Oito poemas de Ryokan in “O Orvalho Numa Folha de Lótus”

Por Pedro Belo Clara (Seleção e versões)* I. regresso à aldeia onde nasci após vários anos de ausência: doente, entro na estalagem e fico a ouvir o cair da chuva um hábito, uma taça de pedinte –– é tudo o que tenho acendo incenso e esforço-me por meditar toda a noite um som constante além da janela escura dentro de mim, pungentes memórias dos longos anos de peregrinação II. quando jovem, deixei os estudos e aspirei a ser santo vivendo como monge mendicante por muitas primaveras vagueei, aqui e acolá enfim retorno a casa, instalo-me debaixo dum pico rochoso vivo em paz numa cabana de palha escutando as canções dos pássaros as nuvens são os meus vizinhos em baixo, uma nascente pura onde refresco corpo e mente por cima, picos altaneiros e carvalhos que dão sombra e lenha livre, tão livre, dia após dia –– não mais desejo partir III. o que é esta minha vida? errante, confio-me às mãos do destino por vezes sorrisos, por vezes lágrimas nem um leigo, nem um monge uma chuva primaveri...