Romance de Kehinde, Cadernos de Kindzu


Por Wagner Silva Gomes



No livro Um defeito de cor (2006), em que se discute muito a veracidade biográfica, se foi realmente uma mulher negra escravizada que escreveu, ou se é uma autoria fictícia, questão relatada por Ana Maria Gonçalves na introdução do livro, que também tem o relato de sua descoberta em uma igreja, nos papéis que seriam documentos guardados por um antigo padre, e que serviam na ocasião de rascunho para o filho da mulher que cuidava da limpeza da igreja pintar e desenhar, tem a seguinte passagem:

“No meu sonho ele ia, não sei se para Aruanda, a terra do pai. E o mais interessante era que não usava embarcação nenhuma, mas sim aquelas folhas de papel que guardava com tanto cuidado.” (p. 393).

Nesse trecho a protagonista fala sobre o negro Kuanza, que tem nome de rio e por isso acreditava que seu destino era viajar pelo mar e ir um dia pra África.

Se a Ana Maria Gonçalves completou este trecho do romance com sua escrita, como também relata a introdução do romance, algo que fez com várias passagens incompletas, foi uma boa sacada.

É curioso que, em Terra sonâmbula (1992), o moçambicano Mia Couto partiu dessa mesma ideia, isto é, relacionar os escritos do caderno de Kindzu com uma embarcação, e com o lugar onde esta navega.  Pois, em certa passagem do livro, os escritos de Kindzu têm o efeito das ondas do mar, e a leitura de Muidinga para o seu tio Tuahir que se aproxima da morte é proporcional ao sonho, como a pausa da leitura é proporcional à memória, à passagem da renovação da vida, como as águas do rio, ou do mar. Segue trecho: 

“O velho tinha outro plano: ficariam esperando que a maré subisse. Quando a canoa estivesse dentro da água, seria fácil empurrá-la para o mar. O miúdo nem responde, seus olhos molhados se confrontam com os argumentos da morte.
— Espere, tio. Vou-lhe ler.
— Quanto falta para acabar esses cadernos?
— Falta pouco: este é o último.
— Então não me lê. Guarda para você, quando estiver sozinho.
— Não, tio. Eu posso ler agora.
— Então, espera. Não leia já. Mais tarde quando estiver a água a
subir.
As gaivotas rodopiam, com seus piares aflitos. O mar está sossegado nem parece que ali está a acontecer uma despedida.
— Muidinga, me diga uma coisa. Tudo aquilo que você leu nesses
cadernos, tudo aquilo está escrito?
— Não entendo.
— Estou perguntar se você não aumentou algumas verdades ali
naqueles cadernos.
— Mas, tio, é capaz pensar uma coisa dessas?
— Deixe. Agora me comece a ler.
As ondas vão subindo a duna e rodeiam a canoa. A voz do miúdo quase não se escuta, abafada pelo requebrar das vagas. Tuahir está deitado, olhando a água a chegar. Agora, já o barquinho balouça. Aos poucos se vai tornando leve como mulher ao sabor de carícia e se solta do colo da terra, já livre, navegável. Começa então a viagem de Tuahir para um mar cheio de infinitas fantasias. Nas ondas estão escritas mil estórias, dessas de embalar as crianças do inteiro mundo.” (p. 210-211).



É possível que ele tenha de alguma maneira entrado em contato com as histórias de Kehinde já que esta as contava para várias pessoas e viveu muitos anos na África, continente a qual pertence Mia Couto. Os africanos mantém fortemente  a tradição das narrativas orais (como por exemplo através dos griots – mestres de cerimônias que transmitem  fatos históricos e histórias produzidas por seu povo cujo acesso é quase exclusivo da tradição oral). Ou a história pode ter chegado a ele através de algum brasileiro (padre ou alguém com acesso aos documentos da igreja), pois em entrevista no Roda Viva ele diz que durante o período ditatorial no Brasil recebia vários livros e discos de ações revolucionárias coletivas de gente organizada que se empenhava em mostrar a arte que é censurada no país (ele cita por exemplo Jorge Amado e Chico Buarque). São possibilidades. Mas a mais provável é que Ana Maria Gonçalves tenha lido o livro do autor moçambicano, que publicou o seu mais de uma década antes.

Nele o narrador em várias passagens se refere aos escritos do caderno como algo imprescindível para a vida do garoto protagonista Kindzu (lido por Muidinga), como a protagonista Kehinde sentia que o relato de sua experiência de vida seria importante para o seu primeiro filho, escravizado por causa de uma quitação de dívida do pai português.

Então, se tem em Um defeito de cor uma mãe que escreve para o filho transmitindo o seu olhar sobre o mundo como uma forma de compensar sua falta e através dos anos como que acompanhar o seu crescimento, em encontros que de alguma forma estão presentes na escrita – no transcurso do rio das palavras na embarcação do livro que escreve. Como analisam Giles Delleuze e Félix Guattari ao falar sobre os efeitos discursivos da carta em Para uma literatura menor, onde analisam textos de Franz Kafka. Detalhe que essa presença é tão intensa que poucas vezes é preciso fazer uso do vocativo pra chamar o filho, quando fala diretamente com ele. E em Terra sonâmbula tem-se um filho a procura dos pais transmitindo através das suas leituras como é pegar-se com eles, ou seja, conversar consigo tendo-os ele, acompanhando suas presenças através da experienciação pensamental.

Segue trecho do livro de Mia Couto:

“O miúdo se levanta e escolhe entre os papéis, receando rasgar uma folha escrita. Acaba por arrancar a capa de um dos cadernos. Para fazer fogo usa esse papel. Depois se senta ao lado da fogueira, ajeita os cadernos e começa a ler. Balbucia letra a letra, percorrendo o lento desenho de cada uma. Sorri com a satisfação de uma conquista. Vai-se habituando, ganhando despacho.” (p. 11)

Nesse trecho é como se aquele menino filho da mulher responsável por limpar a igreja, na posse  dos escritos de Kehinde, os encontrando nos documentos do antigo padre, experienciasse agora os efeitos de uma história familiar, que é a de nós, descendentes dos negros que foram escravizados, que é a do menino Kindzu, personagem que escreveu os papéis citados no livro de Mia Couto (detalhe para a semelhança do nome deste personagem com os nomes dos dois personagens principais de Um defeito de cor), que é a da família de Kuanza, da família de Kehinde.  Por isso, os meninos vão se “habituando, ganhando despacho”. Porque a história do povo negro tem essa peculiaridade de preservar o ser do oral nas palavras que por um lado compensam as histórias mal contadas pelo homem branco e ao mesmo tempo tem um conteúdo e uma forma que são próprias de nossa cultura (daí a resistência da identidade em tantas palavras do ioruba, do banto, senão palavras, os vestígios das suas raízes, como o gosto em falar cantando, destacando as vogais, e o gosto de suprimir o plural, ou na boa memória que os negros têm pra guardar a língua portuguesa arcaica, presente em tantas gírias da periferia, como “bora” que significa “boa hora” em dicionário galego-português). Pois:

“Nas suas mãos estão papéis que me parecem familiares. Me aproximo e, com sobressalto, confirmo: são os meus cadernos. Então, com o peito sufocado, chamo: Gaspar! E o menino estremece como se nascesse por uma segunda vez. De sua mão tombam os cadernos. Movidas por um vento que nascia não do ar mas do próprio chão, as folhas se espalham pela estrada. Então, as letras, uma por uma, se vão convertendo em grãos de areia e, aos poucos, todos meus escritos se vão transformando em páginas de terra.” (p. 219-220).
(...)
“Os cadernos de Kindzu se tinham tornado o único acontecer naquele abrigo. Procurar lenha, cozinhar as reservas da mala, carretar água: em tudo o rapaz se apressava. O tempo ele o queria apenas para mergulhar nas misteriosas folhas.” (p. 34).

Referências

COUTO, Mia. Terra sonâmbula. Lisboa: Editorial Caminho, 1992.
DELLEZUE, Giles; GUATTARI, Félix. Para uma literatura menor. Lisboa: Assírio e Alvim, 2013.
GONÇALVES, Ana Maria. Um Defeito de cor. Rio de Janeiro: Record, 2006.
SCARRONEcarrone, Marcello. “A Língua Portuguesa que falamos é culturalmente negra”. In: Geledés. Disponível aqui


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