Benjamim, de Chico Buarque

Por Pedro Fernandes



Benjamim integra, em 2006, o ciclo dos quatro romances escritos por Chico Buarque. Ou seja, é o segundo dessa leva de escritos, já que o escritor publicara antes apenas Estorvo, em 1991. Trata-se de romance que poderíamos adjetivar como “dobrado”, no sentido de que, são as ações e a vida de personagens do presente constantemente invadidas por projeções do passado. O protagonista desse romance integra a galeria dos desgraçados e perturbados consigo próprio; é invadido o tempo inteiro por uma corrente de culpa que aponta-lhe inquisitorialmente o dedo.

Digo isso, porque lembro-me agora de sua perturbação pela morte de uma tal Castana, que fora, no passado, uma namorada de Benjamim e que morrera fuzilada. A projeção passado-presente se instala quando entra no romance e, consequentemente, na vida dessa personagem, Ariela Masé, que, de início se é confundida com filha daquela namorada do passado. Ariela será a responsável, com todas as letras, para uma remodelagem na vida de Benjamim. Se antes, ele já guardara todas as suas economias preventivamente guardadas para os gastos básicos para uma possível quantidade de vida, agora ele se virá no rol da gastança a título de, se não impressionar a garota, ao menos tê-la por perto a título de preservar-lhe a memória de Castana ou de lhe redimir do sentimento de culpa que lhe persegue.

O encadeamento cinematográfico operacionalizado pelo autor, põe o presente como uma luz a iluminar tanto o passado como a própria corrida da narrativa. Se a princípio o leitor pode se perder por não está associando bem os planos de cena, o mergulho no texto lhe permitirá encontrar um fio pelo qual poderá, tateando, encontrar também uma saída e uma resposta para os acontecimentos obscuros que se vão antecedendo o futuro do fio narrativo. Penso em Benjamim como um romance espiralado ou moldado a peças fotográficas – associando-se, claro, à profissão do próprio protagonista, que, na década de 1960, atuava como modelo fotográfico. É um olhar por sobre peças fotográficas o que vai compondo a correnteza da narrativa de Benjamim.

No mais, a riqueza de detalhes sócio-históricos que alimenta a narrativa, faz dela obra-prima que só pode ser comparada as movimentações engendradas por um Machado de Assis. Não é a primeira vez que comparam Chico ao expoente de nossa literatura; tem muito feito isso quando do lançamento de Leite Derramado; entretanto, percebo que esse “projeto de ressignificação” de Machado por Chico não é de agora. Basta que se leia toda a obra romanesca do escritor contemporâneo para ter uma imagem muito assemelhada a imagem machadiana.



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