Sophia de Mello Breyner Andresen e João Cabral de Melo Neto, convívios pela poesia

Por Pedro Fernandes

Sophia de Mello Breyner Andresen. Foto: Fernando Lemos.


 
O que sempre importa no trabalho de buscar compreender os meandros do convívio entre escritores é encontrar as semelhanças e distanciamentos sobre suas maneiras de compreender os processos criativos. Quase sempre, encontramos pequenos traços de influência que podem vigorar de uma ou de ambas as partes e se fazer notar na obra literária. Quando não, o que ressoa é apenas afeto, trocas de gentilezas e cordialidades mútuas, uma ou outra leitura sobre os contextos ocupados por cada um, sem os grandes apelos que se faz recorrente quando os envolvimentos alcançam uma maior intimidade.
 
O convívio entre os poetas João Cabral de Melo Neto e Sophia de Mello de Breyner Andresen é sui generis. Os registros sempre entregam uma admiração respeitosa, e às vezes desmedida, da parte dela, desde o primeiro encontro em setembro de 1958 em Sevilha quando os dois se conhecem pelo intermédio do poeta carioca José Paulo Moreira da Fonseca.
 
O primeiro comportamento é um tanto evidente: desde seus primeiros trabalhos o pernambucano se esforçou por uma dicção à sua maneira e pelo afastamento progressivo de quaisquer vozes, sobretudo se destacadas, que pudessem interferir no seu canto. João Cabral sempre pareceu um avesso à emulação; no livro que inaugura sua carreira literária, para citar um exemplo, nota-se uma componente surrealizante, mas como a crítica bem reparou desde sempre não é a escrita automática da vanguarda, mas um surrealismo estruturado.
 
Já o comportamento de Sophia também. E só parece estranho àqueles que por um bairrismo qualquer atam a imagem da espontaneidade aos brasileiros sobre a imagem do português metido consigo próprio; no caso da poeta de Coral, se desfaz também aos olhos desses o perfil da mulher de pequenas arrogâncias, talvez a mais das injustas maneiras de registro sobre sua personalidade porque confunde, num radicalismo, a natureza elevada do gênio com uma maneira de ser, quando em nada uma coisa diz respeito a outra.
 
O encanto de Sophia por João Cabral é espontâneo e sempre guiado pelo elo assumido entre os dois: a poesia. Numa nesga de papel restado de uma embalagem de cigarros, a poeta anota um dístico dedicado ao brasileiro: “Pelos dias quadrados corre a brisa / Que nos seus corredores nunca engana”. Originalmente, o poema é intitulado “Sevilhana”; quando incluído no Livro sexto (1962), apesar de se preservar o conteúdo tal como se apresentou à tinta da concepção, o título é substituído por “Pátios”. Mas, aqui se forma uma vivência que se desenvolverá pela troca de alguma correspondência, de pequenos interesses e mediada ainda pela vivência dos livros.
 
O marco desse encontro está também nas duas cartas ― uma enviada para Stella, a primeira companheira de João Cabral e outra ao poeta ― que Sophia escreve de Lisboa entregando as notícias sobre o retorno da viagem, os agradecimentos pela estadia em Espanha, a possibilidade de organizar uma conferência para João Cabral em Portugal, este último assunto tratado com maior efusão no contato com Stella. A carta ao poeta brasileiro traz o tom das trocas seguintes: a poesia, repetimos, se faz sempre o ponto central do diálogo.
 
No retorno de Sevilha, Sophia trouxe consigo a primeira antologia organizada pelo poeta brasileiro, Duas águas, que havia sido publicada dois antes pela José Olympio e reunia, além dos primeiros livros, os inéditos Morte e vida severina, que ela dirá ser a linha poética que mais prefere, Paisagens com figura e Uma faca só lâmina. Do segundo título inédito, ela sublinha os dois primeiros versos de “Cemitério pernambucano (Nossa Senhora da Luz)” ― “Nesta terra ninguém jaz, / Pois também não jaz um rio” ― que chama de maravilha: “Você torceu o pescoço da eloquência e da retórica”, acrescenta. E ressalta também o poema de Uma faca.
 
O comportamento de João Cabral de Melo Neto é sempre mais sisudo; as aberturas parecem se oferecer de alguma maneira quando o assunto é sua própria poesia em terras portuguesas. Sophia, por sua vez, não deixa de medir esforços para demonstrar a admiração e o entusiasmo que nutre pela obra do poeta. Dois anos depois de quando se conhecem, escreve um texto sobre a poesia do brasileiro, passa a oferecer regularmente seus livros, e a escrever poemas a ele dedicados ou marcados intertextualmente por temas e interesses caros à sua poesia. Não chega ao caso de se verificar uma influência da obra de João Cabral na poesia da poeta portuguesa; o que se observa é puramente reconhecimento e afetividade. Quer dizer, nesse sentido, os dois são coerentes para com o projeto criativo que assumiram.
 
Dos vários poemas que trazem a presença de João Cabral, o primeiro deles é “A palavra faca”, escrito em 1961 para o livro O Cristo cigano e retoma, como se vê pelo título, uma das palavras-tema no repertório criativo do autor de Uma faca só lâmina:
 
A palavra faca
De uso universal
A tornou tão aguda
O poeta João Cabral
Que agora ela aparece
Azul e afiada
No gume do poema
Atravessando a história
Por João Cabral contada
 
Ele, por sua vez, escreveu “Elogio da usina e de Sofia de Melo Breiner Andresen”, aparecido em A educação pela pedra (1966). O poema funde imagens do engenho e do fazer poético de Sophia capturadas não pela persona de convívio e sim pelo convívio com sua obra, reafirmando-se o tom impessoal do poeta brasileiro: “Sofia vai de ida e de volta (e a usina); / ela desfaz-faz e faz-refaz mais acima, / e usando apenas (sem turbinas, vácuos) / Algarves de sol e mar por serpentinas”, diz os quatro primeiros versos da segunda parte do texto. E este, parece ser o tom público mais efusivo desse convívio, sempre espaçado da parte dele.
 
Em outubro de 1962, escreve para agradecer o envio de Terceira feira, uma antologia publicada no Brasil pela Editora do Autor, de Rubem Braga, e que reunia pela primeira vez dois títulos apresentados fora do país ― Quaderna, publicado em Lisboa em 1960 e motivo de um texto que Sophia dedica ao poeta no mesmo ano e Dois parlamentos, aparecido primeiro em Madri em edição autofinanciada ― e o conjunto de textos, de um todo inédito, intitulado Serial. Nesta missiva, pede que ele envie um poema para se publicar num jornal para o qual ela acabava de assumir compromisso, o Távola.
 
A carta com o reconhecimento sobre a demora é escrita em Sevilha em fevereiro do ano seguinte. Esse texto é interessante porque se justifica o tratamento cioso de João Cabral para com a poesia. Em algum momento terá prometido colocar a colega em contato com seus poemas anteriores ao Pedra do sono e se desculpa dizendo que os reler significou reconhecer textos “tão sem propósito que os rasguei todos”. Todos ou não, esses poemas não foram descartados: em 1990 foram publicados em edição restrita sob coordenação de Antonio Carlos Secchin pela Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O pedido de Sophia não fica descoberto: envia ao invés dos primeiros poemas, um inédito de 1947 que não encontrou lugar nem no Psicologia da composição, nem no Cão sem plumas; trata-se de um poema que atendeu a um desejo de Aníbal Machado para um trabalho intitulado Pequenos cadernos de poesia. O poema foi refeito e as duas versões encaminhadas. Chegou tarde. O Távola já tinha se desfeito.
 
Só dois anos mais tarde Sophia de Mello Breyner Andresen escreve uma resposta dizendo-se interessada em fazer chegar os poemas numa revista chamada O tempo e o modo. Nesta ocasião, em Portugal, Alexandre O’Neill, outro nome que terá desenvolvido bom contato com João Cabral, havia publicado pela “Poetas de hoje”, uma prestigiada coleção editada pela Portugália, uma seleta com poemas do brasileiro. E, nesta mesma lista de livros figurará, meia década depois, um livro da própria Sophia. Já na carta, ela lhe pede que escreva um texto de introdução, um pedido feito “depois de muito hesitar” e com o medo de “massá-lo”. O assunto parece ficar perdido, já que, na carta seguinte, depois do contato com o poema acima referido ― “Elogio da usina e de Sophia de Mello Breyner Andresen” ― é o texto que ela pensa colocar em modo de apresentação na sua antologia da Portugália, antologia que é a ele dedicada.
 
E por falar em dedicatórias, não as fixadas como elemento pré-textual do livro, mas as de próprio punho com a entrega dos livros, nelas se mostram expressivamente o tratamento de cordialidade de efusiva admiração de Sophia por João Cabral: em Dia do mar, assinado a 1.o de maio, é invocado a data celebrativa do Dia do Trabalhador para realçar o labor do poeta; em Contos exemplares, a cobrança pelo poema inédito para o Távola; ou feita um bilhete, como na Antologia da Moraes Editores enviada quando o brasileiro já estava no Senegal (“Para João Cabral de Melo com a memória de Sevilha e a presença da sua poesia a palo seco e muita saudade ― e como é o Senegal? ― talvez um dia aí dê um salto ― Será que as praias são grandes e com coqueiros como sempre sonhei? E quando vem a Portugal? Penso mandar-lhe uma cassete com gravação de poemas seus lidos por mim. Acha que chega bem?”
 
Entre grandes autores, esses documentos dificilmente atestam interferências criativas, sobretudo entre poetas que escolheram dicções próprias: ele pela elaboração objetiva e o enfretamento com a linguagem, ela pelo teor lírico derivado do contato com o mito e a História. Mas esses materiais guardam um valor que cada vez mais parece se perder na era das tecnologias e da fugacidade dos contatos (consequentemente, das relações): a possibilidade de mapearmos pela palavra as cartografias do convívio, partes de vidas e interesses em contato ― elos motivadores assumidos entre os da comunidade literária.

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Nota:
* As considerações deste texto só foram possíveis graças ao excelente inventário de Paola Poma que refaz a relação entre Sophia de Mello Breyner Andresen e João Cabral de Melo Neto em Sophia: singular plural (Rio de Janeiro, 7Letras, 2019), trabalho que se recomenda com certa urgência aos interessados em catar as relações aqui evidenciadas e outras da poeta portuguesa com poetas brasileiros.

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