Inacabamento e expansividade: Contos Inacabados, de J.R.R. Tolkien

Por Guilherme Mazzafera

 
J.R.R. Tolkien. Foto: Coleção Life Images.


Que Tolkien é um dos mais produtivos autores-defunto (para inverter a lógica do nosso Brás Cubas) da história não há o que discutir. Porém, quatro décadas atrás, pouco suspeitavam seus leitores da veracidade e abrangência de tal asserção. Afinal, a leitura de O Hobbit (1937) e O Senhor dos Anéis (1954-55) lhes dera poderosos vislumbres de um vasto arcabouço subjacente que, talvez pensassem alguns deles, não poderia ser meramente hábil sugestão engastada literariamente. É certo que grande parte de seu efeito (e mesmo de seu tom) é derivado dessa capacidade sugestiva, decantada em um elã progressivamente elegíaco, mas era preciso certo gesto de fé para crer que a gênese de tal universo ficcional — ou Mundo Secundário, conforme prefere a poética tolkieniana — havia de estar registrada em algum lugar oculto, pacientemente aguardando publicação. Foi com imensa alegria, portanto, acompanhada de algum embevecimento, que os mesmos leitores se depararam em 1977, apenas quatro anos após a morte do autor, com uma obra que carregava em si a consanguinidade necessária para converter-se no testamento de Tolkien: O Silmarillion.
 
Mais do que simples genealogia, a obra logo tornou-se, por estilo e escopo, o Antigo Testamento de seu autor, que, se não pôde vê-la publicada, acabou por legar tal tarefa indiretamente a seu testamenteiro literário e terceiro filho, Christopher. Detentor de dupla autoridade, a outorgada pelo pai e a construída por sua carreira acadêmica, o destino das obras póstumas tolkienianas certamente estava em boas mãos. Por conta de seu escopo abrangente e estilo consideravelmente sintético, reunindo milênios de estória em algumas centenas de páginas, O Silmarillion progressivamente se tornou obra de referência incontornável sobre os Dias Antigos da Terra-média tolkieniana, mas seu estatuto canônico não permaneceu incólume aos longos dos anos.
 
Se desde o início a obra pôde ser criticada como criação do filho e não do pai — o que defraudaria sua autoridade para certo contingente de leitores —, os caprichos de sua composição, tal como esmiuçados pelos estudos tolkienianos ao longo dos anos, fomentaram a conclusão que O Silmarillion tal como editado por Christopher (que contou com o auxílio parcial do então jovem escritor canadense Guy Gavriel Kay) era apenas uma das formas possíveis que o material-base originalmente deixado por Tolkien poderia assumir. A quebra da canonicidade, no entanto, era sobretudo mérito do próprio editor: fora o próprio Christopher que pacientemente se debruçara sobre os infindáveis papéis paternos e organizara uma notável genealogia de seus escritos e composições, disposta, com aparato crítico próprio, nos doze volumes da série History of Middle-earth (1983-96), talvez o maior behind the scenes da história da literatura — e, sobretudo, uma verdadeira declaração de amor. O Antigo Testamento de Tolkien via-se, por assim dizer, agora crivado de apócrifos autógrafos.
 
Mas houve um importante entremeio a enlaçar a edição literária presente em O Silmarillion e a edição crítica vigente na série HoMe. Afinal, no momento de sua publicação, Contos Inacabados (1980) — e sejamos sinceros, não há título mais honesto — parecia funcionar como um livro de apoio para os leitores de O Silmarillion, oferecendo uma seleta de textos vistos por Christopher como importantes e que ofereciam vislumbres de histórias não contadas (“Aldarion e Erendis”), variações de alguns núcleos temáticos importantes da Primeira Era (as histórias de Tuor e Túrin) e mais informações sobre personagens queridos da Terceira Era (Gandalf e Galadriel, por exemplo). No entanto, vista retrospectivamente, a obra se converte, do ponto de vista da cronologia da publicação, em alentado preâmbulo da série HoMe, com a qual compartilha o aspecto truncado, fragmentário e repleto de comentários editoriais. Quanto à datação dos textos, em sua maioria escritos de 1950 em diante, o livro poderia ser alocado no terceiro grupo da série, que corresponde ao período posterior à finalização da escrita de O Senhor dos Anéis, abrangendo os volumes X–XII.
 
Se na elaboração de O Silmarillion Christopher e Kay se esforçaram por obter certa uniformidade de tom e estilo, produzindo um texto único que refuga pistas explícitas sobre sua complexa construção a partir de fragmentos e variantes, Contos Inacabados segue caminho distinto, agrupando, em um só volume, textos com diferentes graus de acabamento, escopo e modo narrativo, sem esconder sua incompletude constitutiva. Pensando na distinção feita por Dimitra Fimi (2010) entre o modo mítico e o modo romanceado de escrita que enformam o legendário tolkieniano, Contos Inacabados oferece uma boa amostra dos dois tipos. Se o primeiro se faz sentir em “Narn I Hîn Húrin”  e “De Tuor e sua chegada a Gondolin” (variantes dos capítulos “De Túrin Turambar” e “De Tuor e a Queda de Gondolin” do livro anterior, respectivamente), o segundo aparece de modo mais evidente na peculiar — para os padrões tolkienianos — história de “Aldarion e Erendis” e na narrativa de Gandalf sobre como orquestrou a expedição dos Anãos à Montanha Solitária (“A Demanda de Erebor”, mais uma variante ou, forçando um pouco a mão, quase uma autofanfic), o que pode potencialmente atrair leitores dos romances tolkienianos que têm dificuldades com o modo mítico que recobre O Silmarillion como um todo. Vale notar ainda que, a despeito de sua possível filiação, a publicação desses textos em um volume apartado da série em doze volumes não deixa de conferir-lhes certa distinção hierárquica quando contrastados com a pletora de narrativas agrupadas na série.
 
Christopher Tolkien. Foto: Divulgação.


A nova edição brasileira, publicada em 2020 pela HarperCollins Brasil, recupera a tradução do inestimável Ronald Kyrmse, publicada originalmente em 2002 pela Martins Fontes, e atualiza-a dentro dos critérios editoriais que vêm sendo adotados para a obra de Tolkien desde 2018, quando a HCB obteve os direitos de publicação. A mudança mais notável é uma maior variedade de registros linguísticos, sobretudo no âmbito da segunda pessoa, alargando a paleta expressiva tão cara ao nosso autor. Cabe destacar ainda que a belíssima capa, feita a partir da arte Glórund sets forth to seek Túrin, dando prosseguimento à opção da editora por ilustrar as capas dos livros principais por meio das obras pictóricas do próprio Tolkien, acaba por reforçar essa posição proeminente da obra em meio à vasta bibliografia tolkieniana.
 
Em sua introdução ao livro, Christopher marca de forma nítida a diferença entre Contos Inacabados e seu antecessor:
 
“[…] os “Contos Inacabados” diferem essencialmente de O Silmarillion, onde um objetivo primordial, porém não exclusivo, da edição era obter coesão tanto interna como externa; e, à exceção de alguns casos especificados, de fato tratei a forma publicada de O Silmarillion como ponto fixo de referência da mesma ordem que as obras publicadas por meu pai, ele próprio, sem considerar as inúmeras decisões ‘não autorizadas’ entre variantes e versões rivais que influenciaram sua produção.” (TOLKIEN, C., 2020, p. 15)
 
O começo desse excerto aponta para certa relativização da forma como Christopher apresentou O Silmarillion no prefácio àquela obra, em que advertia o leitor sobre os riscos de uma coesão extremada, dizendo agora que seu intuito essencial fora o da busca pela coesão interna e externa do volume. O passo seguinte, considerar O Silmarillion como partícipe inconteste da obra paterna, ignorando suas próprias intervenções mais acentuadas como editor, é gesto decisivo para o processo de canonização da obra enquanto referência incontornável sobre a história dos Dias Antigos na ficção tolkieniana. De todo modo, Christopher deixa claro seu esforço em Contos Inacabados por sempre clarificar suas intervenções ao longo do texto (2020, p. 15).
 
Segundo o editor (TOLKIEN, C., 2020, p. 11), “As narrativas deste livro repousam, de fato, sobre uma base totalmente diferente” em relação ao Silmarillion, uma vez que o livro “nada mais é que uma coletânea de escritos, díspares na forma, na intenção, no acabamento e na data de composição (e no tratamento que eu próprio lhes dei), que tratam de Númenor e da Terra-média”. Por conta de sua natureza ostensivamente inacabada e pelo aspecto um pouco arbitrário de seu agrupamento para publicação, seria de esperar que tais textos exigissem uma mão editorial consideravelmente mais leve que a usada no livro precedente. No entanto, o prefácio de Christopher indica que um trabalho de edição de natureza variada foi necessário para torná-los efetivamente publicáveis.




Ao discorrer sobre os procedimentos editoriais aplicados a cada uma das narrativas, a diversidade de tipos de intervenção faz-se notar em seus distintos graus de intensidade. O escopo abarca tanto alterações “tão-somente marginais”, questões de “fraseado” e uma “leve condensação”, passando por um “grande esforço de revisão e seleção”, quanto intervenções mais profundas, que envolvem certo “grau de remontagem editorial” (“Aldarion e Erendis”) e, no limite, a necessidade de construir uma narrativa “de escala comensurável com outras partes” no caso de certa passagem do “Narn I Hîn Húrin” (TOLKIEN, C., 2020, p. 19–22). Tais intervenções parecem se justificar em função do estado fragmentário dos textos tolkienianos e do propósito de compor um volume dotado de um grau mínimo de legibilidade para os leitores já familiarizados com outras obras do autor, já que sua apreciação isolada é pouco frutífera.  
 
A recepção crítica da obra não pôde deixar de notar suas diferenças para com seus predecessores e, nessa comparação, sua incompletude constitutiva aparece como constante destaque. Alguns críticos, sem negar o aspecto difuso da leitura, mostram-se capazes de perceber no livro uma espécie de poética do fragmento que valida os textos por si mesmos e pelo que acrescentam ao material já canônico:
 
“[Contos Inacabados é] uma montagem de brilhantes fragmentos que resplandecem em isolamento difuso mas esplêndido. Embora lhes falte contexto e, assim, lustre pleno, os contos — talvez devido à sua natureza fragmentada — são ainda mais intrigantes. Conjecturas imaginativas, eles apontam para o vasto esquema cósmico idealizado por Tolkien, uma das mais audaciosas empresas literárias do século.” (PIAZZA, 1980, tradução nossa)
 
Para vários outros, no entanto, Contos Inacabados parece representar uma intensificação do que já fora observado por algumas resenhas de O Silmarillion, ou seja, um livro altamente específico, feito para estudiosos e, no limite, um produto pertencente não mais a seu autor, mas à “indústria Tolkien” (BUECHNER, 1980 apud HAMMOND; SCULL, 2006, p. 1066). Para os não entusiastas de tal indústria, o livro demonstra uma acentuada atmosfera de declínio, não passando de “um eco indistinto das glórias do passado, um espalhar de migalhas deixadas após um grande e inesquecível banquete” (2006, p. 1066, tradução nossa).
 
Tal percepção é partilhada até mesmo por uma das pessoas diretamente envolvidas na construção de O Silmarillion, Guy Gavriel Kay. Embora o livro apresente momentos notáveis (o juízo de Christopher Tolkien é certamente refinado), como a história de “Tuor e sua Chegada a Gondolin” — a melhor do livro para Kay — ou a “tragédia barroca” presente na versão mais detalhada da história de Túrin Turambar, ambas dotadas de inegável poder nostálgico e evocativo, a rigorosa delimitação do público-alvo suscitada pelo projeto editorial do livro, que inclui diversas intromissões do editor por meio de notas, comentários e apêndices, acaba por tornar sua leitura inerentemente desigual e desconsolada, agradando apenas a fanáticos ou acadêmicos:
 
Para alguém inocentemente em busca de uma boa leitura, Contos Inacabados emerge como inacessível, pedante e talvez entristecedor no fim das contas. Para onde foi a magia? O leitor sente-se, por vezes, como um arqueólogo, escavando os empoeirados destroços de uma outrora gloriosa civilização […] Baixas encostas esses Contos Inacabados, o pó ressecado das eruditas notas de rodapé substituindo o cintilar de espadas encantadas. Baixas encostas e pouca luz de fato, mas há o bastante para ajudar-nos a lembrar quão alta a montanha uma vez fora. E quão brilhante. (KAY, 1981, tradução nossa)
 
Tais comentários certamente reforçam a preferência de Kay pela ideia do texto único que vemos em O Silmarillion, mesmo que adornado por certas intervenções não autorizadas, pondo em evidência a importância da legibilidade para a fruição do texto. Embora a maior parte da vida póstuma das obras de Tolkien esteja intimamente ligada à sua incompletude — compensada por Christopher e eventuais outros editores por meio de minuciosos prefácios e notas —, Contos Inacabados é vítima de um estigma específico que parece isolá-lo do restante dos livros, já que não faz parte (embora o prenuncie) do vasto esforço histórico-filológico da série HoMe, cujo público-alvo é o mais especializado possível, nem apresenta unidade temática ostensiva, como vemos por exemplo em Beren e Lúthien (2017) ou A História de Kullervo (2015).
 
Ao ocupar esta posição singular, Contos Inacabados parece dar início, do ponto de vista dos leitores, a uma espécie de universo expandido do corpus textual tolkieniano, cuja leitura tanto complexifica os livros canônicos (O Hobbit, O Senhor dos Anéis e O Silmarillion), ao explorar em detalhe alguns de seus pontos cegos, como tensiona o próprio estatuto canônico deles por meio da publicização de variantes – ou, de forma mais precisa, autorrefrações, como habilmente propõe Reinaldo José Lopes (2012) em seu doutorado – e pela presença de narrativas paralelas intimamente vinculadas ao desfecho bem-sucedido das demandas de Bilbo e Frodo (ver, por exemplo, “A Demanda de Erebor”, “A Caçada ao Anel” e “As Batalhas dos Vaus do Isen”) e não contempladas pela fatura formal dos romances. Esse gesto é importante na medida em que relativiza o âmbito da “Grande Narrativa” que lemos em O Hobbit e O Senhor dos Anéis, por exemplo – escrita, é preciso lembrar, do um ponto de vista hobbitocêntrico inerente à verossimilhança da ficção tolkieniana –, ao inseri-la em uma rede de eventos mais profusa e nuançada. Se isto parece um efeito incontornável da leitura da obra, a importância de obter uma visão mais aguçada e completa do todo é emblematicamente salientada pelo próprio Gandalf no final de seu relato em “A Demanda de Erebor”:
 
“De fato tudo poderia ter acabado de modo muito diferente. O ataque principal foi desviado para o sul, é verdade; mas ainda assim, com sua mão direita bem estendida, Sauron poderia ter causado danos terríveis no Norte enquanto nós defendíamos Gondor, se o Rei Brand e o Rei Dáin não se tivessem interposto em seu caminho. Quando pensardes na grande Batalha de Pelennor, não vos esqueçais da Batalha de Valle. Imaginai como poderia ter sido. Fogo de dragão e espadas selvagens em Eriador! Poderia não haver Rainha em Gondor. Agora somente poderíamos esperar voltar da vitória daqui para ruínas e cinzas. Mas isso foi evitado — porque me encontrei com Thorin Escudo-de-carvalho certo dia ao anoitecer, à beira da primavera, não longe de Bri. Um encontro casual, como dizemos na Terra-média.” (TOLKIEN, 2020, p. 432)
 
Por fim, cabe apenas notar que esse pendor democratizante do gesto expansivo parece encontrar eco no espírito que presidiu a organização de Contos Inacabados por Christopher: a crença de que cada personagem ou elemento considerado relevante pelo autor é digno de atenção e passível de ser contemplado imaginativamente com a mesma seriedade e afeto que quaisquer objetos do mundo não ficcional (TOLKIEN, C., 2002a, p. 7). Crença esta, é forçoso dizer, que mais do que justifica a honestidade do título. Nenhum conto se fecha sem bordejar a sombra de outro. Portanto, caro leitor, “Quando pensardes na grande Batalha de Pelennor, não vos esqueçais da Batalha de Valle”.
 
Referências
 
BUECHNER, Frederick. For Devotees of Middle-earth. New York Times Book Review, 16 nov. 1980, p. 15, 20.
FIMI, Dimitra. Tolkien, Race and Cultural History. New York; London: Palgrave Macmillan, 2010.
KAY, Guy Gavriel. Dug out of the dust of Middle-earth. MacLeans, 26 jan. 1981. Disponível aqui.  Acesso em: 7 abr. 2021.
LOPES, Reinaldo José. With Many Voices and in Many Tongues: Pseudotradução, autorrefração e profundidade cultural na ficção de J.R.R. Tolkien. 2012. Tese (Doutorado em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês) — Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012.
PIAZZA, Paul. Mosaics from Middle-earth: Fragments of Tolkien’s World, Washington Post, 8 dez. 1980. Disponível aqui. Acesso em: 13 mar. 2020.
SCULL, Christina; HAMMOND, Wayne G. The J.R.R. Tolkien Companion and Guide: Reader’s Guide. New York: Houghton Mifflin, 2006.
TOLKIEN, Christopher. Foreword. In: TOLKIEN, J.R.R. The History of Middle-earth I: The Book of Lost Tales Part I. Edição de C. Tolkien. 4th ed. London: HarperCollins, 2002, p. 1–11.
TOLKIEN, Christopher. Introdução. In: TOLKIEN, J.R.R. Contos Inacabados. Edição de C. Tolkien. Tradução de Ronald Kyrmse. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2020, p. 11–31.
TOLKIEN, J.R.R. Contos Inacabados. Edição de C. Tolkien. Tradução de Ronald Kyrmse. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2020.

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