Franz Kafka, a desordem irremediável

Por Pedro Fernandes

Franz Kafka em 1911-1912. Passfoto. 


 
O prestígio alcançado pela obra de Franz Kafka que o colocou entre as principais figuras da literatura ocidental do século XX certamente contribuiu para um feito raro no Brasil: o acesso integral aos seus escritos. Em alguns casos, os leitores podem acessar várias traduções, além de edições para os mais diversos gostos. Até agora — e o feito perdura algumas décadas — também não enfrentamos, como é muito recorrente, a escassez das reedições e é possível que, fora o seu principal título mais reconhecido, A metamorfose, nem seja o restante obra sustentada num mesmo nível de interesse entre os leitores.
 
Há valores em tudo isso. Primeiro, é a continuidade da obra entre as gerações mais recentes de leitores, depois, a sempre possibilidade de os leitores entrarem em contato com vias ainda desconhecidas de uma literatura que foi, apesar dos vários reducionismos que se fixaram em seu entorno, multifacetada. E isso não como produto de um acaso, mas um trabalho que se fez da contínua tentativa por encontrar um lugar autêntico entre as principais obras do cânone dominantes. Não é uma imagem comum de se sintetizar a obra de Kafka, efeito talvez das extensões do ideal romântico do gênio que se mantém até agora, mas é perfeitamente ajustável: trata-se de uma obra interessada na contínua experimentação até alcançar uma possibilidade coerente de oferecer uma imagem universal do homem em seu tempo.
 
O exemplo valioso do que se expôs até agora pode ser a primorosa edição produzida a partir do esforço coletivo de leitores. É uma nova tradução do primeiro conjunto de textos publicado por Franz Kafka em 1912. Esse material é conhecido em língua brasileira desde os anos 1960, quando, segundo Denise Bottmann, toda obra do escritor tcheco já estava traduzida e publicada entre nós; provavelmente, como constata a estudiosa em tradução indireta do espanhol.1 À maneira de Modesto Carone, o autor da tradução das mais recentes e mais bem reconhecida, o trabalho de Marcus Tulius Franco Morais privilegia o texto original. O uso da tradução indireta, aliás, se tornou feito execrável no Brasil, seja pelo aparecimento de uma mão-de-obra especializada, o que é excelente, seja pelo estabelecimento daquelas determinações quase sempre questionáveis, como tudo, forjadas nos bancos das universidades.
 
Mas a publicação de uma nova tradução para o primeiro livro de Kafka não é uma novidade que se encerra nisso. Merece voltarmos ao trabalho coletivo bravamente exercido pela Editora Bandeirola porque sua consolidação é efeito, claro está, da existência de uma comunidade de leitores interessada noutras possibilidades de leitura da obra desse escritor. Sabemos quão arriscada é o tipo de publicação financiada coletivamente — o público tende a não se engajar em projetos que lidem com obras continuamente reeditadas ou de autores pouco conhecidos. Não é regra, evidentemente. E existe o árduo empenho das editoras quando se lançam na empreitada, mas sem uma comunidade de leitores interessada, tudo pode ser ainda ignorado.   
 
A edição de Contemplação publicada no final de 2021 integra uma coleção organizada pela Bandeirola com obras de autores clássicos situadas em dois campos específicos: o da inventividade e/ ou o de certa raridade. Até agora, saíram A ilha das almas selvagens, de H. G. Wells, O doutor negro, de Arthur Conan Doyle e duas novelas de César Vallejo, Escalas melografiadas e Fábula selvagem, reunidas num só livro. No caso do terceiro livro dos assim chamados Clássicos Vintage — nome que recupera não apenas a raridade, mas a composição gráfica do projeto editorial que remonta os livros do entre séculos XIX-XX em formato diferenciado e interessado em expandir as experiências dos leitores com o conteúdo dos livros — os textos estão disponibilizados também na língua original, o que pode oferecer, aos mais exigentes, conhecedores ou aprendizes do alemão, a leitura comparativa ou somente a apreciação de Betrachtung tal como publicado em dezembro de 1912.
 
Inseguro ou cioso do seu ofício — num tempo em que a atividade da escrita literária se revestia de outras nuances mais complexas que as do nosso tempo —, a aparição dessa coletânea em livro parece que foi decisiva para a existência dos livros que vieram depois. Uma maioria dos textos de Contemplação data de uma década antes e aparece em várias revistas literárias: em 1908 saem os primeiros na Hyperion, em Munique; dois anos mais adiante, o jornal Prager Tageszeitung Bohemia publica outra seleta. O livro, entretanto, só ganha a forma que agora conhecemos depois do contato entre o autor, Ernst Rowohlt e Kurt Wolff, intermediado por Max Brod. Kafka e Brod terão organizado o pequeno livro em agosto, meses depois de uma visita aos editores, quando descobrem do interesse de Rowohlt por construir o catálogo que pudesse reunir importantes autores contemporâneos da literatura alemã.



 
A essa altura, resulta difícil imaginar que alguém impelido para a escrita como Kafka pudesse abandonar definitivamente o ofício para continuar o homem de existência anódina, repetidor dos mesmos gestos na vida burocrática, mas essa ideia o dominava continuamente. E depois de oferecer a Ernst Rowohlt a “prosa curta” que resultaria em Contemplação, registra nos seus Diários que uma vez o manuscrito fosse devolvido, logo o mandaria para a gaveta “de modo a simplesmente me sentir tão infeliz quanto antes.”2 O caminho do manuscrito, como já sabemos, foi outro: enviado em agosto, no mês seguinte, a editora de Leipzig responde interessada na publicação. Kafka ainda fará uma revisão cuidadosa do material, mas a dúvida parece ser um fantasma devolvido para a região do insuspeito, para daí só reaparecer sempre em tempo contínuo até o fim da vida, quando teria recomendado a Brod o fim dos trabalhos até então não publicados, um pedido que, se existiu, foi desobedecido.
 
Feito com tipos especiais, de formato maior que o de costume para aumentar o volume do livro, a tiragem de oito centenas de exemplares terá levado mais de uma década para esgotar. Contemplação, entretanto, exceto para a noiva Felice Bauer, alcança boa recepção entre os amigos, conforme anota Modesto Carone.3 O escritor tcheco fez o papel de leitor de si mesmo: dos onze exemplares deixados numa livraria de sua cidade, compra dez.4 Uma atitude que refaz a fina satisfação do escritor publicado pela primeira vez. Os que confiam puramente no temperamento inseguro de Kafka podem encontrar no gesto uma prova a mais do papel do seu pequeno anjo do bem em luta contra o demônio da vaidade soprando a última tentativa de recuo do indivíduo ante a atitude de se fazer público. Entre uma e outra possibilidade, ficamos com a primeira, porque o livro editado pela Rowohlt Verlag foi um passo importante de alguém que guardava zelo e obsessão pela atividade da escrita literária.
 
Mesmo reunindo uma variedade de materiais dispersos, Contemplação não é puramente um feixe de textos aleatórios. Modesto Carone, por exemplo, refere-se aos procedimentos organizativos que ele como leitor percebe na feitura do livro: ora a mesma unidade temporal; ora a unidade temática, quais sejam a solidão ou a relação do indivíduo com a comunidade sob a forma do contato entre homem e mulher; ora a recorrência dos motivos literários. Também é perceptível que o autor tenha buscado se prevenir do problema que ele próprio reconhece quando se decide pelo título em questão. No texto de posfácio da edição em comentário, Marcus Tulius Franco Morais cita uma carta datada de 1912 para Felice Bauer em que Kafka se refere, ao que parece ser o processo criativo que resultou na feitura do livro; trata-o como “uma desordem irremediável”, “são lampejos em uma confusão infinita” e orienta que “é preciso se aproximar muito de perto para distinguir alguma coisa”.
 
Tratando o grupo de fragmentos como Contemplação, o contista oferece um plano que alinhava essa desordem: uma visão fixa que, contraditoriamente, se mobiliza para garantir certa unidade para o livro. Cada narrativa funcionaria assim como a peça aleatória de alguém que a busca capturar pela escrita, como se esta funcionasse ora como uma lente de acesso ao exterior ora como um visgo que ao juntar múltiplas peças pudesse oferecer um arranjo do capturado. Isto é, falamos sobre um trabalho que radica a falibilidade do prospecto realista de acomodação do acontecido como uma unidade ordenada do real. Eis a maneira como o jovem escritor estabelece sua interrogação sobre os protocolos do realismo e como encontra nas vanguardas certo caminho a partir do qual será possível fundar sua literatura. Este talvez seja o argumento essencial para a aceitação do livro entre os interesses de Rowohlt e Wolff; voluntariamente ou não, nota-se aqui certa natureza expressionista, o que estava no horizonte de perspectiva dos editores.
 
Alguns dos textos predizem o que mais tarde chamaríamos de microconto, outros fundem poesia à prosa e podem ser lidos como petits poèmes en prose à maneira de Baudelaire. A segunda possibilidade resulta interessante porque esclarece qual o realismo de Franz Kafka mesmo no caso dos textos mais longos: é aquilo que olho transvê e não o que puramente é visto. Isto é, o material ficcional constitui por acréscimo, e não por repetição, uma peça adiante das que formam o material do mundo exterior, este que é renovado em contato com a interioridade de quem vê. Isso não ignora o papel da palavra enquanto imagem. Reaviva-o como campo de significação, algo que se verifica melhor quando encontramos outro material resultado do mesmo ofício de contemplar: o desenho.
 
A constante presença da obra literária de Franz Kafka não produziu até agora a chegada de um livro que saiu em língua inglesa em maio de 2022. Organizado por Andreas Kilcher, Franz Kafka: The Drawings reúne 240 ilustrações — das quais, uma centena é inédita — realizadas pelo escritor tcheco ao longo de sua vida.5 A edição de Contemplação reproduz mais de uma dezena desses desenhos, selecionados em gesto de continuidade do conteúdo verbal, propondo um exercício de leitura que passou alheio, certamente, ao próprio Kafka, para quem, o desenho, ao contrário da escrita, pareceu sempre um passatempo. Basta lembrar que a grande maioria da atividade de desenhista se desenvolve entre 1901 e 1907, em seus anos de universidade. As figuras kafkianas transitam livremente entre o traço realista e o fantástico, o grotesco, o carnavalesco.
 
No prefácio que completa a edição, Braulio Tavares reconhece o tratamento visual dos textos de Franz Kafka, associando-a ao cinema; para ele, esses tipos ora narrativos ora descritivos constituem pequenas vinhetas.6 A definição é precisa: intercepta o verbal e o visual. No século XV, vinheta é um desenho impresso no papel a partir de um móbile de cobre — como de certa maneira se parece alguns dos desenhos de Kafka, a começar pelo “Pensador” que ilustra a capa da edição de Contemplação aqui tratada; mais tarde, o termo designa, também no interior do suporte jornal, o texto curto, modelo que passa por sua vez aos usos literários; no nosso tempo, a vinheta alia imagem em movimento, utilizando-se de conteúdo verbal ou não, para oferecer a síntese de um relato ou sobre algo. Ao pensar o jogo palavra-imagem, este livro reaviva, portanto, a qualidade atemporal de Kafka, uma vez que a irregularidade das suas formas prenuncia o movimento que começa a se afirmar no cinema, mas que só encontra sua melhor acomodação no tempus fugit da imagem. Esse mesmo tempo que transvê o real.
 
Quer dizer, são inúmeras as possibilidades que um trabalho dessa natureza, que lida em recuperar e ressignificar uma obra já conhecida, podem oferecer ao leitor, mas seu valor principal é mesmo não esquecer de reafirmar, no caso específico de Franz Kafka, a qualidade de um escritor que preferiu a continuidade da inovação ao conformismo do reconhecimento que mesmo não se estabelecendo com seu primeiro livro, não tardou alcançar nos anos seguintes. Essa outra posição sobre a literatura de Kafka tem sua novidade; evidenciada, cabe a nós descobri-la aceitando e desviando dos modelos de leitura que têm se pré-fixado na tradição crítica.
 
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Contemplação, Franz Kafka
Bandeirola, 127 p.
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Ligações a esta post
Notas
 1 BOTTMANN, Denise. Kafka no Brasil: 1946-1079. In: TradTerm, São Paulo, v.24, p. 213-238, dez. 2014.
 
2 KAFKA, Franz. Diários 1909-1923. Trad. Sergio Tellaroli. São Paulo: Todavia, 2021.
 
3 CARONE, Modesto. “Um primeiro livro lírico e uma novela impecável”. In: Kafka, Fraz. Contemplação / O foguista. Trad. Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 1999, p. 89-97. Todas as demais referências sobre o autor são deste texto aqui mencionado.
 
4 É Marcus Tulius Franco Morais quem recupera um comentário de Franz Kafka com o amigo Rudolf Fuchs: “Onze exemplares foram deixados na livraria André am Graben. Eu comprei dez. Gostaria muito de saber quem tem o décimo primeiro.” A citação de Erinnerugen na Franz Kafka (a.M., 1966, p. 368) está no posfácio “Tradução. Tradutor” da edição de Contemplação agora referida (São Paulo: Bandeirola, 2021).
 
5 KILCHER, Andreas (org.). Franz Kafka: The Drawings. New Haven: Yale University Press, 2022.
 
6 TAVARES, Braulio. “Franz Kafka e Contemplação: o caminho ao lugar de sempre ou ao lugar nenhum”. In: KAFKA, Franz. Contemplação. São Paulo: Bandeirola, 2021, p. 9-17.
 

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