José Gorostiza para o novo século

Por Luis Bugarini




 
A poesia é um bem social que se materializa quando os versos entram em contato com o leitor. Nos registros poéticos mais felizes, nos marcos distinguíveis à primeira vista na profusa história da criação literária — digamos, as obras de Ausiàs March ou Du Fu —, o instante poético é uma operação de inteligência e não uma mera manifestação emocional de seu autor, o que requer uma ação idêntica para se comunicar com seus potenciais destinatários.
 
1 Luz e poesia
 
Na leitura da poesia mais elevada, duas inteligências se olham para falar a partir de uma distância fora do tempo, independentemente de o poeta estar morto há quinhentos anos ou ter apenas vinte anos.
 
Essa operação encontra-se hoje em crise. Tudo se opõe à leitura e pior ainda se for aquela que exige amor ao detalhe. O tempo vigente exige habilidades para se concentrar e abandonar as intermináveis ​​preocupações e distrações da vida ultramoderna: chame-se dispositivos eletrônicos com qualquer oferta imaginável de entretenimento; a vida alegre e feliz dos restaurantes e/ou bares; viajar como uma autoafirmação de um eu que só existe quando as imagens chegam às redes sociais, e estas últimas, claro, como a coroa de um reino de bolhas.
 
Por isso, a leitura de poesia assume a forma de uma raridade comparada à liberdade. Um mau hábito do qual é melhor não falar com os outros, a menos que provem que são leitores ávidos, e apenas sob essa lei não escrita de ignorar o que dizem sobre os autores que nos entusiasmam. Porque o leitor de poesia tem uma família extensa: a grande fraternidade daqueles que encontraram em dar sonoridade às palavras uma fonte para se preservar das investidas do mundo e, ao mesmo tempo, dotar-se da força necessária para chegar ao limiar dos últimos dias.
 
José Gorostiza (1901-1973) teve a sorte do discreto e daquele que opta pela mesura até contra si mesmo. Escolheu a vida diplomática, ou ela o escolheu, e numa relação simbiótica benéfica apenas para um dos dois, sua obra é apenas um sussurro sob as camadas dos encargos oficiais. Caso semelhante ao de Jaime Torres Bodet (1902-1974), só que este optou por outro extremo: a abundância como via expressa para o esquecimento.
 
Sua geração encontrou no serviço público uma forma de às vezes (pelo menos) manter a carreira de escritor, sustentar a família e ter o mínimo de segurança econômica. O serviço exterior permitiu que boa parte desses escritores se distanciasse do México e, diante do cenário de outros países, comparar a riqueza do seu país com a de outros povos. Isto deu-lhes a oportunidade de escrever e fundar iniciativas culturais de grande significado, sempre a favor da pluralidade e do enriquecimento do país.
 
Mas Gorostiza logo encontrou aceitação como autor e a publicação de Morte sem fim (1939), livro emblemático da poesia contemporânea em língua espanhola, marcou um apaziguamento de sua busca lírica. Permitiu-se esboçar outros poemas, mas o esforço despendido no traço arquitetônico do seu longo poema terá revelado a si mesmo que não haveria outra ocasião semelhante. É sábio reconhecê-lo. Em breves comentários e teses universitárias foi comparado ao Primeiro sonho (1692), de Sor Juana Inés de la Cruz, ao Cântico, de Jorge Guillén (1928) e Altazor (1931), de Vicente Huidobro. Apesar disso, Morte sem fim habita numa singularidade radical que não admite restrições, nem explicações que possam reduzi-lo a um instante poético de longo suspiro.
 
Em suas “Notas sobre poesia”, Gorostiza diz o seguinte: “A poesia não é diferente, em essência, de um jogo de esconde-esconde”. E não parece que exista uma melhor forma de se aproximar de Morte sem fim que dentro dessa dinâmica de ler e correr, voltar ao ponto de partida e repetir o exercício. Cada verso é uma sugestão que explode nas mãos de quem busca fazer uma referência inapelável. Alguns dos vínculos e recursos mais comuns para abordá-lo são os seguintes: suas relações com o misticismo, a árvore sefirótica da Cabala, as linguagens criptografadas como procedimento poético, uma explosão de vanguarda descontrolada, influências do surrealismo mais onírico, do espírito provocador da sua geração, entre outras. Gorostiza sabia que Morte sem fim superaria qualquer tentativa de cifrá-lo no interior de um sistema fechado. Novamente lemos nas “Notas”: “Imagino assim uma substância poética, semelhante à luz no comportamento, que revela nuances surpreendentes em tudo o que banha.” Isso quer dizer que o poema é um objeto que muda cada vez que é lido, tornando impossível conhecê-lo. A luz não é cognoscível porque o seu percurso ocorre a uma velocidade superior à nossa compreensão, e menos ainda a poesia, que ganha materialidade quando é “banhada” por ela. Luz e poesia se abraçam até se fundirem e criarem uma única matéria.
 
2 Navegar o poema
 
A poesia moderna foi devota do hermetismo, bem como às tentativas de longo suspiro. Assumiu-se como a responsável de gerar uma sequência de imagens para delinear o mundo de novo e fazer surgir o novo homem. Seu roteiro era a cidade moderna, que oferece tudo em troca de uma lealdade sem reservas. As estéticas do barulho, da multidão e da noite emergiram com sutileza na criação poética da primeira metade do século XX. Os poetas foram atraídos por esse canto à “irmandade de todos os homens” (daquela que Borges zombou em “O outro”), em consonância com o pensamento socialista. O pacto Molotov-Ribbentrop (1939), porém, geraria desconfiança nas “vitórias do socialismo” em alguns escritores e artistas, enquanto outros se agarrariam à bandeira vermelha até o fim (Pablo Neruda e Rafael Alberti, entre eles).
 
As tentativas da poesia moderna continuam a ser um desafio para os leitores. Adam Kirsch, um dos mais interessantes críticos literários das últimas décadas, esboça em Who Wants to Be Jewish Writer? And Other Essays uma contradição nessa poesia, aplicável a Morte sem fim: “A poesia contemporânea nem sempre é religiosa, mas permanece intensa e secretamente metafísica.” José Gorostiza foi um homem de preocupações religiosas, metafísicas e esotéricas na vertente gnóstica. Ele mesmo o enfatiza nas “Notas sobre poesia”: “Entre todos os homens, [o poeta] é um dos poucos escolhidos que pode ser justamente chamado de um homem de Deus.” Por ter essa qualidade ele se torna um intérprete reconhecido da mensagem divina. Não é um “homem de Deus” quem não tem a tarefa de dar uma contribuição de primeira ordem à esfera humana. Isto porque, ao contrário de outras profissões, “a missão do poeta é infinitamente delicada”.
 
A lírica quase infantil de Canções para cantar nos Barcos (1925) deu um salto quântico; Morte sem fim oferece um desafio ao leitor mais experiente. Listo alguns motivos repetidos para navegar o poema:
 
1) A enunciação de uma teologia pessoal baseada num deus úmido (“descubro-me/ na imagem atônita da água”), ao longo de mais de cinquenta referências ao elemento aquático no corpo do poema;¹
 
2) O motivo do copo, que poderia ser também o corpo que contém e ao mesmo tempo aprisiona a alma, que seria a água (“pelo rigor do copo que a faz clara/ toma forma a água”), ou o próprio Deus (“mesmo que se chame Deus,/ nada seja além de um copo/ que nos amolda a alma perdidiça”);
 
3) O sonho como uma possibilidade de cruzar até outra realidade de forma temporária;
 
4) O olho metafísico-poético que alerta o poeta para o que o resto dos indivíduos não consegue ver;
 
5) Diversas formas de morte que se unem para formar um totem cubista que os leitores percorrem com a mesma surpresa entre uma leitura e outra, e;
 
6) O número três como eixo estrutural e metafísico do poema.
 
Nos versos de Morte sem fim, a inteligência olha para si mesma e arde até ser consumida. É um poema que se passa num âmbito humano, apesar da menção a “Ele”: “de mim e d’Ele e de nós três / sempre três!” O substrato de ideias para esta elaboração teológica é o cristianismo: “A substância poética [...] que derivo talvez de noções teológicas aprendidas na primeira juventude.” Usar três provérbios da Bíblia como epígrafes é uma prova incontestável. Três!
 
O poema também poderia conter visões salpicadas de místicos pouco conhecidos ou um propósito paródico e/ ou satírico da religião, já que encerra com uma dança carnavalesca, a aparição do Diabo e estes versos: “Adiante, puta do rubor gélido,/ adiante, vamo-nos ao diabo!” O que equivale a dizer: esqueçamos essa grande broma chamada realidade, mas que se sustenta em palavras.
 
A tradição poética da inteligência que se olha não é incomum em escritores de veia mística, embora Gorostiza a revitalize a cada verso com os mecanismos típicos da modernidade. É um ato que descreve a criação de um universo fechado e ao qual talvez nem o próprio autor teve acesso. Faz pensar no Sonho de Polífilo (1467), de Francesco Colonna, e na tradição de sonhar com cenários impossíveis, em que um mapa de ruínas sugere o caminho a seguir. Na sua composição como ato criativo, imperfeito pela sua natureza humana, leva-nos também a pensar no Sefer Yetzirá, um dos textos mais enigmáticos do pensamento místico. A sua brevidade, a criação do mundo e do Golem, a memória do patriarca Abraão e o equilíbrio entre a clarividência mística e a imaginação criativa fizeram dele um marco da mística.
 
Morte sem fim sacode o leitor com imagens, mas uma vez que possui uma intuição de um fio condutor confiável, Gorostiza vira o leme e faz emergir delas outra sequência irreconhecível delas. Há uma técnica de colagem na estrutura, que transforma o poema em um cenário semelhante ao de Xilitla. Onde pensamos encontrar escadas, não há nada mais do que um objeto que nos faz evocá-las. A dissociação entre palavra e realidade se materializa neste imponente poema da tradição hispano-americana.
 
3 Poesia e mística
 
Nas poucas linhas de Morte sem vim em que intuímos que José Gorostiza reafirma uma convicção, isso coincide com uma ideia de Tales de Mileto: “A água é o princípio de todas as coisas”. O Deus úmido do poeta torna-se peixe, nuvem ou lágrimas. O meio líquido é o que melhor lhe permite relacionar-se com o ser humano, essa criação da qual dotou de livre arbítrio, que costuma utilizar disso até contra si mesmo. Os versos mais frágeis do poema dialogam com a tradição filosófica grega. Sua universalidade é notável. É uma estrutura que exige um leitor treinado, capaz de relacionar conteúdos que aparecem apenas como sugestões. É uma pena que José Gorostiza tenha sido pouco claro nos motivos da sua composição ou o que disse tenha sido insuficiente.
 
Tal como acontece com os poetas metafísicos ingleses, Gorostiza julgou que o corpo é uma prisão da alma. Os poderes do indivíduo transbordam quando explora outros planos da realidade, e nunca quando se satisfaz com fenômenos que ocorrem diante de seus olhos. Isso porque o poeta, sendo um “homem de Deus”, possui privilégios que não se encontra disponível entre a maioria dos indivíduos. O poeta é uma inteligência que brinca de esconde-esconde e, neste caso, tem conseguido se esconder como ninguém. Morte sem fim é um jogo de espelhos em que ninguém consegue se refletir porque não permanece estático. A forma que seu misticismo sugere para iniciar a exploração de realidades alternativas é a própria poesia. Gorostiza afirma em “Notas sobre poesia”: “A poesia trouxe à luz a imensidão dos mundos que o nosso mundo contém.” Portanto, só há uma maneira de escapar da percepção plana do que é experienciado: a música do poema.
 
Qualquer sistema de pensamento, ainda mais de cunho religioso, oferece múltiplas possibilidades de plastificá-lo através da poesia até chegar à convicção de que “a outra realidade” pode ser vislumbrada, acessível apenas a Deus, que a criou, mas nunca para fruição dos indivíduos. É uma ruptura que significa a morte para quem consegue espreitar. Certos livros com finalidade mística e/ ou gnóstica baseiam-se na convicção de que é possível transmitir conhecimentos ocultos a outros e, assim, ampliar as possibilidades individuais de acesso à experiência da divindade. Gorostiza, ainda: “...a poesia, para mim, é uma investigação de certas essências — o amor, a vida, a morte, Deus — que se produz no esforço de quebrar a linguagem de tal forma que, tornando-a mais transparente, se possa ver através dela dentro dessas essências.” Em outras palavras: a poesia é um caminho que permite ver não Deus, mas através Dele, à maneira de uma rosácea de catedral, porque a verdade última nunca é revelada.
 
Várias tradições esotéricas e místicas usam a linguagem para apagar a fronteira entre os reinos humano e divino, por exemplo, através da oração. Mas a verdade é que as formas clássicas de gnosticismo e qualquer forma de misticismo sempre geraram suspeitas nas religiões organizadas. Isso porque dispersam o alcance da revelação que se pretende hegemônica e abrem caminhos que não foram traçados nas origens de uma tradição intelectual. Também incitam os crentes a buscarem a experiência religiosa por conta própria e a concluir que isso é possível pelas alucinações ou experimentando formas de pensamento incomuns como resultado de suas tentativas. Da mesma forma, o conhecimento era mantido em segredo porque qualquer heresia era paga com a morte, além de serem exigidas qualidades morais e até virtudes para fazer parte dos grupos que possuíam conhecimentos secretos. Gorostiza não inova em seu caminho rumo à gnose, mas o faz com uma sonoridade verbal que encanta quem tem contato com o poema, ainda mais o escuta com sua própria voz ao longo dos pouco mais de quarenta e cinco minutos de gravação.
 
O modelo de pensamento que aparece em Morte sem fim é cristão, mas também helênico. Tem um pé em Atenas e outro em Jerusalém. Estamos diante de um poema místico. Joseph Dan em The Ancient Jewish Mysticism arrisca uma hipótese sobre alguns empréstimos do helenismo ao cristianismo e ao judaísmo. A verdade é que não é possível datar com exatidão tais empréstimos, nem mesmo determinar se os documentos que foram preservados mantêm a forma que tinham na sua origem. As visões de Ezequiel sobre a Merkabá estão entre as mais sugestivas que podem ser encontradas no Tanakh, por isso não é difícil para alguns exegetas conceberem maneiras de replicar a experiência do profeta. Dan explica que a questão da origem do misticismo tornou-se um dos problemas mais importantes e complexos na história do pensamento judaico. Como resultado, o desejo de estar na presença de Deus não terminou aí, nem terminará enquanto o indivíduo se sentir incompleto em seu ser.
 
José Gorostiza oferece um caminho para a outra realidade: a poesia. Também uma ilustração de suas intuições: Morte sem fim, um dos poemas mais notáveis ​​da era moderna e das que virão.
 
4 Um deus-poeta
 
A poesia mais reveladora é sempre um enigma para o seu criador: nem sempre a mão conhece a ferramenta que manipula. Gorostiza, conforme cita Hugo Garibay Rodríguez em El dilema de Dios, del Poeta e del Amante como constante narrativa en la obra de José Gorostiza: “Não sei o que é nem o que significa Morte sem fim, ignoro-o.” Essa determinação abre ainda mais as possibilidades do poema. À maneira de um oráculo, cada vez que se visita aparecem significados e o autor os coloca em seu ponto de tensão máxima, para que não haja especialista que possa manipulá-los porque sua leitura é a única correta. O poema ocorreu a um indivíduo chamado José Gorostiza, que mais tarde optou pelo serviço público e aquele período da sua vida, o de poeta, permaneceu como um trecho vital do qual não havia mais nada a dizer. O silêncio é um fechamento magnífico para o escritor, que em algum momento da adolescência imaginou que a fonte das palavras nunca poderia secar.
 
Ora, a escolha das três epígrafes do livro de Provérbios não parece ter sido feita ao acaso. Não há evidências de que Gorostiza tivesse aspirações de estudioso da Bíblia (aprender aramaico, grego ou hebraico, por exemplo), ou mesmo se as escrituras eram sua leitura de momento. Com dificuldades, alguém colocaria na entrada de seu livro de poesia uma invocação bíblica como um ato rude. Os três provérbios que Gorostiza usa são do capítulo oito do livro bíblico, sobre os quais Alonso Schökel explica: “a Sensatez personificada usa uma linguagem hínica.” (Em algumas traduções, “Sensatez” aparece como “Sabedoria”). E refere-se a este contexto: “No primeiro capítulo, a Sensatez adota entonação profética, como se o seu discurso fosse a palavra de Deus; no capítulo 8 se apresenta como um dos mestres, talvez com autoridade especial, e os domina com acentos semelhantes aos de um hino. É como se o mestre dissesse: até agora falei com você, agora ela mesma falará.”
 
Gorostiza uniu em seu poema uma tradição milenar, dando voz rítmica a uma qualidade aspiracional do indivíduo: a sabedoria. À sua maneira, o poema é uma cátedra sobre autoconhecimento e desilusão.
 
O Deus úmido azul (“Sim, é azul! Tem que ser azul!”) deixa-se cantar e ocasionalmente emite sons incompreensíveis para os indivíduos, que se olham uns aos outros contrariados porque a mensagem da divindade não costuma ser clara. A única forma de responder a uma mensagem indecifrável é através de uma comunicação semelhante na tentativa de dizer: sei que podemos nos comunicar, embora falte transparência ao conteúdo da mensagem. O binômio Justiça-Verdade se materializa num poema moderno e o que ele diz é o seguinte: a poesia, além de ser um caminho para a outra realidade, é a única coisa que pode nos guiar para a salvação individual. Por trás do jogo de máscaras, o Deus impossível de Gorostiza revela-se como um poeta que não pode ignorar-se, apesar de confiar irremediavelmente na possibilidade criativa do ser humano. É, com todas as suas limitações e falta de compreensão, a coisa mais perfeita que se conhece e que nos comunica com o Deus individual que cada um buscará quando achar conveniente.
 
Coda
 
No campo da literatura mexicana, o jovem poeta está inoculado com a superstição, desde os primeiros passos nas letras, de que o longo poema confirma a presença de um talento singular. Os traços do velho profeta estão instalados no ofício do poeta e a respiração sustentada para transmitir imagens nunca vistas ainda é considerada a mais autêntica forma de solidez criativa. Essa mania refere-se ao fato de que o momento, que também tem um aspecto formativo inapelável, é um molde próprio da juventude, enquanto o trabalho sequenciado de imagens que vão se formando uma após a outra até gerar uma tapeçaria de fino acabamento, é o objetivo de qualquer poeta com um elevado sentido do ofício. Um dos bastiões desta superstição é A terra desolada (1922) de T. S. Eliot, o poema capital da modernidade (não há dúvida!), mas que no México é venerado de forma misteriosa, a tal ponto que ainda se procura na sua estrutura formal um caminho possível para a poesia do futuro (!).
 
Por outro lado, as más condições para a publicação de poesia no México dificultam a edição de textos longos. Se esse gênero pouco importa para os leitores, a poesia longa continua sendo um produto para consumo dos poetas. Incurável (1987), de David Huerta, seria a aposta mais notável da segunda metade do século XX mexicano, embora seu espírito quase narrativo acabe fazendo o leitor duvidar da natureza do que lê.² O volume é um exercício muito livre de criação literária, em que a hibridação gera uma feliz confusão nos seus leitores. Tal como acontece com Morte sem fim, Incurável não permite uma explicação que possa encerrar os debates. É uma qualidade que une os dois poemas.
 
Já no novo século, são notáveis ​​os lançamentos de Atlântica e O rústico, de María Baranda e Basalto, de Rocío Cerón, ambos de 2002. Cada um desses poetas, com motivos próprios — a sonoridade da poética latino-americana e o ludismo de formas transmídia, respectivamente —, nutrem a tradição do longo poema mexicano e o fazem com vigor criativo com títulos que merecem um lugar na estante. É claro que ambos os poemas nasceram como projetos de longo prazo, e não como uma edição de poemas curtos que foram costurados para criar o efeito de um poema longo. É o caso de Blue Holes (2018), de Ingrid Valencia e Ou é apenas o passado? (2021), de Christian Peña, um exercício bíblico que começa com o tema do terremoto de 1985, mas ao qual se acrescentam poemas de temática diversa até que o livro se perde completamente na parte final.
 
O poema longo distingue-se de longe porque é um exercício retórico que gira em torno de algumas imagens. O resto é uma decoração de palavras que se esquece até chegar à transmissão providencial de um momento sibilino. É o caso de Morte sem fim e é magnífico que assim seja.


Notas da tradução

1 Esta e as demais traduções de versos de José Gorostiza citadas ao longo do texto são de Horácio Costa. Morte sem fim e outros poemas foi publicado no Brasil pela Edusp, em parceria com a mexicana Fondo de Cultura Económica.
 
2 Este e outros títulos da poesia mexicana citados nesta seção são traduções livres a partir do original em língua espanhola.

 
* Este texto é a tradução livre para “José Gorostiza para el nuevo siglo”, publicado em El Cultural.
 

Comentários

AS MAIS LIDAS DA SEMANA

“O cortiço” como expositor das mazelas e injustiças sociais

Boletim Letras 360º #588

O vermelho e o negro, de Stendhal

Boletim Letras 360º #582

Boletim Letras 360º #587

Sobre um retrato de Machado de Assis