O fim de Eddy, de Édouard Louis


Por Pedro Fernandes



A literatura está repleta de histórias sobre a violência e a pobreza nos pequenos e grandes centros. Em princípio, as narrativas tristes cumprem uma tarefa fundamental à formação do campo discurso do literário: revelar à humanidade uma projeção de sua própria face, colocando no centro de interesse personagens e realidades silenciadas pelos discursos dominantes. Faz sentido se perguntar o que seria da história dos povos se um Victor Hugo não tivesse revelado a extrema miséria a que estavam condenados os franceses de seu tempo enquanto uma pequena parcela se refestelava às custas dos esforços dos miseráveis, ou como conheceríamos a pobreza e a exploração em Inglaterra, sem Charles Dickens, das mazelas impostas por modelos desastrosos como o comunismo na União Soviética nos vários livros que denunciaram os gulags ou o fracasso capitalismo com o retrato duro desenhado pelo escritor estadunidense John Steinbeck. As verdades oficiais, geralmente autoritárias e, por isso mesmo, fechadas apenas numa única linha de visão teriam prevalecido e possivelmente teríamos outra configuração do mundo e certamente mais cruel que esta.

Não é o caso de as modificações terem sido propiciadas pela literatura – até mesmo porque enquanto tais obras sobre a miséria ganhavam publicação os representados dificilmente tinham acesso a elas e que, utopicamente poderia favorecer o pensamento dissidente do discurso dominante; curiosamente, o próprio imperativo da pobreza priva aos representados de se verem. Mas, se no interior dos sistemas se forjam alguma estratégia de mudança, ainda que apenas no intuito de favorecer a própria face do poder dominante, em parte, isso se dá quando o problema é deslocado da margem para o centro. Que saberiam os do Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil sobre a maneira como o poder pisoteava pobres e o condenavam à indignidade perpétua se não fosse o grupo de escritores da chamada literatura de 1930 deitarem a pena para revelar os vícios e os males impostos? Muitos advogam na tarefa de destratar a literatura e grande parte desse grupo pertence, curiosamente, aos setores que gostariam de impor ad eternum os seus gestos de dominação opressora.

Mas, atravessamos outro momento; ficou chato datar situações narrativas e sempre que se apresenta uma obra que não se queira universal logo ressaltam a dicção repetitiva alegando sobre a impossibilidade de ser literário o texto que ousa constituir uma intervenção às ordens de dominação. Um leitor de José Saramago, por exemplo, já terá escutado reiteradas vezes que sua literatura é pobre porque buscou se filiar a uma estilística do proletariado, fazendo-se além de repetitiva, apologética da ideologia comunista. E a pergunta roda ante falsas acusações do tipo que ignoram o que há de mais significativo – a criação: se a literatura não se apresenta enquanto contradiscurso, que outra expressão o fará? Ainda na lista das acusações, quando não se referem ao fator ideológico-político contradominante, preferem questionar os valores do literário com a acusação de que este exercício de denúncia da espoliação está superado no campo da criação ficcional.

Bom, talvez por isso, alguns escritores contemporâneos tenham decidido deixar de construírem universos que funcionem como distanciados de si para falar do que se passam ao seu entorno para se posicionarem enquanto persona de suas narrativas, como se dissessem aos acusadores, de que outra coisa eu poderia tratar na minha literatura se minha experiência, aquilo que em grande parte determina a criação, é esta e não outra. Não se trata de rondar os mesmos ultrapassados temas ou de colocar em evidência o discurso sobre a miséria que, aparente é que melhor vende porque parece existir na humanidade um espírito que se sacia e se compraz com a desgraça alheia. Não é nem uma coisa nem outra.

Os temas não são ultrapassados porque afinal a desigualdade, as imposições, as injustiças, os ódios, as misérias continuam as mesmas de sempre. Quer dizer, não as mesmas de sempre, porque se criaram mecanismos de segregação e novas ordens de dominação pela exclusão, o que faz da humanidade extremamente avançada nuns casos e duplamente obsoleta em outros. Ainda prevalece – estrategicamente melhores – as condições de injustiça porque agora são condições previstas e forjadas no interior da própria legalidade moral. Para que os discursos oprimidos continuem silenciados tornou-se voga os tribunais de exceção e as leis que advogam as verdades são instituições alimentadas pelos próprios interesses daqueles que advogam. Contra isso, a literatura ainda é uma alternativa. E se já não é possível falar-se ficcionalizando o outro ou se ficcionalizando no outro, este outro, produto da pequena evolução humana, já é agora possível de falar porque criou suas próprias condições e porque encontrou saídas pelas margens. Nessas saídas resultam alguma dose de esperança.

O fim de Eddy se filia, portanto, a essa rede de criações literárias que colocam em cena a própria existência de quem escreve. Corriqueiramente têm-na chamado pela mesma alcunha fornecida quando se tornou comum a escrita sobre o eu a partir do próprio eu – isto é, autobiografia. Mas, sem se aventurar pelas searas da discussão que cabem num texto como este nem nesta ocasião, é melhor pensar uma alternativa que se coloque fora ou pelo menos categoria talvez do autobiográfico, porque, embora seja o domínio do acontecido o que determina essas narrativas não são propriamente narrativas que tenham interesse de servir de testamento do seu autor.



O autor ficciona suas vivências e elas tornam-se objetos universais, aquilo que na ficção comum já acontecia – a realidade apresentada em Levantado do chão, por exemplo, para retomar o caso saramaguiano, é a do levante dos trabalhadores rurais sem terra no interior de Portugal contra os regimes de latifundiarismo, mas este romance é universal à medida que se torna em metáfora ou metonímia sobre outras diversidades de levantes sejam de trabalhadores rurais sejam de oprimidos – e tais histórias, sabe-se bem, estão em toda parte. É, portanto, necessário pensar até que ponto é possível continuar falando de autobiografia para uma forma de escrita que apresenta peculiaridades tão distintas do autobiográfico ainda que sua roupagem nos permita continuar acreditando na ideia de revelação do eu para o todo.

Pois bem, a partir das experiências vividas, seja porque passou por elas, seja porque ouviu de seus pais e daqueles com quem conviveu, em O fim de Eddy, a narrativa se propõe reconstruir os anos de infância a da adolescência de Eddy Bellegueule. Não se trata de uma narrativa cuja operação se dê por uma transposição do leitor a olhar com os olhos da criança ou do adolescente este passado que é recriado; é a visão de alguém que olha para o passado a partir de seu lugar atual. Mas, ao contrário do que se possa pensar não se deposita sobre essa história nenhuma nostalgia tampouco algum julgamento. Aliás, não sobra espaço para isso neste romance, porque a única coisa que parece restar a este narrador é uma maneira de compreender as razões que lhe fomentaram uma consciência desencantada sobre o passado. Eddy quer compreender-se como o modo de vida, as limitações de ordem diversa, não o levaram ao total apagamento como a outros. Quais mecanismos se constituem os destinos que a uns permitem encontrar a sobrevivência mesmo quando esta parece impossível de existir.

Há uma imagem que corre todo o fio narrativo de O fim de Eddy que funciona perfeitamente como justificativa a essa leitura: ela abre o romance e é a descrição da uma das ocasiões em que Eddy é espancado violentamente por dois colegas do colégio debaixo de toda sorte de xingamentos porque todos o tem como a bicha, o veado, a moça. Nessa ocasião, o narrador sempre lembra como buscava estabelecer estratégias de dissimular a dor e de encontrar o ar que faltava às narinas coalhadas de sangue. Em linhas gerais, pode-se dizer que é isto o romance: buscar ar quando o passado chega e o sufoca. Os hematomas psicológicos doem mais que qualquer dor física – alguns nos matam silenciosamente.

É a formação de uma consciência sobre si, sua sexualidade, seu corpo, o que leitor acompanha ao longo da narrativa. Para dizer que não há momentos felizes neste itinerário de pura opressão, restam os lampejos em que Eddy pode ser ele próprio, como quando se vê maquiador da amiga ou quando pode às escondidas travestir-se nas roupas da irmã ou ainda nos elogios enviesados que lhe chegam dos pais extremamente violentos de que tem na família alguém inclinado para o estudo e capaz de, no futuro, dar algum orgulho à família. Mesmo isso é pura descrição dissidente de qualquer vitimismo ou de qualquer emoção desbragada. Ao longo do romance somos levados a nos acostumar com o rifão que estas narrativas tentam desconstruir totalmente: Hoje eu vou ser um durão. Novamente vale reportar a cena mencionada no parágrafo anterior, quando sob a violência o menino Eddy prefere reprimir o choro e se rir dos agressores. Nada é mais duro que isso.

Édouard Louis é objetivo e não tem pudores para a construção de uma exegese da violência; esta se revela nas mais diversas frentes: no machismo que domina a todos do pequeno vilarejo suburbano de Hallencourt e que impõe suas regras contra homens e mulheres; nos preconceitos contra todas as minorias – deficientes, gays, árabes, pobres (as estratégias de segregação destes com os outros de condição um pouco menor); a do trabalho forçado que vitimiza a todos, pela saúda física em contínua debilitação ou pela saúde psíquica superada pela entrega desmedida ao álcool, única fuga possível de superar esse esmagamento social padecido por todos; como tudo isso se traduz em comportamentos que vão da dormência de humanidade à total ausência dela. Enfim, o passeio não poupa (e por isso também de forma violenta) a saúde do leitor.

A grande estratégia narrativa de Édouard Louis é estabelecer a ideia de como o discurso do outro se torna um sistema regulador das vidas e das condutas individuais. Por alguma razão ficamos balançados a acreditar, por exemplo, que os pais de Eddy teriam outra visão sobre o filho e sua condição aberta para as sensibilidades, se não fosse o julgamento que sempre serve de dominante nas estratégias de exercício de poder: é sempre o que o outro diz, o que outro julga, que abre a preocupação sobre a repressão dos trejeitos femininos de Eddy ou dos gostos duvidosos que se opõem aos esperados do que o discurso diz ser de um homem. Prova disso é quando o menino desiste da escolinha de futebol ao descobrir que não conseguiria usar o banheiro coletivo e o pai escolhe uma mentira a fim de justificar ao professor de educação física que o filho prefere ficar em casa a ver televisão; ou a declaração de amor do pai pelo filho, numa das várias crises de coluna, e que Eddy só consegue sentir repulsa por interpretá-la como um assédio.

Por entre o processo de descoberta de si, passa uma interpretação seca e sisuda (propiciada pela objetividade do relato) da realidade do vilarejo. Aos olhos do narrador este é o lugar condenado à repetição eterna dos mesmos modos de ser e estar no mundo porque todos parecem que estão carcomidos por uma espécie de condição natural perversa que os domina ao ponto de cegá-los para o mundo fora daí. A única coisa que parece lhe admirar – e talvez seja o impulso que o permite suspender a ordem das coisas – e talvez a única das esperanças, que de tão distantes não se mostra como tal, é a contínua vontade da mãe em não sucumbir à miséria e à violência. A narrativa, a todo momento sublinha as alternativas encontradas por ela para garantir o sustento numa família de sete bocas, como fabula situações a fim de não revelar diretamente para os filhos a verdadeira condição da família, nas histórias que conta do passado que poderiam resultar noutro destino que não o de mulher casada duas vezes e apenas dona de casa, profissão sobre qual tanto faz questão por ser reconhecida.

Por fim, ao revelar este universo movido pelos ventos dos dissabores e da danação, O fim de Eddy, denuncia quanto os Estados e o modelo econômico que os definem mais fracassaram que acertaram no que devia ser preocupação comunitária fornecer alternativas decentes e verdadeiras de reduzir as extremidades dos fossos em parte determinados pelo próprio sistema. E se estamos falando sobre um país que carrega certo mito de zelar desde cedo por princípios que nas nações mais jovens ainda se engatinha na sua direção, os princípios da igualdade, liberdade e fraternidade, o que dizer das periferias destas? Édouard Louis revela nosso lado mais abjeto e que habita todas as partes: o de saber sobre nossos males, conhecermos alternativas e esperarmos que os outros pereçam na indignidade. A periferia francesa é como toda periferia: formado por aqueles que o Estado escolheu como refugo.

Não há lição mais cara para este século que se inicia: se não formos capazes, parece nos dizer, de renovar as dimensões que nos determinam como humanidade poderá não existir um século depois deste. Pereceremos na absoluta barbárie. Não falta muito.


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