Sobre Minha Luta, de Karl Ove Knausgård


 Por Davi Lopes Villaça



Cheguei ao fim do terceiro volume da série Minha luta tentando entender o que me atraiu na escrita do norueguês Karl Ove Knausgård. No que consiste sua estranha força poética? Acho que é preciso considerar, antes de mais nada, o tipo de relação que essa obra, exemplo recente de autoficção, estabelece com o tempo e a memória. No início do primeiro volume, o autor recorda um episódio em que, ainda criança, vê o pai trabalhar no jardim. A partir da imagem desse homem ele estabelece uma ponte entre o seu eu de antes e o seu eu de agora:

“Quando meu pai erguia a marreta acima da cabeça e a deixava cair sobre a rocha naquele entardecer de primavera da metade da década de 1970, fazia isso num mundo que conhecia bem e que lhe inspirava confiança. Somente ao atingir aquela mesma idade eu aprendi que é preciso pagar um preço por isso. Quando sua perspectiva de mundo se amplia, não mitiga apenas a dor que acarreta, mas também o sentido dessa dor. Compreender o mundo requer que se mantenha uma certa distância dele. Ampliamos aquilo que é pequeno demais para ser visto a olho nu, como moléculas e átomos, enquanto minimizamos grandezas como formações de nuvens, deltas de rios, constelações. Somente ao trazer as coisas para a dimensão de nossos sentidos é que somos capazes de fixá-las. E a essa fixação chamamos conhecimento. Ao longo de toda a infância e juventude lutamos para manter a distância adequada das coisas e dos fenômenos. Lemos, aprendemos, experimentamos, corrigimos. E aí um dia chegamos ao ponto em que todas as distâncias de que necessitamos foram determinadas, todos os sistemas de que necessitamos foram estabelecidos. É quando o tempo começa a passar mais rápido. Ele não encontra mais obstáculos, tudo está determinado, o tempo se esvai pela nossa vida, os dias passam num piscar de olhos, e, antes que nos demos conta do que está acontecendo, completamos quarenta, cinquenta, sessenta anos... Sentido requer conteúdo, conteúdo requer tempo, tempo requer resistência. Conhecimento é distância, conhecimento é deixar-se estar e é inimigo do sentido. A imagem que tenho do meu pai naquele entardecer de 1976 é, em outras palavras, dupla: por um lado, vejo-o como o vi daquela vez, com os olhos de um menino de oito anos: imprevisível e assustador, por outro lado o vejo como a um igual, cujo tempo de vida está sendo arrancado em grandes nacos, que carregam com ele o sentido da existência.”

O que o autor chamou de conhecimento é diretamente oposto ao que Viktor Chklóvski, um dos pais do formalismo russo, chamou de estranhamento. A vida que nos é estranha  (ou que, para dizer como Knausgård, oferece-nos ainda alguma resistência), é a única que percebemos de fato. À medida que deixamos de estranhar, que a percepção cede lugar à compreensão, nossa experiência sensível da realidade diminui, bem como o próprio sentimento de estar vivo. Chklóvski recorda os habitantes do litoral, que de tão habituados cessam de escutar o ruído do mar. Assim se passa com tudo: os caminhos muitas vezes percorridos, os trabalhos muitas vezes realizados, as palavras muitas vezes pronunciadas cessam gradativamente de nos impactar. O efeito resultante desse esvaziamento de sentido que o hábito impõe à vida é o que comumente chamamos de tédio. Thomas Mann escreveu sobre o tema em A montanha mágica – aliás, o trecho supracitado de Knausgård parece largamente inspirado nesta passagem do romance:

“Crê-se em geral que a novidade e o caráter interessante do conteúdo ‘fazem passar’ o tempo, quer dizer, abreviam-no, ao passo que a monotonia e a vacuidade lhe estorvam e retardam o fluxo. Isso não é verdade, senão com certas restrições. Pode ser que a vacuidade e a monotonia alarguem e tornem ‘tediosos’ o momento e a hora; porém, as grandes quantidades de tempo são por elas abreviadas e aceleradas, a ponto de se tornarem um quase nada. Um conteúdo rico e interessante é, por outro lado, capaz de abreviar a hora e até mesmo o dia; mas, considerado sob o ponto de vista do conjunto, confere amplitude, peso e solidez ao curso do tempo, de maneira que os anos ricos em acontecimentos passam muito mais devagar do que aqueles outros, pobres, vazios, leves, que são varridos pelo vento e se vão voando. O que se chama tédio é, portanto, na realidade, antes uma brevidade mórbida do tempo, provocada pela monotonia: em casos de igualdade contínua, os grandes lapsos de tempo chegam a encolher-se a tal ponto que causam ao coração um susto mortal; quando um dia é como todos, todos são como um só; passada numa uniformidade perfeita, a mais longa vida seria sentida como brevíssima e decorreria num abrir e fechar de olhos. O hábito representa a modorra, ou ao menos o enfraquecimento, do senso do tempo, e o fato dos anos de infância serem vividos mais vagarosamente, ao passo que a vida posterior se desenrola e foge cada vez mais depressa – esse fato também se baseia no hábito. Sabemos perfeitamente que a intercalação de mudanças de hábitos, ou hábitos novos, constitui o único meio para manter a nossa vida, para refrescar a nossa sensação de tempo, para obter um rejuvenescimento, um reforço, uma retardação da nossa experiência do tempo, e com isso, o renovamento da nossa sensação de vida em geral. Tal é a finalidade da mudança de lugar e de clima, da viagem de recreio, e nisso reside o que há de salutar na variação e no episódico.”

Também a literatura, claro, é uma forma de luta contra a morte sensível do tempo, contra a banalização de nossa experiência da realidade. Para Chklóvski, esse é o sentido fundamental do “estranhamento” produzido pela arte – ela nos faz perceber novamente a vida que se banalizou. Mas não se trata apenas de recuperar um sentido que a realidade já teve. Não importa quanto o mundo retratado num romance pareça idêntico ao nosso, esse não é nunca um mundo de fato familiar, mas um mundo criado, que descobrimos à medida que vamos lendo. Isto é ainda mais visível em poesia: as palavras do poema, todas nossas conhecidas, são ao mesmo tempo criações do poeta, na medida em que adquirem ali um sentido, uma sonoridade e mesmo uma aparência que jamais manifestam em nosso dia a dia.

Em suas considerações sobre o estranhamento na arte, faltou talvez a Chklóvski dar a devida importância ao papel do tempo nesse processo. Quem fez isso, de forma muito sucinta, foi Mircea Eliade, importante estudioso de mitos e religiões:

“De modo ainda mais intenso que nas outras artes, sentimos na literatura uma revolta contra o tempo histórico, o desejo de atingir outros ritmos temporais além daquele em que somos obrigados a viver e a trabalhar. Perguntamo-nos se esse anseio de transcender o nosso próprio tempo, pessoal e histórico, e de mergulhar num tempo ‘estranho’, seja ele extático ou imaginário, será jamais extirpado. Enquanto subsistir esse anseio, pode-se dizer que o homem moderno ainda conserva pelo menos alguns resíduos de um comportamento ‘mitológico’. Os traços de tal comportamento mitológico revelam-se igualmente no desejo de reencontrar a intensidade com que se viveu, ou conheceu, uma coisa pela primeira vez; de recuperar o passado longínquo, a época beatífica do ‘princípio’. Como era de se esperar, é sempre a mesma luta contra o Tempo, a mesma esperança de se libertar do peso do ‘Tempo morto’, do tempo que destrói e que mata.”

É também a essa luta que parece se referir o título do romance de Knausgård. Trata-se do esforço não apenas de contar sua história, mas de pôr novamente a vida em movimento. A maneira como o autor faz isso difere radicalmente Minha luta do que geralmente se entende por literatura memorialista. A começar porque em Knausgård não há qualquer tipo de saudosismo. Ele não se dirige ao passado como a um tempo mais pleno de sensações e experiências. Narrada nos livros 1 e 3, sua infância (esse tempo tão carregado de sentido, como sublinhou Thomas Mann) não adquire cores mais fortes do que o período narrado no segundo livro, quando Knausgård está com trinta e quatro anos de idade. Na verdade, há poucos momentos luminosos nessas memórias. Lembro de ter lido um comentário sobre elas que dizia mais ou menos assim: “É impressionante como Knausgård consegue tratar com profundidade o que é aparentemente banal”. Eu discordaria apenas do “aparentemente”. O autor encontra sentido no que é de fato banal. A expressão desse elemento (que não deve ser confundida com a banalidade ela mesma) é algo difícil de se obter em literatura. No caso da narrativa de memórias, acredito ser essa expressão que mais aproxima o passado da vida presente – esta que nos parece, no mais das vezes, a menos provida de sentido.  

Um procedimento comum de autores memorialistas é fazer do passado remoto um tempo definitivamente perdido, como se entre a vida de antes e a de agora não restasse qualquer tipo de continuidade – o que, até certo ponto, parece natural. Não é verdade, pois, que nossa infância com frequência se apresenta para nós não apenas como um tempo anterior, mas como que fora de qualquer linha cronológica – uma vida completa e fechada, sem ligação com esta de agora? Mas isto, vale lembrar, não ocorre apenas nas narrativas memorialistas. Quando os gregos antigos escutavam os poemas de Homero estavam certos de que entre o seu tempo e aquele havia um longo e irreversível processo de decadência. Ítalo Calvino observou que a vida exuberante que conhecemos num romance como Guerra e paz, só pode ser descrita assim na medida em que ela é percebida como uma vida perdida – Tolstói nos fala de uma Rússia de antes. Para tornar verossímil a impressão luminosa do passado é preciso, antes de mais nada, romper os vínculos com o presente cinzento.

O romance de Knausgård vai na contramão disso: o passado a que ele se refere é um tempo em geral desmistificado, mas ainda assim pleno de sentido na sua ordinariedade. Em suas entrevistas, o autor afirma que seu método de composição consiste em sentar e ir escrevendo o que lhe vem à mente. Esse tipo de escrita espontânea pode parecer inimigo do estilo apurado, da verdadeira técnica narrativa. Não acho que seja verdade. Um bom texto se difere sempre de um texto ruim pelos seus procedimentos artísticos, seja qual for o nível de espontaneidade do autor. Estilo, diz o crítico Otto Maria Carpeaux, é escolha: de palavras, construções, ritmos dos fatos, dos próprios fatos para conseguir uma composição perfeita. “Estilo é escolha entre o que deve perecer e o que deve sobreviver”. O que Knausgård põe no papel e o que ele decide deixar de fora é sintomático de uma obsessão bastante diferente da que se poderia esperar de um autor de memórias. Este vasculha no passado os eventos mais significativos, mais traumáticos, as grandes experiências vividas pela primeira vez, com máxima intensidade; e também os fatos mais corriqueiros, as cenas mais comuns, que de tão repetidas tornaram-se características da vida que se perdeu. Knausgård, por outro lado, se não rejeita esse tipo de memórias, dá-lhes uma importância apenas secundária. Nas páginas de Minha luta há uma profusão de acontecimentos menores e singulares – tão pontuais e insignificantes que é difícil crer que deles tenha sobrado qualquer recordação. O autor afirma que tudo o que escreve provém da sua memória, que nada é conscientemente inventado. Ele sabe, ao mesmo tempo, que a memória é pouco fiel e quase sempre lisonjeira com seu dono, mas isto não torna menos inverossímil que lhe reste qualquer lembrança (ainda que adulterada) do que havia, por exemplo, na porta da geladeira na casa de seu irmão, quando ele a abriu na manhã de um dia tal dez ou quinze anos atrás. Knausgård não escreve reminiscências, que são apenas vestígios, o que sobrou daquilo que experimentamos. Ele se aventura no passado como quem tem diante de si um quadro completo e vivo, com o qual se pode ainda interagir – como se a porta da geladeira, talvez jamais aberta, pudesse se abrir neste mesmo instante e revelar todo o seu conteúdo.

Ao invés de tentar voltar ao passado, quando tudo nos parece definido e cristalizado, cria-se um tempo novo, estranho, em que a vida já conhecida pode ainda ser vivida. Esse tempo jamais poderia se originar de um retorno, pois ele é o tempo da própria escrita. A despeito do caráter monótono, sombrio, nalguns momentos até lúgubre da narrativa em Minha luta, o que fica dela é sobretudo uma impressão de leveza, decorrente de sua aparente liberdade em relação ao tempo histórico e ao tempo da própria memória, contra o qual inconscientemente lutamos. Mesmo a mais luminosa narrativa de infância traz consigo um peso. Quanto mais belo o passado, mais distante de nós, mais irremediavelmente perdido. Os escritores memorialistas, na medida mesma em que resgatam o passado, reafirmam ou fabricam a distância que se interpôs entre nós e ele. A obra de Knausgård é, pelo contrário, uma tentativa de superar essa distância, de aliviar o enrijecimento do tempo e da memória – o que o autor consegue, ao menos em parte, devido a alguns procedimentos estilísticos. Observo apenas um deles. Não há linearidade na narrativa, ela salta de um episódio para o outro sem respeitar a ordem cronológica. Isto seria de menor importância se não implicasse também outro aspecto: a ausência de sequencialidade. Mesmo narrativas não lineares geralmente tecem uma rígida ordem lógica entre os episódios narrados; é a partir dessa ordem que eles se tornam significativos. 

Mas em Minha luta cada episódio busca ser retratado na sua inteireza, na sua riqueza ligeiramente caótica de experiências sensoriais e intelectuais, e não apenas na sua relação com outros episódios. Daí a suspensão da ordem cronológica resultar numa justaposição não apenas de tempos diferentes, mas de presentes diferentes. O agora é aquele momento que não adquiriu ainda um valor fixado em nossa história – isto é, pelo menos não na forma como a contaremos no futuro. De uma perspectiva memorialista, ninguém pode afirmar a importância daquilo que se vive hoje, seja qual for a intensidade de experiência. Apenas sua sedimentação na memória, sua lenta transformação em passado, poderá fazê-lo. Trata-se, na verdade, de um processo um tanto arbitrário, que relega ao esquecimento a maior parte do que se vive. A narrativa de Knausgård exprime uma constante revolta contra isso. Ele escreveu a partir de suas recordações, mas o que daí resultou foram quase antimemórias, um esforço de desacelerar e desarticular o tempo, habitar cada instante na sua independência em relação aos outros e na sua multiplicidade de impressões. Um esforço não de resgatar o passado, mas de continuar a vivê-lo, como um tempo que pode ser experimentado de diversas formas.     


Referências

CARPEAUX, Otto Maria, “Visão de Graciliano Ramos”. In: RAMOS, Graciliano. Angústia. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1970.
CHKLOVSKY, Victor. “A arte como procedimento”. In: Formalistas Russos. Porto Alegre: Globo, 1976.
ELIADE, Mircea. Mito e realidade. São Paulo: Perspectiva, 2013.
KNAUSGÅRD, Karl Ove. Minha luta. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
MANN, Thomas. A montanha mágica. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

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