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A revolução de Pasolini

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Por Herminio Requejo Schoendorff Enrique Irazoqui e Pier Paolo Pasolini, bastidores de filmagem de O Evangelho Segundo São Mateus . Foto: Domenico Notarangelo.   “Sou um descrente com uma fé que me atormenta.” Esta frase, proferida pelo cineasta e escritor italiano Pier Paolo Pasolini, resume, como nenhuma outra, sua motivação artística e seu impulso vital. Ele a proferiu após ser condenado a quatro meses de prisão, acusado de “vilificar a religião do Estado” por seu curta-metragem La ricotta . Nele, um homem pobre, contratado como figurante em um filme sobre a Paixão de Cristo, procura desesperadamente algo para comer. Faminto, devora impulsivamente a ricota que dá nome ao filme e morre, por excesso ou destino, no momento da crucificação. No tribunal, Pasolini se defendeu: não se tratava de uma zombaria da religião, mas de uma denúncia da hipocrisia de uma sociedade que se proclama cristã enquanto ignora os marginalizados. “Não me interessa provocar. Interessa-me mostrar a verdad...

Livros autografados por seus autores: histórias e dedicatórias

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Por Cristian Vázquez Foto: Pascal Biomez   1 Uma dedicatória escrita pelo próprio autor torna um livro um objeto único. A assinatura confere ao exemplar uma espécie de aura que, por definição, lhe falta. Isso o distingue das centenas ou milhares de volumes semelhantes que saíram junto com ele da gráfica. Transforma-o em um item de colecionador, um objeto de desejo, um tesouro. O mercado sabe disso: livros autografados pelo autor são mais caros. Às vezes, verdadeiras fortunas são pagas por eles.   Mas essas fortunas são pagas, é claro, quando se trata de obras de escritores altamente reconhecidos. Em outros casos, o impacto de uma assinatura ou dedicatória de um autor no valor do livro pode ser quase imperceptível. Há alguns anos, adquiri um exemplar do romance La máquina de escribir [trad. livre, A máquina de datilografia] com dedicatória de seu autor, Juan Martini, em um sebo de Buenos Aires, pelo equivalente a cerca de US$ 4. Teria sido muito mais barato sem a assinatura? N...

Do modo honesto de fingir

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Por Eduardo Galeno Lorenzo Lippi,  Alegoria da simulação , 1640    As leis da conversação da literatura de corte são maximizadas por uma aderência ao oculto. Torquato Accetto, secretário do seu Senhorio, ponte entre verdades secretas e a via pública, corresponde a um tipo de travessa literária pouco ou nada analisada pelos bolsões críticos dos dois últimos séculos. Resumidamente, a razão se dá pelo fato da trela kantiana em nome da verdade-sem-artifício.   Contexto histórico: o fato sobrepujou a dinâmica operacional do resto dos textos que seguiram a derrubada do clero e do Rei pelas democracias, aqui conectados com o fator psicológico que o sujeito das ciências liberais fincou. Mas voltemos ao centro.   Dizíamos que Accetto trabalhava com a ideia de ocultação, mas o que significa? À risca, explicita certa racionalidade na relação entre ser e parecer. O secretário é aquele que dispõe do vínculo essencial com as partes de cima da estrutura de poder. Não sendo...

Oito poemas de Li Bai (Li Po)

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Por Pedro Belo Clara (Seleção, versões e notas)*     PARA TU FU, 1 COM HUMOR   Ei! És tu, no topo da montanha Fan-Ko, Com um enorme chapéu ao sol do meio-dia? Quão magro, miseravelmente magro, tu estás! Deves ter sofrido outra vez de poesia…     O TEMPLO DO CUME 2   Esta noite fico no Templo do Cume. Aqui, posso colher as estrelas com a minha mão. Nem me atrevo a falar alto no meio do silêncio: Temo perturbar os residentes do paraíso.     A TABERNA LAO-LAO TING 3   Os amigos vêm até este lugar para se despedir, entre lamentos. Oh, Lao-lao Ting, a taberna onde todo o coração dói. Aqui, até a brisa da primavera conhece a mágoa da partida; Não permite que os ramos do salgueiro fiquem verdes.     A NOITE DOS LAMENTOS   Uma bonita mulher descerra A delicada persiana de bambu. De expressão ausente, As sobrancelhas tremelicam como mariposas. O que lhe pôs o coração dorido assim? No seu rosto apenas Húmidos vestígios de lágrimas. ...

Boletim Letras 360º #640

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Marvel Moreno. Arquivo Museu Nacional de Fotografia da Colômbia. LANÇAMENTOS   A editora Moinhos traz aos leitores brasileiros a obra da até agora desconhecida Marvel Moreno. A casa edita dois livros da escritora colombiana, uma das mais destacadas na literatura latino-americana do século XX .   1. Marvel Moreno rompe com figuras femininas do reino do mito e narra uma realidade que se estende da vida privada dos moradores de Barranquilla a toda a condição humana. Em dezembro chegavam as brisas contém múltiplas vozes tecidas em torno das contradições do mundo feminino, em um universo narrativo que aborda as amarras de uma existência burguesa tradicional na mesma medida que suas formas de representação. Originalmente publicado em 1987, o livro explora a sensualidade e a liberdade feminina tendo como pano de fundo as ideologias dominantes em uma cultura que pune o prazer. Nele, conhecemos Lina que, já adulta e vivendo em Paris, relembra o passado e a história de três mulheres na...

Sara Mesa: ciúmes, cães e a montanha que os observa

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Por Aloma Rodríguez Nat, a protagonista de Um amor , deixou sua vida urbana para trás e se mudou para uma pequena cidade, La Escapa, porque viver é mais barato. A casa é suja, tem uma torneira vazando, mosquitos e é pequena. O caseiro, como esperado, é grosseiro, e a mulher guarda um pouco de medo dele. Ainda assim, Nat tenta se concentrar em seu novo trabalho como tradutora de literatura e encontrar o que quer que tenha sido sua missão com a escolha realizada pela nova vida: uma espécie de reencontro consigo mesma. Este romance de Sara Mesa (Madri, 1976), como o anterior, Cara de pan , explora preconceitos e brinca com as expectativas que gera no leitor a história em construção pela narrativa.   Nat é uma estranha no povoado para o qual se muda, presidido pela onipresente montanha El Glauco. Ela luta com as palavras de sua tradução, uma peça de uma escritora que mudou sua língua materna para o francês (Ágota Kristof?). A tradução serve como um pretexto deliberadamente desperdiçado...