Byron, o eterno peregrino

Por Luis Castellvi Laukamp


Lord Byron. Théodore Géricault.


Dos poetas da segunda geração romântica inglesa (Keats, Shelley, Byron), Lord Byron foi o único que teve sucesso em vida. Celebrado nacional e internacionalmente, conhecido por sua exuberante vida amorosa, o poeta cultivou uma reputação de libertino. Foi, por assim dizer, o Mick Jagger do romantismo. Uma das amantes abandonadas por ele o descreveu como “mad, bad, and dangerous to know” (louco, malvado e perigoso de se conhecer). A frase ainda ressoa na Inglaterra, a tal ponto que uma peça sobre Byron na Abadia de Newstead (a ancestral mansão de sua família) é precisamente intitulada Dangerous to Know.
 
E foi cercado por vários escândalos (um ruidoso divórcio, rumores de incesto e bissexualidade) que Byron deixou a Inglaterra com sua reputação em xeque. Percy Bysshe Shelley fez o mesmo. Os dois se conheceram na Suíça em 1816, onde Mary Shelley escreveu Frankenstein. Eles se encontraram novamente em Veneza, quando Shelley visitou Byron em seu palácio no Grande Canal, no final do verão de 1818. Nos anos posteriores, eles também se veriam em Ravena e Pisa.
 
Byron e Shelley se relacionaram durante seis anos e trocaram meia centena cartas. A amizade deles nunca foi íntima, afinal cada um possuía profundas diferenças de gostos e temperamentos. A diferença de classe social tampouco ajudava: eles eram aristocratas, mas Shelley era de nascimento e fortuna muito inferiores. O muito que os unia era o entusiasmo pela literatura, as ideias, a política e a Itália. Admiravam-se literariamente, liam-se e encorajavam-se mutuamente. Uma amizade enriquecedora para os dois.
 
Em Veneza, Byron compartilhou com Shelley o início de seu Don Juan (1818-1824), e ele reconheceu como uma obra-prima. Apesar de sua extensão, o grande poema satírico ainda continua a ser lido com prazer. O melhor são os engenhosos dísticos com que encerra as estrofes: “Think you, if Laura had been Petrarch’s wife,/ He would have written sonnets all his life?” (Petrarca, fosse Laura a companheira,/ faria sonetos uma vida inteira?”).1
 
É provável que Byron também tenha compartilhado com o amigo Beppo (1817), seu poema veneziano sobre a mulher casada infiel cujo amante se torna amigo do marido. O desenlace nesse caso insinua um possível ménage à trois. Beppo, no entanto, é um poema relativamente curto (760 versos, poucos, se comparados aos 16.000 de Don Juan), divertido e irreverente, com esplêndidas descrições de Veneza. Embora o seu talento se manifeste sobretudo em longos poemas narrativos — tem se recobrado interesse por Mazeppa (1819), protagonizado por um herói nacional ucraniano arrastado por um cavalo — se ainda não leu Byron, comece por Beppo.
 
Talvez influenciado por essa obra, Shelley decidiu escrever um poema num estilo mais coloquial do que estava habituado. O resultado foi Julian e Maddalo: uma conversação, produzido logo após a visita veneziana a Byron.2 Os personagens do título são transcriações literárias de Shelley e Byron. O poema recria os seus passeios a cavalo pelo Lido, o amor por Veneza e as longas conversas apaixonadas até o raiar da aurora. O diálogo poético pode ser lido como uma troca entre duas vozes: uma de matriz shelleyana (Julián), otimista e esperançosa; outra byroniana (Maddalo), cética e niilista. Ou mesmo um debate interno de uma única voz poética. Porém, o aparecimento de um terceiro protagonista, um louco confinado no asilo de Veneza que os dois amigos visitam, complica estas leituras. Seu quebrado e fragmentado monólogo, que apresenta lampejos de lucidez como flashes intermitentes, questiona qualquer pretensão de comunicação ou eloquência.
 
Presenciando o desamparo cósmico do louco, que sequer possui um nome (o poema se refere a ele como “the Maniac”), os dois amigos ficam consternados. Então Shelley coloca os versos mais famosos do poema na boca de Maddalo:
 
Most wretched men
Are cradled into poetry by wrong,
They learn in suffering what they teach in song.
 
O expressado cinismo de Maddalo em passagens anteriores é amenizado pela sua empatia pelo sofrimento humano, entendido como intrínseco à criatividade poética. Em outro gesto de empatia, Maddalo fornecera livros, esculturas, instrumentos musicais e vasos com flores ao louco para humanizar seu quarto no manicômio. É clara a simpatia de Shelley pelo personagem inspirado em seu amigo, a quem ele também descreve como um “eagle spriti” (espírito de águia) pelas alturas que seu intelecto alcança.
 
Além do mais, o prólogo de Julian e Maddalo já oferecia um retrato positivo do personagem. Shelley adianta na primeira página que, ao comparar sua extraordinária mente com os pequenos intelectos que o cercam, Maddalo é tomado por uma intensa apreensão sobre “the nothingness of human life” (a inanidade da vida humana). Portanto, sua fraqueza é o orgulho. Mas Shelley não o culpa e até entende isso. O retrato termina com um elogio ao carisma de Maddalo, que é um grande conversador. De tanto viajar, a narração de suas aventuras por diversos países tem um encanto inefável. Byron e Shelley eram excelentes conversadores e cavaleiros. Passaram horas conversando a cavalo.
 
Julian e Maddalo é o poema de Shelley com mais referências a Byron, mas não é o único. Em Adonais (1821), uma elegia à morte de Keats que um jovem Mick Jagger recitaria no Hyde Park em memória de Brian Jones, Shelley descreveu seu amigo com uma frase que fez fortuna: “The Pilgrm of Eternity” (o peregrino da eternidade), isto é, alguém em contínuo movimento: não só no espaço, mas também no tempo. O verso dá título a um congresso internacional da Byron Society, em julho de 2024, em Mesolóngi, onde Byron morreu lutando pela independência grega. Além de ser um clássico do romantismo inglês, Byron é um herói nacional da Grécia.
 
Em homenagem, reproduzo os versos 55-67 de Julian e Maddalo, coincidindo com o bicentenário da morte de Byron e da publicação dos Posthumous Poems de Shelley organizada por Mary Shelley em 1824, onde aparece pela primeira vez — na entrada do livro — o poema em questão. Uma pintura intitulada Riders on a Beach (c. 1835), que J. M. W. Turner pintou a dois passos de uma praia enevoada ilustraria bem a seguinte cena, em que os protagonistas suspendem a cavalgada pelo Lido para admirar o céu refletido nas águas venezianas, como Byron e Shelley tantas vezes fizeram:
 
How beautiful is sunset, when the glow
Of Heaven descends upon a land like thee,
Thou Paradise of exiles, Italy!
Thy mountains, seas and vineyards and the towers
Of cities they encircle! It was ours
To stand on thee, beholding it: and then,
Just where we had dismounted, the Count’s men
Were waiting for us with the gondola. 
As those who pause on some delightful way
Though bent on pleasant pilgrimage, we stood
Looking upon the evening and the flood
Which lay between the city and the shore
Pav'd with the image of the sky…


Notas da tradução
1 O leitor tem disponível a tradução na íntegra deste poema realizada por Lucas de Lacerda Zaparolli na tese Don Juan de Lord Byron: tradução integral, comentários e notas (Usp, 2020). É dele a tradução dos dois versos aqui apresentada.
 
2 Uma das traduções brasileiras de Julian and Maddalo: A Conversation é a de Alberto Marsicano e John Milton, publicada pela Ateliê Editorial na antologia Sementes Aladas. Impossibilitados de acessar esta edição, deixamos no original as citações deste poema ao longo do texto. 


* Este texto é a tradução livre de “Byron, el peregrino eterno”, publicado aqui em Letras Libres.
 

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