Sappho

Por Eduardo Galeno


Pois nenhuma relação se forma se o pensamento não a produz.
— Simone Weil


Safo, 470 a.C.




Prescrever 

Na seção XV do Peri hypsous, de pseudo-Longino, se introduz, pelas citações que o acompanha, o juízo da aparição (phantasia). Ali ele apresenta as condições mínimas para o estabelecimento do que poderíamos chamar de “presença ausente”. Claro que, em outros termos, isso significaria um modo de traduzirmos o distanciamento no vão da percepção e do objeto. Ou: a estrutura residente na transferência entre a poesia e o evento. No caso, há a explicação, sob o exato da efusividade do crítico literário — para usarmos um anacronismo —, de toda uma esfera de se fazer sublime. Demonstrações espertas e fincadas, modelos delimitados (uma pitada de Eurípides, outra de Ésquilo), alguns reparos, algumas notações. O tratado escolheu esse tipo de polêmica por um simples motivo. Certamente, a astúcia do seu autor estava na tentativa de deslocar a mimesis, ou imitação, do âmbito racional ao técnico-passivo. O pathos, indo nesse sentido, objetiva a quebra da representação numa antirretórica. Não se assume, no entanto, que no texto longiniano haja um romantismo avant la lettre. Não há irracionalismo. Muito pelo contrário. A aquisição da técnica na teoria, efetivamente, só é sentida de maneira plena quando o arcabouço da própria alma se infiltra na disposição que está no âmbito da razão discursiva e dos sentidos. Aqui, vemos a tarefa de criar preceitos a um telos. Se a incerteza, de um lado, da pena de pseudo-Longino se atualiza por meio das inconclusões fragmentárias, de outro ela aponta justo para as concessões de autoridade (dado o retalho de deslizes entre figuras às vezes até opostas). Criado o ethos, cuja função determina falar pela comunidade a fim de que a verdade enunciada seja coletiva, se funda também a instituição: querendo ou não, a aparição é um arquétipo, ou seja, uma ideia fundamentada por dada origem que se complementa total ou parcialmente pelo conceito. Isso quer dizer que ele nomeia e legitima a própria palavra, o próprio texto. Marca as frases, de repente grandiosas, pontuando seu aspecto mais tácito (pois o maior sublime é silencioso), e aí então focaliza o seu pensamento na linguagem. Safo entra aqui na nossa visão de fato como eleita, fazedora, e ele mesmo a cita durante os capítulos. A primeira mulher, nas letras ocidentais, a ser maravilhosa. Nas palavras de Ovídio,

Sum breuis; at nomen quod terras impleat omnes
Est mihi; mensuram nominis ipsa fero.

[Sou pequena, porém meu renome abraça todas
as terras; está aí minha grandeza.] (trad. minha)

ela transluz pela habilidade. Porque iluminada pelo verso tal qual o grande teatro do mundo pelo Sol, a sua soberania incendiária e soberba apresenta, a quem lê os poemas, a memória do Grande, do Divino. É a esse leito que comentadores, como pseudo-Longino, querem chegar. Safo, sim, ela faz vermos outras hipóstases, eu diria, que a poesia, somente, maneja com tamanha exatidão.

Ver

No hábito estoico, os phantasmata representam o estado de chegada da phantasia, que é provada como afecção. Sendo meio, o phantaston produz a incidência da aparição conforme o processo do phantastikon é sublinhado. Daí resulta na quadratura especial do trabalho de sentido que a linha poética pode elencar. Pseudo-Longino, no entanto, parece incluir a diferença existente entre o logos dos retores e a irrazão dos poetas, tendo mais ou menos a influência platônica sobre o significado do último. Levamos a crer na discrepância do discurso da poesia do resto da linguagem. 

Retoricamente falando, na Grécia arcaica o papel que uma Safo tinha era a de conseguir completar o seu argumento pela extimidade patética. Em outras palavras, a sua mélica — a poesia comum da ilha de Lesbos do século VI a.C. — nutria, na forma extremada, o motivo do êxtase, do sair fora de si. Importante frisar que ela mesma viveu um pouco antes de Platão, isto é, na passagem do mito à explicação racional. Podendo dizer que, em Safo, ainda temos sutilezas não vistas em outros autores, inclusive no teatro grego que também emerge alguns pares de décadas anteriores à lira cantante, à oralidade dos lésbios. Porém, assim como na bifurcação tragédia/comédia no drama, a proposta da lírica de Safo vai ser potentada na adequação (no geral, os topoi). Post festum, pseudo-Longino fez bons usos da nomenclatura do estoicismo. O único afastamento radical é que a aparição longiniana é imagem da imagem. A adequação do phantasma, desse modo, sempre retumba a matéria da alucinação.

Vejamos o fragmento 13: 

] em sonho <contigo> eu falei, Kyproghênia

Daqui, na fala de Safo, é introjetado o onírico. O sonho é visto apenas por ela e, no vocativo que chama por outrem (epíteto de Afrodite), é mostrado no outro momento (movimento). Reparem no duplo: quando fala, fala rapidamente com o outro. É um tipo de conversa que se baseia numa visão e logo intercala. Uma das principais características da poética antiga era o fato do sujeito ser passivo. Nela, em hipótese alguma a relação é autofágica. No 77:

[sou pequena
para alcançar o céu com as mãos]

A ligação (vinculum) é referida de novo. Agora não mais com uma mulher-tipo, mas com o cosmos. É óbvio que não sabemos o contexto do fragmento. Mas o mais útil é a certeza da troca da sua baixa estatura — que Ovídio cita acima e ela confirma — e do infinito celestial, quase afirmando a negação sob um modo distinto (“não posso alcançar o céu com as mãos, mas posso com a poesia”). O requisito básico para o fenômeno é a contemplação absolutamente querida pela derrisão “subjetiva”. O conteúdo assim postulado chega ao encontro do que pseudo-Longino reuniu na poesia de aparição: o choque. O choque é a causa tanto do desaparecimento afetivo de quem enuncia quanto da recepção de quem ouve. Enquanto no fragmento 13 o vínculo está diante da natureza humana (embora mediada pelo panteão grego), no 77 a linguagem se impregna do Um. O ponto de contato, o elo, veremos na fantasia tal como ela é: ambas não viram in factis nem o sonho nem o céu. Isso prova a assiduidade do verbo. A plasticidade da língua na poesia, enquanto segura o real, mistura essa coisa estranha que sobrevém ao âmago do falante. A consciência está, então, parada nessa esteira dos objetos. Da mão que quer pegar as constelações ao onirismo apaixonado, o avanço é progressivo. Ela se basta.

Eis o terceiro fragmento que expresso:

[Eros] dociamargo
[Eros] que atormenta
[Eros] tecelão de mitos

O oxímoro eroteológico sáfico deixa subentendido que, igual a Fedra de Eurípides com Afrodite, há necessidade de desvelar um atributo que não é dela. Eros amargo e doce, ela agro e suave. O deus que atormenta e tece — que abala e escreve — possui os caracteres que ela outorgou ao ser poeta. Eu diria que o fosso conceitual de Longino a um Aristóteles e outros mora na ideia de possessão. A geração só é se for pelo sopro (pneuma) da vocação, cujo nervo é, por escolha, o emulador e, por consequência natural, recipiente. Vem cá: olhe, diz a voz de Safo, comprometida não só consigo, com seu pensamento, contudo também com os nossos ouvidos.

Nas três aparições descritas, a vaga das figuras é ocupada (exemplos: a prosopopeia na 13 e na 77 a suposta metalepse, além do paradoxismo no último). Impulsa a citar as minúcias que pseudo-Longino trouxe (por que não cria?), refletindo na síntese de Safo.

Através de pseudo-Longino, vejo Safo. Imagem construída por outra imagem.

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