Dalton Trevisan


Dalton Trevisan. A foto é uma das últimas feitas do escritor que escolheu a reclusão como lugar estético.



Em 2012, o Prêmio Camões, o maior reconhecimento literário de língua portuguesa, alcançou novamente um escritor da literatura brasileira  deste lado, um quase desconhecido do grande público não fosse certo interesse despertado pelo ambiente acadêmico desde a abertura febril para com as produções contemporâneas.  Até a 24ª edição, o Camões, que foi instituído por Portugal e Brasil, distinguiu escritores como Miguel Torga, o primeiro a receber o prêmio, José Craveirinha, Vergílio Ferreira, José Saramago, Pepetela, Sophia de Mello Breyner Andresen, Eugénio de Andrade, Agustina Bessa-Luís, António Lobo Antunes, Arménio Ferreira. Dos brasileiros, ganharam o poeta João Cabral de Melo Neto, Rachel de Queiroz, Jorge Amado, Antonio Candido, Rubem Fonseca, Lygia Fagundes Telles, Ferreira Gullar, Autran Dourado e João Ubaldo Ribeiro.¹ 

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“Vampiro sim, mas de almas. Espião dos corações solitários. Um escorpião de bote armado, eis o contista.

“Para escrever o menor dos contos, a vida inteira é curta.

“O bom escritor nunca se acha realizado: a obra é sempre inferior ao sonho. Ao fazer as contas, ele percebe que negou o sonho, traiu a obra e perdeu a vida por nada. 

“Não escrevo para mudar a vida, melhorar o mundo ou salvar minha alma. Parafraseando Van Gogh, um papel coberto de palavras vale mais que um papel em branco — é a minha desculpa de escrever.

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As aspas acima foram colhidas numa das raras entrevistas (quando ainda as concedia) realizada pelo jornalista Araken Távora com Dalton Trevisan. Saiu em julho de 1968 (ano provável da fotografia que abre estas notas) na revista Panorama

Dalton Trevisan nasceu em 14 de junho de 1925, em Curitiba. É formado em Direito pela (agora) Universidade Federal do Paraná. Entre os ofícios ligados à escrita, antes de se tornar o exímio ficcionista que é, foi jornalista policial e crítico de cinema. Começou a publicar em 1945, apesar de renegar as duas das suas primeiras publicações: Sonata ao luar (1945) e Sete anos de pastor (1948).² 

Entre 1946 e 1948 foi editor da revista Joaquim, por onde passaram alguns dos importantes nomes da crítica, da literatura e de arte brasileira, como Antonio Candido, Otto Maria Carpeaux, Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, José Paulo Paes, Vinicius de Moraes, Candido Portinari, Di Cavalcanti, Poty, entre outros. A revista, de tiragem irregular, ainda rendeu 21 edições e marcou-se com um importante espaço para a vanguarda da chamada terceira geração modernista e do Grupo de 45.

Foi ainda na adolescência que Dalton Trevisan começou a tornar público o seu interesse pela literatura; entre 1940 e 1943 foi autor da revista Tingui, onde publicava sonetos; depois, nas páginas de outra revista sua, Joaquim, passou a apresentar sua prosa e com essas primeiras manifestações literárias se ajustariam àqueles interesses que se mostram mais adiante no restante da sua obra, como o atenção pelos habitantes urbanos e suas situações. Outra parte desse primeiro exercício aparece numa sequência de folhetos publicada ao longo de 1954: Guia histórico de Curitiba, Crônicas da província de Curitiba, O dia de Marcos, Os domingos e Ao armazém de Lucas

Este e os trabalhos seguintes fixaram o escritor definitivamente à capital paranaense, que a partir da sua obra se converte em peça essencial no longo desenvolvimento da paisagem urbana em sentido e significado mais universais. A publicação, em 1965, de O vampiro de Curitiba, considerada sua Magnum opus, contribuirá em definitivo para esse vínculo. O título do livro acabará por se tornar um epíteto com o qual a crítica passará a designá-lo.

Mas, antes do livro célebre, conhecemos Novelas nada exemplares (1959), obra que valeu a Dalton Trevisan o Prêmio Jabuti, um reconhecimento que o alcançará outras quatro vezes: em 1965, com Cemitério de elefantes; em 1995, com Ah, é?; e em 2011, com Desgracida. Esses reconhecimentos também apontam outro destaque na sua carreira literária: ao vínculo com a paisagem urbana e seus seres acrescenta-se o interesse pelo conto, forma narrativa que o tornará exclusivamente um contista.

A alcunha de Vampiro de Curitiba herdada do seu livro de mesmo título se consolida ainda por outro motivo. O escritor, como Rubem Fonseca, se desfez do afã de aparecer publicamente, seja para fotos, seja para entrevistas, seja para as cerimônias de premiações literárias, fazendo-se em espécie de mito, à contramão do narcisismo que domina os da sua classe. E ele levará isso ao limite, porque Rubem Fonseca, já nos seus últimos anos, cedeu ao midiático, quando realizou algumas aparições públicas. 

O que para muitos poderá significar um performance do escritor recluso, tornou-se, para Dalton Trevisan e outros da sua escola, em zelo desmesurado pela literatura, esta que se realiza pela escrita e é  apenas a sua materialidade (ou pelo menos devia) o ponto essencial de interesse dos leitores. 

Além do reconhecimento com o prêmio máximo da literatura de língua portuguesa, o contista recebeu no mesmo ano de 2012, o Prêmio Portugal Telecom (Oceanos) e o reconhecimento da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto da obra, o Prêmio Machado de Assis. O júri destacou que se trata “de um contista personalíssimo navegando contra a corrente institucional do conto”. A justificativa também assinala sua “linguagem predominantemente interiorizante, porém sensível às movimentações sociais.”

A obra de Dalton Trevisan é vasta. Desde 1964, ele manteve, quase continuamente, a constância de dois livros por ano, dos quais, podemos destacar ainda: Contos eróticos (1984), A polaquinha (1985, seu único romance), Pico na veia (2002), Capitu sou eu (2003), Macho não ganha flor (2006), O anão e a ninfeta (2011) e O beijo na nuca (2014). Em 2023, o escritor, apresenta uma Antologia pessoal reunindo em ordem cronológica 94 dos seus contos. Uma obra que, como observou Antonio Candido, “encontrou um modo de desmascarar a grande cidade como uma espécie de floresta misteriosa, onde a vulgaridade, a violência, o prosaísmo se traduzem em narrativas curtas de grande impacto. 

Esse interesse pela narrativa curta, expandido até o haicai, cumprindo o que uma vez afirmou³, é sua capacidade incomum na literatura brasileira. “O que ele faz é espremer seu macrocosmo (geralmente Curitiba) um tanto desmedidamente, com o que, por consequência, atributos comuns, sejam psíquicos ou físicos, encarquilham-se e se transformam em horrendos aleijões; anos são arbitrariamente comprimidos em semanas ou dias; e personagens que, 'sob o microscópio', parecem antes perder que ganhar em individualidade, tornam-se em arquétipos caricaturais afins com os bíblicos Adão e Eva. O ambiente resultante é, através dessa exageração, ideal para complementar, sustentar e intensificar a densa proposição de Trevisan, que é a humanidade em conflito constante consigo mesma. O descontentamento do homem (e da mulher), o degradante relevo dado por ele (e por ela) ao lado instintivo do sexo, o uso repetido da violência indiscriminada, são todas manifestações da eterna tese vida-é-luta.” É o que sintetiza Malcolm Silverman.


Notas: 
1 Este texto foi revisto em junho de 2023.

2 Em 2023, Dalton Trevisan permitiu a reedição de Sonata ao luar, que saiu em tiragem artesanal de 150 exemplares pela editora Arte & Letra.

3 Na referida entrevista na abertura dessas notas, diz o escritor: Há o preconceito de que depois do conto você deve escrever novelas, e afinal, romance. Meu caminho será do conto para soneto e dele para o haicai.

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