Boletim Letras 360º #364



DO EDITOR

1. Na semana seguinte, o leitor passará a encontrar textos de novos colaboradores aqui no Letras in.verso e re.verso. É a semana de estreia dos nomes selecionados da última chamada realizada em janeiro de 2020. Esteja atento. Leia, comente, compartilhe – é sua maneira de ajudar o trabalho desses autores.

2. Este boletim de Carnaval chega radicalmente light pela data em questão. Os embalos da vida pessoal, incluindo viagens, me levou (coisa que agora consigo sem culpa ou remorso) a não conseguir redigir tudo antecipadamente. Muito do material recolhido nesta edição foi copiado e revisado no celular – o que é duas vezes mais trabalhoso. Não deixo, entretanto, de honrar o compromisso. Obrigado pela companhia e, boas leituras!

Publica-se pela primeira vez edição definitiva do único romance de Otto Lara Resende.


LANÇAMENTOS

Conjunto de textos escritos por Goethe ganha tradução integral pela primeira vez no Brasil.

Divã ocidento-oriental é o resultado do movimento de Goethe em direção ao Oriente, “de onde há milênios têm chegado a nós tantas coisas grandiosas, boas e belas”. Este desejo teve sua gênese no encontro do poeta alemão com o Diwan — “coletânea”, “ciclo” — do persa Hafez. Reunindo mais de 500 gazéis (poemas curtos e líricos, de temática mística ou amorosa), o Diwan de Hafez circulava pelo Oriente desde o século XIV. Quando a primeira tradução integral deste conjunto chega a Goethe, ele é arrebatado por sua leitura e tomado de uma necessidade de responder produtivamente à “poderosa aparição” de Hafez, a quem Goethe passou a considerar um “gêmeo”. O alemão, então com 64 anos, decide renovar-se como criador e empreender sua viagem literária rumo ao Oriente. Por meio de leituras, pesquisas e traduções, o poeta se transplanta ao antigo mundo das Mil e uma noites, às civilizações dos livros sagrados e suas tradições poéticas. Divã ocidento-oriental é o relato dessa imersão. Esta tradução é a primeira vez em que a íntegra da poesia (aqui em versão bilíngue) e da prosa que compõem a obra aparecem conjuntamente em português. O trabalho foi objeto de doutorado do tradutor e pesquisador Daniel Martineschen. O tradutor também assina um posfácio que conta mais sobre a escrita do Divã por Goethe, a história das traduções da obra, e a história da presente tradução. O livro é publicado pela Estação Liberdade.

Do mundo latino, uma reflexão exemplar sobre nossa humanidade.

Lá nos inícios literários da antiga Roma, dois séculos antes do nascimento de Cristo, Públio Terêncio Afro (Publius Terentius Afer) foi o mais elegante escritor latino, reputação que resguarda ainda hoje, dada a força de sua fascinante poesia. Dono de um estilo sofisticado e capaz de um humor tão mordaz quanto sutil, suas comédias podem trazer ao teatro deste mundo atual uma exemplar reflexão sobre nossa humanidade, seja sob o viés da tradição humanística em que estão arraigadas, seja por sua verve literária e performativa. O enredo de “Os Adelfos” aborda a educação da juventude, tema ainda candente para os afiliados aos mais diversos partidos ou pontos de vista. A trama é cheia de reviravoltas e quiproquós, amores e traições, essências e aparências, como convém ao gênero de comédia de costumes. O tradutor Rodrigo Tadeu Gonçalves ousa dar ao texto de Terêncio uma forma poética que emula rítmica e performativamente em português os complexos versos latinos originais, alcançando uma tal cadência e síntese, tão singularmente poéticas, que transformam sua tradução em um redizer/tresdizer cheio de novidade. O livro sai pela Autêntica Editora.

A edição definitiva do único romance de Otto Lara Resende.

O braço direito é descrito como um romance magistral. Laurindo Flores é o zelador do Asilo da Misericórdia, na fictícia Lagedo, pequena cidade em Minas Gerais. Em seu diário, ele descreve seu dia a dia num casarão condenado, prestes a desabar, cuidando de crianças órfãs. Ao mesmo tempo que é capaz de praticar gestos covardes, e até mesmo atrozes, o protagonista alimenta o sonho de apagar seus erros e alcançar a redenção. “Poderoso e estranho”, com linguagem “habilmente construída pelo romancista”, nas palavras do professor Antonio Candido, O braço direito convida o leitor a mergulhar nos pensamentos de uma personagem tacanha e conhecer um universo engenhosamente lapidado, feito de ressentimento e insignificância. O novo volume inclui posfácio da escritora Ana Miranda, que trabalhou arduamente, junto com o autor, na revisão final do livro. A edição é da Companhia das Letras.

Nova edição de Emma — o romance com uma heroína imperfeita mas encantadora é frequentemente visto como a obra mais completa de Jane Austen.

Emma Woodhouse, bonita, inteligente, rica e solteira, está perfeitamente feliz com sua vida e não vê necessidade de se apaixonar ou de se casar. Nada, no entanto, a agrada mais do que interferir na vida romântica dos outros. Mas quando ela ignora as advertências do sr. Knightley e tenta arranjar um marido para sua amiga e protegida Harriet Smith, seus planos — tão cuidadosamente elaborados — não saem como ela imaginava. Com ironia e delicadeza, Jane Austen explora em Emma as responsabilidades sociais delegadas às mulheres, a falta de controle sobre o próprio destino e, claro, a força do amor. A edição que sai em abril pela Penguin / Companhia conta com tradução de Julia Romeu, prefácio de Sandra Guardini Vasconcelos e introdução de Ronald Blythe. O livro tem uma nova adaptação para o cinema — com roteiro de Eleanor Catton e estrelado por Anya Taylor-Joy.

REEDIÇÕES

Livro em que Eduardo Galeano analisa a história da humanidade sob a ótica dos desvalidos.

Em Espelhos – uma história quase universal, Eduardo Galeano analisa a história da humanidade – de sua origem aos dias de hoje – sob a ótica dos desvalidos, dos esquecidos da história oficial. Em tom de crônica poética, o livro traz um inquietante panorama de acontecimentos e de transformações do mundo, misturando o passado e o presente. São quase 600 histórias breves que, segundo o próprio Galeano, proporcionam ao leitor viajar através de todos os mapas e de todos os tempos, sem limites, sem fronteiras. Com tradução de Eric Nepomuceno o livro sai pela L&PM Editores.

Lançado em 1952, esta reunião de nove contos marca a estreia de Otto Lara Resende na literatura.

Em seu primeiro livro, o cultuado jornalista, prosador e frasista revela sua verve incomparável ao tratar de temas como violência, desigualdade social, preconceito e a mesquinharia do nosso cotidiano. Sua escrita combina o lirismo das paixões não realizadas com a aspereza das situações banais, sem nunca perder de vista o fulgor intelectual e a curiosidade por tudo aquilo que diz respeito à natureza humana. No posfácio desta edição de O lado humano, a professora Clara de Andrade Alvim chama atenção para o contraste que aparece tanto na escolha dos temas quanto na linguagem dos contos, em especial no texto que dá nome ao livro: “Se O lado humano constitui-se, até certo ponto, em um exercício de realismo, de domínio do escritor sobre seu assunto e sobre a técnica da narrativa, noutra dimensão, ele também consiste em uma espécie de fábula, que contém, é claro, uma moral”.

OS LIVROS POR VIR

Leitores brasileiros terão traduzida a prosa completa de Dostoiévski. 

A Editora 34 prepara para junho Escritos da casa morta; o livro do escritor russo é traduzido por Paulo Bezerra e com ele a casa editorial encerra a publicação da prosa completa de Dostoiévski no Brasil. Antes disso, publica-se entre março e abril, Notas de um jovem médico, de Mikhail Bulgákov, com tradução de Érika Batista e, para maio, pelas mãos de Irineu Franco Perpetuo, uma nova tradução de Anna Karenina, de Tolstói e de Meninas, de Liudmila Ulítskaia. A mesma editora se prepara ainda para ampliar a presença da literatura russa no país com a publicação de uma nova safra de obras e escritores mais ou menos conhecidos do leitor brasileiro.

* Excepcionalmente, não se publica nesta edição as demais seções deste Boletim.

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