Dez livros já imprescindíveis do século XXI

© Erika Lee

 
Para que qualquer obra literária se torne um clássico é necessário a passagem do tempo. É sempre o argumento utilizado para demarcar os limites do termo. A questão, entretanto, não se resolve de maneira tão simples porque outras muitas variáveis se implicam no conceito. Talvez, mais que o tempo, possamos pensar noutro critério comum desde quando se consolida o ideal modernista — o da inovação. O que determinada obra apresenta de qualidade estética em relação aos seus antecedentes, ainda que, é claro, todo objeto artístico deve ser lido num arco que abranja seu lugar no interior do seu contexto vigente.
 
Voltemos ao tempo. Sobre este, paira outra interrogação que é a de quanto tempo é necessário para um livro virar clássico. Como medir uma grandeza que se faz relativa, a depender de como se observa. Quatro, cinco, seis séculos é muito quando colocado nas nossas limitadas possibilidades de existência. Ante a eternidade — essa dimensão que só conseguimos ver como uma sombra em contínua expansão — o tempo muito para nós é uma fração de nada. E há ainda uma garantia que se perde aqui, como observou bem Terry Eagleton: quem garante que daqui a quatro, cinco, seis séculos, se ainda existirmos, se continuará lendo Shakespeare e outros como um clássico. Até quando esse elemento que elegemos como amigo da arte não pode ser ainda seu inimigo, transformando-a em cinza.
 
José Saramago, no documentário de Miguel Gonçalves Mendes, José e Pilar, ao pensar sobre a morte, comenta: “Um dia a Terra desaparece, o Sol apaga-se, o sistema solar acaba e o Universo nem sequer se dará conta de que nós existimos. O Universo não saberá que Homero escreveu a Ilíada.” Nosso pensamento dificilmente se agarra a essa constatação porque nos atordoa. Ainda que o fim seja a única certeza que carregamos conosco, apegar-se a qualquer ideia de continuidade é de valia.
 
Tudo isso não é para aceitar o uso desleal que se faz com a palavra para os dias que correm, quando depois de chamar qualquer um de gênio, passamos a admitir no rol dos clássicos qualquer livro que de alguma maneira terá produzido algum tipo de marca, seja no tempo de sua publicação (como ser um queridinho do mercado ou dos leitores) seja nos próprios interesses da crítica, ou dos campos de domínio das ideologias, como tem sido moeda corrente.
 
Agora, é sempre possível estabelecer projeções. É verdade que nunca saberemos do futuro dos chamados clássicos — as obras inovadoras que atravessaram séculos com o seu frescor sempre renovado porque sempre é capaz de nos acrescentar —, mas podemos continuar acreditando que esses livros permanecerão e receberão em sua companhia outros tantos. Projetar algum futuro não é pecado. E essa lista veste-se do desafio de pensar quais livros publicados nos primeiros anos deste século continuarão a alcançar gerações daqui a muitas décadas. É uma lista de apostas. Se no futuro algum escafandrista a encontrar, se sobrar qualquer coisa desse universo virtual, poderá dizer melhor das previsões aqui levantadas.
 
Austerlitz, de W. G. Sebald. É curioso como alguns escritores se estabelecem entre os leitores; por esses, embora nada saibamos ao seu respeito, demonstramos sempre alguma curiosidade por ler. O alemão autor deste romance publicado em novembro de 2001 está entre eles. Este livro é daqueles ainda capazes de nos surpreender sempre por sua capacidade de articular os tempos da história, do indivíduo e da criação como uma síntese local versus universal.
 
2666, de Roberto Bolaño. Talvez o próprio escritor tenha muito sonhado, mas jamais imaginado que, quase imediatamente ao ano da sua morte, se converteria numa das figuras mais proeminentes da literatura de língua espanhola. Este romance — um puzzle que articula tantas peças disjuntadas mas que formam um todo coerente, qual uma figura de Giuseppe Arcimboldo, para recuperar o eco da figura que motiva o interesse de um grupo de professores de literatura, Beno von Archimboldi — saiu postumamente em 2004. Desde então é não apenas a principal obra do escritor chileno como um desses livros capazes de articular paixões e obsessões numa busca que é, afinal, o motor da própria literatura.
 
Limonov, de Emmanuel Carrère. Parte de uma literatura que nunca perdeu a qualidade de ser influente, este livro logo se firmou como um dos principais do escritor. Outra vez são as implicações entre a história geral e a do indivíduo que se articulam numa leitura assaz sobre a impossibilidade da identidade una como definição própria. Eduard Limonov, o protagonista, nasce na antiga União Soviética e depois da maioridade, quando já se envolveu ao extremo como o lado underground russo, decide fugir para os Estados Unidos em busca de algum prestígio.
  
Reparação, de Ian McEwan. O escritor dispõe de uma variedade de títulos capaz de permanecer muito tempo pela frente, mas este de 2002, guarda algumas peculiaridades. Novamente a literatura participa aqui na constituição de um imbróglio dentro da própria literatura — uma adolescente que nutre o desejo de ser escritora presencia um episódio que a atormenta continuamente e ela o modifica na construção de uma história fantasiosa que a arrasta para implicações na sua própria vida a fim de reparar o mal que causou. A profundidade psicológica e a sutileza como as relações entre as personagens se articulam faz desse romance uma obra-prima.
 
Minha luta, de Karl Ove Knausgård. A forma literária que tomou novo corpo no entre-séculos é designada por autoficção. Mas, reduzi-la à exposição barata, simplória e gratuita do eu como tem sido corrente nesse meio não oferece quaisquer garantias sobre a qualidade da obra. Ciente disso, o escritor norueguês, que ficcionaliza sua própria vida da infância à vida adulta, movimento de memória que se desencadeia pela tentativa de compreender sobre a figura do pai, constrói uma monumental trajetória que esquadrinha em múltiplos tons e sempre com um realismo minucioso a vida trivial e suas implicâncias na biografia do sujeito na contemporaneidade.
 
Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie. Esta é uma das poucas escritoras numa tradição literária que reúne nomes do porte de uma Toni Morrison e que não reduziram sua literatura à fagulha do panfletário. Neste romance, publicado em 2013, ela retoma o modelo clássico na história da literatura ocidental, o de uma história de amor, para desenvolver algumas das questões mais caras no debate sobre o preconceito racial e a desigualdade de gênero num contexto de disparidades culturais das mais acentuadas, os Estados Unidos nada afeitos a imigração africana.
 
A estrada, de Cormac McCarthy. Integrado ao rol da chamada literatura apocalíptica, esta que costuma pensar sobre o crepúsculo de nossa civilização, a obra do escritor estadunidense se consolida com este romance cuja narrativa projeta um futuro em que o planeta se encontra totalmente devastado e nele se desenvolve a odisseia de um pai com o filho em busca da sobrevivência. Aqui, une-se o tom da narrativa final com o do relato de amadurecimento via as relações que estabeleceram, para bem e para mal, as diretrizes do mundo qual conhecemos.
 
Sôbolos rios que vão, de António Lobo Antunes. O escritor português guarda o mérito de revolucionar a arte de contar histórias; o autor está no seleto grupo dos que modificaram as feições e o curso do romance depois de William Faulkner. É também um romancista que reúne o valioso acaso de ter sua obra estabelecida no cruzamento dos séculos XX e XXI. O romance aqui listado data de 2010, é o seu vigésimo trabalho nesta forma literária, e é uma pequena amostra da inventividade formal e estrutural da narração. Acompanhamos um homem entre as dores e a confusão provocada pelos medicamentos que puxa pela memória em busca de recuperar sua vida e a das pessoas que a atravessaram. É outra vez o tema da angústia diante da morte, secularizado em autores como Tolstói, mas com as cores da nova arte de narrar.
 
O mapa e o território, de Michel Houellebecq. Uma polêmica capaz de despertar o ponto de vista do leitor para questões caras ao seu tempo. Essa é uma das fórmulas que, aliada a sofisticada maneira como sua mirada ácida e crítica pensam tais impasses, fizeram a obra de Houellebecq uma das mais interessantes. Neste romance a história do artista plástico Jed Martin, tornado célebre do dia para noite, se torna uma valiosa oportunidade de pensar sobre os valores que modelaram essa civilização: a própria fama e o capital. Mas também as qualidades humanas envoltas na crise propiciada por esses valores.
 
Os livros de Jacob, de Olga Tokarczuk. Dos romances até aqui citados, em torno deste pairará a pergunta: será que a escritora polonesa compareceria nessa lista se não houvesse ganhado o Prêmio Nobel de Literatura em 2019? Muito provavelmente. Independente disso, seu livro mais ambicioso obteve o imediato reconhecimento, como outros daqui, dos leitores e da crítica. Situado em meados do século XVIII, com o carismático e autoproclamado messias, Jacob Frank, o romance revisita as raízes (ou seria o avesso?) dos modelos religiosos que dominaram ao Europa, estabeleceram as diretrizes ideológicas até os dias atuais com suas mazelas que impôs uns contra outros em cruzadas ainda distantes de findar.

Comentários

Ana disse…
Ótimo texto, com excelentes ponderações. Não li todos os livros citados e, por conhecer estilos e autores, imagino que não fosse gostar de alguns dos outros (falo num sentido estritamente pessoal), mas A Estrada me marcou fortemente, e Americanah trouxe bons pontos para reflexão. Vou buscar esse trabalho de Olha Tocarczuk, de quem li (e adorei) Sobre os Ossos dos Mortos. Obrigada pelo artigo!

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