Digna raiva. As crônicas políticas de José Saramago no Extra (1977-1978)*

Por Miguel Koleff

José Saramago em comício, anos 1970. Foto: Arquivo da Fundação José Saramago.



Concentro-me no estudo das crônicas políticas escritas por José Saramago para o semanário lisboeta Extra entre 23 de julho de 1977 e 25 de maio de 1978. São 31 (trinta e uma) crônicas incluídas no volume Folhas Políticas publicado em 1999**, que reúne as intervenções do autor no campo do jornalismo entre 1976 e 1998 e que acompanha — em modo de apêndice — um livro anterior, publicado em 1990 e que condensa dois importantes volumes: os artigos jornalísticos publicados no Diário de Lisboa no período pré-revolucionário de 1972 a 1973 e os editoriais do Diário de Notícias, redigidos em 1975, enquanto o autor exercia o cargo de diretor ajunto nesse jornal.
 
Do ponto de vista formal, tanto as crônicas do Diário de Lisboa, como as do Diário de Notícias e Extra mantêm a mesma estrutura e extensão, precedidas de um título que as distingue. A linguagem é semelhante e o tom é modificado de acordo com a situação: enquanto escreve para o Diário de Lisboa é claramente o opositor; no Diário de Notícias é oficialista, comprometido e militante, meio céptico e muito crítico; já no último caso, no Extra, esboça certa neutralidade e distanciamento dos fatos, embora se enquadre no perfil da oposição, como fazia antes da Revolução dos Cravos. Do ponto de vista do conteúdo, não há grandes diferenças, exceto uma redação “iterativa”; no caso do Extra, todas as crônicas são construídas em torno de um mesmo tema, que é a crítica ao Partido Socialista (PS) como partido no poder e o manejo da ironia e do sarcasmo, que confere à denúncia um matiz particular de tom subjetivo, feito que nos permite compreender a “digna raiva” a que aludimos no título.
 
O ponto nodal que diferencia as crônicas publicadas no Extra das anteriores está no lugar de enunciação que busca ser peculiar. Apesar de continuar a fazer parte do Partido Comunista (PC)1, os laços com a liderança estão “quebrados” desde a sua saída do Diário de Notícias em 1975, pois — como assinala João Marques Lopes — não lhe foi dada oportunidade de se juntar às fileiras de O Diário, para onde, pelo contrário, foram conduzidos os colegas editoriais que ficaram sem trabalho após a contrarrevolução de novembro de 1975 (Marques Lopes, 2010, p. 83). Embora não tenha rompido relações com o PC do qual é formalmente filiado desde 1969 e mantenha alguma fidelidade a ele2, deixa bem claro que a voz que assume no Extra é a de um cidadão comprometido que fala a partir do “rés -do-chão” [ao nível do solo] já que:
 
“Não sou tão suficiente que diga falar em nome do povo, mesmo sabendo que quem escreve se considera sempre um pouco investido, procurador de um sentir e de um pensar colectivos que no escrever individual procurassem ser voz. Também não tenho mandato de organização ou grupo para desta maneira abrir caminhos ao que amanhã conviesse acreditar” (p. 53).
 
Destaco esse aspecto porque é o que se torna mais transparente ao se ler o conjunto total de crônicas escritas nos anos 1970, mesmo com o escalonamento histórico que supõe, pois o lugar de enunciação a que nos referimos é desinvestido de qualquer autoridade que poderia legar-lhe qualquer filiação política, mesmo com carteira partidária. Em várias crônicas do Extra, as primeiras passagens fazem alusão a essa posição, o que significa que o próprio autor não quer que ela passe despercebida. Em “País real, real país” torna-se explícito quando assinala que “Não vivo em S. Bento nem Belém3, não sou deputado ou ministro, nem casa civil ou militar, portanto estou fisicamente impedido de saber, desses altos pontos e postos, como se veem a si próprios os habitantes” (p. 40). Ao enfatizar a incapacidade física de acessar o conhecimento “de cima”, entroniza o lugar de “baixo” como única possibilidade de leitura a que tem acesso. Ele também o faz em “As rosas” onde assume o lugar do jardim para exercer sua crítica e não a frente da casa (p. 50). Na crônica “Como ia dizendo…” de 11 de maio de 1978 — trazida para encerrar esses exemplos — ele escolhe “a borda do passeio” (p. 88) para se colocar no lugar do leitor e contemplar a mesma coisa que este é capaz de ver.
 
A definição do lugar hermenêutico em uma crônica política é algo que não pode ser ignorado e vai além das estratégias de enunciação e sua sintonia com o lugar físico. Por isso, além de seu reconhecimento, é importante destacar também a natureza da “crítica” que se elabora nestas notas, que — segundo o cronista de “O rés-do-chão” — se produz “não tanto no plano político, mas no plano moral, com ressalva, claro está, de algo que todos sabemos; que o discurso antipolítico o é quase sempre. Nada de confusões” (p. 53). Esta última afirmação é muito relevante porque deixa claro que o enunciador da crônica conhece perfeitamente os riscos que corre ao tornar transparente um ponto de vista e por isso quer resolvê-lo como se se tratasse de uma equação de ordem moral e não apartidária, mesmo com as ressalvas do caso. Em outras palavras, cuidando-se para não adotar uma posição antipolítica na qual não gostaria de se envolver por questões de identidade cultural e ideológica. Possivelmente seja esta a razão que explica o uso da ironia, do sarcasmo e do humor que caracterizam estas crônicas e que anteriormente considerei como um dos elementos diferenciadores das anteriores4.
 
Antes de avançar na análise da lógica que organiza a crônica política no caso do Extra e sublinhando o seu enquadramento argumentativo, não posso deixar de dar conta do contexto em que se inscrevem e da relação que mantêm com as anteriores, sobretudo as do Diário de Notícias, por esta mesma razão. Ao contrário daquelas notas editoriais, o cenário é mais consolidado: o PREC [Processo Revolucionário em Curso]5 e os governos provisórios foram superadas e, portanto, não interessa mais a lógica interna favorecida pelas estratégias “de esquerda” para tornar o exercício do poder mais amigável, nem a disputa entre PS e PC para garantir a legitimidade das reivindicações. No Extra já falamos de uma democracia que foi legitimada em eleições eleitorais6. O presidente da nação é o General António Ramalho Eanes, o Primeiro-Ministro, Mário Soares e o período de 23 de julho de 1977 a 25 de maio de 1978 corresponde ao Segundo e Terceiro Governo Constitucional. Nestes governos, do ponto de vista de José Saramago, evidencia-se uma clara aproximação do PS, apoiado nas urnas, com os partidos de direita: CDS (Centro Democrático Social) e PPD (Partido Popular Democrático)7. É por isso que a distância intelectual entre os editoriais do Diário de Notícias e as crônicas do Extra extrapola a conjuntura histórica quando lida em termos políticos. Se no Diário de Notícias, o diretor adjunto que assinava as notas ratificava a dinâmica da esquerda como se fosse uma espécie de “conflito interno” no marco de uma coalização8, no Extra esta batalha é considerada perdida e trata-se de salvaguardar o “purismo” do PS como último posto de uma esquerda encorajada desde o próprio germe da Revolução. Afinal, o lema de que o objetivo do Estado português é “assegurar a transição para o Socialismo” estava na letra da Constituição de 1976, tal como a crónica “Vou amotinar-me” de 29 de setembro de 1977.
 
Feita essa consideração, fica mais fácil entender a lógica que organiza a crônica política do Extra levando em conta o conceito de democracia, ou seja, a validação do PS como a força política encarregada de realizar a transformação social que pôs fim à ditadura salazarista de mais de 40 anos em Portugal. E este elemento é relevante porque a aproximação do PS aos referidos núcleos de direita acentua a ideia de um “fascismo” que se quer combater e que —no interior das crónicas — está mais ressuscitado do que antes9. Com maior ou menor vigor locutório, o cronista do Extra deixa explícito não só que o fascismo nunca desapareceu da política nacional, mas também que ameaça reocupar esse espaço que “por despeito maltratado” caindo “com tanta facilidade em 25 de Abril” (Saramago, 1999, p. 76)
 
“O fascismo também é capaz de aprender lições, e neste momento, ao espelho da história recente, nacional e internacional, recompõe o rosto. Não virá com o nome de fascismo, mas esse é o seu nome” (p. 77).
 
Estamos há três anos da Revolução10 e o ​​que deveria ser uma estrutura já solidamente alicerçada como afirmação democrática sem fissuras ameaça retroceder devido à inexperiência do poder vigente. O termo “fascismo” que Saramago opõe ao de democracia “teatralizada” pelo PS, além de assumir um retorno ao status quo anterior à revolução e negar os seus gestos de confiança (a Reforma Agrária, por exemplo), caracteriza-se por enaltecer a antiga organização social (“à revelia da realidade da luta de classes”, 47) e por usar a violência para alcançar seus resultados. Esta última informação que, em crônicas como “O gosto de bater” e “Recado para João Basuga, alentejano” constituem a ideia principal, é de uma gravidade invulgar que — no entanto — é dissimulada ou solapada.

A primeira edição de Folhas Políticas.


 
Quero retomar uma das afirmações, a da “incompetência do poder do momento”, porque me parece que é ela que funciona como o leitmotiv do conjunto das crônicas do Extra na medida em que como abonam a posição crítica do cronista. Mário Soares é incompetente para exercer o papel, pois o próprio PS no poder não só se mostrou mais interessado nas benesses pessoais11 do que no bem-estar comum e social, como também “traiu” a causa da esquerda que o viu nascer e se fortalecer em seu nome. Na crônica “A mão do finado” Saramago reflete sobre o brasão do PS para o qual não basta só o punho cerrado num braço levantado, mas acrescenta uma rosa ao seu desenho, e faz isso nestes termos: “Tornou-se hoje claro que aquela mão naquela bandeira era um equívoco” (p. 32), explicando que a rosa é sinal de mais afinidade aos tempos democráticos do que aos revolucionários e que o punho erguido pode ser claramente ameaçador para espíritos suscetíveis12 que se sentem intimidados pela força dessa imagem.
 
Quando se afirma na crônica “País real, real país” que a aprendizagem que o país tem feito nos últimos três anos tem a ver com a traição do partido no poder, destaca-se o seguinte:
“Aprendemos uma dolorosa evidência: que afinal não prestam para nada muitos dos homens que foram esperança do povo no tempo do fascismo. Essa foi a grande derrota portuguesa” (p. 41). A palavra “esperança” tal como aparece nesta crônica e a palavra “confiança” que por vezes a substitui por outras do mesmo teor13, ligada à ideia de “povo”, referem-se teoricamente os enunciados do cronista, aquelas que são postos em jogo na disposição das peças de oratória. Em conjunto, impelem a crítica, a resistência e, principalmente, a raiva ou a indignação que leva o cronista a pesá-las ao conceber seu aparato discursivo. Por isso, nas crônicas do Extra reconhecemos — além de um ponto de partida e de um diagnóstico da situação —, a indignação que provoca e, quando possível, uma proposta alternativa.
 
O ponto de partida tem a ver com um elemento de realidade que é contemporâneo da crônica e que serve ao cronista como razão ou causa suficiente para argumentar a respeito. Normalmente é um gesto ou ato político que envolve o partido no poder em que o cronista observa os sinais da traição do povo, a proximidade do fascismo ou a deturpação da democracia como fenômeno da vida cívica que — ao ser interpretado — possibilita o segundo elemento organizacional, o diagnóstico. O último aspecto destacado (a deturpação democrática) é o mais virulento de todos quando aparece porque, somado ao humor, ironia ou sarcasmo que funcionam como meio expressivo, dá conta de uma certa “espetacularização”14 da vida política digna de crítica. Os exemplos atravessam e marcam as crônicas aqui referidas. A “digna raiva”, que tomamos do paradigma zapatista, supõe a intelecção e a leitura do diagnóstico da realidade pelo cronista e traduz a emoção virulenta que nele provoca. O cronista sente-se impotente diante de um poder que se dobra maliciosamente, mas não tem recursos suficientes para enfrentá-lo, ciente de que o apelo jornalístico não consegue ultrapassar as fronteiras textuais. Ainda assim, reage energicamente. A indignação inclui inflexões deste tipo que são fáceis de reconhecer em quase todas as crônicas do Extra mas que, numa em particular, “O rés-do-chão” assume a forma apelo:
 
“Chegou provavelmente a hora do grande protesto coletivo. Já aqui escrevi que este povo foi, todo ele, durante algum tempo, um povo de políticos. É urgente que volte a ser. Primeiro, porque a política é mesmo pertença de todos; e porque se lhe há-de agora juntar o fermento moral, contrário da apatia, da resignação, da renúncia. Os políticos que nos governam ou ambicionam governar, é bom que se saiba, não têm maior mérito do que qualquer cidadão honesto e patriota, e é imperioso que cada um de nós os interrogue: ‘Que fizeste do voto que te dei? A quem serves com ele?’ Não para ingenuamente acreditarmos na resposta, mas para a confrontarmos com os factos, que esses sim, são mestres” (p. 54).
 
O segmento discursivo que chamamos de proposta e que funciona naturalmente como fechamento da crônica política está relacionado à ideia de correção (política) e possibilita um futuro como possibilidade concreta de resolução ou aprimoramento. Pode estar indelevelmente ligada ao aconselhamento, à observação ativa ou — como já foi referido em casos como “O rés-do-chão” — à ação concreta de denúncia ou conspiração no estilo panfletário. Novamente, o formato de crônica político-jornalística limita os recursos de atuação e traduz o desabafo reduzindo-o a uma categoria retórica.
 
Como exemplo e sem a intenção de reduzir didaticamente sua implicação, tomemos o caso de “País real, real país” publicado no Extra em 22 de setembro de 1977 por ser um dos mais implacáveis ​​nessa linha em reconhecer sua organização argumentativa.
 
1. Ponto de partida. A crônica inicia-se com um quadro da situação condensado sinteticamente numa afirmação contundente: “A paisagem política é deprimente” (p. 40) com a qual se situa num contexto preciso que corresponde aos “três anos e meio decorridos desde o 25 de Abril (p. 41) assumindo uma perspectiva comum ao resto dos artigos publicados nesse jornal: uma espacialidade circunscrita entre o topo do poder e o abaixo do homem comum.
 
2. Diagnóstico. A próxima passagem é a caracterização do presente cuja nota mais sugestiva é a traição do partido no poder (PS) que — prometendo uma Constituição socializadora — se entregou às influências da direita e do fascismo que dizia combater. Trata-se — claro está — uma “democracia nova” mas organizada com “os traços recompostos do fascismo velho” (p. 41).
 
3. Digna raiva. Somente após esse diagnóstico, o cronista expressa sua avaliação a esse respeito e expressa a indignação que leva a colocar a questão por escrito. Em ocasiões — como a desta crônica — enfatizando a primeira pessoa do singular como canal de sua raiva: “Mas pasmo dian- te da cegueira já incurável de quem manda: para um povo em mudança não servem políticas paralisantes de passo curto” (p. 43).
 
4. Proposta. Nem todas as crônicas contêm uma proposta programática, mas — quando aparece — ora é incisiva, ora lacônica, mas sempre enfática. O caso deste texto é exemplar no uso da frase que adquire nuances impessoais: “Este ‘país real’ está, por seu pé, a transformar-se num ‘real país’ que aprende, na experiência, como se fazem, para que servem e a quem servem os políticos da hora. E quando são de servir” (p. 43) O verbo “estar”, conjugado no presente, avalia os procedimentos seguidos pela resistência para fortalecer (de fora, claro) o sistema democrático em crise.
 
Notas
 
1 Também referenciado como PCP (Partido Comunista Português).
 
2 Na crônica “Vou amotinar-me” de 29 de setembro de 1977, o autor afirma explicitamente: “Não vou reclamar a liquidação do Partido Comunista. Isso não faço. Cá por coisas: é uma gente com quem me tenho dado bem, conheço-o há muito tempo, e, para trabalhos, já lhes basta” (Saramago, p. 44).
 
3 O Palácio de São Bento é um palácio de estilo neoclássico localizado em Lisboa e sede do parlamento desde 1834. O Palácio Nacional de Belém está localizado em Belém (na praça Afonso de Albuquerque) e é a residência oficial do Presidente da República na cidade de Lisboa.
 
4 A título de exemplo, cito a conclusão da crônica “Recado para João Basuga, alentejano” (8-09-77) em que o autor lamenta que o Presidente da República (sem nomeá-lo) não tenha podido encontrá-lo em a sua visita aérea ao Alentejo porque “é ele quem mais perde por não te conhecer a ti” (Saramago, 1999, p. 40) referindo-se ao camponês João Basuga, objeto da missiva. Também pode ser visto em algumas expressões como “vivemos num país tolerantíssimo” (Saramago, 1999, p. 43) da crônica “Vou amotinar-me” em que o uso do superlativo é direcionado para aquele lugar.
 
5 Como assinala João Marques Lopes, “O processo revolucionário em curso (PREC) refere-se ao período revolucionário que vai do golpe militar de 25 de abril de 1974 até a promulgação da Constituição Portuguesa em abril de 1976” (Marques Lopes, 2010, p. 69).
 
6 Após a aprovação da Constituição de 1976, foram realizadas as primeiras eleições legislativas, vencidas pelo PS (36% dos votos). As eleições presidenciais foram realizadas em junho e o general António Ramalho Eanes venceu.
 
7 A crônica “O tempo do rato” de 15 de dezembro de 1977 brinca com essas iniciais.
 
8 O tema está ligado ao “Gonçalvismo” ao qual José Saramago se associa. João Marques Lopes assinala a este respeito: “Embora fosse verdade que à direção do jornal e à maioria dois trabalhadores alinhavam-se com o gonçalvismo e eram perméaveis ao PCP, nada indica que a linha do DN viesse ditada com base em instruções oficiosas dos governos de Vasco Gonçalves e do PC” (Marques Lopes, 2010, p. 76). Vasco Gonçalves, que fez parte da linha mais dura do Movimento das Forças Armadas, tinha “simpatias” pelo PC. Foi derrotado na contrarrevolução de 25 de novembro de 1975, depois de ter exercido funções executivas nos governos provisórios.
 
9 O eixo do “fascismo” como articulador da democracia apoiada pelo PS é um dos principais nas crônicas do Extra. Em alguns casos, antecipando seu retorno e, em outros, diagnosticando seu modo de emergência mais evidente.
 
10 Na crônica “O que somos” de 24 de novembro de 1977, o cronista recorda que “em três anos, os portugueses descobriram que os valores tradicionais não eram valores novos ou continuados valores que a república pequeno-burguesa de 1910 e o fascismo burguês e colonial de 1926 tinham inculcado pelas habituais vias de educação, da informação superstição” (Saramago, 1999, p. 61) colocando em foco o valor do voto e da democracia; na crônica “Papéis de identidade”, de 25 de maio de 1978, já são contados quatro anos: “Nestes quatro anos que levamos de vida transformada” (Saramago, 1999, p. 93).
 
11 Como afirma o cronista em “País real, real país”, de 22 de setembro de 1977: “Muitas vezes os povos perdem nos corredores do poder aquilo que ganharam à luz do dia em revoluções e trabalho. Significa que isso se vê hoje em Portugal: uma ou duas centenas de políticos gozam a vida e afagam a sua pequena glória em cima do cansado lombo português, lugar excelente para cavalarias que já de longe vêm” (Saramago, 1999, p. 42).
 
12 Em “A mão do finado” o cronista deixa claro que: “[O PS] Dirá tal vez que um punho assim fechado assustava as pessoas pacíficas, que os tempos são de concórdia, não são de revolução, que a rosa é que sim, muito melhor do que o cravo, cujo apenas tem vinte pétalas, quando a rosa tem vinte e uma, e que portanto flor há só uma a rosa e mais nenhuma” (Saramago, 1999, p. 32).
 
13 Em “País real, real país” lê-se perto do fim: “[O povo português] foi habituado desde sempre a algumas coisas destas, outras aprendeu depressa durante o tempo da sua confiança” (Saramago, 1999, p. 42).
 
14 Um dos elementos destacados para a figuração das crônicas políticas do Extra tem a ver com o recurso da linguagem e o que fica evidente é que — para o cronista — essa prática política que descreve, borra e critica se inscreve em um processo de “espetacularização” digna de nota. Vou rever algumas das expressões utilizadas: “grosseira encenação que o Partido Socialista montou em Portugal” (p. 32) e “o que conta é o disfarce, e agora tornou-se urgente” (p. 31) (“A mão do finado”); “navega-se em plena ficção política” (p. 47) e “disfarce verbal do oportunismo” (p. 46) (“Os independentes”); “o espetáculo português da política” (p. 51) e “este espetáculo tem seu interesse” (p. 52) (“As rosas”); “dramaturgia política” (p. 35) (“Furtiva lágrima”); “títeres democráticos” e “mascarilhas sociais-titante” (p. 54) e, finalmente, “o fascismo... dá-se em espetáculo” (p. 76) (“A cabeça”). Um texto sem desperdício é aquele que aparece no final do primeiro parágrafo da crônica “País real, real país”: “Com perdão de que do teatro fez amor e profissão, o político corrente é como um ator mascarado de actor, com todos os remendos à vista, salta-pocinhas de ministério e rábula cómica. Como não haveria de ser deprimente esta paisagem, esta comédia, este desgosto?” (p. 41) Em todos os casos, o sublinhado é meu.
 
Notas da tradução
 
* Este texto é parte do livro Digna Rabia. Las crónicas políticas de José Saramago en Extra (1977-1978), publicado por Miguel Koleff pela Ferreyra Editor (Córdoba, 2022) e foi cedido pelo autor para tradução e publicação no Letras. A tradução é de Pedro Fernandes de Oliveira Neto.
 
** As crônicas do Extra catalogadas no final de Digna Rabia são: “Préludio e marcha” (23 de julho de 1977); “Portugal ou Porto Rico?” (29 de julho de 1977); “O gosto de bater” (5 de agosto de 1977); “A verdade e a mentira” (12 de agosto de 1977); “A mão do finado” (19 de agosto de 1977); “Furtiva lágrima” (26 de agosto de 1977); “Constituição e palavra de honra” (1 de setembro de 1977); “Recado para João Basuga alentejano” (8 de setembro de 1977); “País real, real país” (22 de setembro de 1977); “Vou amotinar-me” (29 de setembro de 1977); “Os independentes” (13 de outubro de 1977); “O independente” (20 de outubro de 1977); “As rosas” (27 de outubro de 1977); “O rés-do-chão” (3 de novembro de 1977); “Adeus, adeus...” (10 de novembro de 1977); “O sinal contrário” (17 de novembro de 1977); “O que somos” (24 de novembro de 1977); “A cozinha” (8 de dezembro de 1977); “O tempo do rato” (15 de dezembro de 1977); “Como é óbvio?” (22 de dezembro de 1977); “A mesa deles” (5 de janeiro de 1978); “A banha de cobra” (12 de janeiro de 1978); “As (in)coerências” (19 de janeiro de 1978); “A cabeça” (9 de fevereiro de 1978); “O terceiro governo” (16 de fevereiro de 1978); “A transfusão” (2 de março de 1978); “A outra secousse” (9 de março de 1978); “O nome dele” (16 de março de 1978); “O nome dele” (16 de março de 1978); “Como ia dizendo...” (11 de maio de 1978); “Tomás, o recuperado” (18 de maio de 1978); e “Papéis de identidade” (25 de maio de 1978).

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