Boletim Letras 360º #381



DO EDITOR

1. Caros leitores, abaixo estão as notícias divulgadas durante a semana na página no Facebook (ou não) e a atualização das demais seções deste Boletim com as recomendações de leitura, assuntos de arredores do campo de interesse do blog e a sugestão de visita a algumas das publicações apresentadas aqui. Obrigado a todos pela companhia ― sigamos juntos. Boas leituras!

João Guimarães Rosa. Obra com textos de Paulo Rónai sobre o escritor mineiro ganha edição.


LANÇAMENTOS

Nova tradução de O falecido Mattia Pascal, de Luigi Pirandello.

O que alguém faria se tivesse a chance de nascer de novo, de ser quem quisesse? Seria possível abandonar família, história, romper com a imagem que sempre teve de si mesmo? Tema caro ao italiano Luigi Pirandello, a autopercepção do sujeito em meio à sociedade em que vive leva a uma ruptura na vida de Mattia Pascal. O leitor acompanhará sua trajetória em meio ao embate entre identidade e sociedade, entre o passado e as possibilidades de futuro, em uma narrativa que flutua com elegância entre a melancolia e o humor e questiona a hipocrisia em que a sociedade muitas vezes enclausura os seres. A tradução de Silvia Massimini Felix é publicada pela Editora da Unesp.

O poeta pré-islâmico Chânfara em português.

Poema dos árabes é atribuído a um poeta lendário da Península Arábica, conhecido como Chânfara, “o homem dos lábios grossos”. O poeta nasceu nas terras do Iêmen na segunda metade do século V. Faz parte de um grupo de poetas, do período pré-islâmico, conhecido como suluk, os fora da lei. A tradução de Michel Sleiman publicada pela Editora Tabla busca recuperar uma oralidade original, uma comunicação direta, “sem necessidade de ‘voltar a leitura’, condição almejada na poesia oral. Isto é, o verso tem de funcionar ouvido, tanto quanto lido”.

A poesia do grande poeta palestino, Mahmud Darwich.

Da presença da ausência foi publicado em 2006, dois anos antes da morte do grande poeta palestino, Mahmud Darwich. Sabendo que a morte estava próxima e pensando que este seria seu último livro, ele criou algo que foge a qualquer possibilidade de classificação, um híbrido. Nas palavras do próprio autor: “Eu estava buscando uma outra forma de escrita. Este texto é a convergência de dois gêneros: prosa e poesia”. Da presença da ausência é, também, uma auto-elegia ― um gênero corrente na poesia árabe clássica. Ao longo de vinte seções, Darwich aborda temas que marcaram toda a sua vida: amor, exílio, a nakba, morte, existência… Darwich foi o poeta mais popular e proeminente do mundo árabe, admirado também em muitos países onde sua obra foi traduzida. Este é o primeiro título de uma série dedicada à tradução da obra de Mahmud Darwich, em português, no Brasil, publicada pela Editora Tabla.

Simone Weil fala ao nosso tempo.

Aos vinte e cinco anos, em 1934, Simone Weil escreveu essas Reflexões, um verdadeiro talismã que deveria proteger qualquer pessoa que fosse forçada a atravessar a imensa massa de mentiras que circunda a palavra “sociedade”. Como sempre nas palavras mais óbvias, se esconde uma realidade secreta e imponente, que age sobre nós ainda que ninguém a reconheça. Weil foi a primeiro a dizer com perfeita clareza que o homem se emancipou da servidão à natureza apenas para se submeter a uma opressão ainda mais sombria, ainda mais caprichosa e incontrolável: aquela exercida pela própria sociedade, pois “parece que o homem não consegue aliviar o jugo das necessidades naturais sem agravar na mesma proporção o jugo da opressão social, como pelo jogo de um misterioso equilíbrio”. Partindo dessa intuição fundamental, com uma clara virtude argumentativa, uma série de raciocínios revelam tanto nos mecanismos de poder quanto nos de produção e das trocas as várias faces de uma mesma idolatria. Escrito quando Hitler estava no poder havia alguns meses e quando Stálin era reverenciado pela maioria da intelligentsia como o “pai” de uma nova humanidade, esse texto não hesita por um instante em descrever o horror daquele período. Mas, como sempre em Weil, o olhar é tão preciso exatamente porque vai além do presente imediato e percebe uma imagem inabalável do Bem, em relação à qual julga o mundo. É um olhar que nos permite “fugir do contágio da loucura e da vertigem coletiva, reatando, por conta própria, por cima do ídolo social, o pacto original do espírito com o universo”. Reflexões sobre as causas da liberdade e da opressão social é publicado pela editora Âyiné; a tradução é de Pedro Fonseca.

Onde estão os intelectuais?

Ao longo do século XX, o intelectual foi uma inteligência crítica que afirmava a verdade contra o poder. Zola, Orwell, Arendt, Sartre e Pasolini, para citar apenas alguns, encarnaram essa figura em momentos diferentes. Hoje, essa palavra perdeu sua aura e designa sobretudo os personagens que invadem os nossos canais televisivos. Segundo Enzo Traverso, esse crepúsculo tem várias razões: o fim das utopias do século XX, a guinada conservadora dos anos 80, a mercantilização da cultura, as desilusões de uma geração. Em um mundo “pós-ideológico” onde a política se nutre cada vez menos de ideias, o intelectual foi substituído pelo “especialista” a serviço dos poderosos e do especialista em comunicação. Os movimentos sociais ficaram órfãos. Nesse novo cenário, no entanto, o pensamento dissidente não desapareceu. Enzo Traverso capta os sinais que anunciam uma nova articulação entre produção de conhecimento, crítica do poder e empenho político. Um balanço e um desejo de reinventar o intelectual do nosso século. Onde estão os intelectuais? é publicado pela editora Âyiné.

Nova edição de A descoberta do mundo, de Clarice Lispector.

As crônicas de Clarice Lispector publicadas no Jornal do Brasil de 1967 a 1973 nos permitem compreender melhor a escritura desta que se consagrou como uma das maiores escritoras do Brasil. Se nos contos e romances o mistério de uma narrativa envolve o leitor num processo quase que iniciático, nas crônicas esse mistério vai aos poucos sendo desvendado, revelando o mundo pessoal e subjetivo da autora enigmática que viveu no Leme, próximo às areias e ao mar de Copacabana, que tanto apreciava. Ao aceitar o convite do JB para escrever uma coluna aos sábados, Clarice Lispector sente a estranheza entre ser escritora e jornalista: “Na literatura de livros permaneço anônima e discreta. Nesta coluna, estou de algum modo me dando a conhecer”, comenta na crônica de 21 de setembro de 1968. Gênero leve, ameno, de leitura mais fácil, a crônica traz quase sempre a interpretação de um fato conhecido por todos, investido pela subjetividade de quem comenta o assunto, dando um sabor novo ao acontecido. Com a sua despretensão, a crônica quebra o monumental, o extraordinário, celebrando o cotidiano, o dia a dia e mostra belezas insuspeitáveis através da argúcia, da graça, do humor de quem a escreve. A informalidade investe de leveza uma linguagem cuja densidade busca revelar o segredo das coisas mais simples, o cotidiano transfigurado pelo olhar de Clarice, que redescobre nas Macabéas de todo dia a luminosidade de uma presença estelar. Entre flanelas e vassouras, mulheres simples e humildes se transformam em personagens que se eternizam. Aninha, Jandira, Ivone ou Aparecida são algumas dessas estrelas que saem de suas vidas apagadas para serem reveladas pelo olhar atento e sensível, onde escapa, por vezes, um leve e sorrateiro toque de humor, como no caso da empregada que fazia análise, ou da “mineira calada”, que gostava de ler livros complicados. A descoberta do mundo é o novo título no âmbito da reedição da obra da escritora publicada pela Editora Rocco.

A bíblia de todos os militantes anticolonialistas em luta contra a dominação europeia.

Racismo, fascismo, colonialismo e Aimé Césaire, o criador da palavra negritude. Discurso sobre o Colonialismo é uma declaração de guerra. Guerra ao racismo, ao colonialismo e à pomposa hipocrisia de intelectuais e políticos a serviço do capitalismo. Escrito por um pensador político que foi ao mesmo tempo um dos maiores poetas da língua francesa no século XX, este é um monumento de elegância, ironia e fúria em forma de texto. Lançado originalmente em 1950, na França, a influência deste pequeno livro é imensa. Tornou-se a bíblia de todos os militantes anticolonialistas em luta contra a dominação europeia, inspirou os líderes do movimento pan-africano e também os Panteras Negras, é citado (várias e várias vezes) por Frantz Fanon e por Raoul Vaneigem, em seu A arte de viver para as novas gerações, o Best-Seller situacionista do Maio de 68 francês. Talvez até mais atual hoje do que quando foi lançado, este livro demonstra que o fascismo é filho do colonialismo. Que o racismo é ferramenta fundamental da exploração capitalista. Que Hitler vive em cada burguês. No Brasil de hoje, ajuda a entender que a mais recente emersão do fascismo, com toda sua brutalidade, ignorância e racismo, é menos uma reação a avanços nas questões sociais, que resultado da brutalidade, ignorância e racismo serem as armas básicas do capitalismo em sua luta de sempre para preservar a infame desigualdade social brasileira. Uma obra fundamental, urgente para nossos tempos, numa edição ilustrada por Marcelo D’Salete e traduzida por Claudio Willer. Com notas explicativas e uma cronologia da vida, obra e combates de Aimé Césaire. O livro é publicado pela editora Veneta.

Nova tradução de A metamorfose, de Franz Kafka.

Obra mais famosa de Franz Kafka, A metamorfose dispensa apresentações. A história da transformação de Gregor Samsa é um clássico porque condensa perfeitamente as características da prosa kafkiana, conceito que se torna importante na nossa repertoriação do mundo: kafkiano é, pois, o contraditório da cultura ocidental desumanizada, em que o irracional é criado justamente pelas estruturas burocráticas ultrarracionalizadas. Samsa, o personagem principal, uma vez transformado em inseto, toma consciência de que sua alienação precedia a mutação de seu corpo. É a própria metamorfose que lhe dá a chance de olhar de si para si, sujeito e objeto. Franz Kafka é, pois, um realista, do único tipo que o século XX comporta. O naturalismo do século XIX não faz mais sentido no mundo em que o culto à razão produziu duas guerras mundiais; o caminho para o real é pela via do absurdo. A tradução de Celso Donizete é publicada pela editora Hedra.

O novo romance de Cristóvão Tezza.

Cândido é especialista em piratear filmes na internet. Conhece os formatos dos arquivos, os fóruns onde encontrá-los e os grupos amadores que os legendam. Só de bater o olho, já sabe se é uma cópia mal gravada num cinema ou um tesouro em alta resolução. Sua coleção de milhares de filmes é meticulosamente organizada, num sistema infalível de pastas e HDs e nomes. A ocupação de pirateiro, no entanto, é quase acidental, e os filmes servem para alimentar sua mãe, com quem o químico de quase quarenta anos mora desde que se separou. É para a mãe que ele entrega os pen drives com dramas asiáticos, comédias francesas, mistérios, romances. E é com ele que a mãe comenta cada um dos filmes no apartamento que dividem em Curitiba. A atividade oficial de Cândido é dar aulas de química em um cursinho, onde ele tem uma participação societária. Curitiba ainda vive sob os efeitos das operações policiais e do judiciário que colocaram a cidade no centro da crise política que assola o país, efeitos que Cândido sente no seu dia a dia. É a professora bolsonarista com quem toma café num intervalo entre as aulas, são as constantes discussões que dividem amigos, famílias e colegas de trabalho. É o procurador federal, enfiado até o pescoço nas investigações, e a mulher dele, Antônia, com quem Cândido tem um caso. Sentado em um banco de parque, sem dar notícias há dias, Cândido vê todas essas pontas se encontrarem e se desenrolarem: o fim amargo do antigo casamento, as pretensões profissionais esmagadas, o novo afeto negado, a vida que se dissolve num caldo de guerra política e social. Em A tensão superficial do tempo, Cristovão Tezza ― no auge de sua forma como ficcionista ― usa o momento recente do país para investigar os pontos de contato entre público e privado, entre política e intimidade, entre desejo e solidão. O livro é publicado pela Editora Todavia.

Livro apresenta dois textos inéditos de Fernando Pessoa.

Publica-se em Portugal uma nova edição de O caso mental português. O livro com edição dos pesquisadores Richard Zenith e Fernando Cabral Martins é publicado pela editora Assírio & Alvim e reúne dois textos agora desconhecidos: “A minha resposta ao que me pergunta” e “O característico distintivo”. O livro é formado por duas partes. Na primeira, inclui-se artigos e entrevistas ― são textos como “Portugal, vasto império, um inquérito nacional”, “O provincianismo português” e “Entrevista sobre arte e literatura”. A segunda, reúne os textos inéditos mais 19 “trechos vários e fragmentos”.

Messalina, de Alfred Jarry é o novo título da coleção "À Deriva" publicada pela Editora Iluminuras.

Esta a primeira tradução brasileira do segundo romance da trilogia amor e morte, precedido por O amor absoluto e sucedido por Supermacho. Publicado na França em 1901, Messalina abriu com um chute as portas do século XX. A escrita é alucinante, pantagruélica, modernista avant la lettre, um caleidoscópio delirante, erótico e selvagem, com um vocabulário de especificidade atordoante e uma erudição tão natural como a de um dos nossos, Oswald de Andrade. "Ler Messalina é acelerar num carro conversível sem capota, múrrino à mão e dados de osso espalhados ao redor, vendo passar a toda velocidade jardins reais, circos romanos, coliseus e figueiras sagradas sob o eclipse lunar. Roma, anagrama de amor, é um borrão que passa à direita, à esquerda, ao fundo.” — sublinha Maria Bitarello. A tradução agora apresentada é de Letícia Coura, autora ainda do texto de apresentação do livro.

Livro reúne parte significativa da obra de Walnice Nogueira Galvão escrita entre 1997 e 2018.

Walnice Nogueira Galvão, uma das maiores críticas literárias brasileiras, reflete com talento e precisão sobre as facetas da realidade sociopolítica e cultural brasileira, com foco nas expressões artísticas, em especial a literatura. Sua mais nova obra, Lendo e relendo, abrange parte significativa de seus textos publicados entre 1997 e 2018, reunindo publicações até então dispersas em jornais, revistas e periódicos acadêmicos. Discípula de Antonio Candido e dona de uma escrita inquieta, Walnice é autora de dezenas de livros e apreciadora e estudiosa incansável das manifestações culturais e políticas nacionais e internacionais, o que delimita seu território de interesses múltiplos e expande sua voz de audaciosa sensibilidade crítica. A erudição e a ironia finas, aliadas à reflexão apurada sobre questões teóricas, sociais e políticas, são evidenciadas em Lendo e relendo ao longo de quatro partes — “Figuras”, “Duos”, “Paisagens” e “Flagrantes”. Nelas, Walnice trata de literatura brasileira e estrangeira, teatro, cinema, artes plásticas, história, sociologia, teoria literária, literatura comparada, política e políticas públicas, voltando-se a temas que vão desde a resistência do teatro brasileiro sob a vigência da Ditadura Militar (1964-1985) até as nuances históricas do cinema chinês, a literatura de Coetzee e o enfraquecimento do Estado por meio das privatizações. Além disso, escreve também sobre figuras como Frida Kahlo, Patrícia Galvão (Pagu) e Gilda de Mello e Souza, dedicando-se a seus legados e à questão dos papéis de gênero. Ao mapear e nos guiar por seu vasto espectro intelectual, Walnice Nogueira Galvão, com sua prosa desafiadora e ao mesmo tempo atraente, nos presenteia em Lendo e relendo com a privilegiada possibilidade do aprendizado baseado no deleite. O livro é publicado pelas Edições Sesc em parceria com a editora Ouro sobre Azul.

O novo livro de Jeferson Tenório, romance sobre identidade e as complexas relações raciais, sobre violência e negritude.

O avesso da pele é a história de Pedro, que, após a morte do pai, assassinado numa desastrosa abordagem policial, sai em busca de resgatar o passado da família e refazer os caminhos paternos. Com uma narrativa sensível e por vezes brutal, Jeferson Tenório traz à superfície um país marcado pelo racismo e por um sistema educacional falido, e um denso relato sobre as relações entre pais e filhos. O que está em jogo é a vida de um homem abalado pelas inevitáveis fraturas existenciais da sua condição de negro em um país racista, um processo de dor, de acerto de contas, mas também de redenção, superação e liberdade. Com habilidade incomum para conceber e estruturar personagens e de lidar com as complexidades e pequenas tragédias das relações familiares, Jeferson Tenório se consolida como uma das vozes mais potentes e estilisticamente corajosas da literatura brasileira contemporânea. O livro é publicado pela Companhia das Letras.

Nova edição de Vitória, de Joseph Conrad.

Joseph Conrad é um escritor singular na língua inglesa. O estilo único se deve à sua formação poliglota e multicultural: Conrad nasceu na Polônia, foi educado em polonês e em francês, além de ter estudado latim, mas escolheu o inglês para escrever, mesmo que só tenha aprendido o idioma britânico aos vinte e um anos. Isso lhe confere um manejo incomum da língua, pois sua prosa tem uma cadência latina. Suas frases ondulantes criam um ritmo nunca antes visto, selvagem e — ainda assim — sofisticado. Vitória foi finalizado em maio de 1914, mas publicado apenas no ano seguinte, já em meio à Primeira Guerra Mundial. O livro traz temas recorrentes na obra de Conrad, como a solidão, a inconformidade com o mundo, o conflito entre o mal e a esperança. Seu protagonista, Axel Heyst, instala-se em uma ilha no sul asiático, em total isolamento, após um fracasso comercial que não abala sua aceitação resignada do destino. Mas a aparição de uma jovem musicista desperta nele um instinto de proteção que o levará a uma crise de identidade e, mais tarde, ao enfrentamento de grandes perigos. O livro é publicado pela editora Dublinense.

OBITUÁRIO

Morreu Suzana Amaral

Sem nunca revelar sua verdadeira idade, as informações disponíveis online dizem que Suzana Amaral nasceu entre 1928 e 1932 em São Paulo. Formou-se em Cinema pela Escola de Comunicação Social e Artes da Universidade de São Paulo, cursado entre 1968 e 1971. Sua estreia como diretora se deu em 1971 com o curta Sua majestade piolim sobre o famoso palhaço e suas ligações com o teatro popular e Semana de 22, um panorama da Semana de Arte Moderna. A cineasta dirigiu três longas de ficção durante mais de três décadas de carreira; de todos os trabalhos, sempre adaptações de obras literárias, o sempre lembrado é A hora da estrela, de 1985, baseado no texto original com mesmo nome de Clarice Lispector. O filme foi consagrado no festival de Berlim, e levou dois prêmios paralelos de direção (o OCIC e o C.I.C.A.E. Award), um Urso de Prata de melhor atriz para Marcelia Cartaxo e uma indicação ao Urso de Ouro para Suzana. Os dois, mais recentes, foram: Uma vida em segredo (2001), baseado na obra homônima de Autran Dourado; e Hotel Atlântico (2009), a partir o romance de João Gilberto Noll. Todos renderam diversos prêmios nacionais, como o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro e no Festival do Rio, e estrangeiros, como nos festivais de Lima e Cartagena.

OS LIVROS POR VIR

A relação entre João Guimarães Rosa e Paulo Rónai.

Rosa & Rónai. O universo de Guimarães Rosa por Paulo Rónai, seu maior decifrador será publicado pela editora Bazar do Tempo em setembro de 2020. Organizado por Zsuzsanna Spiry e Ana Cecilia Impellizieri Martins o livro reúne a fortuna crítica de Rónai sobre o escritor mineiro, de quem se tornou maior interlocutor literário.


DICAS DE LEITURA

1. A mamã por cima dos telhados e meu amor, de Maria Azenha. Este é o terceiro livro da poeta portuguesa publicado no Brasil pela editora Urutau. Neste livro continuamos a assistir certo compromisso ético na sua poesia impossível de não repararmos: o do poeta que se questiona sobre sua atividade nesse tempo atravessado pelos grandes e pequenos horrores, de Auschwitz à mortal e contínua indiferença individual. O apelo a esse mitologema da mãe, revisitado em múltiplas dimensões que esta imagem assume na cotidianidade da literatura, mas sempre ressaltado na poesia da poeta portuguesa pelas frações entre mãe e filhos ou vice-versa, atendem à fatal constatação do homem enquanto ser deserção no mundo. Interferem-se mãe e poeta visto que o lugar assumido por este último num tempo improvável para a poesia é o da voz que enuncia sozinha o que é ignorado pelo filho.

2. O mez da grippe, de Valêncio Xavier. A epidemia que levou à morte entre 50 e 100 milhões de pessoas no início do século passado foi tema para este livro que é uma experiência criativa do escritor e cineasta Valêncio Xavier. A primeira edição data de 1981. Esquecido até quase duas décadas, foi reeditado pela Companhia das Letras que levou o prêmio Jabuti de 1999 na categoria produção editorial. Outra vez esquecido até se tornar objeto raro tão logo eclodiu a Covid-19 no Brasil, uma nova edição está no prelo, agora, pela Arte & Letra. Combinando texto verbal e visual, são três as narrativas que formam a obra: a primeira, com recortes de jornais publicados na Curitiba do período evocado, retrata o cotidiano da cidade durante a epidemia. Esse material é completado com documentos dos órgãos de saúde pública sobre o enfrentamento da doença e manchetes sobre o acontecimento maior então ― a Primeira Guerra Mundial. Aqui estão reunidas notícias, fotografias, comunicados e chamadas publicitárias que cobrem de 22 de outubro de 1918 a 3 de dezembro de 1919. A segunda narrativa é formada pelo depoimento de uma das sobreviventes da gripe, Dona Lúcia. Situada em 1976, ela relembra o período da epidemia. E, a terceira, é composta pelos versos de um misterioso homem que aproveita a situação, tirando vantagem do isolamento social, das ruas vazias, para viver suas aventuras sexuais.

3. História da violência, de Édouard Louis. O livro é segundo título de uma trilogia autobiográfica em que o escritor francês repassa sua vida antes de assumir a identidade como Édouard Louis. O primeiro é O fim de Eddy. Os episódios relatados na continuação desse calvário retomam a véspera do Natal de 2012 quando o escritor foi estuprado e quase assassinado por um rapaz que ele havia acabado de encontrar nas ruas de Paris. Esse ato de violência crua e brutal deixou suas marcas no autor, e as consequências do trauma o levaram de volta à vila, à família e ao passado que ele jurara deixar esquecido no passado. Traduzido por Francesca Angiolillo, o livro foi publicado no Brasil pelo selo Tusquets / Planeta de Livros. 

VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS

1. A editora Bazar do Tempo, que publica livro sobre as vivências de Paulo Rónai com a obra de João Guimarães Rosa, como noticiamos acima, publicou no seu site um perfil sobre o escritor realizado pelo pesquisador e tradutor.

2. Na nossa galeria de vídeos no Facebook, o leitor encontra esse registro filmado em 1969. Nele, o dramaturgo Samuel Beckett num passeio pelas ruas da sua querida Berlim. O dramaturgo lê o jornal em um café, anda pelas ruas da cidade, pede instruções. Segundo o Open Culture, a mulher que aparece nas imagens pode ser a tradutora alemã de Beckett, Erika Tophoven, quem com o Schiller Theatre também produziu muitas de suas peças. 

BAÚ DE LETRAS

1. Sim, hoje é aniversário de João Guimarães Rosa. O escritor nasceu no dia 27 de junho de 1908 em Cordisburgo, Minas Gerais. Em nossa página no Twitter criamos este fio para reunir algumas das principais publicações do blog sobre a obra do autor de Grande Sertão: Veredas.

2. Em agosto de 2018, o blog publicou texto de Pedro Fernandes com leitura sobre o primeiro romance de Édouard Louis, O fim de Eddy; nesta semana, uma leitura sobre o filme Marvin, que é produto de uma adaptação indireta da trilogia autobiográfica em que o escritor francês conta as razões que o levaram a assumir a identidade de Édouard Louis.

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