Orhan Pamuk: a escrita oral

Por Alberto Hernando


Orhan Pamuk. Foto:  Alvaro Canovas


Desde quando, em 2002, Orhan Pamuk recebeu por Meu nome é vermelho (1998) o Prêmio de Melhor Livro Estrangeiro na França, o Grinzane Cavour na Itália e o International Impac em Dublin, a projeção internacional de sua figura e obra foi crescendo. Três anos mais tarde, um acontecimento alheio à literatura fez dele figura mediática: foi julgado na Turquia, acusado de insultar o Estado por algumas das suas declarações no jornal suíço Tages-Anzeiger, onde afirmava que negar a morte de um milhão de armênios e cerca de trinta mil curdos, perpetrada no início do século XX, constituía uma ferida aberta e um tabu injustificável para a sociedade turca. 

No último caso, felizmente, ajudado pela pressão da imprensa ocidental, após ouvir o processo judicial, Pamuk seria absolvido (assim como Elif Shafak, também processada por motivos semelhantes). A perseguição política ao escritor turco — onde coincidiam militares laicos, fundamentalistas islâmicos, um setor da imprensa conservadora e numerosos escritores nacionalistas — rendeu-lhe o Prêmio da Paz dos Livreiros Alemães, galardão que sem dúvida contribui abrindo os caminhos para o Nobel, que fez sua candidatura prevalecer sobre a de outros escritores eminentes então cotados, como Mario Vargas Llosa, Amós Oz, Adonis, Milan Kundera, Assia Djebar ou Doris Lessing. 

No entanto, e estritamente falando, o reconhecimento dos méritos literários de Orhan Pamuk não é determinado por esse incidente extraliterário. A merecida reputação de excelente escritor foi um processo gradual: seu primeiro romance, Cevdet Bey ve oğulları (trad. livre O Senhor Cevdet e seus filhos,1982), foi distinguido em seu país com o prêmio da imprensa Milliyet e com o Orhan Kemal; A casa do silêncio (1983) foi galardoado na sua versão francesa editada pela Gallimard, em 1988, com o Prix de la Découverte Européenne; ao publicar O castelo branco (1985), recebeu inúmeros elogios da crítica, especialmente de John Updike, e O livro negro (1990) foi um impressionante sucesso de vendas sem os conhecidos truques de marketing e foi traduzido para vários idiomas. Além dos títulos mencionados, vários outros se sucedem: A vida nova (1994), Outras cores (1999), Neve (2002), Istambul (2003), O museu da inocência (2008)...
 
No meu entendimento, os dois romances que formam o cerne da obra de Pamuk são O livro negro e Meu nome é vermelho. Ambos se estruturam por uma arquitetura narrativa concebida como um arquétipo que permite misturar diferentes gêneros literários — desde romances policiais a romances históricos – e refinar vários elementos: uma intriga a ser desvendada e que envolve um assassinato; uma relação amorosa (fadada ao fracasso ou que desperta desejo exacerbado); uma polifonia que explica o assunto a partir de diferentes perspectivas; a inserção de referências históricas ou culturais (textos e autores místicos ou filosóficos, tradições pictóricas, lendas, clássicos da literatura oriental, marcos históricos...) e, finalmente, a localização da ação em espaços reconhecíveis (especialmente Istambul).

Em toda essa rede ressoam os ecos dos antigos contadores de histórias orais. Esta construção narrativa bem premeditada e desenvolvida (não é à toa que Pamuk estudou arquitetura técnica, embora posteriormente tenha se formado em jornalismo), em que a voz se materializa em palavras, aproxima-se da tradição d’As mil e uma noites, onde um história leva a outra e todas juntas formam um único corpo narrativo. Isso favoreceu Pamuk a ser descrito como um híbrido entre Faulkner e Scheherazade; embora, sabendo essa qualificação, o escritor apontasse que sua escrita deve mais à beleza nabokoviana e aos jogos simétricos de Jorge Luis Borges.
 
Da mesma forma, uma característica que distingue Pamuk é a embalagem culta com a qual nutre seus romances. Se em O livro negro encontramos inúmeras referências a Ibn Arabi, El-Attar, Ibn Sean, Mewlâna, Al-Kindi ou Chij Galip; em Meu nome é vermelho há muitas citações sobre Fuzuli, Behzat, İbn Şâkir, Ferdowsi, Rasidüddini Kazvini ou Haydar Duglar. Da mesma forma, enquanto em O livro negro é feita referência às ordens dos Hurufis e dos Bektashis, em Meu nome é vermelho o assassino pertence aos Derviches Kalenderis. Estas referências aos clássicos islâmicos, pertinentes e sem exageros, não são um exercício trivial. Pamuk destaca a rica tradição cultural islâmica — que o Ocidente geralmente ignora ou negligencia — para mostrar as diferenças imensuráveis ​​entre as duas civilizações, bem como seus lugares de encontro e mistura (Coca-Cola versus Kokoretsi).
 
O restante de seus romances gira em torno de temas constantes: a memória (relato da vida de seus personagens fictícios combinado com a influência do passado no presente; é o caso de A casa do silêncio, onde uma viúva, de sua mansão às margens do Mar de Mármara, evoca memórias lancinantes do infeliz destino de sua família); a inquietação causada pela tensão entre a tradição cultural do Oriente e a do Ocidente; a ambivalência entre um sentimento de decadência (hüzün ou amargura por um passado irrecuperável) e um anseio de regeneração; o embate entre a identidade (a cultura otomana) e a atração, semeada de dúvidas, pela modernidade (os imaginários do Ocidente); a luta entre secularismo e religiosidade (mostrada, dramaticamente, em Neve); a dupla ou reversibilidade de personagens antagônicos (o personagem de Galip personificando Celal em O livro negro; o astrônomo turco Münedjimmabachï e o conde veneziano Marsigli, ambos fascinados pelo progresso técnico na arte militar, mudando de lado cultural na narrativa de O castelo branco...).

E, como último elemento relevante da panóplia temática de Pamuk, a busca incessante (por amor, conhecimento, revelar um arcano ou significado e identidade turca...) que em A vida nova constitui a centralidade da narrativa. A propósito deste romance, gostaria de assinalar um detalhe que oferece uma ligação natural entre a renovação romanesca de Pamuk e a tradição literária turca: A vida nova foi traduzido na França para a Gallimard por Münevver Andaç, companheira do poeta Nâzım Hikmet quando este precisou se exilar da Turquia para Moscou. Andaç morreria em Paris em 1988 poucos dias depois de terminar a tradução. Em que consiste essa modernização do romance promovida por Pamuk? O que o torna diferente de outros escritores turcos contemporâneos seus (Pinar Kür, Emine Sevgi Özdamar, Faruk Ulay, Yaşar Kemal…)? Sem dúvida uma louvável aspiração: que as atuais letras turcas sejam, como a ponte sobre o Bósforo que une a Ásia e a Europa, o elo entre o melhor da tradição islâmica e o melhor da racionalidade progressista do Ocidente. 

* Esta é a tradução livre para “Orhan Pamuk: la escritura oral”, texto que foi publicado inicialmente aqui, em Letras Libres.

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