Kazuo Ishiguro, Prêmio Nobel de Literatura 2017



“Num tempo em que impera a incerteza sobre os valores do mundo, seus líderes e sua segurança”, o escritor britânico Kazuo Ishiguro, galardoado com o Prêmio Nobel de Literatura em 2017, espera que o feito de alguém como ele a receber esta “magnífica honra” contribua para “alentar, embora de uma maneira pequena, as forças da benevolência e da paz”.

O autor de Os vestígios do dia recorda como soube da recepção do Nobel: “Estava sentado na cozinha, escrevendo uns e-mails e preparando-me para uma refeição matinal, quando meu agente me ligou e disse que acreditava ouvir anunciar que haviam me dado o Nobel. Mas, nestes tempos de falsas notícias, não acreditei até receber o contato da BBC”. E reafirma um discurso comum a outros ganhadores. “Nunca acreditei ser um candidato. Pensava que era algo apenas para os autores mais velhos e isto me fez compreender que já sou um. Foi uma verdadeira surpresa”.

O prêmio para Ishiguro é uma surpresa ainda porque seu nome não figurava nas listas de apostas. É o segundo escritor consecutivo em língua inglesa a ganhar o galardão, depois de Bob Dylan no ano passado. Mas o reconhecimento de Ishiguro é sem dúvidas menos controvertido e, também, menos ousado, por se tratar de um escritor com amplo reconhecimento e que conta com outros prestigiados prêmios na cena literária, como o Man Booker Prize.

Também parece ser um ponto de retorno à reta; há dois anos a Academia Sueca havia apostado em romper as fronteiras da literatura ao premiar Svetlana Aleksiévitch, uma jornalista, e Bob Dylan, um compositor. Com Ishiguro, regressa ao lugar convencional, porque o escritor é um romancista; um romancista que depois dos sucessos das adaptações para cinema de dois de seus romances chegou a um amplo público ao redor do globo.

A justificativa do júri sublinha que “seus romances de grande força emocional [...] descobrem o abismo sob nosso ilusório sentido de conexão com o mundo”. E já desde o primeiro título, Uma pálida visão dos montes, a prosa de Ishiguro tem explorado os conflitos entre a experiência e a memória. Tema que se mostra ainda mais evidente em Os vestígios do dia, seu terceiro romance, título com o qual ganhou o Man Booker Prize e em cuja adaptação cinematográfica Anthony Hopkins interpretou o mordomo que serve a um aristocrata inglês nos anos anteriores à Segunda Guerra Mundial.

“Em minha escrita tenho olhado os indivíduos que sofrem enfrentando-se às recordações de seu passado, algo aplicável também às comunidades e às nações. Como escritor, uma das coisas que me fascinam é determinar quando é melhor recordar e quando é melhor esquecer”, disse numa coletiva em Londres logo depois do anúncio do Nobel.

Nascido no dia 8 de novembro de 1954 em Nagasaki, no Japão, Kazuo Ishiguro mudou-se aos cinco anos com sua família para Surrey, Inglaterra, onde seu pai foi trabalhar como oceanógrafo. Sua porta de entrada ao universo literário foram as aventuras de Sherlock Holmes, que leu quando criança na biblioteca local. Estudou literatura inglesa e filosofia na Universidade de Kent. Depois cursou a prestigiada pós-graduação em escrita criativa da Universidade de East Anglia, onde teve como professores nomes como Malcolm Bradbury e Angela Carter.

Escritor audacioso e meticuloso, é autor de sete romances, escritos em inglês, e publicados no Brasil entre a Editora Rocco e Companhia das Letras. O mais recente, O gigante enterrado, explora também, a partir do gênero fantástico, como a memória se relaciona com o esquecimento, a história com o presente e a ficção com a realidade. Também escreveu contos (Noturnos) e roteiros para o cinema (A condessa branca) e a televisão. Admirador de Bob Dylan, seu predecessor na lista dos Nobel, toca violão e escreveu letras para a cantora de jazz Stacey Kent em 2007.

Ishiguro e o sonho de ser cantor; aqui, aos vinte e poucos anos em Broadoak. O escritor ainda toca violão e vários outros instrumentos. 

Na justificativa da Academia Sueca se recorre, para descrever o estilo de Ishiguro, a Jane Austen, Franz Kafka e Marcel Proust. “São escritores importantes para mim”, admite. “Mas Charlote Brontë é a romancista vitoriana que mais me influenciou. Kafka abriu muitas possibilidades. Uma parte de Proust é chata e esnobe, mas quando boa é absolutamente incrível”.

Com Martin Amis, Ian McEwan, Hanif Kureishi, Salman Rushdie ou Julian Barnes, Ishiguro pertence à geração de romancistas britânicos que, nos anos 1980 do século passado, renovaram a narrativa anglo-saxônica. Seu sucesso comercial proporcionou-lhe uma popularidade que transcendeu os estreitos limites do universo literário e que o escritor sempre tem tratado derrubar. Não por isso tem sido recluso. Mas, vez ou outra aparece em artigos no jornal a falar sobre temas da atualidade como o Brexit, do qual tem sido um ácido crítico.

“Não sou jornalista, meu papel não é comentar a atualidade mas dar um passo para trás. Agora, estamos em tempos incertos. Logo, todos temos a responsabilidade de ser parte do que acontece no mundo. Uma de nossas tarefas é determinar onde começam e terminam nossas responsabilidades públicas. Muita gente perdeu a confiança e sofre para encontrar seu caminho. Confio que a literatura sirva para esse reencontro”. [Pablo Guimón] 

O primeiro Prêmio Nobel da lista Granta

Kazuo Ishiguro tem a honra de ser o primeiro entre os da primeira e já célebre lista da revista Granta dos melhores jovens escritores britânicos a ganhar a mais alta honraria da literatura. A lista foi publicada em 1983 e ele tinha 29 anos. Compartilhou o ranking com Shiva Naipaul, o irmão mais novo do Nobel de Trinidad e Tobago, V. S. Naipaul. Shiva, entretanto, morreu tragicamente em 1985, justamente quando seu prestígio estava em alta.

A primeira lista da Granta. De 1983. A primeira fila de trás para frente (da esquerda para a direita): William Boyd, Adam Mars-Jones, Julian Barnes, Pat Barker e Clive Sinclair; a segunda fila: Buchi Emecheta, AN Wilson, Christopher Priest, Ian McEwan e Martin Amis; a terceira: Shiva Naipaul, Kazuo Ishiguro, Ursula Bentley, Philip Norman, Graham Swift, Rose Tremain, Maggie Gee and Lisa St Aubin de Terán. Photograph: Snowdon/Camera Press
  
Tudo remonta a 1979, quando dois jovens estadunidenses, Bill Buford e Pete de Bolla se tornam reconhecidos com a revista literária estudantil de Cambridge, cujo nome Granta evoca o antigo designativo do rio Cam que corta a cidade. Foi um motim literário de primeira ordem. Outsiders e além de tudo estadunidenses à mando de uma revista britânica centenária no seio do poder intelectual inglês. Os jovens editores pretendiam romper com a persistência de um modelo antiquado e complacente no romance inglês e abrir um diálogo transatlântico com a jovem literatura estadunidense que não frequentava muito os espaços no Reino Unido. Assim, o primeiro número desta nova era se intitula A nova literatura dos Estados Unidos e para botar lenha na fogueira, o terceiro anuncia com toda audácia A morte do romance inglês! Pode se imaginar como foi recebido tamanho atrevimento.

Foram, entretanto, as esperadas e debatidas listas de escritores publicadas a cada década o que deu destaque à Granta no mundo inteiro. As indicações revelariam muitos escritores e os colocariam entre as principais vozes de sua geração. Depois da provocação do obituário do romance inglês, a revista sugeriu uma renovação com a seleção de 1983 que revelava o agora Prêmio Nobel Ishiguro, Salman Rushdie, Ian McEwan, Martin Amis, Julian Barnes, Rose Tremain, William Boyd, Graham Swift e Pat Barker, entre outros.

Ishiguro, graças à sua juventude, foi eleito na segunda lista, publicada uma década depois. Naquela ocasião dividiu espaço como Alan Hollinghurst, A. L. Kennedy, Hanif Kureishi, Jeanette Winterson (que este ano também apareceu nas listas de apostas para o Nobel), Will Self, Bem Okri, Esther Freud e Lawrence Norfolk.

Em sua biografia de 1983 se diz que o autor “vive em Londres onde dorme durante o dia e ingere quantidades descomunais de comida à noite”. Também que é descendente de samurais. Adquiriu a cidadania britânica em 1982, a tempo de ser incluído na lista do ano seguinte. [Valerle Miles]

Ar fresco no romance inglês

A estreia de Kazuo Ishiguro foi com Uma pálida visão dos montes em 1982, curto romance que contava a vida fora do país de uma mulher japonesa de meia-idade, Etsuko, e como enfrentava as memórias de sua juventude no Japão e o crescimento de suas filhas, Keiko e Niki, na Inglaterra. A evocação de seu passado japonês e o impacto emocional que significa para Etsuko afrontar as dificuldades e o fracasso da adaptação de Keiko ao seu novo país constituem aspectos fundamentais da nova narrativa britânica das últimas quatro décadas.

Kazuo Ishiguro, em sua casa em Londres, 2009. Foto: Isabelle Bocco-Gibod

Nesse sentido, Ishiguro pode ser entendido como representante genuíno desse conjunto riquíssimo e diversificado de escritores em língua inglesa que, procedentes de mundos distantes, desenvolvem suas carreiras artísticas no Reino Unido e contribuem para renovar a narrativa daquele país.

Recordemos que o grande romance que rompe o ambiente mais contido do romance tradicional (e inclusive o das inovações formais dos anos sessenta e setenta) é Os filhos da meia-noite, de Salman Rushdie, publicado em 1981. A partir dessa obra, são múltiplos os romancistas, em sua maioria procedentes das antigas colônias do Império Britânico (embora não seja esse o caso exatamente de Ishiguro), que aportam novos ares ao ambiente descrito por muitos críticos na Europa e América como “sufocante” e “fechado” da ficção britânica. Logo, não é estranho que um dos primeiros escritores a felicitar Kazuo Ishiguro pela obtenção do Nobel tenha sido o próprio Rushdie, que se declara velho amigo seu e a quem diz admirar desde que leu pela primeira vez Uma pálida visão dos montes.

Não foi apenas Rushdie, mas outros muitos aportaram ao romance inglês dos últimos quarenta anos todo um arsenal de paisagens, personagens, ambientes, geografias, aromas e cores que converteram a literatura nacional num atrativo internacional. Ishiguro é um caso exemplar. Sua grande virtude reside nessa enorme capacidade que tem para diversificar e inovar e para resistir ao isolamento como autor “representativo” de certo grupo de escritores que escrevem e publicam na Inglaterra o nos Estados Unidos.

Assim, nessa mesma década dos anos oitenta, mudou por completo o registro japonês de seus primeiros romances (Uma pálida visão dos montes e Um artista do mundo flutuante, de 1986) e surpreendeu a todo mundo com Os vestígios do dia, o relato sobre um mordomo inglês.

Semelhante ductilidade adaptativa se mostrou para muitos leitores ao descobrir um escritor de imaginação singular, dono de um domínio estilístico admirável, que nos anos posteriores levaria a recriar ambientes e tempos históricos muito diversos, desde a cidade indeterminada e meio kafkiana da Europa central em O desconsolado (de 1995), à Shangai do início do século XX e da Segunda Guerra chino-japonesa de Quando éramos órfãos (2000) e já nos dois últimos romances as visões muito distantes da Inglaterra: a de um país distópico e inquietante no que talvez seja sua melhor obra, Não me abandone jamais (2005) ou o mais recente O gigante enterrado (2015), situado no ambiente fantástico de monstros e bruxas da Inglaterra saxã posterior ao rei Arthur.  

É verdade que nem sempre tais mudanças têm satisfeito os críticos ou seus leitores de costume, mas é também inquestionável que estamos ante um escritor de muito talento e com força suficiente para enfrentar novas linhas, renovando sempre, com novos ares o romance contemporâneo. [Fernando Galvan]

Uma literatura do desconcerto

O Prêmio Nobel distinguiu este ano um autor que é escritor de literatura entendida no seu uso mais comum, de textos para leitura, com milhares de leitores, traduzido até à saciedade e respeitado na comunidade literária, inimigo de tendências e contrário a modismos e excepcionalidades, capaz de dar aos seus editores o que quer que seus leitores leiam e não o que dizem que seus leitores querem ler. E, não é o caso de que Kazuo Ishiguro não siga tendências; ocorre que as segue à sua maneira, as elege quando não estão vigentes e as restitui. Seguramente porque não lhe interessam como moda, mas como técnica.

Kazuo Ishiguro. Foto: Rick Eglinton 

Não gosta de fórmulas mágicas, nem lhe apetece copiar a si mesmo, prefere o tom do desconcerto, da surpresa do inesperado, e tampouco se sente à vontade anotando em sua agenda com avanço a data de seu novo livro; prefere entregá-lo quando lhe apetece, fugindo daquelas determinações publicitárias para publicar apenas quando sabe que tem algo a contar. Cada romance seu constitui a consagração de uma forma narrativa distinta e é resultado de um minucioso trabalho de criação que desfruta do virtuosismo técnico: leia-se narrador não fiável, paródia, hibridismo ou maravilhosa heterogeneidade no estilo.

Em Um artista do mundo flutuante (1986) exerce a vez de cronista social do pós-guerra em sua devastada cidade natal, Nagasaki. Triunfou com Os vestígios do dia (1989), quando a Geração Granta de seus colegas McEwan, Amis ou Barnes triunfava também, mas ele trinfou fazendo jogos com as cartas do baralho da convenção e escreveu um romance vitoriano do século XX explicada de dentro, com suspense final, nutritivos acréscimos e um mordomo que não é precisamente o assassino mas o detetive. Jogar com a tradição e ganhar na rua.

Quando éramos órfãos (2000) é um exercício de falso romance negro e de novo acrescenta ao texto uma espécie de detetive, aqui, um tal Banks que ao invés de emular Sherlock Holmes parece imitar Indiana Jones perdido num labirinto kafkiano de máfias chinesas, tráfico de ópio e a ascensão do fascismo como as bolhas do champanhe num bordel de Shangai.

Na narrativa de Ishiguro, as aparências enganam, se apenas o que interessa é a trama o único que na verdade importa é a construção da genuína identidade do protagonista através de seu processo mental, descrito com precisão jamesiana e capaz de sustentar o romance. Exercícios de estilo elevados à enésima potência narrativa.

Em Não me abandone jamais (2005), o detetive é o leitor, obrigado a descobrir um mistério sutil mas primordial que afeta a raça humana e converte o romance num relato de ficção-científica onde convivem Blade Runner, aquele mundo tão feliz de Huxley, O show de Truman e a biotecnologia. A Ishiguro interessa-lhe as convenções, mas para poder rompê-las ou reconvertê-las as rejuvenesce com frequência e em ocasiões aumenta também seus elementos.

Sua literatura gira em torno à orfandade, à identidade e à deficiência do narrador, paradoxalmente debilitado por sua própria narração. Também há nesse sistema o sentimento do desterrado e da necessidade da memória redentora, como acontece em Uma pálida visão dos montes (1982), sua obra-prima, situada entre sua adoção britânica e sua origem japonesa. Em O gigante enterrado (2015), o último romance saído de seu laboratório de gêneros, não sabemos se é um revival ou um vintage da narrativa do ciclo artúrico, mas é um extremo, fleumático mas exitoso experimento do romance histórico na Inglaterra medieval. Cavaleiros obsoletos e ogros agressivos.

Todos os romances de Ishiguro parecem querer se aventurar num terreno novo, em ocasiões oníricas e em outras naturalistas. E o enigma rondando incansável entre suas páginas, como a elipse e a primeira pessoa, que abandona em seu último romance. Poderá ser mais ou menos, mas nunca nada é torpe na sua literatura, nem precipitado, nem cômodo, nem conveniente com o comercial. O estranho humor de seus narradores, a evidência de suas ações e o modo que nos conta que não se acomoda ao que está acontecendo são marcas suas. A Ishiguro encanta-o trocar gato por lebre e julgar a subversão dos modos narrativos, a transcodificação, assim que não é de estranhar que seus fascinantes mas trapaceiros castelos de naipes por momentos suscitem no leitor a sensação de que as coisas não se encaixam, de estar sendo enganados por um narrador consciente de si mesmo, ao estilo de Nabokov. [Javier Aparicio Maydeu]

Ligações a esta post:

* Estes textos foram publicados no jornal El País e traduzidos aqui.




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