Notas sobre o romance”, 2005, p. 320).

No entanto, a primazia do tema não parece ser exclusividade dos regionalistas. Em “Tema e técnica”, Sérgio aproxima as vertentes regionalista e intimista pelo destaque que conferem, de modo ostensivo, ao “material da novela” em vez de valorizar a “capacidade de organizar este material numa unidade artística independente e coerente”. Antevendo possíveis recriminações que poderiam considerar tal sugestão uma defesa do esteticismo esvaziado que se difundia naqueles anos, sobretudo associado à então emergente Geração de 45,  Sérgio aponta o perigo da aplicação à disciplina forçada e ao hermetismo que parecem caracterizar seus epígonos, posto ser difícil a separação entre a “conquista pessoal e perene” e o formalismo vazio que, em seu anseio de tornar o leitor partícipe a todo custo, acaba por oferecer um “aerólito alheio a realidades humanas e terrenas” (“Os caminhos da poesia”, 2010, p. 107). Contra tudo isso, Sérgio opta por imaginar uma “forma consubstancial à matéria”, como a encontrada em Joyce ou em Proust “pela deliberada superação das técnicas tradicionais”, ou nos russos do século XIX e nos norte-americanos de então, pela inexistência de uma “tradição estética absorvente e imperiosa” que acaba por oprimir o livre exercício da imaginação criadora (“Tema e técnica”, 2010, p. 211). A obtenção de tal técnica “verdadeiramente substancial à matéria” – formulação tirada de Claude-Edmont Magny – converte-se em atitude essencial para reparar o equívoco que enaltece o tema no lugar da “arte e engenho do novelista” e, assim, abrir caminho para “uma verdadeira reabilitação, entre nós, da arte do romance”.

O próprio Álvaro Lins contribuiu significativamente para a discussão, como atestam os múltiplos ensaios e resenhas que compõem a série Jornal de crítica¹, que esquadrinha diversos escritores, deslumbrando-se com alguns (como Guimarães Rosa), lamentando o declínio de outros (como Jorge Amado e Dyonélio Machado), discutindo teorias e esboçando análises de largo fôlego sobre a situação da literatura brasileira daquele momento. A leitura do Jornal revela, entre outras coisas, a defesa e prova prática de certos critérios de análise literária ao lado de uma constante e sempre remodelada percepção de uma crise da literatura brasileira, decorrente, em certa medida, de uma crise mais ampla das artes a partir da guerra europeia. No primeiro caso, Lins mostra-se um crítico exigente, apontando impiedosamente falhas provenientes de certo relaxamento de linguagem (“Romances, novelas e contos”, 1951) e da ausência de planejamento, destacando sempre a necessidade do preparo técnico e do senso de construção literária (“Estreias na ficção” e “Os novos”, 1951). No segundo caso, a percepção de uma crise artística geral afigura-se como um verdadeiro Zeitgeist que restringe possibilidades de atuação, o que faz com que o crítico suavize um pouco o problema ao conceder aos artistas o salvo-conduto de viverem em uma época marcada pelo domínio da brutalidade, que acaba por sufocar a arte: “E certamente a responsabilidade por alguma crise ou declínio nas atividades literárias neste momento não é dos autores e sim do ambiente, não é dos homens e sim da época.” (“Os novos”, 1951, p. 147)

No entanto, esse mesmo Zeitgeist fomenta a necessidade de verdadeiras atitudes artísticas, de modo que a permeabilidade entre literatura e política é pensada com calma e ponderação por Lins, que advoga não pela separação extrema de tais instâncias, mas por uma espécie de homeostase em que as preocupações sociais não sirvam de desculpa para eximir o artista de sua “missão dentro da ordem estética” (e vice-versa) e, no caso brasileiro, não insuflem uma já acentuada propensão para o fácil e o rápido: “Ficaríamos em feliz equilíbrio com um pouco menos de talento improvisado e um pouco mais de composição na arte literária” (“Literatura e política”, 1947, p. 41-42). Lins percebe na produção regionalista do início dos anos 1940 a formulação de um possível equilíbrio entre o interesse político-social e a preocupação estética, que amplia a ressonância particular da “fidelidade ao real”, motivo pelo qual valorizará entusiasticamente, por exemplo, o aparecimento de João Guimarães Rosa com Sagarana:

“O que me parece mais destacado nesses romancistas modernos é a fixação do regionalismo em termos menos particulares e mais gerais; a fidelidade ao real ao mesmo tempo em que a interpretação do que há de humano e universal nos seres de sua região. Uma preocupação de verossimilhança em acordo com uma preocupação política ou social. E desde que o autor não se transforme em simples panfletário, desde que tenha força para realizar a sua obra dentro de uma superior categoria literária, a verdade é que a preocupação política ou social – lançada em forma idealística e não apenas partidária – poderá aumentar a grandeza do romance.” (“Romance do interior”, 1947, p. 84-85)

A dissociação entre política e literatura em benefício da primeira e do desejo de propagar ideias de modo direto, não trabalhadas esteticamente, por outro lado, tem produzido efeitos perniciosos na literatura nacional, resultando em um conjunto de romances que se faz enquanto “documentário social sem realização estética” (“CCLXVII”, 1943, p. 290).

A noção de que os escritores brasileiros, em sua maioria, recorrem às musas, à muleta da inspiração talentosa e ao apelo do tema, negligenciando ou efetivamente desprezando a forma expressiva (por acreditarem que a expressividade reside no assunto e não na forma) parece delinear um contínuo que atravessa o pensamento crítico dos anos 1940. Não raro, tal ideia aparece ancorada na crítica às liberalidades trazidas pelo Primeiro Modernismo em seu anseio “desacademicizar” a escrita brasileira e cuja aplicação irrestrita, em contexto diverso, constitui anacronismo, pois, como lembra Lins, tal anseio configurou-se, num primeiro momento, como estratégia de combate diante da “necessidade primária de destruição”, sendo o destino natural das revoluções – na qual a modernista se inclui – “ultrapassar e descaracterizar, para melhor ou para pior, os fins visados pelos seus idealizadores.” (1943, p. 43) Além disso, como aponta Sérgio Buarque, o “laissez-faire artístico” atribuído aos modernistas de primeira hora nunca foi, entre seus representantes genuínos, algo constitutivo, daí o risco implicado na reação Neomodernista, que, reforçando o colorido desse “liberalismo”, acaba por promover uma exacerbação formalista fechada em si mesma e incapaz de integrar as conquistas modernistas em novo contexto (“Fluxo e refluxo – III”, 2010, p. 344-345). Para isso, exige-se não a cristalização de seu oposto (que implica ainda uma dependência), mas um gesto crítico capaz de divisar o que há de positivo e atual nessas conquistas, compondo-as em uma síntese que, para o estudioso, deve ser “brasileira, embora despreocupada do Brasil” e “disciplinada, posto que generosamente livre.”

Em meu primeiro texto publicado aqui no Letras, tentei apresentar a esquiva visão de Guimarães Rosa, encapsulada em uma instigante carta ao tio e também escritor Vicente Guimarães, quanto às questões aqui elencadas. Ao retomar este debate, pretendo ampliar seu escopo a fim de contemplar as posições de outros dois notáveis críticos-criadores – e, a seu modo, pedras angulares na constituição da poética rosiana –, Mário de Andrade e Graciliano Ramos, assuntos dos próximos textos desta série.

Notas

¹ A série Jornal de crítica é composta por oito volumes, todos publicados pela Livraria José Olympio Editora: 1ª Série (1941), 2ª Série (1943), 3ª Série (1943), 4ª Série (1946), 5ª Série (1947), 6ª Série (1947), 7ª Série (1963) e 8ª Série (1963). Há ainda as Notas de um diário de crítica, publicadas em dois volumes em 1943 e 1963.


Referências:

CANDIDO, Antonio. “Estratégia”, “O romance da nostalgia burguesa”, “Poesia, documento e história”, “Uma tentativa de renovação”. In: Brigada ligeira. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2011.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. “Notas sobre o romance”. In: O espírito e a letra: estudos de crítica literária I (1920-1947). São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. “Em volta do círculo mágico”, “Fluxo e refluxo – III”,  “Os caminhos da poesia” e “Tema e técnica”. In: O espírito e a letra: estudos de crítica literária II (1948-1959). São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p.192.
LINS, Álvaro. Notas de um diário de crítica. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1943, volume 1.
LINS, Álvaro. “Literatura e política” e “Romance do interior”. Jornal de crítica. 5ª série. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1947a.
LINS, Álvaro. “Estreias na ficção” e “Os novos”. In: Jornal de crítica. 6ª série. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1947b.

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