Boletim Letras 360º #379

DO EDITOR

1. Cara leitora, caro leitor, obrigado pela companhia com o Letras. Abaixo estão as notícias divulgadas durante a semana em nossa página no Facebook e a atualização das demais seções deste Boletim com as recomendações de leitura, assuntos de arredores do campo de interesse do blog e a sugestão de visita a algumas das publicações apresentadas aqui. Boas leituras!

Ray Bradbury. Obra reúne os textos fundadores de Fahrenheit 451.


LANÇAMENTOS

Uma seleção de escritos de George Orwell, extraídos de seus romances, ensaios, cartas e reportagens, reúne de forma única os pensamentos do autor de 1984 sobre o tema da verdade.

Na semana da posse de Donald Trump, quando sua assessora justificou as falsas estimativas do presidente sobre o número de presentes no evento utilizando a expressão “fatos alternativos”, livros de George Orwell como 1984 e A revolução dos bichos foram catapultados ao topo da lista de mais vendidos nos Estados Unidos. Numa realidade dominada pelas fake news, as reflexões de Orwell sobre a verdade se tornam cada vez mais urgentes. “Se não for combatido, o totalitarismo pode triunfar em qualquer parte”, escreveu o autor britânico. E o totalitarismo, na visão de Orwell, fundamenta-se em uma noção de “mentira institucionalizada”, que nega qualquer possibilidade de liberdade de pensamento. Em Sobre a verdade, estão reunidos de forma inédita textos que têm como eixo a ideia da verdade. A seleção abrange trechos de toda a produção de Orwell, do seu primeiro livro, Dias na Birmânia, de 1934, até seu romance derradeiro, 1984, publicado em 1949, um ano antes da sua morte. O apagamento da verdade é a chave para entendermos a obra de Orwell e, principalmente, o mundo atual. Se a verdade morreu, nunca foi tão importante dizer: viva a verdade! A tradução é de Claudio Alves Marcondes e a edição da Companhia das Letras.

Livro de Gabriel García Márquez revela devoção à imprensa.

“Não quero ser lembrado por Cem anos de solidão nem pelo Prêmio Nobel, e sim pelo jornal. Nasci jornalista e hoje me sinto mais repórter do que nunca. Isso está no meu sangue, me atrai.” Gabriel García Márquez, uma das figuras mais importantes e influentes da literatura universal e ganhador do prêmio Nobel de Literatura em 1982, deixou bem claro, nos últimos anos de vida, que o jornalismo sempre foi sua maior paixão, a mais duradoura. Além de romancista, foi contista, ensaísta, crítico cinematográfico, roteirista e, principalmente, um intelectual comprometido com os grandes problemas do nosso tempo – em especial com aqueles que afetavam sua amada Colômbia e a América Hispânica em geral. Figura máxima do chamado realismo mágico, em que história e imaginação urdem uma literatura viva que respira por todos os seus poros, Gabo, como era conhecido, foi definitivamente o criador de um dos universos narrativos mais densos de significado com que a língua espanhola nos brindou no século XX. O escândalo do século é a amostra mais representativa da tensão narrativa – entre jornalismo e literatura – que permeou toda a trajetória de García Márquez como repórter. Cobrindo quatro décadas, esta deliciosa viagem através de meia centena de textos mostra como “o melhor ofício do mundo” está no coração da obra do Prêmio Nobel colombiano. Com seleção de textos de Cristóbal Pera e prólogo de Jon Lee Anderson, esta antologia contém textos indispensáveis, que vão desde as reportagens escritas em Roma sobre a morte de uma jovem italiana, acontecimento que possibilitou ao autor pintar um afresco incomparável das elites políticas e artísticas da Itália, até crônicas sobre o tráfico de mulheres de Paris para a América Latina ou apontamentos sobre Fidel Castro ou João Paulo II. Na coletânea O escândalo do século encontramos também fragmentos precoces, nos quais aparecem pela primeira vez Aracataca e a família Buendía, ao lado de artigos que contemplam a política, a sociedade e a cultura sob a luz sólida, profunda e experiente desse grande contador de histórias. O escândalo do século traz cinquenta textos de García Márquez, publicados em jornais e revistas entre 1950 e 1984, escolhidos em meio à monumental Obra jornalística em cinco volumes, que proporcionam aos leitores de ficção do autor uma amostra de seu trabalho na imprensa, fruto do ofício que ele sempre considerou base de sua obra. Em todos esses textos detectamos uma voz característica e uma narrativa única que já encantaram incontáveis leitores no mundo todo.

Obra resgata um dos principais nomes da literatura brasileira de início do século XX.

Cecília se rebela contra sua vida na “masmorra”, das amarras patriarcais de um casamento insosso e do duplo jugo da mãe ambiciosa e da sogra conservadora: a casa que divide com a sogra ciumenta, o marido insípido e dois filhinhos. Essa “Madame Bovary da rua das Marrecas sonhava com uma existência maior, a independência da mulher elegante e rica, que sai só, vai a teatros e alimenta a corte ardente de muitos admiradores”. Um retrato desabusado do que era ser mulher em uma sociedade (ainda mais) dominada pelos homens, escrito por uma das mais corajosas e influentes jornalistas do começo do século XX, convenientemente “esquecida” entre os grandes escritores brasileiros. Carmen Dolores é o pseudônimo mais conhecido de Emília Moncorvo Bandeira de Melo, uma das mais representativas e influentes escritoras do início do século XX, pioneira na luta dos direitos femininos. Em uma época em que mulheres não podiam votar, Emília tratou de temas com escrita incisiva e corajosa como o direito ao divórcio, educação e acesso igualitário ao mercado de trabalho. A publicação é do selo Imã Editorial.

A saga de uma família russa que atravessa duas guerras mundiais na esperança de reunir novamente.

O renascimento em outras terras é primeiro romance da escritora Silvia Gershman; narra a saga de uma família russa que atravessa as duas guerras mundiais, imigra para a América do Sul e cujos descendentes encontram seus jeitos e maneiras de renascer, tendo como alicerce o legado de coragem e resistência de seus antepassados. O livro começa com dois irmãos capturados pelo exército alemão durante a Primeira Guerra Mundial. Eles planejam fugir cientes de que qualquer falha representará a morte de ambos. Percorrem a pé mais de mil quilômetros para chegar à Lituânia, apenas alimentados por sonhos e a esperança de reunir a família. À mercê da passagem do tempo e dos acontecimentos históricos, esse clã se reencontra, se separa, aumenta e diminui no ritmo dos destinos de seus protagonistas: alguns empobrecem espiritualmente e colhem os frutos dessa escolha, outros persistem na busca da Felicidade. Como imigrantes, são obrigados ao exercício constante de alteridade, tendo de se adaptar aos novos povos e costumes. O livro é publicado pela editora Patuá.

A obra organizada pelos irmãos Grimm pela mão de Monteiro Lobato.

10 inesquecíveis histórias contadas pelos irmãos Grimm reúne contos traduzidos e adaptados por Monteiro Lobato. O livro integra a sequência de O livro de ouro dos contos de fadas, também organizado pelo pai da literatura infantil brasileira. As ilustrações são de Renato Moriconi, artista plástico paulista que já recebeu prêmios da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), o prêmio Jabuti (CBL) e o prêmio da Fundación Cuatrogatos. A edição é da editora Nova Fronteira.

Antologia reúne contos inéditos de Ray Bradbury.

Autor do clássico Fahrenheit 451, Ray Bradbury tinha quinze anos quando Hitler mandava queimar livros em praça pública, na Alemanha. Foi ali que ele percebeu que os livros que tanto amava estavam em perigo. Anos depois, este luto se transformou em uma ideia: escrever sobre uma sociedade em que os livros fossem proibidos, e os bombeiros, em vez de apagar o fogo, recebessem a missão de queimá-los. Prazer em queimar: histórias de Fahrenheit 451 é leitura obrigatória para os fãs da clássica distopia. Neste livro estão reunidos dezesseis contos: treze que foram escritos antes de Fahrenheit 451 e mais três histórias escritas depois. Observador sagaz dos tempos obscuros que sucederam a Segunda Guerra Mundial, Bradbury canalizava sua criatividade escrevendo contos críticos a tudo que via e sentia. Há contos sobre queima de livros, morte, liberdade, arte, policiamento nas ruas etc. O último desses contos chama-se “O bombeiro”. Publicado inicialmente em uma revista literária, este texto chamou a atenção de seu editor que, deslumbrado com a história, desafiou o jovem Bradbury a ampliá-lo, prometendo que aquele texto seria publicado como um romance se ele conseguisse dobrá-lo de tamanho. Bradbury trancou-se na biblioteca da universidade, alugou uma máquina de escrever e só saiu de lá quando conseguiu atender ao pedido de seu editor. Nascia, então, a ficção científica Fahrenheit 451. A tradução é de Bruno Mattos e Antonio Xerxenesky. O livro sai pela Biblioteca Azul, selo da Globo Livros.

Primeiro livro do poeta israelense Amir Or a ser publicado no Brasil.

Traduzido diretamente do hebraico e organizado pelo poeta e professor de literatura hebraica da USP Moacir Amâncio, A paisagem correta é o primeiro livro do poeta israelense Amir Or publicado no Brasil. Sua poesia contém diversas tendências, mas a ideia e a sensação da incompletude pontilham estes poemas na palavra e na cena que se articulam numa coisa só. Porque Amir posiciona-se como poeta na perspectiva de uma sofisticada e ousada imitação do Deus criador de Gênesis a partir do que a palavra se confunde com a coisa criada. Tradutor do grego clássico e conhecedor das religiões do espectro budista, incorpora-as ao universo da Criação hebraica num fluxo de renovação particular e geral. Seus versos ecoam também a literatura da Beat Generation junto com elementos gregos,orientais, cristãos e judaicos, numa síntese que vai da iconoclastia à graciosidade de suas imagens. O livro sai pela Relicário Edições.

A marca do editor, de Roberto Calasso.

Em uma época de nivelamento das categorias, de fácil acesso a uma suposta biblioteca universal digitalizada (de fato, fragmentária e caótica), o editor tende a ser visto como um intermediário desnecessário entre o escritor e o leitor. Em A marca do editor, Roberto Calasso rebate ponto a ponto esse e outros graves erros dos paladinos do imediatismo, da velocidade e do desempenho financeiro como categorias absolutas. Escorado em sua posição excepcional, na intersecção entre o grande editor — está à frente há muitos anos da mais prestigiosa casa editorial europeia, a Adelphi, uma referência internacional — e o escritor de enorme cultura e perspicácia crítica — escreveu livros já clássicos sobre Kafka, Baudelaire, Tiepolo e sobre a mitologia hindu — Calasso adota uma posição dura, comprometida e fundamentada por sua própria trajetória. Ao iluminar a figura dos grandes editores europeus e americanos do século XX, Calasso mostra a importância decisiva que editoras como Gallimard, Einaudi, Suhrkamp ou Farrar, Straus & Giroux tiveram na formação de um critério e de um público leitor, no ordenamento e na separação do essencial do supérfluo no que diz respeito à literatura. Calasso discorre sobre sua ideia da “edição como gênero literário”: um editor da estirpe à qual ele pertence é um caçador de “livros únicos”, é alguém que escreve, com os livros que publica, o melhor livro de todos: seu catálogo, que é ao mesmo tempo sua autobiografia. Contra a ideia daqueles que querem encarar a edição como uma indústria qualquer, este livro mostra, tanto com fineza quanto com contundência, a importância do editor que defende e cultiva sua marca. Sem a qual tudo se resume a uma única categoria: a do entretenimento fácil e o rápido esquecimento. É significativo o caminho que Calasso faz por sua própria memória, pelas grandes personalidades com as quais lidou, não somente do âmbito editorial, como também, claro, do literário; nesse aspecto, é insuperável o retrato traçado aqui, por exemplo, de Thomas Bernhard. A marca do editor é o relato de uma trajetória excepcional, de uma estirpe que formou nossa sensibilidade e nossa cultura, e que agora mais que nunca precisa de nosso reconhecimento. A tradução de A  marca do editor, publicada pela Editora Âyiné, é de Pedro Fonseca.

Nova edição de Contos inacabados, de J. R. R. Tolkien chega às livrarias brasileiras em julho.

Contos inacabados responde a muitas perguntas pendentes em O Hobbit, O Senhor dos Anéis e O Silmarillon. Os contos aqui reunidos e editados pelo filho do autor, Christopher Tolkien, formam parte dos nove volumes que compõem a mitologia da Terra-Média; são textos que vão desde os Dias Antigos da Terra-Média ao final da Guerra do Anel, dentre eles, um relato alternativo da lenda dos filhos de Húrin, uma descrição detalhada sobre a organização militar dos Cavaleiros de Rohan, além de um relato de Gandalf sobre como ele enviou os Anãos para o Bolsão, a única história que restou sobre as longas eras de Númenor antes de sua queda e tudo o que se conhece sobre temas como os Cinco Magos, os Palantíri ou a Lenda de Amroth. Cada texto traz anotações explicativas de Christopher Tolkien, um mapa de Númenor e diversas referências bibliográficas. A ilustração da capa (que também se repete num pôster para os primeiros exemplares) é do próprio escritor: data de 1927 e mostra Glaurung saindo em busca de Túrin e faz referência à lenda dos filhos de Húrin. A tradução é de Ronald Kyrmse e sai pela HarperCollins.

Depois de três livros de contos, Marco Severo chega à novela.

O cotidiano e seus entornos – suas mazelas, suas grandezas, seus personagens repletos de humor, medo, ternura, coragem – nada passa despercebido ao olhar perspicaz do autor, que observa a sociedade em sua ampla diversidade como se estivesse presente em cada canto, e deles pudesse extrair o essencial para narrar um pouco do que somos todos nós. Neste livro você vai conhecer Cacilda, uma mulher que nasceu para o amor – desesperadamente. Engolfada em situações-limite desde a infância, Cacilda passa a conhecer todos os tipos de meandros disfarçados de normalidade. Transitamos do universo dos livros para as ruas, bingos clandestinos, casas de massagem, igrejas neopetencostais – tudo isso em meio a fugas, assassinatos, amores perdidos e encontrados, e uma protagonista sem rédeas nem escrúpulos, e pronta para atingir seus objetivos numa busca frenética pela descoberta do sentimento que acredita lhe ter sido negado desde sempre e que precisa enraizar dentro de si. Um dos nomes inventados para o amor é uma história sobre caçar a si mesmo – sem se preocupar com o que vai encontrar – nem mesmo os tantos significados possíveis que pode ter a palavra amar. O livro é publicado pela Editora Moinhos.

A coletânea definitiva sobre um tema que inspirou e assombrou Charles Bukowski durante toda a vida: o álcool.

Nesta reveladora antologia de poesia e prosa, Charles Bukowski se debruça sobre o copo e a garrafa, trazendo ao leitor alguns de seus melhores e mais memoráveis textos. Um autoproclamado “velho safado”, Bukowski usava o álcool como musa e como combustível – uma relação conflituosa responsável por alguns dos seus momentos mais sombrios bem como por algumas de suas maiores alegrias e iluminações. Em Sobre bêbados e bebidas, o especialista em Bukowski Abel Debritto reúne os trabalhos mais profundos, engraçados e notáveis sobre seus tapas e beijos com o vício – um assunto que lhe permitia explorar algumas das questões mais prementes da vida. Por meio da bebida, Bukowski consegue ficar sozinho, estar com outras pessoas, ser poeta, amante e amigo, ainda que, muitas vezes, a um preço muito alto. Sobre bêbados e bebidas é um testamento poderoso sobre os prazeres e as misérias de uma vida inebriada, e uma janela para a alma de um dos mais adorados escritores norte-americanos de todos os tempos. A tradução da antologia é de Rodrigo Breunig e é publicada pela L&PM Editores.

REEDIÇÕES 

Nova edição de O amante, de Marguerite Duras.

Prêmio Goncourt em 1984, com mais de 2 milhões e meio de exemplares vendidos apenas na França, este romance autobiográfico acompanha a tumultuada história de amor entre uma jovem francesa e um rico comerciante chinês na Indochina pré-guerra. Com uma prosa intimista e certeira, Duras evoca a vida nas margens de Saigon nos últimos dias do império colonial da França e relembra não só sua experiência, mas também os relacionamentos que separaram sua família e que, prematuramente, gravaram em seu rosto as marcas implacáveis da maturidade. A tradução publicada pelo selo Tusquets é de Denise Bottmann (publicada pela extinta Cosac Naify) e conta com prefácio de Leyla Perrone-Moisés.

OS LIVROS POR VIR

Dois novos títulos de Audre Lorde ganham edição no Brasil no segundo semestre de 2020.

Ensaios, diário e poesia da Audre Lorde estarão disponíveis aos leitores brasileiros. A Ubu editora publicará Sou sua irmã e a Relicário Edições Unicórnia preta. O primeiro é uma reunião de textos da escritora produzidos depois do já conhecido nosso Irmã outsider e que inclui o ensaio “Um explodir de luz”' (A burst of light) publicado como um livro que expande as reflexões de “Cancer journals” origem do ensaio “Transformação do silêncio em linguagem e ação”. O segundo é um livro de poemas de 1978; esses escritos de Audre Lorde são de quando escreveu Irmã outsider e abrange um período aproximado entre 1975-83. As traduções são de Stephanie Borges.

OBITUÁRIO

Morreu a poeta Terêza Tenório.

Integrante da chamada Geração de 65 e considerada um dos seus pilares, Terêza Tenório nasceu a 30 de dezembro de 1949, no Recife. Suas primeiras incursões com a poesia foram apresentadas em jornais como o suplemento literário do Diário de Pernambuco e a estreia em livro veio em 1970 com Parábola. Depois deste, vieram títulos como O círculo e a pirâmide (1976), Mandala (1980), Poemaceso (1985), livro que lhe valeu o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), Corpo da terra (1994), Fábula do abismo (1999) e A casa dorme (2003). Sua obra foi reunida pela CEPE Editora em 2018. Terêza Tenório morreu a 7 de junho de 2020, no Recife.

DICAS DE LEITURA

Por esses dias, a Companhia das Letras divulgou no Twitter recomendações de leituras de alguns calhamaços da casa para esse longo período de necessário isolamento social. De fato, a pedida é boa. Os livros extensos exigem uma dedicação maior, mas quando mergulhamos neles, se tornam nossas melhores companhias porque situações, personagens e percursos findam por nos seguir em toda parte. E, pensando nessa ideia, decidimos utilizar este espaço para indicar três grandes livros ― no tamanho e na riqueza literária.

1. De amor e trevas, de Amós Oz. Muito da prolífica obra literária desse escritor israelense sempre favorito nas especulações para um Prêmio Nobel de Literatura está traduzido no Brasil. Não há muito, os livros que estavam esgotados foram reeditados em novo projeto editorial; este aqui recomendado é, talvez, o mais volumoso da obra de Oz. Mas, o longo itinerário é perfeitamente recompensador. Seguimos os volteios da memória de um escritor que na sua maturidade decide percorrer os muitos vãos da sua história, sobretudo, as raízes que o determinaram e o formaram. Entre o riso e o encanto, entre a lágrima e a dor e sempre com uma voz livre, limpa e erudita percorremos minuciosamente geografias, cheiros, cores, situações, sentimentos, sentidos sobre o passado, ora vistos com os olhos desse passado ora relidos com os olhos nele postos. Traduzido por Milton Lando, o livro está publicado como o restante da obra de Amós Oz pela Companhia das Letras.

2. Canadá, de Richard Ford. Enquanto a Editora Estação Liberdade trabalha na publicação de um próximo livro desse escritor, vale citá-lo nessa listinha. Situada nos 1960, a narrativa se desenvolve em torno de um crime, o assalto cometido pelos pais de Dell Parsons, o narrador, que mudaria para sempre os destinos seu e da irmã gêmea Berner. Logo essa ideia estrutura todo o romance que trata de acompanhar seu desenlace e seus efeitos incluindo a decisão de Dell não querer ficar sob a custódia do Estado e aceitando a ajuda de uma amiga da família, a senhorita Remlinger, cujo irmão, Arthur, mora no Canadá. O romance é, aliás uma leitura sobre as rápidas intervenções que destino induzido, nesse caso impõe aos autores de suas escolhas. Um exemplo: no Canadá, Dell se torna um dedicado professor e a irmã, ainda na terra natal, é arrastada para os seus últimos dias de vida, debilitada por um linfoma. A tradução é de Mauro Pinheiro.

3. Os miseráveis, de Victor Hugo. Dos três livros aqui citados, este é o mais extenso. A depender de qual critério se estabeleça para o que é um calhamaço e se considerar extensões a partir de livros com este, os dois primeiros não chegariam a figurar aqui. As três edições da extinta Cosac Naify são já relíquias de museu, mas o leitor encontra a mesma tradução de Ozam de Barros, editada pela histórica casa editorial pelo selo Penguin / Companhia. O romance considerado a grande obra da literatura desse importante nome da literatura francesa se desdobra em muitos: “é uma história de injustiça e heroísmo, mas também uma ode ao amor e também um panorama político e social da Paris do século XIX”. Aqui acompanhamos a trajetória de Jean Valjean, que ficou anos preso por roubar um pão para alimentar sua família e que sai da prisão determinado a deixar seu passado criminoso, claro, num ambiente em nada favorável para o andamento dessa possibilidade. A edição aqui recomendada reproduz, inclusive, o excelente texto de apresentação escrito pelo Renato Janine Ribeiro.

VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS

1. Uma entrevista inédita de Jorge Luis Borges a Mario Vargas Llosa. O registro foi filmado em junho de 1981 e ficou inédito até este ano quando o escritor peruano apresenta sua transcrição no novo livro publicado agora em língua espanhola, “Meio século com Borges” (em tradução livre). Vargas Llosa descreve um Borges que vive num simples apartamento do centro de Buenos Aires “acompanhado de uma empregada que lhe faz as vezes de guia, pois Borges perdeu a vista há anos, e de um gato batizado com o nome de Beppo porque, diz, assim se chamava o gato do poeta inglês que admira, Lord Byron”. A entrevista está reproduzida no caderno Babelia, do jornal espanhol El País

2. O dia 13 de junho é marcado pelo aniversário de Fernando Pessoa. Na web tem muita coisa maravilhosa sobre o poeta e sua obra: em 2010, foi publicada a biblioteca de Pessoa. Comentamos sobre aqui e, a partir da post, você tem o endereço para acessar ao projeto; outra ideia ótima é o Arquivo Pessoa, uma plataforma que reúne, com os critérios necessários de um escritor popular como Fernando Pessoa, a obra completa do poeta e de seus heterônimos. Está aqui

3. Na nossa galeria de vídeos no Facebook, o leitor encontra uma variedade de poemas do poeta Fernando Pessoa lidos e mesmo cantado (no caso de “Há uma música do povo”): há a belíssima leitura de Cleonice Berardinelli, “Furia na noite o vento”; um excerto de “Aniversário”, poema de Álvaro de Campos, lido por Mia Couto; Maria Betânia e a leitura de “Eros e Psique”, entre outros.

4. Uma das efemérides de 2020 é o centenário de nascimento do escritor Ray Bradbury. A imagem que ilustra este boletim, em destaque para a edição com textos inéditos agora publicada pela Biblioteca Azul / Globo Livros foi coletada neste site dedicado ao autor de Fahrenheit 451. Aqui estão reunidas informações sobre a vida, a obra, entrevistas, as previsões, as influências criativas em obras posteriores, fragmentos do seu universo fabular, enfim, um material de valia preciosa aos leitores e fãs.

BAÚ DE LETRAS

1. Ontem, dia 12 de junho, Dia dos Namorados, recordamos uma lista de leitura publicada em 2010 no blog. Se o amor evocado pela data está perto ou longe, a companhia de um livro é sempre fundamental.

2. No blog, ainda não existe um texto sobre De amor e trevas, algo que será resolvido muito em breve, mas há algumas matérias sobre Amós Oz: um perfil biográfico; e um depoimento de Mario Vargas Llosa sobre o escritor.

3. Caso o leitor se decida por ler Os miseráveis, de Victor Hugo noutra tradução e quer ter acesso ao texto de Renato Janine Ribeiro, “Um novo olhar”, ele está reproduzido aqui; e aqui, um resumo biográfico sobre o escritor francês. Em 2014, o leitor Lee Pontes escreveu para o Letras “A cruzada moral em Os miseráveis”; e, neste ano, Rafa Ireno começou a ler o grande romance recomendado na seção anterior.

4. E, sobre Canadá, de Richard Ford. Em 2016 traduzimos um texto de Javier Úbeda sobre o romance que pode ajudá-lo a saber melhor do romance ou acrescentar alguma visão ao seu olhar de leitor, no caso de já ter lido ou de encontrar este texto como posfácio ao romance do escritor estadunidense.

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