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Um artista do mundo flutuante, de Kazuo Ishiguro

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Por Pedro Fernandes  Há uma passagem de  Um artista do mundo flutuante  importante de ser recuperada aqui porque, em parte, justifica a existência do próprio romance. Não é o caso, ressalte-se, que estejamos numa obra de cariz metaficcional – ao menos não diretamente. Preocupado com a reputação da família para o bom casamento da filha caçula, Noriko, Masuji Ono revisita algumas das figuras de Kawabe, aquelas mais próximas no seu passado. Numa das ocasiões, encontra-se diante de uma pintura que julga ser do amigo Kuroda; o jovem rapaz que o recebe responde, meio acanhado, que se trata de um trabalho de sua autoria. Admirado, o protagonista afirma que, antes de desenvolver um estilo que o defina, todo artista começa por imitar bem aos seus mestres.  Esta passagem serve para dizer o mesmo de Kazuo Ishiguro.  Um artista do mundo flutuan te...

Ao Nobel da música

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Por Diego A. Manrique Do que tem sido falado sobre Kazuo Ishiguro, sua relação com a música é apresentada apenas como uma primeira vocação: o rapazinho de Nagasaki exerceu o papel de compositor. Mas, o fato é que essa face não foi superada. Ainda compõe letras para canções que são gravadas e vendem. É possível entender esse silêncio: em certos ambientes é visto como extravagante que um alguém da literatura gaste sua energia em assuntos que consideram banais. Nas biografias de José Manuel Caballero Bonald, prêmio Cervantes de 2012, só se explora o dado nada comum de que foi discográfico. Isto é, empregado de um estúdio de discos durante vários anos, responsável pela produção e-ou lançamento de discos, inclusive diretor de um selo fonográfico chamado Pauta. Kazuo Ishiguro não chegou a essas alturas. Preserva-se uma ou outra fotografia sua dos anos setenta, cabeludo e rodeado de violões. Tinha um posto no serviço social em Londres e dispunha tempo livre para polir sua...

Nem autor nem autoridade

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Por Luis Magriyà Ao longo do século XIX, o gênero romanesco foi estabelecendo uma aliança entre autor e autoridade que, já propiciada pela etimologia, passou pelas previsíveis fases de confiança, presunção, ceticismo e burla sem nunca renunciar um fim; é curioso, por isso, que agora já topicamente chamamos “o controle férreo do narrador”. De fato, tais fases não foram tão sucessivas como simultâneas, porque os romancistas, conscientes de ter o “controle”, se permitiam alternar, até numa mesma obra, o crédito com o descrédito, a satisfação com a frustração, a bravata com o ridículo. Como nada deles escapa, embora de fato se escapasse, podiam fazer ambiciosas histórias sérias como Balzac ou Zola, Tolstói ou Dostoiévski, engraçadas como Thackeray ou Dickens (e Dostoiévski também), ou delicadíssimas como Turguêniev... ou delicadamente cruéis como Flaubert. A consciência de que sim, pelo amor de Deus, sempre há algo que escapa talvez tenha sido responsável pelo caso de Tchek...

Kazuo Ishiguro, Prêmio Nobel de Literatura 2017

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“Num tempo em que impera a incerteza sobre os valores do mundo, seus líderes e sua segurança”, o escritor britânico Kazuo Ishiguro, galardoado com o Prêmio Nobel de Literatura em 2017, espera que o feito de alguém como ele a receber esta “magnífica honra” contribua para “alentar, embora de uma maneira pequena, as forças da benevolência e da paz”. O autor de Os vestígios do dia recorda como soube da recepção do Nobel: “Estava sentado na cozinha, escrevendo uns e-mails e preparando-me para uma refeição matinal, quando meu agente me ligou e disse que acreditava ouvir anunciar que haviam me dado o Nobel. Mas, nestes tempos de falsas notícias, não acreditei até receber o contato da BBC”. E reafirma um discurso comum a outros ganhadores. “Nunca acreditei ser um candidato. Pensava que era algo apenas para os autores mais velhos e isto me fez compreender que já sou um. Foi uma verdadeira surpresa”. O prêmio para Ishiguro é uma surpresa ainda porque seu nome não figurav...