O pulso do tempo: “Meio século com Borges”, de Mario Vargas Llosa

Por Patricia Córdova

Jorge Luis Borges, Mario Vargas Llosa e Alicia Jurado. Buenos Aires, 1981.


 
Tentar entender a vida e a obra de um autor não é menos complexo do que tentar elucidar a história e o temperamento de uma nação. E é precisamente na procura das lacunas dessa complexidade que reside o valor de quem se propõe a interpretar um autor, uma obra, uma cultura. A quebra da complexidade é a única forma de garantir o verdadeiro respeito pela diversidade: aqui e ali, o eu e o outro são compreendidos, os pontos de vista são ampliados. A complexidade interpretativa nos aproxima da democracia. Seu oposto, a simplicidade interpretativa, garante o dogma, a polarização e, sobretudo, a desqualificação do que não nos é semelhante. Na literatura, na filosofia e na história é onde a interpretação crítica e criativa ocorre com maior força, pois sua existência é a única garantia para o progresso de uma sociedade. Livros e autores não bastam, eles devem ser interpretados.
 
Meio século com Borges, de Mario Vargas Llosa,¹ aborda o diálogo que, ao longo de cinquenta anos, ocorre entre dois titãs das letras escritas em língua espanhola. Um diálogo às vezes presencial, como acontece nas duas entrevistas aqui reunidas, uma de 1963 em Paris — ano em que Mario Vargas Llosa publicou seu primeiro romance deslumbrante A cidade e os cachorros —, e outra de 1981 na casa de Jorge Luis Borges, provavelmente a da rua Maipú, 994, sua última residência em Buenos Aires. Outro diálogo se dá à distância: um romancista, que fez jus à diversidade cultural do Peru e à sua fascinante linguagem entremeada de quechuísmos, elucida sobre as reviravoltas intelectuais e linguísticas que criaram o particular estilo borgiano, sobre a franca aversão do autor de O livro de areia ao gênero romanesco e sobre os desconcertantes encontros de Borges com mais de uma ditadura.
 
Meio século com Borges não é apenas um livro que contém entrevistas e ensaios, mas um livro de gestos; isso porque, apesar de reconhecer que o grande ausente na obra de Jorge Luis Borges é a América Latina, Vargas Llosa — cuja narrativa homenageia cultural e criticamente o Peru, a Amazônia, a República Dominicana e a Guatemala — pretende entender com muita lucidez o gênio de Borges e explicar onde está a originalidade de um estilo que colocou autores latino-americanos em diálogo face a face com autores da literatura universal.
 
Em Paris, em 1963, um romancista, que ainda faz jornalismo, testemunha o deslumbramento dos parisienses diante do autor de A história universal da infâmia. Barthes vai testemunhar Borges e Foucault inicia um dos livros mais influentes da época, As palavras e as coisas, com uma referência borgesiana. Em grande medida, a França descobriu Borges e legitimou um sucesso que lhe veio quando já tinha publicado quase tudo. Borges fascinou os parisienses com sua erudição, seu francês fluente e culto e suas singulares frases irônicas e lacônicas.
 
Simpatias e diferenças
 
Enquanto Vargas Llosa considera o romance um “gênero canibal, que deglute todos os gêneros” (p. 33), Jorge Luis Borges considerava o romance um “absurdo empobrecedor” que estendia “em quinhentas páginas algo que pode ser formulado em uma única frase” (p. 32). Mas as diferenças entre os dois vão muito além, pois enquanto a realidade, a história e a política são condições para a criação literária do escritor de Arequipa; para o portenho, refletir sobre o tempo, o infinito, a ubiquidade e o mistério é uma condição para a sua. A erudição de Vargas Llosa se estende à linguagem, cultura, enredo e história de seus portentosos romances. Já a erudição de Borges tem a forma de um arabesco: é sobrecarregada, concentrada e remota. Entre os dois, a distância estilística é aquela entre um afresco e uma miniatura.
 
Em “As ficções de Borges”, o autor faz um balanço do legado do autor de O Aleph para a literatura latino-americana, que assumiu a herança de uma cultura universal sem a atitude de um colonizado. Borges, embora seduzido pelos subúrbios de Buenos Aires e outros vestígios da história e da cultura de seu país, não assumiu o nacionalismo como credo temático. Sua “originalidade furiosa” é comparada a Quevedo, Góngora e Rubén Darío, já que, semelhante a eles, conseguiu “perturbar” a prosa espanhola com uma musicalidade e usos adjetival e adverbial únicos. Se o adjetivo mata, segundo Roland Barthes, para Jorge Luis Borges torna-se um recurso para realizar combinações inesperadas, como nas “bocas unânimes da fama” ou “uma tristeza impessoal, quase anônima”. Linha a linha, Vargas Llosa se maravilha com a façanha borgiana capaz de criar “uma prosa que se saboreia, palavra a palavra, como uma iguaria. O que há de revolucionário nisso é que na prosa de Borges há quase tantas ideias quanto palavras, já que sua precisão e concisão são absolutas.” (p. 52).
 
Uma clareza incisiva
 
Uma apreciação que se destaca, neste livro, é esta: o romancista, através da consideração de um personagem borgesiano — Marta Pizarro de “O duelo” —, converge com Borges em que tanto o espanhol quanto outras línguas românicas são tão “prolixas” que se tornam “conceitualmente imprecisas”. A isso ele atribui a falta de filósofos em nossa língua. Por sua vez, o culto aos livros de Borges o levou a considerar que as línguas sem herança escrita e literária, como o guarani, eram menos numerosas.
 
Chama atenção que ambos os escritores considerem o valor de uma língua pelo que foi escrito, esquecendo que, em todo caso, é a tradição discursiva existente até o momento de sua apreciação que favorece a aparência de que uma língua é melhor ou não do que outra. No entanto, o problema não está nas línguas. Qualquer uma serve para qualquer discurso: para interpretações ponderadas ou para floreios verbais. Felizmente, o apreço de Mario Vargas Llosa se dilui quando reconhece que a obra de Borges nos mostra que nada está definitivamente feito ou dito a respeito de uma língua literária. E depois o confirma ao testemunhar seu sucesso em Paris e afirmar que seu estilo mostra a possibilidade de que o espanhol também possa ser exato, delicado e inovador. Aliás, esse contraponto reflexivo pode levar o leitor a conjecturas: não era esse um dos desafios íntimos de Borges, reinventar sua tradição literária? Polir e aparar aquelas longas cadeias sintáticas de subordinados para cuja leitura nossa respiração não alcança?
 
Jorge Luis Borges inventou a clareza incisiva da frase em espanhol, mas preservou concepções barrocas da existência que são muito particulares do idioma: o mistério e a obsessão pela morte, o fascínio quase mórbido pelo infinito. Diante disso, sua palavra pode ser enigmática e eterna: “Nos sons de rosa a rosa é e perdura./ E todo o Nilo, na palavra Nilo.”, escreve em “O Golem”.² E também os elaborados labirintos, que parecem torturar a mente de um detetive, acabam por se dissolver: vencido Lönnrot por suas especulações concêntricas e rebuscadas sobre um crime, diz ao final: “Eu sei de um labirinto grego que é uma linha única, reta. Nessa linha tantos filósofos se perderam que bem pode nela se perder um mero detetive.”3 Quem poderia negar que a barroca especulação do detetive Lönnrot é tão hispano-americana quanto o nosso espírito e que, ao cabo de sua derrota, ele reconhece que também há vertigem na frase aparentemente linear e simples? Parece que Borges recupera a clareza e a nitidez na frase, mas o estilo barroco que Alejo Carpentier atribuiu à cultura latino-americana não o abandona, nem o culto à morte da Espanha do Siglo de Oro e de nossos povos originários.
 
Sem entusiasmo político nem nacionalismo
 
No capítulo “Borges, político”, Vargas Llosa reflete sobre as declarações e piscadelas do escritor argentino ao entorno político do qual se autodeclarou “anarquista spenceriano”. A partir de textos da revista Sur (1931-1980), Meio século com Borges alerta sobre a confusão e a caricatura que se tem feito com o papel político de Jorge Luis Borges:
 
“Como poderia tornar seu um entusiasmo político, muito menos uma militância, esse agnóstico que passou a levar a sério o idealismo do bispo Berkeley, que postulou que a realidade não existia, que existia apenas a miragem, ou ficção cósmica, nossas ideias ou fantasias da realidade?” (p. 77)
 
À época de Perón, Borges alertou sobre a “pedagogia do ódio” do nazismo. O governo de Perón foi pró-nazista nos primeiros anos e prestou serviços que indicam uma proximidade com Hitler e Mussolini. Borges “por ser ‘partidário dos Aliados’ foi penalizado pelo governo de Perón, que o rebaixou, afastando-o do modesto cargo que ocupava”. (p. 79) Ele abominava o nacionalismo, mas não lhe faltava “argentinidade” como mostram sua poesia e alguns contos. Porém, embora fosse antinacionalista e chegasse a reconhecer o flagelo das ditaduras, no final do peronismo Borges aderiu ao regime militar de Videla. O desconcerto de Vargas Llosa pode ser encontrado nas seguintes linhas: “Já não é fácil explicar a simpatia de Borges pelo regime militar como uma mera espelhismo, do qual, aliás, aceitou nomeações e distinções sem a menor relutância.” (p. 82) A sua adesão à ditadura de Videla é inexplicável. O que aconteceu, o que Borges realmente pensava sobre seu país e a América Latina?
 
Nicolas Shumway, autor de A invenção da Argentina (1993), analisa as ficções recorrentes na construção da identidade da nação argentina. Ele se surpreende com o fato de que as mesmas ideias (ficções) do século XIX que moldaram este país se repetem recorrentemente ao longo do século seguinte. Tanto Shumway quanto Vargas Llosa reconhecem o desconcertante nó histórico de um país que na segunda década do século passado esteve entre os melhores do mundo em desenvolvimento econômico e social e, após o governo populista de Perón, mergulhou numa situação crítica da qual ele ainda não conseguiu sair. Talvez uma daquelas ficções recorrentes sobre a nação tenha trapaceado Borges.
 
Mario Vargas Llosa finalmente põe sobre a mesa um tema pelo qual é apaixonado e que nos preocupa: a situação política na América Latina. Seu conhecimento avassalador do ethos latino-americano — se é que tal coisa existe — e sua experiência histórica colocam suas palavras além da vida e da obra de Borges. Ele, como talvez nenhum outro romancista em língua espanhola, indagou sobre o conflito de nossa origem e nossas comunidades. A tensão entre América Espanhola, a Amazônia e a Europa sempre transparece na ficção realista de sua narrativa. Seu reconhecimento e crítica que agora faz a Jorge Luis Borges trazem pistas de uma época em que o pensamento esfriou e o discurso público é perigosamente simples tanto na América Latina quanto no resto do mundo. Essas chaves nos lembram que a América hispânica tem uma dupla herança a conciliar: a nativa e a europeia, que nossos escritores são seus livros antes de seus acertos ou erros públicos, que uma nação atinge a maioridade quando é capaz de valorizar o local com um pensamento universal.
 
Notas da tradução
1 Tradução livre para Medio siglo con Borges. O livro foi publicado entre os leitores de língua espanhola pela Alfaguara em 2020.
 
2 Tradução de Leonor Scliar-Cabral em O outro, o mesmo (Editora Globo, 1999).
 
3 Tradução de Davi Arrigucci Jr. em Ficções (Companhia das Letras, 2007).


* Este texto é a tradução de “El pulso del tempo: Medio siglo con Borges de Mario Vargas Llosa”, publicado aqui, em Nexos.

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