Memória de minhas putas tristes, de Gabriel García Márquez

Por Pedro Fernandes




Não foi esse o primeiro livro do Gabriel García Márquez que tive a oportunidade de ler. Como também não foi Cem anos de solidão. Mas sobre o primeiro livro que li do escritor colombiano posso falar noutra ocasião. Para agora falo desse que é, sem dúvidas, um dos mais poéticos do romancista. É verdade que, quem leu o livro que deu ao escritor colombiano o título do Nobel (mesmo sabendo que o prêmio é dado pelo conjunto da obra, todos sabemos que há nesse conjunto o livro, aquele que marca o que chamaríamos de ponto alto na trajetória de todo escritor) - o já citado Cem anos de solidão - ao ler este Memória de minhas putas tristes perceberá logo um certo desnível quanto a arrumação linguística do texto. Deixe que eu me explique. É que aqui linguagem é límpida, sem certo barroquismo que se nota no seu estilo literário, o que não o faz, isso deve ficar claro, ser um menor entre os outros livros do conjunto da obra de Gabo.

Memória... tem sua base noutra obra literária, a do escritor japonês (também Prêmio Nobel de Literatura) Yasunari Kawabata, A casa das belas adormecidas, influência marcada desde sua epígrafe. O romance em questão, considerado uma das entregas mais atrevidas do seu autor, toca no tema da solidão, da velhice, da incomunicação e do desejo. A construção desse romance e da temática delicadamente desenhada pela pena de Kawabata enfeitiçou Gabriel García Márquez ao ponto de em duas ocasiões lhe render uma homenagem: uma, com o romance aqui comentado, outra, no “O avião da bela adormecida” que está incluído em Doze contos peregrinos, uma peça encantadora em que um viajante tem por companhia numa viagem de avião a mulher mais bonita que nunca viu, mas deve contentar-se com observá-la a dormir ao seu lado.

O enredo é simples. Memória de minhas putas tristes é um livro sobre a solidão, sobre a impotência (sexual e existencial). Relata a história de um velho que sempre foi medíocre em tudo que fez: teve uma vida sem grandes realizações e fechado ao amor, ou pelo menos à ideia usual que se tem do sentimento. Aposentado, leva uma vida simples num casarão herdado dos pais e cujas únicas atividades se resumem a escrever uma crônica semanal para um jornal local e algumas eventuais resenhas de apresentações de música clássica. Ao completar 90 anos, decide pedir para uma velha conhecida cafetina uma jovem virgem por uma noite. É essa ideia, por hora sem sentido, que desencadeará uma série de circunstâncias (reais, no plano da ficção, ou não, já que o terreno aqui pisado é o da memória) que mudará a vida desse velho. O livro, constitui-se, logo, como um jogo de memórias, um relato do ano que segue a partir dessa noite (possível) com essa jovem.

A insensatez, como vista em toda dose de amor platônico, constitui-se na matéria que rege a ordem desse envolvimento. O estado da personagem confunde-se com um certo onirismo, em que resistem uma paixão a modos do Romantismo - a jovem nunca aparece no plano textual e deixa dúvidas se ela existiu ou não passou de uma fantasia na cabeça do velho. É tomado por esse sentimento que o deixa à beira do ridículo, que a personagem passa a incorporar a desordem amorosa nos textos que veicula no jornal. É aqui que reside o ponto-chave dessa narrativa. As palavras de amor jogadas ao público põem para o plano interno do romance a dúvida da existência ou não da garota virgem que divide a cama com o velho cronista.

Ao que me parece esse romance figura na lista daqueles romances envoltos por uma memória bacenta  que põe em dúvidas a sua própria ordem e merece portanto ser lido como um passeio e seus volteios pelos vãos da psique. Mesmo não sendo, da produção bibliográfica do escritor colombiano, a que melhor o represente, é um romance de leitura indispensável porque mais uma vez aí se mostra a capacidade inventiva e criativa de García Márquez, sem dúvidas um dos melhores escritores da literatura latino-americana do século XX. 


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