O último telefonema de Cesare Pavese

Por Joaquín Pérez Azaústr

Cesare Pavese, 1945.


 
Quando o recepcionista do Hotel Roma em Turim chega à porta do quarto 346, para e olha para o diretor. Eles estão inquietos: desde o dia anterior, o estranho hóspede com um nariz proeminente em suas feições marcadas e um olhar evasivo sob os óculos não saiu. Ninguém veio perguntar sobre ele e ele não fez uma única chamada para a recepção. O diretor e o recepcionista sabem que esse acúmulo de silêncio pode ser o prelúdio do desastre: por isso decidiram subir. Olha-se entre si, enquanto o diretor dá um passo à frente e bate três vezes na porta.
 
Como ninguém atende, o recepcionista insere a chave mestra na fechadura. Os dois entram no quarto e são recebidos com relativa treva: o ar está carregado e as cortinas, completamente fechadas, filtram a luz já quente da manhã sobre o corpo de Cesare Pavese, caído na cama e bem-vestido, como preparado para sair à rua. No entanto, seus pés estão descalços: enquanto começam a sacudi-lo, procuram os sapatos com os olhos e os encontram bem colocados ao lado da mesa de cabeceira. Mas o corpo está rígido.
 
O suicídio de Cesare Pavese na manhã de 27 de agosto de 1950 já se tornou um lugar-comum na literatura do sacrifício. Teremos que entrar plenamente nesses olhos, que é abordar um mundo e sua literatura. Temos que olhar para o que está por baixo, ou fazê-lo como Pavese em seus poemas: interpretando a solidão do mito em sua dissociação do mundo real.
 
Escrevo em seus poemas, mas não esqueço que para Pavese — que nasceu em Santo Stefano Belbo em 1908 e que agora, quando o porteiro pega o telefone preto da Siemens fixado na parede para chamar uma ambulância, ainda não chegou aos 42 anos — sempre concebeu sua transição para a narrativa como uma continuidade nos assuntos que tratava e nos planos de existência, entre o totalmente corpóreo e o outro simbólico, a partir da poesia. Seu coloquialismo e a metáfora como história estão igualmente marcados em seu livro de poemas Trabalhar cansa (1936) ou em sua trilogia composta por O belo verão (1949, que recebeu o prêmio Strega), O diabo sobre as colinas (1948) e Mulheres sós (1948).
 
Poderíamos falar de seus ecos internos, o fundo amargo de festejo de veraneio que mal sustenta o sentido de sua representação, com personagens jovens condenados a se reconhecerem como meras comparsas em cena, entre uma promessa de doçura e a perseguição vital do selvagem , e relacioná-lo com poemas iniciais em que a vida se revela como um fascínio pela terra e pelo sangue, de entrega sensual às paixões nas festas saturninas com o bode abrindo o ventre às virgens na grama sob o torpor de agosto.
 
No entanto, nada disso está naquele quarto na noite anterior, quando Pavese é deixado sozinho e decide fazer quatro telefonemas. Sabe-se que ele chamou quatro mulheres e que a última era uma jovem dançarina de cabaré. Nenhuma delas atendeu o telefone, mas podemos imaginar que naquela noite, enquanto ele abria os tubos de pílulas para dormir, havia apenas um rosto em seus olhos: o da atriz estadunidense Constance Dowling, com quem teve um breve caso, que o havia abandonado. Porque há um abandono constante entre as mulheres e Pavese: quinze anos antes, em 1935, apaixonara-se por Battistina Pizardo, “a mulher de voz rouca”, que se aproveita de Pavese para o fazer receber em sua casa a correspondência de Altiero Spinalli, membro do Partido Comunista Italiano.
 
O favor é muito arriscado, com os esquadrões de Mussolini destruindo qualquer indício de resistência antifascista: não esqueçamos que em 1935, Pavese, que se formou com uma tese de doutorado sobre Walt Whitman, já trabalha na editora Einaudi, vigiado pela polícia. O jovem especialista em literatura estadunidense, que já traduziu Moby Dick para o italiano e também outras obras de William Faulkner e John Dos Passos, é detido e encarcerado, primeiro em Roma e depois em Brancaleone; mas não entrega ninguém.
 
A asma o libertará, mas antes enviou ao editor Carocci mais oito poemas para Trabalhar cansa, nos quais já estabelece os termos de sua renovação poética. Gabrielle D'Annunzio, Giovani Pascoli, Giacomo Leopardi com Baudelaire, ao fundo, o próprio Walt Whitman e Edgar Lee Masters acompanham sua reflexão sobre um simbolismo como uma história em andamento a partir do cotidiano, tocando suas costuras de estranheza e espanto ante a realidade. Na prisão de Brancaleone começou seu diário O ofício de viver — que só seria publicado em 1952, dois anos depois de sua morte —, no qual combina indagação poética e paixão existencial condenada ao castigo, em um erotismo austero descarnado que mal o sustenta no vazio de sua própria dureza.
 
Virá a morte e terá teus olhos
 
Virá a morte e terá teus olhos —
esta morte que nos escolta
de manhã e de noite, insone,
surda, como um velho remorso
ou um vício absurdo. Teus olhos
serão uma inútil palavra,
um grito calado, um silêncio.
Assim te surgem nas manhãs
quando em ti te dobras, sozinha,
no espelho. Ó, cara esperança,
nesse dia então saberemos
que és a vida e és o nada.

A todos a morte contempla.

Virá a morte e terá teus olhos.
Será como o corte de um vício,
como ver ressurgir aos poucos
no espelho um semblante morto,
como ouvir um lábio cerrado.
Desceremos mudos no abismo.¹
 
Ao sair da prisão, ele encontra Battistina Pizzardo casada com seu verdadeiro amor: o militante comunista Altiero Spinnali, por cujas cartas Pavese passou sua temporada no inferno. É seu segundo grande golpe vital: o primeiro, o mais marcante, porque certamente marcou toda a sua vida, é a morte do pai, devido a um tumor no cérebro, quando Cesare tinha apenas seis anos.
 
A Segunda Guerra Mundial viria, seu medo e mais desastres, a morte viria e ela teria os olhos de Constance Dowling, que havia sido amante de Elia Kazan e tinha uma beleza perturbadora e felina. A morte viria quando ele escreveu em seu diário em 10 de abril de 1936: “Sei que estou condenado, para sempre, a pensar em suicídio diante de qualquer inconveniência ou dor”. Dez anos depois de seu suicídio, seu amigo Italo Calvino escreveria: “Fala-se muito sobre Pavese à luz de seu gesto extremo, e muito pouco à luz da batalha vencida dia após dia contra seu próprio impulso autodestrutivo”.
 
Atualmente, neste outro tórrido verão de 2022 que também parece fadado ao fim, pode-se visitar o quarto 346 do hotel Roma. Ainda abriga uma cama de solteiro, e o telefone Siemens preto na parede ainda tem uma linha.

Notas da tradução:
1 A tradução do poema é a de Maurício Santana Dias, publicado no Caderno Mais da Folha de São Paulo em 27 de agosto de 2000.

* Este texto é a tradução livre de “La última llamada de Cesare Pavese”, publicado aqui, em El Cultural.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Boletim Letras 360º #498

Os nomes que fizeram o nome Saramago

Os mistérios de “Impressão, nascer do sol”, de Claude Monet

Boletim Letras 360º #496

“Nosso trabalho ao escrever é funcionar como um canal para que a literatura exista”. Entrevista a Enzo Maqueira

Boletim Letras 360º #495