Boletim Letras 360º #387



DO EDITOR

1. Amigo leitor, em nossa página no Facebook, até agora nosso lugar no espaço virtual, depois deste blog, de maior trânsito, iniciamos uma campanha em busca do leitor 80 mil.

2. Ora, este é um dos desafios quase impossíveis de se alcançar pensando na queda de usuários desta rede e na situação das segmentações algorítmicas e o comércio desbragado. Mas, não é pago para se sonhar.

3. Por isso, deixo dois convites a você que agora se prepara para ler este boletim: se tem presença naquele espaço e tem interesse pelo universo literário mas ainda não acompanha a gente por lá, faça-nos uma visita, curta e siga nossa página. Basta ir aqui.

4. Abaixo registra-se as notícias que passaram, ou não, pelo mural de nossa página no Facebook. Além delas, as demais seções com novos conteúdos, sempre com o interesse de enriquecer e ampliar sua experiência cultural e literária. Fique bem. Boas leituras!

Hilary Mantel. Foto: Michael Birt


LANÇAMENTOS

Novo livro do poeta Thiago de Mello.

O que as águas têm a nos revelar sempre foi uma busca de compreensão pelo homem, seja em forma de ciência ou de arte. Não à toa que muitos artistas da palavra lhes dedicaram poemas, romances, contos, crônicas e canções. E nesta antologia de Thiago de Mello, o poeta amazonense canta a água de forma primorosa, e nos convida a adentrar esse mundo, tão encantado e tão real. Exuberante como um rio cristalino, intensa como a força de uma cachoeira e encantadora como a profundeza dos oceanos, a poesia repleta de emoção de Thiago nos envolve e nos lança para uma correnteza de sentimentos inesperados. As águas sabem coisas é publicado pelo Editora Gaia.

Uma nova coleção de clássicos entre os leitores brasileiros.

Quem acompanha este boletim assiduamente já cruzou com as notícias de publicação de O falecido Mattia Pascal, de Luigi Pirandello e Oliver Twist, de Charles Dickens. Estes livros fazem parte de uma nova coleção preparada pela Editora Unesp. A ideia de Clássicos da Literatura Unesp é permitir ao leitor não iniciado a oportunidade de tomar contato com o cânon da literatura universal e brasileira, e ao mesmo tempo se deleitar com o prazer da leitura. Além dos títulos referidos, sairão: Eugênia Grandet, de Honoré de Balzac; Macunaíma, de Mário de Andrade; e Urupês, de Monteiro Lobato. Outros cinco títulos já estão em circulação: A relíquia, do português Eça de Queirós, Histórias extraordinárias, do estadunidense Edgar Allan Poe; Contos, do francês Guy de Maupassant; e os nacionais, Quincas Borba, de Machado de Assis e Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto. Cada volume se abre com um breve texto de apresentação, cujo objetivo é fornecer alguns elementos preliminares sobre o autor e sua obra.

O primeiro volume da trilogia de Hilary Mantel sobre a Inglaterra de 1520.

“Ele se sente em casa num tribunal ou num cais, no palácio de um bispo ou no pátio de uma estalagem. Ele pode redigir um contrato, treinar um falcão, delinear um mapa, interromper uma briga de rua, mobiliar uma casa e comprar um júri. É capaz de citar uma passagem adequada dos antigos autores, de Platão a Plauto, de trás para a frente. Ele conhece a poesia atual e sabe recitá-la em italiano. Trabalha o tempo todo, é o primeiro a se levantar e o último a ir para a cama.” Assim a narradora de Wolf Hall define, em uma passagem exemplar, seu enigmático, astuto e fascinante protagonista: “ele” não é outro senão Thomas Cromwell, personagem ao mesmo tempo obscuro e crucial na história inglesa. De raízes humildes, Cromwell galgou por seus próprios méritos as mais altas hierarquias do reino e se tornou o principal conselheiro do rei Henrique VIII. Foi ele quem abriu os tortuosos caminhos para o divórcio entre Henrique e Catarina de Aragão; foi ele quem encontrou as justificativas legais para o casamento entre o monarca e Ana Bolena; e foi ele quem guiou a Inglaterra em seu rompimento com a Igreja de Roma. Apesar de seu impacto na história inglesa, pouco se sabe sobre a vida particular de Cromwell, que não nos deixou cartas nem memórias pessoais. Em Wolf Hall, a grande romancista inglesa Hilary Mantel preenche as lacunas da história com sua aguçada imaginação e um estilo narrativo único, que jamais recai no fraseado postiço de época, tampouco no anacronismo inverossímil. Numa combinação de registros que apenas grandes estilistas conseguem realizar, Mantel constrói a ascensão de Cromwell desde suas origens miseráveis e brutais, passando pelos anos a serviço do malfadado cardeal Wolsey, até a conquista de um perigoso lugar ao sol, tornando-se o braço forte do inconstante e às vezes terrível Henrique. Vencedor do Man Booker Prize, a principal premiação literária na Inglaterra, Wolf Hall é um romance em que a História ressurge nítida e cortante como a lâmina do carrasco. A tradução é de Heloísa Mourão e é publicada pela editora Todavia.

Romance de uma das vozes mais poderosas da literatura contemporânea do Oriente Médio ganha edição no Brasil.

Correio noturno é um livro contemporâneo na temática e na estrutura. É formado por três partes: cinco cartas iniciais; cinco “ecos”; e uma carta final. São correspondências jamais enviadas, jamais recebidas. São depoimentos que escancaram de forma bela e avassaladora a situação que milhões de pessoas deslocadas de sua terra natal — de algum país do mundo árabe — vivem hoje em dia; pessoas que têm, muitas vezes, sua humanidade roubada, perambulando pelo mundo, em busca de sentido, de salvação, de redenção. Em última instância, Correio noturno fala do desamparo e das consequências sociais e psíquicas desse desamparo. Hoda Barakat é considerada uma das vozes mais poderosas da literatura contemporânea do Oriente Médio. Em 2000, a autora recebeu a Medalha Naguib Mahfouz de Literatura por O arador das águas (título provisório, a ser publicado pela Editora Tabla em 2021), e, em 2019, ganhou o International Prize for Arabic Fiction por Correio noturno. A tradução de Safa Jubran é publicada pela editora Tabla.

Mais dois novos livros apresentam a poesia de Audre Lorde no Brasil.

1. A unicórnia preta (The Black Unicorn), publicado em 1978, é considerado um marco na trajetória poética da ativista e poeta estadunidense Audre Lorde. Seus poemas abordam questões da negritude, do feminismo e da experiência lésbica, além de explorar elementos da cultura Iorubá e dialogar com entidades africanas, dando suporte ao que Lorde chama de “experiência arquetípica das mulheres negras”. Inspirados pelas viagens da poeta ao Togo, Gana e então Daomé (atual Benim), os versos demonstram a riqueza e a complexidade de uma mulher negra na diáspora, uma ativista em Nova York que encontra na África imagens de poder que a regeneram. O livro, que conta com tradução de Stephanie Borges, é editado bilíngue e traz ainda um glossário dos termos de origem africana presentes na edição, um apanhado das obras de e sobre Audre Lorde publicadas no Brasil e no exterior, uma detalhada nota biográfica da autora e prefácio da pesquisadora Jess Oliveira. A publicação é da Relicário Edições.

2. Entre nós mesmas – Poemas reunidos conjuga três obras fundamentais da trajetória poética de Audre Lorde, publicadas nas décadas de 1970 e 1980, período de seu maior engajamento pelas causas do movimento negro, LGBT e dos direitos civis nos Estados Unidos. Juntos aqui, Uma terra onde o outro povo vive (1973), Poemas escolhidos – velhos e novos (1978) e Entre nós mesmas (1982), este último que dá nome à esta edição, apresentam um potente panorama da produção de sua poesia, meio de expressão em que Audre Lorde melhor refletiu sobre os temas da opressão social, a violência contra a população negra, a diáspora africana e as referências de sua cultura iorubá, o feminismo, filhos e o amor. “Este Entre nós mesmas nos oferta poemas que, como todos os bons poemas, exigem diversas leituras. Não se trata de uma poesia a ser explicada, contextualizada, mesmo à guisa de introdução, é mesmo fundamental a experiência de lê-la, porque a poesia de Audre Lorde é uma circunferência de ressonância (não cabe em caixas, urge reiterar) da mulher profunda que guardamos, ainda num lugar mais recôndito do que a subjetividade. Uma mulher de múltiplas vozes e infinitas faces, uma mulher-Audre, que nos convida à implicação na transformação do mundo observando as sete direções que a ancestralidade africana nos propõe: à frente e atrás, em cima e embaixo, do lado esquerdo e do lado direito e dentro.”, aponta a escritora Cidinha da Silva, na apresentação do livro. A tradução foi feita por Tatiana Nascimento, poeta, tradutora e editora, juntamente com a também tradutora Valéria Lima. O livro é bilíngue e traz um glossário com dos termos de origem africana presentes na edição, um apanhado das obras de e sobre Audre Lorde publicadas no Brasil e no exterior e uma detalhada nota biográfica da autora. O livro é publicado pela Bazar do Tempo.

REEDIÇÕES 

Dois romances de Hermann Hesse ganham reedição peça editora Record.

1. O lobo da estepe. Harry Haller é um homem de 50 anos que acredita que sua integridade depende da vida solitária que leva em meio às palavras de Goethe e as partituras de Mozart; um intelectual tentando equilibrar-se à beira do abismo dos problemas sociais e individuais, ante os quais a sua personalidade se torna cada vez mais ambivalente e, por fim, estilhaçada. A primeira parte do livro é o pesadelo do lobo Haller, sua depressão e sua incapacidade de se comunicar que está na base da crueldade e da autodestruição. Na segunda o lobo se humaniza, através da entrada em cena de Hermínia, que tenta reaproximá-lo do mundo, no caso uma comunidade simplória, com salas de baile poeirentas e bares pobres. A tradução é a de Ivo Barroso.

2. E O jogo das contas de vidro. O que seria este O jogo das contas de vidro, fundamento do último romance de Hermann Hesse, publicado em 1943? Seu título, Das Glasperlenspiel, literalmente O jogo das pérolas de vidro, remete a uma atividade lúdica, mas puramente intelectual, cujas raízes podem ser localizadas originalmente no pensamento de Pitágoras, renascendo na gnose, no humanismo hermético do Renascimento, com ressonâncias em Descartes e Leibniz. O nome do jogo se originaria no fato de Bastian Perrot, teórico musical, utilizar contas ou pérolas de vidro em lugar de signos gráficos na notação de melodias. Neste romance descreve-se uma comunidade mítica, na qual intelectuais dedicados à música, à astronomia, à matemática se deleitam na prática de uma atividade lúdica complexa e requintada, último avatar de uma cultura. Os jogadores procuravam criar uma linguagem secreta, universal, que exprimisse como uma álgebra simbólica a quintessência do conhecimento, à maneira dos sonhos dos antigos sábios. A ação se passa em 2200, na comunidade utópica de sábios reunidos na Castália. Segundo estudiosos da obra de Hesse, o herói José Servo e sua autobiografia fictícia representam a vida que o autor teria almejado. Ele tem a missão de ensinar aos monges beneditinos o jogo das contas de vidro, pois a ordem laica que representa deveria estabelecer relações com a ordem religiosa dirigida por padre Jacobus, um historiador. Por intermédio dele, Servo, atuando como magister ludi (mestre do jogo), descobre o valor da história, questiona seu universo e rebela-se. Unindo a sabedoria do Ocidente e do Oriente, Hesse nos conduz em “O jogo das contas de vidro” a um desfecho surpreendente numa obra construída com lições de muitos mestres. A tradução é de Lavinia Abranches Viotti e Flávio Vieira de Souza. A reedição publicada pela Editora Record tem prefácio de Waldemar Falcão.

LITERATURA E MEMÓRIA

Milan Kundera doa sua biblioteca e arquivo pessoal.

A decisão do autor de A insustentável leveza do ser foi por retornar à sua cidade natal, Brno, na República Tcheca. Parte do acervo doado inclui sua própria obra em mais de quatro dezenas de idiomas, manuscritos e datiloscritos com textos que publicou ao longo de sua longeva carreira literária, fotografias, desenhos e vasto material que testemunha a recepção crítica de sua obra. Todo o acervo comporá uma biblioteca com o mesmo nome do escritor na biblioteca pública de Moravia. Os materiais de criação serão, mais tarde, integralmente digitalizados. Milan Kundera saiu de seu país na década de 1970 e desde então vive na França; só em 2019 recuperou sua cidadania tcheca.

DICAS DE LEITURA

Noutra ocasião falamos sobre o centenário de Ray Bradbury, celebrado neste ano de 2020, mais especificamente, neste mês de agosto. E é a partir desta data que queremos lembrar alguns títulos fundamentais para o leitor interessado em conhecer um pouco mais sobre a obra do mestre da ficção científica que estabeleceu todo um imaginário sobre a vida extraterrestre, sobretudo, no tratamento que hoje é sonho mais próximo da ciência, a vida em Marte. Escolhemos três títulos que figuram sempre entre os que maior interesse tem despertado entre os leitores.

1. As crônicas marcianas. Ora, e para abrir a pequena lista, logo recomendamos este conjunto de contos em que suas narrativas remetem para o planeta vermelho. Os textos reunidos no livro estão, possivelmente, entre os melhores deste gênero praticado por Ray Bradbury. Publicados primeiramente em revistas de pulp fiction no final dos anos 1950 nos Estados, os contos foram reorganizados pelo escritor uma década mais tarde; pelos temas, pelas situações e pelas personagens recorrentes bem pode ser este um romance feito por fragmentos cujo enredo vai da chegada do homem a Marte à colonização do planeta por esta espécie. A edição mais recente publicada no Brasil é do Selo Biblioteca Azul, da Globo Livros; tem tradução de Ana Ban e reúne textos de Jorge Luis Borges, um fascinado pela literatura de ficção científica, e um prefácio escrito pelo poeta Donizete Galvão.

2. Fahrenheit 451. Sempre que soar o nome Ray Bradbury este é o primeiro livro seu que vem à memória dos leitores. Quando não o livro, a versão cinematográfica de François Truffaut realizada em 1966. É o livro invocado todas as vezes que os estados totalitários, de exceção ou com tendências a encontram na censura seu material de interesse. Como infelizmente isso é algo sempre recorrente, é com recorrência também que o livro entra na roda de interesse dos leitores. O que nele se relata é o impasse vivido por um bombeiro cuja profissão é, numa sociedade que tem substituído paulatinamente a cultura da escrita pela da imagem, queimar livros. Seu contato com a jovem Clarisse o desperta para repensar sua condição nessa engrenagem. O romance nasceu de um conto “O bombeiro” que acaba de ganhar publicação por aqui em Prazer em queimar. Histórias de Fahrenheit 451. A tradução do romance de 1953 é de Cid Knipel e está publicada pela Biblioteca Azul / Globo Livros com prefácio de Manuel da Costa Pinto.

3. Zen na arte da escrita. O livro físico chega em breve, depois de anos fora de catálogo. Aqui estão reunidos alguns dos ensaios escritos por Ray Bradbury que são uma celebração ao trabalho e à arte com a palavra, a começar pelo texto que dá título à coletânea. Encontramos o escritor pensando sua própria obra, sobre a criatividade, sobre o mundo da ficção científica, sobre ciência, sobre a arte de fazer poesia gênero, aliás, que também escreveu mas que os leitores brasileiros não tem, infelizmente, acesso se não pela língua original ou em traduções para outras línguas mais próximas à nossa. Ao todo são mais de duas dezenas de textos movidos por um conselho: “É preciso se embriagar da escrita para que a realidade não o destrua. Escrever oferece exatamente as receitas adequadas de verdade, vida, realidade que você é capaz de comer, beber e digerir sem sofrer de hiperventilação ou agonizar como um peixe fora da água em sua cama.” A tradução mais recente no Brasil é a de Petê Rissatti, publicada também pela Biblioteca Azul / Globo Livros.

VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS

1. A doação da biblioteca pessoal de Milan Kundera chegou numa semana quando se falou sobre outros dois desses patrimônios: o arquivo com os livros de Gabriel García Márquez os mais de cinco mil volumes continuam na casa do escritor sob os cuidados do filho; e o arquivo com os livros de Philip Roth doado no fim da vida do estadunidense que já está disponível, à maneira do autor tcheco, na sua terra natal, Newark. A história sobre a condução do destino pelo autor de A marca humana é uma beleza dessas raras; o jornal El País publicou longa matéria sobre. 

2. Falando sobre a escassa poesia de Ray Bradbury no Brasil, o leitor pode saborear os versos de um poema traduzido por Pedro Fernandes para o blog da Revista 7faces. Disponível aqui

BAÚ DE LETRAS

1. Uma busca entre as publicações do Letras sobre Milan Kundera, levará o leitor a vários textos sobre o escritor e parte de sua obra. Findamos o boletim recordando três dos mais recentes: a) este que reúne notas para um perfil sobre o escritor tcheco; b) este outro, que recorda quando Kundera escolheu do seu último romance, A festa da insignificância, uma passagem de sua predileção; e mais este, de Rafael Kafka, sobre o romance A brincadeira, um dos mais recentes publicados aqui no blog.

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